quinta-feira, 13 de maio de 2010

32601 até 32650

32601

Arranco do peito
Amor que mentira
E tanto sem mira
O sonho desfeito
Pudesse no leito
E ainda prefira
Enquanto retira
De mim todo o pleito
Cerzindo em momento
O que tanto alento
Vencer dor e tédio
Assim sendo a vida
Em outra vivida
Toando este assédio.

32602

Verdade tão clara
Não posso mais crer
No quanto o poder
Em luz se declara
A sorte se amara
Não quero viver
E tanto a se ter
Se assim desampara,
Erguendo este olhar
Além do horizonte
Aonde desponte
Um raro luar,
Beber desta fonte
E saber amar...

32603

Vital sentimento
Aonde não via
Nem mesmo alegria
Sequer um alento
E quando inda tento
Em tal poesia
Viver alegria
Matar sofrimento,
Eu bebo da sorte
Que ainda conforte
E traço outra luz
E nela o degredo,
Distante segredo,
Ao qual já me opus.

32604

Depois do que vem
A tarde em tristeza
Imensa beleza
Do amor, raro bem,
E nele contém
Além da destreza
Já toda a certeza
Do muito que tem,
Sentir a promessa
E nela começa
A vida tranquila
Refém de um passado,
Agora mudado,
Na paz que desfila.

32605

As cinzas do sonho
Depois de perdido
Há tanto vencido
Fatal e bisonho,
E quando reponho
No amor o sentido,
Altar soerguido
Num ar mais risonho,
Percebo talvez
O quanto não vês
Do tanto que somos,
Assim se mostrara
A vida tão rara
Em diversos tomos.


32606


Sonhando com versos
Bebendo esta luz
E nela produz
Em rumos diversos
Tocando universos
O amor que conduz
E sendo sem cruz
Nem tons mais perversos
Eu quero e repito
No quanto é bonito
Viver este brilho,
Deixando a promessa
A vida começa
No amor que palmilho.


32607

Viver pensamentos
E neles singrar
Além deste mar
Diversos tormentos
Sabendo dos ventos
E quando ancorar
Porquanto tomar
Sobejos momentos
A vida redime
Do amor e do crime
Não deixa sinais,
E quando se vê
Talvez sem por que
Outros vendavais...


32608

Qual fosse oração
O verso que faço
Buscando este laço
E nele o verão
Ainda virão
Após o cansaço
Momentos que traço
Em tal devoção
Perfeita beleza
Na qual a leveza
Moldada em ternura
Traçando em cuidados
Mudando meus fados,
No amor que me cura.


32609

Podendo seguir
O quanto desejo
E sempre prevejo
Um raro porvir
Depois de impedir
Da dor o lampejo
E tanto latejo
Tento redimir
Bebendo esta fonte
Que há tanto se aponte
Mudando o cenário.
Amar é preciso,
Viver paraíso
Mais que necessário...


32610


Não quero ser nada
Nem mesmo vazio
E assim desafio,
A força calada
Duma alma traçada
No olhar mais sombrio,
E sigo este rio
Na foz declarada
Em mar tão imenso
Em ti quando eu penso
Libertando uma alma
Após a senzala
A voz não se cala,
Somente se acalma.

32611

Os fins de toda terra, possessão
Tomados pelas ânsias mais terríveis
E assim além dos sonhos implausíveis
Momentos mais diversos mostrarão
A quem procura apenas pela paz
A solução de todos os problemas,
Portanto quando em Deus mais nada temas,
No amor que em liberdade perdão traz
Assim ao se mostrar remodelada
A vida feita em dor, terrores, medos
Sabendo dos caminhos e segredos
Vivendo a mansidão da imensa estrada
Na qual e pela qual se chega ao Pai
No amor cuja verdade não se trai.

32612

Darei a ti herdade preciosa
Do amor que nos liberta e traz em si
Incomparável força aonde eu vi
Sublime emanação, sobeja rosa,
A estrada se aproxima do final
E em ti renascerá em plenitude
Se ausente dos meus dias, juventude,
No amor renovação fundamental,
Assim ao perceber o quanto esvai
Na dura solidão meu dia a dia,
Ainda que decerto enfim, sabia
Caminho que nos leve ao mesmo Pai
Arcando com os erros hoje eu posso
Falar do imenso amor, que é meu e nosso.

32613


Pelo Pai: Tu és filho meu gerado;
E sendo assim de todos, preferido
O quanto deste amor se faz sentido
E dele novo tempo desenhado,
Perpetuando a glória de saber
Intensa maravilha feita em luz
E quando esta beleza nos conduz
Aos mais sublimes ermos do prazer,
Vencendo os meus enganos, posso ainda
Saber da solução no amor a Ti,
A quem por toda a vida em paz servi,
Presença abençoada e tão bem vinda
Por ser Teu filho e crer na eternidade,
Concebo-Te Senhor, Amor, Verdade.

32614

Proclamarei decreto dito a mim
Porquanto possa ser irmão e filho
Ainda há tanto tempo quando eu trilho
Revolvo cada passo de onde vim,
E assim quando deveras sei do encanto
E nele toda a flama dominando
Aonde a imensa dor em contrabando
Esvai-se na medida em que me encanto
Senhor dos meus anseios e querências
Vibrando dentro em mim amor intenso
E quando desta luz eu me convenço
Sentindo tal furor, em eloqüências
Diversas Tu proclamas, venha e chama-me
Tomando o dia a dia em fogo. Inflama-me!


32615

E no furor, os turbará, enfim
Tomando com ternura em fogo e glória
Mudando assim as cenas e a vitória
Chegando mansamente dentro em mim,
Vestindo de emoção um verso em prece
Momentos mais tranqüilos se verão
E amar é como fosse uma oração
Na qual eternidade já se tece,
Vencer os descaminhos e saber
A direção da vida após a vida
A cada novo tempo em despedida
Promete-se um real amanhecer,
Negando os desenganos de outros dias
No amor em plena paz, transformarias.


32616

Então lhes falará, com ira e fúria
Quem tanto se fizera pacifista
E quando alguma incúria já se avista
Não adianta lágrima ou lamúria,
Assim ao se mostrar em plenitude
A mesma mão que afaga com ternura
Usando desta vara que tortura
No amor aonde em ódio se transmude.
Condena-se ao flagelo quem se dá
Às ânsias sorrateiras e ferozes,
Gerando com terror próprios algozes
Mudando a sua história desde já
E assim do amor eterno se faz a ira
No quanto em tempestade se interfira.

32617

O Senhor zombará desses gentios
Que tanto proliferam ódio e guerra
Aonde toda a sorte não descerra
A porta em dias vagos e sombrios,
O amor que em amor gera o pleno amor
Sem ter sequer medida, mostra além
Do quanto em própria luz o amor contém
E vence qualquer fúria ou dissabor
Liberte o coração e siga em frente
Sem ter no olhar as sombras do passado,
Viver novo presente afigurado
No amor que em novo amor se represente
Eternamente assim verás a glória
Aonde se proclame esta vitória.


32618

Dos nós em vagas cordas se virá
A ausência do que possa conceber
Na imensidão do amor, raro prazer
E assim o sol jamais rebrilhará
Na cena aonde tudo poderia
Tramar diversidade em plenitude
E quando se transcorra em paz e mude
A direção dos ventos veja o dia
Nascendo com um brilho incontestável
E tantas vezes mostre esta alvorada
A vida noutro tempo saciada
Vencendo qualquer ódio demonstrável,
No quanto amor, perdão, diz liberdade
A glória do Senhor, em paz invade.

32619

Rompamos ataduras, sacudamos
Os arvoredos neste duro outono
E quando procurando algum abono
Vislumbro renascendo enfim os ramos
E deles novas folhas, primavera
A sorte se refaz incrivelmente
Na eterna juventude nossa mente
Com toda sapiência se tempera
E tendo esta certeza renovando
O rumo outrora frágil, terminal,
O amor nos dominando em novo astral
Tornando o mais feroz, agora brando.
Restando apenas crer na eternidade
Que a cada reviver mais alto brade.


32620

Se contra quem ungido em paz se luta
E tenta destruir o que se fez
Além do pleno amor, da insensatez
Com fúria sem igual feroz e bruta
Não creia ser possível derrotá-lo
Porquanto ao fim de tudo vencerá
O amor a tempestade que trará
Momento tão diverso, mesmo talo
Assim a discordância mostra o quanto
Do todo se transforma meramente
Aonde novo tempo se apresente
Cobrindo com ternura, raro manto,
A dita quando em luz e libertária
Suplanta qualquer treva temerária...


32621

Os reis da terra se erguem contra quem
Disseminando apenas amor traz
Nos olhos a ternura, amena paz
E sabe da alegria que convém
Vibrando em consonância com quem ama
E tantas vezes mostra a face clara
Aonde toda a sorte se prepara
Tornando mais durável qualquer chama,
Levando ao mais sublime caminhar
E quando a noite chega – inevitável-
O amor tornando o solo enfim arável
Transforma toda a vida e vem mostrar
A senda maviosa feita em sorte
Por onde não se vê final ou morte.


32622

Os povos imaginam coisas vãs
Aonde poderiam ter certezas
E sendo tão vitais as correntezas
Gerando com vigor novas manhãs
Assim ao se mostrar a vida em face
Real e sem disfarces, vejo apenas
As sensações diversas e serenas
Por onde todo o amor supere o impasse,
Realçam-se caminhos reluzentes
Mergulho em tal seara e me aproximo
Porquanto no caminho, medo e limo,
Na queda em que decerto já pressentes
Por mais que movediço, traz vitória
Mudando plenamente a nossa história.


32623

Aonde em tais motins se mostraria
A face escusa e torpe do não ser
Pudesse tão somente reviver
O amor em plena luz farta alegria,
Vencer os meus temores e me dar
Sem tréguas e defesas ser assim,
E tendo esta certeza dentro em mim
Sabendo finalmente o intenso amar,
Não vejo outro caminho senão este
E nele toda a sorte em flórea senda
Aonde cada luz se reacenda
No amor que tanto deste e recebeste.
Viver essa emoção é ter nas mãos
Da eterna caminhada, os nobres grãos.

32624

Minhas noites perdidas, tanta mácula
Deixada em minha pele, cicatriz,
Vergasta que a verdade não desdiz
Solar clarividência, rara fácula,
Alheio a qualquer dor eu perpetuo
Em mim o amor intenso que recebo,
E quando noutro rumo me percebo
O que era solitário se fez duo.
E tendo esta certeza de um momento
Em paz quanta ternura se apresente
O amor se corriqueiro e mais freqüente
Traçando com candura o brilho e alento
Expressa a realidade de quem trama
A eternidade além da vida (chama).

32625

Sem te ter, perderei meu rumo, sol
E sendo a caminhada mais tranquila
A quem em tanta luz sempre desfila
O rumo se tomando no arrebol,
Restando pouca coisa a se mostrar
Senão a velha estrada costumeira,
Aonde tanta glória já se inteira
Moldando o mais sublime a desenhar
Jamais desprezaria a imensidade
Do amor além de tudo, etéreo e raro,
E quando com ternura me declaro
Encontro-me decerto em divindade
Risonha luz se emana nos meus olhos,
Colhendo da esperança tantos molhos.

32626


Na tua trilha eu sigo; meu farol
É feito desta forte fluorescência
Na qual com toda a sorte e paciência
Desvendo meu caminho e rumo em prol,
São claros os desvios e decerto
O tempo não traduz o que se quer,
Ainda mesmo assim o que vier
Encontrará meu peito sempre aberto,
E tento discernir melhor seara
Por onde prosseguir sem ter no olhar
O medo que pressinto a dominar
Enquanto a realidade se declara,
Fugazes dias moldam solidões
E nelas outras tantas- tola- expões.

32627

Do teu brilho estrelar, porquanto em tramas
Diversas imagino o quanto pude
Vivenciar tardia juventude
No amor onde com força tu proclamas
Assisto aos meus anseios e os ancoro
No tempo além do tempo, eternamente
E assim ao se mostrar tão terna mente
Com todos os desejos corroboro
E embebo-me da glória de sentir
Emanações sublimes que há em ti
E tanto quanto outrora me perdi
Encontrarei enfim raro elixir
No pendular caminho rumo ao fim,
Cevando, cuidadoso, este jardim.


32628



Despeço-me com calma e sem anseios
Vibrando com ternura em luz perfeita
E quando noutro tanto amor se enfeita
Mostrando delicados, raros seios,
Adentro tempestades, sei dos veios
A sorte mesmo inglória já se aceita
E toda a madrugada se deleita
Nas velhas investidas sem rodeios,
Resisto por saber do cadafalso
Masmorras costumeiras, cada falso
Caminho no passado diz ausência
E assim ao se mostrar com ares mansos
Buscando nos teus ermos meus remansos
Supero qualquer ou inclemência.

32629

Vivi profundamente meu desejo
Sem perguntar sequer se havia chance
De ter esta alegria ao meu alcance
E quando novo tempo em ti prevejo
Almejo tão somente acreditar
No amor que nada pode traduzir
Senão a própria sorte e no porvir
Renovação em vida irá moldar,
Gerando dentro em nós a eterna luz
E dela nova mente se mostrando
Já não comportaria mais nefando
O quanto ao vago tempo se reduz
O passo caminhando em luz diversa
Ao qual o meu anseio já não versa.

32630

Valeram enfim todos meus martírios
As sortes se mostraram convincentes
E quando dos meus olhos mesmo ausentes
Já não comportariam vãos delírios
Exemplando o caminho em luz suave
Porquanto a vida trama a mansidão
Encontro finalmente a dimensão
Sem ter nada deveras que inda agrave
O passo rumo ao quanto e nada vejo
Semeio dentro em nós a liberdade
E quando se procura a intensidade
Maior que simplesmente algum lampejo,
Eu sinto-te por perto e me ilumino,
No amor puro e real, diamantino...

32631

Amei-te... Foi demais, e foi tão lindo...
Perpetuando um sonho em ar supremo
E quando neste tanto não mais temo
Sequer o meu final, num mundo findo,
Resumo o meu caminho nesta sorte
E bebo cada gota sem sentir
O medo que pudesse ainda vir
E tendo esta certeza que conforte,
Aporto neste tanto aonde herdei
Cenário abençoado e mais feliz,
Jorrando em minha pele nada diz
Da dor insuportável, velha grei.
Renova-se esperança e decerto
O rumo se apresenta agora aberto.


32632

Cobertos estarão por belos lírios
Os campos onde vejo o meu futuro
Bebendo deste sonho eu te asseguro
Não quero a solução de mortes, círios,
Jamais me imaginara renascido
Depois de tantas noites degradantes
E vejo em teus olhares por instantes
A vida renovando algum sentido,
Especulando apenas no passado
Agora se apresenta realmente
E todo novo enredo se apresente
Traçando o caminhar e lado a lado
Seguindo a imensidade deste amor
Eu vejo com ternura um raro albor.

32633

Teu corpo, nossos corpos, noite afora
Assim um Quasimodo, uma Esmeralda
Amor quando em amor o amor desfralda
E tanto brilho agora nos decora
Permite esta existência após a morte
E tento disfarçar o quanto anseio
Vivendo tão somente eu já rodeio
O fim aonde além amor transporte,
E sendo tão factível pensamento,
No porto anunciado em plena vida,
Porquanto se encontrasse uma saída
Deixando para trás dor e tormento,
Vibrando de emoção, eu te encontrei
Tardio renascer dourando a grei.

32634


A morte acaricia meus delírios
E molda a redenção depois de tanto
Caminho aonde apenas medo e pranto
Gerara após saber fartos martírios
Revivo cada instante e sinto enfim
A próxima manhã que não virá,
E tendo esta certeza moldará
Seara bem diversa dentro em mim,
Atrocidade em vida? Nunca mais.
Apascentando assim terríveis dores,
Delas indefectíveis dissabores
Aonde quis em cores magistrais,
Mas tudo tem seu tempo e o meu se esvai,
Enquanto no horizonte a noite cai.


32635

Meus últimos segundos esvaindo
As sombras de uma frágil ilusão
E sei que novos dias mostrarão
Cenário aonde outrora quis mais lindo
Em face tão diversa e pervertida
Restando a quem navega algum naufrágio,
A dor se fez apenas o pedágio
Cobrado com tal ágio pela vida
E sendo tão comuns decerto ardis
E neles eu redimo cada engodo,
Mostrando apenas charco lama e lodo
Negando o que deveras bem mais quis,
Extinta luz matando o que soubera
Da antiga e tão distante primavera.


32636

As dores que senti se foram. Várias
Manhãs já demonstraram outro dia
Aonde tão somente a poesia
Vencendo as velhas chagas procelárias
Arcando com meus trapos nada mais
Encontro emoldurando este cenário
O amor por ser incerto e necessário
Sujeito à tempestade, vendavais,
Não deixa sobrar nada aonde toca
E arrebentando assim qualquer comporta
Abrindo e transbordando quando aporta
Qual fora onda terrível sobre a roca,
Medonha e fascinante formidável
Figura além do outrora imaginável.


32637

As mortes que refiz são libertárias
E sei que na verdade ao ver inerme
Imagem traduzida em mero verme
E nela cenas claras temporárias
Vendidas como fossem tão perfeitas
Embora na verdade sei que são
Conforme o que se pense em perfeição
Diverso desta face aonde aceitas
Os brilhos mais disformes traduzindo
O quanto não pudesse ser diverso
E sei do quão factível universo
Mesmo quando se mostra assim infindo
Resumo em poucos versos o que penso
Da tal frugalidade em céu imenso.

32638


Consigo distinguir lá: Satanás
Olhando para mim em claro espelho
E quando no vazio me aconselho
Figura discordante tu me traz,
Ascendo ao mais perfeito caminhar
Entre montanhas raras, cordilheiras
Palavras mais sublimes, corriqueiras
E nelas aprendendo a mais amar,
Perpétua face em tal farpa se erguendo
Emoldurando a vida noutra forma
E quando a realidade se deforma
O sonho se mostrara mero adendo,
Adentro dissonantes brilhos quando
Percebo o mundo inteiro transformando.

32639

As horas que se passam, tudo espreito
E tento reviver velha esperança
Enquanto o passo a passo não descansa
Deixando para trás o que era leito,
Reacendendo em mim a frágua aonde
Da simples labareda surge incêndio
E tendo a cada ausência o vilipêndio
Concebo aonde a sorte já se esconde,
Fugazes dias moldam o futuro
De quem se fez ausente mesmo agora,
E quando a fantasia não aflora
Eu vejo o mesmo tempo amargo e escuro
Renova-se a alegria? Vez em quando...
Porém quisera um mundo bem mais brando...


32640


Não quero mais saber se sou capaz
De ter além do olhar desconfiado
Dos sonhos e terrores, meu legado
E nele sonegada qualquer paz,
Restando ao menos ver outro momento
Aonde poderia ser disperso
O mundo para o qual somente verso
E bebo da ternura e me alimento
Do encanto mesmo quando se é fatal
O resto do que ainda guardo em mim,
Vivendo e caminhando ora sem fim,
Pensando novamente noutro astral
No qual eu poderia perceber
A vida renovando este prazer...

32641

Olhando pro teu corpo no meu leito,
Desnuda maravilha se mostrando
E sinto meu amor deveras quando
O tanto que propões eu sempre aceito,
E vivo sem perguntas, tão somente
A vida se transforma enquanto toma
E bebe com ternura cada soma
Gerando novo tempo, outra semente
Seara maviosa onde perfilo
O amor sem ter limites, por viver,
E dele cada dia perceber
O quanto se caminha sem vacilo
Vencendo os temporais, isso é comum
Dos corpos que se fazem somente um.

32642
A cabeça rodando vem a paz
E torno a caminhar em rara luz
E assim enquanto amor me reconduz
Ao rumo preferido, pois audaz,
O quanto deste sonho satisfaz
Quem sabe condenado à vera cruz
E segue mesmo quando em contraluz
Vencendo a solidão dura e mordaz.
Restando ao meu olhar o teu olhar
Reflexo de outro tempo a nos tomar
Entorna-se deveras o divino
Caminho pelo qual eu me alucino.

32643

Veneno que bebi já faz efeito,
Tomando o dia a dia e destruindo
O quanto do passado fora lindo
E agora se mostrando assim desfeito
Gestando a impaciência e o medo apenas
Aonde poderia ser sublime
E tanto do prazer já não se estime
E mude com certeza velhas cenas,
Resisto, mas bem sei quanto intragável
O mundo sem amor, nada valia,
Tentando reviver a fantasia
E nela outro caminho demonstrável
Vencer os meus anseios e viver
Depois de finalmente perecer.

32644

A vingança será mais que perfeita
Se é feita sem rodeios, claramente
Expondo o que deveras já se sente
E neste sofrimento se deleita
Quem tanto percebera ser cruel
O fato de viver e não singrar
Ainda que diverso e belo mar
Vagando sem destino sempre ao léu,
Riscando qual cometa céu em luzes
Dispersas pelas quais nada veria,
Assim se perfilando esta agonia
À qual sem perceber tu me conduzes,
Vestindo a velha roupa do passado,
O amor noutro caminho demonstrado.


32645

Não sinta-se feliz nem satisfeita
Por teres destroçado o quanto havia
Em mim de mansidão em alegria
E agora imagem resta contrafeita,
Bebendo desta torpe insanidade
Vestindo esta feroz intolerância
Não posso mais viver tal discrepância
E busco finalmente uma unidade
E tendo meu olhar em trevas, dores.
Recebo com ternura cada tapa
E a morte dos meus olhos não escapa
Semeio com prazer temíveis flores,
Mortalha que me deste de presente
Aos poucos se tecendo, calmamente...

32646

Abismos onde houvesse claridades
Gerando em solilóquio solidão
Resisto à mais completa percepção
E dela tantas dores quando invades
E bebes cada gota do meu sangue
Apodrecida imagem traduzida
Aonde não houvera mais a vida
E apenas restaria o podre e o mangue
Levado ao fim dos sonhos pelas mãos
De quem se fez ingrata e a penitência
Matando com terror, pura inclemência
Deixando os dias turvos, negros, vãos.
Melancolia doma este cenário
Num brilho ensandecido incendiário.

32647


Nos mares caçarei, ‘té nos profundos
Momentos entre abismos que concebo
E quanto mais audaz passo eu percebo
Os dias com terrores, vagabundos,
Mesquinharia quanto mais audaz
Não deixa qualquer sombra da verdade
E tanto quanto ainda em vão degrade
Novo caminho nunca satisfaz,
A faca se afiando em minha pele
Na furiosa face em que se vê
O mundo aonde tanto ou sem por que
À morte cada ausência mais compele
E bebo insanamente o desafio
Aonde o Dia a dia em vão desfio.

32648

Mataste, bem cruel, felicidades
E sabes muito além deste saveiro
Aonde a cada ausência em que me esgueiro
Percebo tantas luas e me invades
Tocando com terror, tenazes dedos
Matando o que pudesse haver enfim
E chegando ao final bem sei que vim
Sangrando cada dor, velhos degredos,
Restando apenas ter esta incerteza
E dela não sentir outro momento
E bebo este terror, sabor do vento
Levado pela imensa correnteza,
Atrocidades sei até de cor,
Porém o mundo fora bem pior.


32649

Irei te perseguir por tantos mundos,
Demonizando os passos onde fores
Gestando em teus caminhos dissabores
Em pélagos terríveis e profundos,
Não resistindo mais às tentações
E nelas bebo o sangue calmamente
Enquanto na verdade se apresente
Diversas, insondáveis emoções
Medíocres dias tomam nossa vida
E quanto mais feroz o torpe cenho,
Maior a turbulência que contenho
Preparo a cada ausência a despedida
Mordacidade toma o dia a dia
Aonde novo tempo poderia...

32650

Não quero reviver tais leviandades,
Que são as marcas onde entranhas unhas
E tanto quanto podes decompunhas
Gerando aos quatro ventos tempestades,
Assim no mais perfeito caminhar
Apenas o que vejo mero esquife
Até quando afinal já se espatife
O todo noutro canto a se mostrar,
Vestido pela angústia nada resta
Somente a claridade de um momento
E nela novamente me atormento,
Sabendo ser somente leve fresta.
Resisto e até procuro novo templo,
Porém a morte em vida é o que contemplo.

32551 até 32600

32551

A manhã me trazendo raios belos
Esboça dentro em mim a reação
De quem se fez inverno e negação
Matando desde sempre os meus castelos
E ainda posso ver amanhecendo
Embora do passado se revele
O quanto deste todo ainda atrele
O medo que deveras já desvendo,
Descreio no que tange eternidade,
Mas sei deste momento mais feliz,
E tanto quando a vida já desdiz
Bebendo cada gota, o sonho invade
E trama novamente após o medo
Um dia incomparável desde cedo.

32552


Em seus raios maiores, sensação
De um tempo em que possa renascer
Depois de tantos anos, padecer
Quem sabe noutro tempo a solução
A morte se aproxima e toma a cena
E dela se mostrara cada instante
Ainda noutra face o degradante
Caminho que a mortalha cedo acena
Restando quem me dera esta esperança
E ser diverso quando poderia
No tanto feito em dor e hipocrisia
A vida no vazio agora lança
A espada aonde a fonte se consagre
E mostre o reviver, raro milagre.

32553

Abelha fecundando belas flores
Trazendo em suas asas, primavera
O pólen da esperança regenera
Porquanto se mostrando em outras cores
Matizes que se moldem num encanto
E tento em desafio ainda ver
Distante dos meus olhos, bem querer
E assim inutilmente ainda canto,
Atormentado e mesmo insano eu creio
Na fonte dos prazeres, juventude,
E quando a realidade já transmude
Traçando com terror duro receio,
Mesquinhos dias logo mostrarão
Ausência nos meus olhos, do verão...

32554



Na eterna primavera o coração
Transcende a quem se fez em luz suave
Porquanto cada tempo ainda agrave
Mudando vez em quando esta estação
Realço este percalço costumeiro
No tanto que pudera acreditar
Gestando dentro em mim cada pomar
Moldando com ternura este canteiro
Gerindo com amor o quanto posso
Viver além da minha mocidade
E quando o sonho entorna e assim invade
A cada verso enfim eu me remoço
E sei do etéreo canto em que mergulho
Deixando para trás o ledo orgulho.


32555

A manhã, companheira dos amores,
Expressa com seus raios fulgurantes
Mudando as nossas sortes nos instantes
Em que se revelassem belas cores,
Atrocidades vejo, mas persisto
Lutando contra a minha insensatez
No quanto a poesia ora se fez
O mundo noutra face já revisto
Traçando com ternura este universo
Em rara claridade, mas também
Eu bebo cada gota que contém
Meu canto quando o vejo até disperso
E sei que na verdade amor é esfinge
Traduzo seu anseio e em mim se tinge.

32556

Amor que sei tão forte inda resiste
Aos mais diversos medos, pesadelo.
Pudesse a todo instante percebê-lo,
Porém meu coração decerto é triste
Amordaçado, a voz já não se escuta
E tanto quis viver felicidade,
Mas quando este temor ainda invade
A noite se mostrando bem mais bruta,
Pudesse acreditar, mas não consigo
E sei que depois disto vem o nada
A face se traçando desolada
Somente o desengano, desabrigo
E tudo me remete ao mesmo vão
E nele refletida a negação.

32557

Apenas me mostrara bem mais triste
Do que já acostumara a ser enquanto
O mundo preparando o desencanto,
Não deixa qualquer sombra e não resiste
Insisto contra a fúria das marés
E tento, mesmo sendo quase inútil
Ainda caminhando em solo fútil
A cada ausência tua, outro revés,
E sei que este abandono já traduz
A falsa imagem clara de um momento
No qual ao persistir ainda tento
Vencer a escuridão com tosca luz,
Medonha a face exposta de quem sonha
Realidade eu sei quanto é bisonha...

32558

Eu peço-te perdão, meu caro amigo
A vida não podia ser assim,
Aonde se fizera algum jardim
O mundo destruíra e em desabrigo
Somente não consigo imaginar
O todo que talvez fosse preciso,
Ainda coletando o prejuízo
Deixando cada tempo em seu lugar,
Amordaçada a boca de quem tenta
Vencer com calmaria esta ilusão,
Os dias do passado não trarão
Senão a noite insólita, a tormenta
Embora não resolva quase nada,
Minha alma se mostrando desolada...


32559

Pelas tristes palavras que te digo
Percebas o que ainda não te disse
A vida se mostrando uma tolice
Condena o caminheiro ao desabrigo,
E tudo fora apenas tão diverso
Do que se fez em dura sensação
Somando qualquer dor em divisão
A cada ausência tua eu me disperso
E sinto ser tão frágil, mas endosso
Com erros o que tanto fora outrora
Aonde o que se vê não mais decora
E sendo o desengano agora nosso,
A faca com seus gumes afiados
E os erros repetindo os desagrados.


32560

A vida maltratou-me, desde cedo;
Não pude consertar os desenganos
E sendo tão diversos, desumanos
Os dias que vivera sem segredo,
E quantas vezes bebo em solidão
Os bares refletindo o dia a dia
Aonde a realidade refletia
Mostrando o caminhar sem direção
Um pária busca ver numa sarjeta
A vida refletida, mas percebe
Enquanto cada gole ainda bebe
Os erros costumeiros que cometa
Especular demônio se alimenta
Da mesma dor intensa em tez sangrenta.
32561

Pudesse tentar
Quem sabe diverso
Caminho em que imerso
Procuro o luar
Ainda a sangrar
Na ponta do verso
Se tanto disperso
Eu queira te amar
E tento outro intento
E sei quando invento
Bebendo o vazio
E tendo este sonho
Aonde componho
E sei me recrio.

32562

Onde busco a paz
Nada se traria
Minha poesia
Se demais audaz
Tanto satisfaz
Quanto me daria
Dor e fantasia
Disto sou capaz,
Vivo por viver
Sigo ao bel prazer
Sem saber caminho
Vou cevando a sorte
Procurando um norte
Mesmo tão sozinho...


32563

Nada disto importa
A quem tanto quer
Venha o que vier
Vou abrindo a porta
E se me comporta
Coração qualquer
Tanto o que quiser
Com ternura aporta
Vou seguindo assim
Procurando em mim,
Um pedaço teu
E se ainda vejo
Bem maior desejo
Neste amor se deu.

32564

Versos vou traçando
Em sonetos vários
Cantos necessários
Neste tempo brando,
E se tanto quando
Encontrei corsários
Dias temerários
Noutros transformando,
Vivo assim em paz
E se tanto apraz
Quero estar contigo,
Na certeza disto
Tanto amor insisto
Sempre mais persigo.


32565

A palavra atrai
Outro pensamento
Num maior alento
A tristeza esvai,
E se ainda cai
Sobre a terra em vento
Meu pressentimento
Nem o tempo trai,
Caminhando ao léu
Percorrendo o céu
Livre sem temor,
Não concebo o medo
Tanto sol concedo
Quando em pleno amor.


32566

Risca o tempo a sorte
Vive a melodia
Que deveras cria
Onde se transporte
Navegando ao norte
Busco a fantasia
E se tanto urdia
Caminhar sem corte
Mergulhando em ti
Tanto descobri
Que te quero mais,
E se ainda creio
Vivo sem receio
Ledos temporais.


32567

Tanto pude ver
Depois desta tarde
Quanto amor retarde
O querer morrer,
Novo entardecer
A saudade que arde
Vive em pleno alarde,
Mas procuro crer
Noutro tempo após
Onde tenha a voz
De quem tanto quis,
Sendo assim, não paro
Procurando o raro
Caminhar feliz.


32568

Versos mais diversos
Entre tantos quanto
Ao querer encanto
Encontrei perversos
Vago em universos
E se ainda eu canto,
Procurando um manto
Onde eu veja, imersos
Os desejos vários
Sei que necessários
A quem tanto quer,
Ser feliz um tempo
Ledo contratempo,
Seja o que puder...


32569

Merecia a luz
Quem se fez escuro
E se em tal procuro
Quem amor conduz
Novo templo eu pus
No que tanto juro
Meu amor perduro,
Noutro amor, compus
Violentamente
Violenta a mente
Quem não sabe amar,
Sendo assim sozinho,
Traça o seu caminho
Sem saber luar.


32570

Vejo ao longe o brilho
Desta estrela guia
Viva a poesia
Onde em paz palmilho
Cada sonho trilho
Nele a fantasia
Que se mostraria
Sem um empecilho
Navegando ao cais,
Quero muito mais
E se vem eu tento
Novamente o encanto
E deveras canto,
Procurando alento.

32571

Tirano poder
Do amor que conquista
E tanto se avista
O quanto sofrer,
Mas tento querer
E sendo otimista
O medo despista
Mergulho em prazer
E quero bem mais
Do que temporais
Momentos eternos,
Assim sendo a vida
Às vezes vertida
Em duros invernos.

32572

Se quando é senhor
Do meu pensamento
No quanto lamento
Distante sabor
Vivendo a compor
Num novo momento
Vital sentimento
Ditando este amor,
Meu verso cambia
E a noite é vadia
Tomada de estrelas
As sortes benditas
Nas quais acreditas
Eu posso revê-las.

32573

Sagrada e divina
A sorte que tenho
Ao ver tanto empenho
Aonde fascina
A vida ilumina
No quanto me embrenho
Vencendo já venho
Beber desta mina
Na fonte da vida
Jamais exaurida
Real juventude
Amor se apresenta
Minha alma sedenta
Aos poucos se ilude.

32574

Reinando e vivendo
Momento feliz
O quanto se quis
Do amor estupendo
Aos poucos revendo
Cada cicatriz
Eterno aprendiz,
Contigo aprendendo
De novo esta sanha
Aonde se assanha
O peito menino
Embora tardio,
Amor nega o frio
E assim me fascino.

32575

A mais venerada
De tantas que eu vejo
Domando o desejo
Feliz alvorada,
Assim destinada
A ter cada ensejo
Além do lampejo,
A paz alcançada
Nos braços de quem
Amor sempre tem
E tanto me traz
Bem mais que este alento,
No encanto alimento
A sorte tenaz.

32576

Sem ter limiar
Amor não se cansa
E toda esperança
Não pode cansar
Além de voar
A mesma aliança
Que assim já se lança
Tomando o lugar
Aonde a tristeza
Servira em destreza
Matando o meu sonho,
Refaço caminho
Jamais vou sozinho
No amor que proponho.


32577

O sol madrugando
Tomando o cenário
Canto imaginário
Ouvido inundando
O céu ora brando
Antes temerário
Sem ter adversário
O todo tocando
Fazendo de mim
Melhor ser e assim
Jamais perderia
Amor quando traço
Esqueço o cansaço
Bebo a ventania...

32578

Abismos que vira
Quem tanto lutara
E agora se ampara
No quanto mais gira
A terra prefira
Distante da amara
Aonde tocara
A fúria, esta pira,
Pureza distante
Amor degradante
Não tenho saída,
Perdendo o meu rumo,
O quanto em aprumo
Já não vejo a vida.


32579

Num mar tão profundo
Vagara sem medo
E agora concedo
No quanto me inundo
Do amor moribundo
Ausente o segredo
Condena ao degredo
Matando o meu mundo,
Restando somente
O quanto se sente
Na noite sombria,
Além do vazio
Ainda desfio
A dor que se via.


32580

Ondas turbulentas
Tomando o meu mar
E nele tentar
Enquanto mais ventas,
Vencer as tormentas
E ainda aportar
Distante lugar
No todo que inventas,
Mesquinho tal sonho
E quando medonho
Não posso saber
Do quanto deveras
Além das esperas
Possa receber...


32581

O meu pensamento
Liberto vagueia
E a lua se é cheia
Aumenta o provento
Maior sentimento
Enquanto rodeia
A vida ora alheia
Noutro tempo eu tento
Vencer rebeldias
E assim me trarias
Somente esta paz,
Mas sei quanto amor
Tocando esta flor
Belezas me traz.

32582

Os grandes pensares
Por vezes maltratam
Aonde desatam
Diversos altares
E quando tocares
As sombras que inda atam
Amores desmatam
Destroçam pomares
E vejo somente
Ainda a semente
Aonde pudesse
Viver com ternura
O quanto procura
Enfim, tal benesse.

32583

Nosso coração
Ainda sabendo
Do quanto estupendo
O raro verão
Não sabe senão
O amor quando vendo
E assim já descrendo
Dos dias em vão,
Vergando em tal peso
Jamais o desprezo
Traria um sorriso,
Imenso sarcasmo,
Sozinho, vou pasmo,
Num passo impreciso.

32584

A brisa que abranda
A dor de quem ama
Ainda em tal drama
A sorte é nefanda
E quando desanda
Não tendo mais chama
Porquanto reclama
Negando a demanda.
Mortalha tecida
Na dor que me acida
E tanto pudera
Vencer os meus ermos
Em paz ao sabermos
Vital primavera.


32585

Sorte que me alaga
Tocando o meu rumo
E bebo do sumo
Que a vida me traga
Negando esta chaga
A dor eu esfumo
E amor se eu consumo
No quanto me afaga
Adagas esqueço
Não tendo endereço
Jamais apunhalo,
Assim bebo a vida
Divina vivida
Imenso regalo.


32586

Em ondas gigantes
Vitais heresias
Aonde porfias
Cenas degradantes
Já não adiantes
Deixando tais dias
E neles sabias
Auroras brilhantes
Mas nada se vê
E sem um por que
Não sou nem serei,
A morte ameaça
E em tanta desgraça
A dor dita a lei.


32587

Inquietas espumas
Tocando esta areia
E a lua incendeia
Enquanto te esfumas
E nada consumas
Além da sereia
Tomando esta veia
Por onde não rumas
Vencido corsário
Amor temerário
Apenas naufrágio,
E assim toda sorte
Conforme comporte
Cobrando seu ágio.


32588


Quebrando na areia
O mar não traria
Imagem que um dia
Ainda incendeia
E bebe da cheia
Maré que se cria
Feroz ventania
O amor não rodeia,
Resgate do quanto
Ainda sem tanto
Pudesse saber,
A noite se traz
E nela é mordaz,
Atroz meu viver.

32589

O quanto nos toca
A sorte bendita
A morte se excita
E joga em tal roca
A fúria que entoca
Alterando a dita
Aonde acredita
O amor se desloca
E toma o lugar
E sem ver o mar,
Vivendo o vazio,
Refaço o caminho
E quando eu me aninho,
No ninho que eu crio.


32590

Num manso lugar
Quem sabe meu porto
Depois semimorto
Voltando a sonhar,
Quem possa mostrar
Aonde este aborto
Agora em absorto
Caminho a sondar
Com frases dispersas
Ainda em conversas
Versando sem nexo,
O amor não sabia
Da luz mais sombria
De um mundo complexo.

32591

Pudesse este império
Do amor sem juízo
Viver paraíso
E sendo um mistério
O quanto em minério
Outrora impreciso
Outrora granizo
Um ar bem mais sério
Volúpias traçando
Um fogo tomando
Incêndios diversos
Assim nesta noite
O quanto se acoite
Além destes versos...


32592

Imensa extensão
Em luzes e brilhos
Diversos os trilhos
Tenra direção
Aonde virão
Meus pés andarilhos
Em tantos ladrilhos
Vagando este chão
Rasgando este espaço
O sonho que traço
Revive a promessa
E desse momento
No qual já me alento
A vida começa.


32593

Amor não humilha
Também não maltrata
A sorte se ingrata
Aonde se pilha
Vital armadilha
A senda retrata
No quanto se mata
Ou mesmo palmilha
Caminhos ausentes
E quando pressentes
Momentos de paz
A vida começa
Por vezes avessa,
Ou mesmo tenaz.

32594

O sonho tomando
Momentos diversos
E neles imersos
Os dias em bando
Vivendo e tocando
Assim universos
Pudessem meus versos
Os teus entranhando
Riscando este espaço
No quanto já traço
De mim no teu eu,
Atonitamente
A vida não mente
E em nós renasceu.


32595

Lutando em cansaço
Vencendo o meu medo,
Aonde concedo
Assim cada passo
Realço este traço
E nele o segredo
Enquanto procedo
Negando estar lasso,
Grassando promessas
E quando começas
Meus dias são bons,
Amar é saber
Além do querer
Viver mesmos tons.


32596

Feliz existência
Dourando o caminho
Por onde me aninho
Em tal convivência
Assim a inocência
De quem em carinho
Não mais vai sozinho,
Mera coincidência?
Clemências à parte
Amor que descarte
Não vale nem quero,
Desejo o delírio
Distante martírio
No sonho sincero.


32597

Festim matinal
A noite promete
Depois se repete
Velho ritual,
Degrau por degrau
O quanto arremete
Em riso e confete
Traçando esta nau
Vagado por mares
Distantes lugares
Aonde tu vais,
E tento ser teu
Porquanto venceu
Amor vendavais.


32598

Brindando ansiedade
A quem se fizesse
Além de uma prece
Amor de verdade
No todo que brade
A voz em tal messe
E assim recomece
Com tranqüilidade
Vencido o temor
Não posso seguir
Sabendo o porvir
Se não tem amor,
A vida seria
Tão triste e vazia...

32599

Em novas delícias
Momentos sem par
Podendo singrar
Sabendo notícias
Aonde em fictícias
Manhãs a mostrar
Além do solar
As mansas carícias,
Porém em segredo
Amor que concedo
Jamais tu terás,
Pois vivo esta ausência
E nela a inclemência
Deveras mordaz.

32600


Descubro em teus braços
Momentos de glória
Assim minha história
Mudando os seus passos
Ganhando os espaços
Traçando a vitória
Vencendo a memória
De dias mais lassos,
Rasgando este medo
No quanto eu procedo
Singrando este mar
Amando demais
Encontro o meu cais
Aonde aportar...

quarta-feira, 12 de maio de 2010

32501 até 32550

32501

Ao sentir a formosura
Desta rosa em meio às rosas
Noites claras majestosas
Onde a sorte se emoldura
No tormento, na amargura
Vejo as sendas caprichosas
E se tanto em luzes gozas
Desta vida em tal ternura
Brandamente quero o sonho
E deveras recomponho
Com beleza o meu viver
Tantas vezes pude ver
O cenário mais sobejo
Que em verdade sempre almejo

32502

Verso feito em alegria
Luz imensa transformando
O meu canto se moldando
Ignorando uma agonia
Tanta sorte me traria
Onde outrora em contrabando
Novo tempo desabando
Morte em vida, não teria.
Resta em mim outro momento
E deveras me apresento
Com ternura em raro encanto,
Amar traça a liberdade
E bebendo a claridade
A tristeza agora espanto.


32503

Pude crer que a vida traz
A quem tanto batalhara
Afinal a noite clara
E deveras feita em paz
Sendo assim, o passo audaz
Dominando esta seara
Não permite quem se ampara
Na verdade mais mordaz,
Poesia traça em luz
O quanto reproduz
A beleza de um instante
Seja sempre a minha amiga,
E decerto assim prossiga
Num cenário deslumbrante.


32504

Resta apenas o meu medo
Depois destas ilusões
E se ainda tu me expões
O sabor deste degredo
Cada dia mais concedo
Aos meus sonhos emoções
E tentando em direções
Desvendar cada segredo,
Poderei acreditar
Na pureza deste amar
Entre tantos que já tive,
Onde outrora imaginei
Hoje enfim eu decifrei
Quanto amor em mim revive.


32505

Não me deixo mais levar
Pelas ânsias de quem sente
Este gozo plenamente
Demonstrando em si luar
Quando tentei transformar
O meu mundo onde se ausente
Toda a dor, freqüentemente
Aprendi enfim a amar,
Sendo assim a vida traça
Com ternura enquanto passa
Deixa rastros mais felizes,
São benditos os meus dias
Quando imerso em alegrias
Olvidei as cicatrizes.


32506

Quanto amor eu quis
Noutro amor sincero
Onde ainda espero
Ser enfim feliz,
Mesmo um aprendiz
Tanto que venero
Outro sonho eu quero
Vivo por um triz,
Atos necessários
Dias temerários
Nada mais se teme
Barco solto em mar,
Sabe navegar
E conhece o leme...


32507

Sonetando assim
Em palavras mansas
Logo que me alcanças
Chego à Deus enfim,
Bebo do jardim
Entre as esperanças
Quando já te lanças
Farto sonho em mim,
Vivo em paz e sei
Cada norma e lei
Onde se apresente
Verso sobre o mar
E se tanto amar
Ser feliz somente...

32508

Já não vejo mais
Tantas heresias
Vivas fantasias
Mata os vendavais
E se agora o cais
Com prazer trarias
Novos claros dias
Tempos magistrais,
Riscos são ausentes
E se tanto sentes
O que também sinto,
Vivo quem pensara
Noutra cena escara
E o temor extinto.


32509

Jogo as minhas cartas
Mesas entre sortes,
E sabendo os nortes
Tu já não descartas
Ainda que partas
Ora me comportes
E se me confortes
Noites plenas fartas,
Sinto a luz que trama
Nova e rara chama
Onde se percebe
A beleza imensa
Tanta recompensa
Na sublime sebe.


32510


Da janela aberta
Coração se eleva
E jamais a treva
Que agora deserta
Em terror desperta
E se assim a ceva
Sorte mais longeva
Na palavra certa,
Vivo e sou feliz,
Nada mais desdiz
O que o sonho dita,
Resolutamente
Canto se apresente
Nesta voz bendita...

32511

Pensara no tanto
Pudesse lutar
E tendo o luar
Deveras encanto
Bebendo este canto
A sorte a tramar
Beleza sem par,
Deixando o quebranto
Levanto meus olhos
Ausentes abrolhos
Somente em tais flores
Canteiro formado
Matando o passado,
Seguindo onde fores.

32512

Percebo este brilho
E tento outra sorte
A vida é transporte
No qual ora trilho
E quando palmilho
Procuro este aporte
Que tanto comporte
Sem ter empecilho
Vencendo o temor
Vivendo este amor
Que tanto quisera
Momentos felizes
Na ausência de crises
Real primavera.

32513

Aonde desvenda
O passo mais firme
Amor se confirme
E tudo se atenda.
Porém sendo lenda
Prefiro eximir-me
Do que pressentir-me
Envolto em tal venda,
Recebo este gozo
Real majestoso
E nele me faço
Além do que outrora
Já nem se demora
Numa alma o cansaço.


32514

Somente pudera
Vencer o temor
Vivendo este amor
A sorte que é fera
Deveras tempera
Com ar sedutor
No quanto a propor
Jamais pensa, espera,
Assim reunidos
Os dias sentidos
Em luzes e paz,
Concebo o caminho
Jamais vou sozinho,
Amor me compraz.


32515


Ainda não vivo
O quanto tentei
Buscando esta grei
Num sonho cativo
Se assim sobrevivo
No vão me entranhei
Encanto busquei
E já não me privo
Da sorte bendita
Que amor acredita
E torna comum
Sem ter esperança
Ao nada se lança
Não resta nenhum...


32516

Minha alma cativa
Dos sonhos que tenho
Em total empenho
Assim segue viva
E quando se criva
Da noite em que venho
No quanto mantenho
A voz mais altiva
Recebo este vento
E a cada momento
De ti mais me encanto
E venço os meus medos
Adentro os segredos
E afasto o quebranto.


32517

Feliz, singular
Beleza que tens
E quando tais bens
Tomando o lugar
Aonde encontrar
E sei que tu vens
Distantes desdéns
Bebendo o luar,
Assim sendo a vida
Em ti concebida
Percebo o tamanho
Do mundo em que estás
Sorvendo esta paz
Nos céus eu me entranho.

32518

Ausente esperança
Depois desta luta
A vida reluta
E quando se alcança
A sorte não cansa
E tanto se é bruta
Apenas escuta
A voz que se lança
No quanto se erguendo
O mundo envolvendo
Com paz; sou sincero
Pudesse viver
Ainda um prazer
No bem que mais quero.


32519

Olhar sossegado
Notando as estrelas
Podendo contê-las
Vivendo o passado,
Riscando o trilhado
Querendo sabê-las
E ainda vivê-las
Tomando o telhado,
Teimando em vazios
Vencer desafios
É sempre complexo
Mas quando te vejo
No afã do desejo
Encontro neste nexo.

32520


Ao viver amor
Que tanto pudesse
Transformar em messe
O que foi temor,
Ao gerar a flor
Esperança tece
Coração conhece
Da emoção sabor,
E se nada resta
Pelo menos fresta
Posso adivinhar
Onde tanto quis
Ser bem mais feliz
Encontrei o amar...


32521

Aonde se fez tanta esta vontade
De ser ao menos mais que mero nada
Palavra com terror anunciada
No quanto em desamor tanto degrade,
Não pude contornar a ansiedade
Paragens mais diversas, invernada
A porta permanece então fechada
Deixando o velho sonho em vã saudade
E assim meu verso encontra o lenitivo
E permaneço aqui, deveras vivo
Apenas por cunhar tal porto além
Do fato mais real e mais palpável,
O tempo se mostrara interminável,
E nele este vazio se contém...

32522

O tempo que é senhor, pai da razão
Ditando algum futuro onde pensara
Diverso caminhar e hoje se aclara,
Ou traz à claridade a escuridão,
Do tempo em contratempo, a direção
No tanto a se mostrar comum ou rara
Ao mesmo instante trama queda ou vara
Remonta na inconstância à uma estação
Viver cada momento como fosse
A imagem traduzida em agridoce
Gestando a própria vida, risco e sorte,
Não tendo rédeas segue libertário,
Do renovar-se eterno e necessário
Renegando o existir enfim, da morte.

32523

A cada aniversário perco e ganho
Seara incontestável da existência
E traça com ternura ou imprudência
Diversidade trama hoje o de antanho
E quando em mais um ano assim entranho
Certeza se mostrando em mais prudência,
Aonde se pensara onipotência
Aumenta e se aprofunda cada lanho,
Comemorar ou mesmo lamentar
Constantes mutações de amor e treva
Entrego-me ao vazio ou quando ao todo
Procuro disfarçar, suave engodo,
Porém o tempo aos poucos já me leva...

32524

A voz que não se cala em poesia
E tenta disfarçar ou conceber
Enquanto muitas vezes diz prazer
No desprazer deveras já se cria,
E quando com palavras eu tecia
O quanto acreditara perceber
Gerando assim diverso ou mesmo ser
Aonde se mostrasse em rebeldia
A face abandonada do que eu fora,
Mas sei que desde então nada se faz
Além do olhar sobejo ou mais mordaz
Desta alma tantas vezes sofredora,
Renasço enquanto morro em cada verso
Do todo que amealho eu me disperso.


32525

Olhos ermos procuram por um sol
Aonde ainda pudesse ter certeza
Da vida em sua forma e em tal leveza
Tocando o seu caminho sempre em prol
Do quanto poderia e mesmo tento,
Aceito deste jogo suas regras
E quando com terrores desintegras
Gestando o que pudesse ser meu canto
Vestindo as ilusões não mais teria
Sequer a menor sombra do que outrora
Ainda vivo em mim ronda e devora
Tornando a caminhada bem sombria.
E o sol jamais surgindo no horizonte,
Por mais que o meu olhar, vazio aponte...

32526

Encontro essa riqueza que deixei
Durante os meus momentos mais cruéis
E bebo ainda assim os fartos féis
Gerados pelo anseio, e se entranhei
Perpetuando a treva que me deste
Erguida em patamares mais sutis
Aonde no passado ainda eu quis
O todo na verdade não reveste,
E sigo contra a fúria natural
De quem se fez mutante e quer o sonho,
Além do mesmo vão eu me proponho,
Arcando com escadas, sei degrau,
E a queda se aproxima, mas não fujo
Persisto, um pária podre, imundo e sujo.

32527


Em meio aos arquipélagos, atol
Somente sem saber deste horizonte
E não concebo mais sequer a ponte
Que possa libertar, torpe arrebol,
Assino a cada tempo outra alforria
E gero escravidões onda pensara
Da velha liberdade, mas amara
A sorte quando feita em serventia
E tento novamente disfarçar
Usando de poemas, desafetos,
Pudessem sonhos meus medonhos fetos,
Mas quando me concebo e sem lugar
Aborto outra esperança e ainda busco
Enquanto sei do fim, espúrio e fusco.

32528

Ilha aonde pensava ser o rei
Há tanto abandonada em mar imenso
E quando no passado ainda penso
Percebo tanto quanto mais errei,
Resolvo a cada tempo outro dilema
E nada se resolve plenamente
Portanto a vida sempre volve e mente
E nada do que ainda queira tema
Riscando pouco a pouco a minha pele
Aprofundando o corte, nada vem
E sigo da alegria muito aquém
Enquanto a novo rumo se compele
O sonho, mera face em desvario
E nele cada engano desafio.

32529

Minha boca ansiosa beija o nada
E sangra com terríveis ilusões
E tanto quanto posso em expressões
Traçando desde cedo outra fornada
De sonhos, desenganos, erros tantos
Falência da emoção torpe e vulgar,
Aonde poderia me encontrar
Apenas realçando tais quebrantos
Ofusco o caminhar em pedras feito,
E tendo esta certeza nada impede
O quanto do prazer não se concede
E em tantos espinheiros eu me deito
Cercado pelas sombras do passado,
Apenas o vazio é meu legado.


32530

Num momento julgava-me farol
E até por ser na vida complacente
Tentando o que ditasse a minha mente
Bebendo cada rastro do deus sol,
Julgara novo passo libertário
Quando em verdade mais me aprisionava
Não via nos meus pés galés e trava
Enquanto acreditara ser corsário
Agora ao perceber a fria algema
Da qual já não consigo me livrar
E vendo toda a insânia a penetrar
Meus olhos, desvendando tal dilema
Pudesse ter enfim a abolição,
Porém me entranho mais na escravidão...


32531


Como é cruel, Meu Pai, a dura lei
Imposta pelos homens no Teu nome,
E quando a realidade já se assome
Não tento novo rumo e nem terei
Sabendo da constância em que se dá
A fonte inesgotável: vida e morte
Ainda que o futuro não comporte
O quanto se pretende mostrará
A forma inusitada em amor feita
E quando em liberdade eu Te sentir
Usufruindo em paz deste elixir
Minha alma no Teu passo, satisfeita,
Diversa da que impingem sobre mim
Negando alguma entrada em Teu jardim.

32532


Agora vou sozinho, um girassol
Bebendo desta fonte inalcançável
Ainda que se fosse imaginável
Rendido à maravilha deste sol,
Não pude discernir qualquer momento
Aonde a vida fosse mais perversa
E quando sobre o mar imenso versa
E neste caminhar eu sempre tento
Erguendo o meu olhar, vasto horizonte
E tendo em direção mais soberana
No amor que nunca trai, jamais engana
Porquanto mais sobejo já desponte,
O quanto dos meus dias em frangalhos
A vida revivendo em novos talhos.


32533


Dourados os caminhos que passara,
Quem tanto quis a sorte e nunca veio
Mostrando a cada ausência o devaneio
Gerando escuridão nesta seara,
A fonte iluminada da esperança
E dela se traçando esta alegria
Moldura pela qual já se traria
O olhar aonde o todo não se alcança
Avanço em meio aos tantos temporais
Sabendo do final engalanado,
Arisco navegante do passado,
Ao ver e perceber possível cais,
Já sabe timoneiro comandar
O sonho sem sequer poder parar...


32534

Inebriei-me, tonto, mas passou
Assim como um cometa em minha vida
Percurso noutra senda, a despedida
Traçada desde quando se encontrou
O rumo em meio aos vários sentimentos
E neles entre tantos outros nãos,
Errôneo caminhante, dias vãos,
E após o terminar, mais sofrimentos,
Não quero ser apenas degradável
E ver o mundo em teias mais diversas,
E quando noutro tanto tu dispersas
Morrente coração incontrolável
Não tendo outra saída se deforma
Mutável sensação, medonha forma.


32535


A jóia que dispunha; viva e rara
Perdendo com o tempo qualquer brilho,
E tanto quanto posso ainda trilho
A noite em luz sombria e nada aclara
A sorte semeada noutra senda
A morte se aproxima e nada faço,
Seguindo a solidão em rito e traço
O passo rumo ao nada não se emenda
E vendo a face escusa neste espelho,
Restando poucas horas, poesias
A cada novo instante mais ferias
E a vida se mostrara em frio engelho,
A imagem retratada, carcomida
Traduz mais fielmente a minha vida.


32536


Depois desta tormenta, sobrou nada
Além destes escombros, minha vida.
Resulto do quanto apodrecida
Moldara a noite em vaga madrugada,
Atormentado eu passo em negação
O quadro se dissolve em tez sombria
E quando noutro mar mergulharia
Sem ter sequer ainda a sensação
Da pútrida verdade que se expõe
No quanto cada verso nada trama
A morte sem sentidos já me chama
E o pensamento aos poucos decompõe
Lavrando este cenário em turbulência
Perdendo pouco a pouco esta existência.

32537

Vazio o coração agora vou,
Rasgando algumas cartas outras lendo
E assim o meu passado revivendo
E nele esta mortalha se moldou,
Riscando cada espaço em luz sombria
Tenaz pudesse ainda crer no quanto
O mundo se mostrara em novo encanto
Enquanto a realidade não surgia
Portanto o desencanto ainda tinge
O peito em tal quebranto que não posso
Viver cada momento ainda nosso,
E sei da fúria intensa desta esfinge,
Erijo cada altar em nome alheio,
E sigo sem saber o que inda anseio.

32538

Buscando te encontrar, senda dourada
Aonde não pudesse ter senão
A turbulência em dor sem direção
Depois de tanta luz, agora é nada.
Emana-se do olhar um raro brilho,
E cega-me porquanto quando invade
Mudando qualquer tom da realidade
Esboça noutro passo um empecilho,
Crateras vão se abrindo no meu peito
E tanto pleiteara alguma luz
E sei que este vazio reproduz
Metáfora que ainda creio e aceito
Lavrando com a mão férrea tal solo,
Da imensa ingratidão eu já me assolo.

32539

A vida, caminheira em esperança
Jogando as velhas cartas sobre a mesa
Marcadas pela dor nova incerteza
Enquanto a sorte cede ou já se cansa,
Negando o que pudesse ser ainda
Momento em paz sublime, eu sigo alheio
E tanto poderia, mas não veio
Manhã onde a emoção enfim deslinda
Cravejo em esmeraldas e rubis
O pantanal que tanto freqüentei
Se alguma reação inda esbocei
O mundo noutra face não me diz
Somente da verdade sei um traço
Porquanto no vazio ao menos, grasso.

32540


Traduz-se em divinais formas e brilho
O quanto pude crer e nunca vinha
Verdade jamais fora amiga minha
E quando tendo um passo em queda humilho
Esmiuçando assim o que inda resta
Do todo já desfeito pelo tempo,
Somente a cada engodo e contratempo
Ao qual o caminhar em mim se empresta
Lavando o meu olhar em tal tristeza
Restando muito pouco para quem
Sabendo do vazio em que se tem
A velha tradição de caça e presa.
Peçonhas inoculo quando tento
Vencer em paz a dor e o desalento.

32541

Trazendo no seu bojo uma esperança
A vida poderia ser tranquila,
Mas quando a sorte em trevas já desfila
E sinto mais distante a temperança
No quanto do vazio ora se alcança
A morte com terror reduz à argila
O fato de sonhar a dor destila
E trama com audácia a fina lança,
Vestindo de ilusões eu pude ver
Além do que pudesse alvorecer
A treva costumeira e sei aonde
O fardo mais pesado se aproxima
E nada do que tanto mude o clima
Aquém deste tormento em que se esconde.

32542

Depois de tanta dor me maravilho
Ao ver meros resquícios de um segundo
No qual com toda insânia me aprofundo
Moldando em vã ternura manso trilho
Gestado pela angústia, nada vinha
Senão a realidade mais cruel
E quando o mundo mostra em carrossel
Verdade que foi tua e agora é minha,
Tecendo esta mortalha o que me resta
Expressa a solidão e tudo traz
A face mais atroz, por ser mordaz
Aponta com terror imensa aresta
E nada mais consigo senão isto,
E assim sem ter saída, eu já desisto.


32543


Com olhos que iluminam canto e dança
A sorte se mostrara traiçoeira
E quando a realidade enfim se esgueira
Ao nada costumeiro a vida lança
Medonha sempre fora a minha face
E atrozes caminhares rumo ao vão
E nada do que tanto poderão
Os dias noutro tempo em que desgrace
Mecânicas diversas desta vida
Audazes caminhadas pelo encanto
E sobram meus momentos, desencanto
Traçando tão somente a despedida
Amar e ser feliz? Futilidade?
A sombra da ilusão já não me invade...


32544

Percebo-te num claro e belo trilho
E nada do que possa parecer
O quanto se mostrara e pude ver
Sabendo o coração velho andarilho,
E tanto polvilhara em doce e fel
Residualmente tento algum sorriso,
E sei do que deveras mais preciso
Vagando sem destino e quase ao léu,
Invariavelmente a vida mente
E trama variáveis onde eu quis
E tanto poderia ser feliz
Se ainda percebesse plenamente
O peso do viver que lanha as costas
Porém já não escuto nem respostas...


32545

A luz desta esperança já te alcança
E tenta disfarçar a imensa dor
Aonde se mostrasse o sonhador
E nele qualquer forma de aliança
Depondo contra a fúria desumana
Errático planeta não retorna
E quando a solidão em mim entorna
A própria negação já desengana
Arrasto-me deveras tão cansado
E tento respirar serenidade,
E quanto mais eu lute, mais degrade
O vândalo caminho destroçado
Aonde perfilara em cada verso
O todo noutro tanto já disperso.


32546

Num lago, fino amor, de mãe e filho
A imensa placidez que tanto eu quis,
Agora mais distante ou infeliz
No quanto inferno em vida já palmilho
Pereço a cada ausência da esperança
Mortificada face derrotando
O quanto imaginara ser mais brando
Na ponta em que se afie cada lança
Resisto, muito embora saiba vão
O passo dado noutro provimento
E quando inutilmente ainda tento
Os dias novamente não trarão
Sequer a menor sombra do que eu quero
E assim morrendo agora cego e fero.

32547

Quimeras e disfarces, falsos medos
Lavrando em minha pele cicatrizes
E quando mais comuns os meus deslizes
Maiores os temores, meus segredos,
Arcar com desenganos nunca é fácil
E sei do desespero de quem tenta
Viver após a luta violenta
E teima em ter a vida em paz e grácil,
Restando tão somente este vazio
Aonde nada mais se pode ver,
Risonho e perecível entardecer
E nele a noite em trevas eu desfio
Do outono pouco resta e se me inverno
A vida se transforma num inferno.

32548


Os mágicos delírios de mulher
Domando quem se fez amante e sabe
O quanto do viver já não me cabe
Havendo com certeza o que inda houver,
Resisto muito embora saiba quanto
É doloroso o passo depois disto,
Porquanto na verdade sempre insisto
Cevando a cada passo o desencanto,
Mesquinharias ditam o que um dia
Ainda poderia ser diverso,
E sendo sempre assim tão triste o verso
A morte se aproxima e não se adia,
Audaciosamente pude então
Saber da mais completa ingratidão.


32549

No fundo, desvendando-se segredos
Aonde quis apenas poder ver
A luz de um improvável renascer
A sorte se perdendo entre meus dedos,
Não vejo mais a cena e num reflexo
Domínios tão dispersos não consigo
E lego o meu caminho ao desabrigo
Embora a cada instante em genuflexo
Procure tão somente este perdão
E sei sofrível passo que inda possa
Trazer além do quanto a vida em troça
Esboça qualquer treva em reação
Assim ao se mostrar inconseqüente
A vida nega o brilho novamente.

32550


Nos mares, nas montanhas cessas fúria,
E geras esta paz que tanto quero,
Mas sei quanto o destino se faz fero
Gerando a cada passo outra lamúria
Na trama desenhada desde quando
O tempo se mostrara face a face
E tanto ainda em dor a vida grasse
E mostre o que se quer duro e nefando
Nevando dentro em mim vejo este inverno
E nada posso contra esta incerteza
Lutar e perceber a correnteza
E dela se trazendo um vento terno,
Ao menos me traria este acalento,
Mas nada se resolve enquanto eu tento.

32451 até 32500

32451


Trago-te meu delírio e já remendo
As peças mais puídas de minha alma
O quanto do viver emerge em trauma,
Caminho que decerto ora desvendo,
Descrendo nos momentos mais felizes
Falíveis esperanças; mortos sonhos
E quando se mostrassem enfadonhos
Em pleno temporal perco marquises
E sinto que talvez ainda seja
Comum a quem deseja outra alegria,
E quando a solução se fantasia
Não adianta prece, altar e igreja,
Esqueço dos meus dias mais atrozes
E bebo da esperança em ricas fozes.

32452

Minha alma se esgotou sem teus pendores
E tanto poderia acreditar
Ainda que restasse algum lugar
Exposto às maravilhas dos albores,
Notícias de um momento mais feliz
Em meio aos desencantos, posso ver
E sendo mais comum o apodrecer
Em vida muito além do que se quis
Eu tento num instante conceber
Saudáveis emoções embora eu creia
E a lua se derrama imensa e cheia
Promessa de um mais belo amanhecer
Depois de navegar por tanta ausência
A vida desenhando esta clemência...


32453

As ondas que navego em mar bravio
São feitas das procelas corriqueiras
E quando dos terrores tu te esgueiras
Um novo patamar eu desafio,
O porto imaginário não havia
E nem sei quando posso revivê-lo,
Tocando em minha pele o pesadelo
Tornando a minha vida antes sombria
Num último momento em luz e glória
Assenta-se a poeira e vejo enfim
O todo que eu sonhara ter em mim,
Mudando com ternura a minha história
Legado de outros dias, mais cruéis
Pressinto se inverter estes papéis.


32454

São lumes que jamais, de novo, acendo
As velhas esperanças desbotadas
As horas entre dores consagradas
Aos poucos novamente revivendo
Quem tanto se fez luz e agora opaco
Não sabe discernir mais o caminho,
E quando me percebo tão sozinho,
O passo rumo ao nada, torpe caco,
Restando deste ser em mutação,
Vestígio de um alento que não veio,
Olhando de soslaio e com receio
Percebo o tempo em nova dimensão,
E assisto ao que pudesse ser manhã
Embora se perceba em luz malsã.

32455

Carinhos tão chagásicos tivera
Quem tanto se procura e nada vê
O mundo desabando sem por que,
A sorte noutro tempo mata a espera,
E o fardo se avoluma a cada instante
Pudesse acreditar noutro momento,
Por vezes um alívio até invento
E sei do meu caminho desgastante
Rescindo com passados o contrato
E nada mais teria senão isto.
A cada nova ausência eu já desisto
O mundo não se fez amigo e grato,
Além do mar talvez exista aonde
Felicidade enfim, em paz se esconde...


32456


Palpitam no meu sol, meus estertores
Traçando algum encanto ao fim da tarde
Porquanto a realidade se retarde
Ainda neste outono colho flores,
E vejo ser possível pós o nada
A sorte renovando em brilho intenso
E quando nos teus braços quero e penso,
A vida novamente demonstrada
Em luzes e se tanto pude crer
No fato desta eterna vida em Deus,
O quanto se pensara num adeus
Renova a cada belo amanhecer
E assim almas iguais, unos caminhos
Eternamente juntos, nossos ninhos.

32457

Martírios deste mundo sem amores,
Refletem a distância mais atroz
E quando ninguém ouve a minha voz
Os sonhos são deveras desertores
E tento acreditar em novo aprumo,
Vasculho dentro em mim, velhos porões
E neles as mesmices recompões
Enquanto solitário nego o rumo,
E teimo contra a fúria que se tece
Momento terminal de vida dura
A morte a cada instante se afigura,
Porém o coração nunca obedece
E teima acreditar em novo mundo,
E assim nos ermos vagos me aprofundo.

32458


O corte do desejo traz o vago
E mostra a realidade em que ora vivo,
Aonde se pensara no motivo
O pensamento em dor, ainda trago
E arisca poesia se faz nova
E tenta sobretudo desvendar
O quanto poderia caminhar
Enquanto a fantasia, dores, prova
Cevar inutilmente em aridez,
E ter a sensação desta colheita
A vida não seria satisfeita
Ainda que deveras nela crês
Rescindo com terror velhos dilemas
E teimo em destruir tolas algemas...


32459


Meu mundo não precisa fantasia,
E tanto pode ser imaginário
Conquanto novo tempo é necessário
Enquanto nada além inda se cria
Arcando com enganos, levo a vida
Entregue aos mais terríveis abandonos
Minha alma se mostrando em tais profanos
Caminhos onde a glória é dividida,
Percebo após a chuva o rebrotar
Das flores e das folhas no quintal,
Assim num ar deveras eternal
Percebo o novo tempo a clarear
Revogo estas mortalhas por enquanto
Um renovado ser, em glórias canto.

32460

Fanáticos momentos são inglórios
E sei deste vazio que virá
E tanto poderia desde já
Mudar tormentos duros, merencórios
E arrisco o pensamento em luzes fartas
Vagando pela mesma claridade
Enquanto a poesia ainda invade
Os sonhos na verdade tu descartas
E assim se refletindo a nossa vida
Em dúvidas e medos o abandono
E dele se deveras eu me adono,
A sorte mostra apenas despedida.
Riscando cada página da agenda
Espero que este fato o amor entenda...

32461

A morte dos meus sonhos, sem velórios,
Enquanto inda respiro e até procuro
Vencer o mesmo etéreo vago e escuro
Trancafiado enfim nos escritórios
Momentos muitas vezes mais inglórios
Aonde no talvez tento e perduro
Vestindo o mesmo terno me amarguro
E bebo dos vazios merencórios.
Arcando com enganos, prisioneiro
Da morte em vida sigo em espinheiro
Deixando para além o que pudesse
Traçar outro caminho em vida feito,
E finjo até viver quando me deito
E imaginário sonho então se tece...

32462

O canto da saudade é garantia
De quem pudesse crer noutra ilusão
Além da que deveras diz do vão
Mergulho aonde a sorte desafia,
E tento contornar em poesia
Sabendo dos momentos que virão
Singrando sem sentido e direção
Porteira que jamais assim se abria
Lavrando com cuidado em solo agreste
O quanto poderia e não se ateste
Tramar nova esperança a quem não sabe
Do vento mais atroz que ainda invade
Deixando para trás tranqüilidade
Enquanto a fantasia já desabe...

32463

Meu astro se desfaz na falsa imagem
Gestada pela inútil fantasia
E tendo a realidade dia a dia
Ao menos se pretende uma miragem,
Porquanto novo tempo em mesma aragem
Resume assim total desarmonia
E procurando aonde não havia
Jamais se conteria em tal barragem
O pensamento segue em luz ou treva
E quando o mundo ainda não se atreva
A crer num só segundo em paz, persiste
Quem tanto se mostrara mais audaz
A fonte vai secando e nada traz
Somente o meu olhar distante e triste.


32464

Renasce nos teus braços luz da qual
Eu tento me absorver e crer possível
Um tempo mais dourado e até mais crível
Embora seja o mesmo ritual,
E nele nada diz da desigual
Imagem transformada em implausível
Caminho que julgara perceptível
Galático momento sideral,
Não tendo qualquer luz adentro o veio
Aonde se pudesse e mesmo creio
Singrar mares diversos, pensamento,
Mas tanto quis e nunca pude ver
Aquém do que pudera conhecer
Um horizonte em paz, ainda invento...


32465

Tu vais tranquilamente e sigo os passos
De quem se fez estrela e agora guia
Tomando sem perguntas fantasia
Ocupa sem saber tantos espaços
Aonde se pensasse nos cansaços
Vestindo a mesma sorte, alegoria
Adentro com ternura esta alegria
Atando com firmeza claros laços,
Embaço-me em teus olhos, refletores
E sendo costumeiras em ti flores
Eu cevo este perfume a cada verso,
Pudesse ser assim a vida inteira,
Ainda que se mostre a derradeira
Paisagem soberana do universo.


32466

Procuro tuas cores, belo outono
E tento desvendar como seria
Ainda mais possível poesia
Enquanto de ilusões eu bebo e adono.
Acordo em mim o quanto adormecera
Em outros tempos frios e doridos,
O amor ao realçar os meus sentidos
Acende este pavio e entorna a cera
Deixando-se decerto que consuma
A fonte da emoção em que inda insisto
Os erros do passado agora eu listo,
E a luz neste horizonte já se apruma,
Num primoroso canto tu me trazes
A vida renovando suas fases.

32467

Imagens de mulheres lindas, nuas
Povoam juventude, mas agora
Aonde a realidade já se aflora
Diversas maravilhas onde atuas
E vendo as concepções modificadas
Encontro a mais real felicidade
Não faço da ilusão somente grade
No quanto me desejas ou me agradas
Assim ao se mostrar novo momento
A vida aperfeiçoa a cada instante
O que pensara outrora deslumbrante
Talvez já represente o desalento,
Mutáveis emoções traduzem formas
Que a cada novo dia tu transformas.


32468

Meu mundo se resume em abandono
E sei que tanta luta se fez vã
Enquanto a realidade é tão malsã
Nem mesmo do futuro já me adono,
Resíduos de uma vida em dores tantas
E nelas não consigo ver sequer
A sombra do prazer que mais se quer
Assim a cada ausência desencantas,
Pedir num só instante o bem maior
E ser além do nada, um pouco mais
De tanto navegar em temporais
Caminho para a morte sei de cor,
E tento acreditar noutra seara,
Porém realidade desampara.

32469

As bocas que eu sonhei, já nem mais vejo
E tudo se perdera com o tempo.
Agora qualquer sonho é passatempo
Ou mesmo uma armadilha do desejo.
Preparo o meu final a cada ausência
E sei do quanto pude ser feliz,
Mas quando a realidade contradiz
Retorna o coração com inocência
E tenta imaginar. Leda figura
Jazigo é o que inda resta e nada além,
O sonho ao fim da tarde não convém
Traduzirá depois tanta amargura;
Da escuridão que ainda reconheço
Já não comporta mais tal adereço.


32470

Agora não freqüentam o meu sono
Imagens variadas de outros dias,
E quando ainda ao longe tu me erguias
Com tal felicidade um raro trono
Altares do passado no presente
São meras e cruéis caricaturas
Ainda que do amor tu me asseguras
O nada a cada verso se apresente
Moldando a realidade, mesmo crua
E tento retornar ao que já fora,
Imagem feminina tentadora,
É como renovasse a plena lua.
Porém já não consigo conceber
Um último momento de prazer...

32471

Mulheres se passaram, foram luas.
E o tempo que é senhor destas razões
Enquanto noutro tempo recompões
Histórias entre noites claras, nuas,
Mergulho no meu ser e me adivinho
Mordaz e mesmo atroz, um sonhador,
E tanto poderia recompor
Bebendo da emoção incrível vinho,
E tendo esta certeza nada mais
Do quanto desejei se faz presente,
O amor aonde quer que se apresente
Transforma qualquer vento em temporais
Escravo? Não; somente estar servil
Do encanto em que me sonho ora se viu.

32472

Do destino cruel, eu sou o dono
E nada venceria o descaminho,
E quando da ilusão eu me avizinho
Aos poucos o meu sonho eu abandono,
Resido no passado e quero crer
Que ainda possa ao menos ver o dia
Nascendo noutra cena, em fantasia
E assim pudesse etéreo alvorecer,
Mas sei quanto é venal a realidade,
Num outonal cenário nada resta
Somente esta figura vã funesta
Que aos poucos sem defesa já me invade;
E tudo desfiando em morte apenas
Enquanto com futuro tu me acenas...


32473


Mas eis que minha sorte se revela,
Na fonte inesgotável juventude
E tanto quanto posso mesmo mude
Sabendo sem juízo a imensa vela
E quando ao improvável já se atrela
Porquanto esta magia nos ilude
Vivendo muito além do que mais pude
Realça cada cor da antiga tela,
E o féretro dos sonhos? Nada disso,
Ainda mesmo morto eu já cobiço
Um sol que me redime, mesmo em vão,
Enquanto houver o sonho, bebo a vida
E estando preparando a despedida
Revoluciono em mim, novo verão.

32474

Na curva desta estrada, se avizinha
Minha última esperança, mas não quero
Seguir o sentimento doce e fero
E tento contornar a tênue linha
Na qual a primavera já se alinha
E sei que meu inverno é mais sincero,
Além deste caminho, ainda espero
Resíduo do que fora outrora minha.
Mas nada se fazendo desde quando
O tempo noutro tanto desabando,
Moldando uma verdade inconsistente,
E assim ao me mostrar inteiramente
Desnudo do que possa ter enfim,
Alento apaziguando o ledo fim.

32475

A luz que bruxuleia como vela,
Traduz esta inconstância vida e morte,
E quando se desenha amargo o norte
O brilho noutra face se revela,
E tanto poderia crer na tela
E dela cada luz que me conforte,
Mas sei quando é dorido sem suporte
Mesmo na fantasia rara e bela,
Ao menos não consigo desvendar
Mistérios de uma vida em conseqüência
Do todo feito em luz e coerência
Gestando cada passo rumo ao nada,
Mas quando me percebo em teu luar
Realidade em brilhos disfarçada...


32476

Num segundo, em farol já se transforma
Quem antes fora apenas uma imagem
A vida ao permitir esta miragem
No quanto não percebe qualquer norma,
E ainda noutra forma vejo a cena
Por trás desta cortina a peça segue
No mar onde esperança já trafegue
Sorriso mais feliz decerto acena
Acentuando a força de quem crê
No amor como se fosse redenção,
E quando novos tempos moldarão
Embora sob a tenda de sapê
O fardo se divide ou se acumula
E a vida feito um mar, em luta ondula.

32477

Beleza sem igual, a noite forma,
E traz atrás do vago a imensidão,
O barco se aproxima e a direção
Mudando com ternura ainda informa
Dos ventos e das mágoas onde tanto
Perdera qualquer prumo, navegante,
Por mais que o meu caminho se adiante
No verso mais atroz, eu faço o canto
E gero com ternura o que talvez
Pudesse ser ainda novo templo
E sigo da esperança cada exemplo
Tragando o que este mundo agora fez
Efêmera ilusão, já não importa
Dos sonhos abro enfim cada comporta.

32478

Neste outono, uma rainha
Transformando o dia a dia
Gera a cada fantasia
Esperança toda minha
E se ainda já se aninha
Onde tanto poderia
Novo encanto moldaria
O que outrora não continha
Verso e canto, canto em verso
Nos teus braços quando verso
Sigo imerso em raro encanto,
E se tanto quero mais
Mesmo em plenos vendavais
De esperanças farto, canto.

32479

Pensei que conhecesse o meu caminho
E mesmo quando imerso em qualquer medo
Sabendo da esperança seu segredo
Jamais me imaginei tanto sozinho,
E ainda se pudesse acreditar
No verso quando é feito em luz diversa
A vida quantas vezes desconversa
E teima noutro tanto imaginar
Por sorte nada resta do passado
E vejo que o cenário se transforma
E assim ao mergulhar sem medo ou norma
Encontro a fantasia e sigo ao lado,
Futuro? Não pretendo, nem pergunto,
Eterno mesmo quando não mais junto.

32480

Pensei apenas soube dos meus erros
Que nada poderia ainda ter
Somente esta semente e nela ver
Enganos entre tantos vis aterros,
E sendo mais comuns as ilusões
E delas não consigo me livrar
Embora não perceba um claro altar
No quanto me mostraste em emoções
Esmiuçando a vida, vejo apenas
Que no final a sorte se aproxima
E tanto destas dores já redima
E sem tu mais notares me serenas.
A temporã e rara floração
Permite de soslaio esta visão.

32481

Ao conhecer os campos dos desterros
E ter a consciência de que a morte
Traçada a cada dia nos comporte
E dela se percebem ledos erros
Gerados pela insânia e pela gula
Arcando com medonhas heresias
E nelas quando em luto tu dizias
Da fome aonde o traço dissimula
Visão tão variada da verdade
Arejando com sonhos e esperanças
E quando neste espaço tu te lanças
Singrando com ternura e claridade
Verás outro momento aonde possa
Saber o quanto amor a vida endossa.


32482

Onde repousam, néscios, nossos sonhos
Deixados ao relento pela vida,
E quando decomposta esta ferida
Cenários se mostrassem tão medonhos
E arrisco-me a tentar novo momento
Ainda que isto seja meramente
Um quadro que decerto se apresente
O mundo aonde o canto ainda tento,
Legado de uma sorte em dores feita
Prenunciando a morte em abandono,
Percebo ser inútil e já não clono
A sorte quando em vão não se deleita
Mortalha se tecera com terrores
Agora dita dias sonhadores.


32483


Procurei por entranhas e sentidos,
Caminhos onde um dia inda pudesse
Sentir desta alegria uma benesse,
Tocando em maciez os meus ouvidos,
Cravejo em diamantes os meus dias
E tento perceber o quanto é belo
O manto em que meu sonho em paz revelo
Deixando para trás desarmonias
Bruxuleante lua no horizonte
Reside nela o fato de tentar
Do encanto incomparável desvendar
O quanto a cada noite ela se apronte
Deidade sem igual, sobeja dama
Reinando sobre os olhos de quem ama...

32484

Os vales, cordilheiras, foram vãos
Antíteses diversas de uma vida
E quando se percebe em mim a ermida
Deixando para trás os mesmos grãos
Não posso semear em aridez
Jamais acreditei noutro cenário
E quando se fez mesmo necessário
O todo que eu quisera se desfez
Partindo do princípio do não ter
Resisto por saber de um novo encanto,
Mas quando este caminho nega o canto
Ainda tenho tanto a percorrer...
São meras ilusões, mas alimentam
E tanto quanto podem me apascentam.

32485


Pensávamos amores como irmãos,
A vida nos prepara esta surpresa
E aquilo que se fora com leveza
Agora dominando tantos vãos
Inunda o pensamento e nos domina,
Emana forte luz e nos conquista
Seara imaginária hoje benquista
Dos sonhos mais felizes rara mina,
Desato com meus versos os engodos
E tento novamente ser feliz,
Porquanto acumulara em cicatriz
Os velhos caminhares, tantos lodos
Traçados pelos medos e terrores
Agora se transformam, novas cores...


32486


No fundo, sentimentos corrompidos
Não deixam que se veja claramente
O quanto deste sol já se apresente
Tocando mansamente os meus sentidos,
Resisto aos mais diversos temporais
E tento perceber novo momento
E quando nos teus braços me alimento
Dos sonhos entre tantos magistrais,
Eu sinto ser possível ter ainda
Após a vida em mágoas, nova senda
E toda a poesia já desvenda
A sorte desenhada em tez mais linda
Percorro cada dia do teu lado
E sinto-me decerto abençoado.

32487

Agora que conheço meus defeitos,
E posso decifrar engodos tantos
Vencido pelos vários desencantos
Aonde não seriam mais aceitos
Recebo calmamente esta verdade
E dela não mais quero outro veneno
E quando no passado me sereno
O olhar deste futuro que me invade
Promessa de talvez o renascer
Embora já tardio, da esperança
Reflete o que se vê na mesma dança
E tem imensamente este poder
De renovar a face em tantas rugas,
Mas sei que no final serão só fugas.

32488

Meus lábios te procuram como um sol
Que tanto poderia em tal calor
Traçar com maravilhas este albor
Tomando com furor todo arrebol,
Arrebatado agora não mais penso
Noutro momento e teimo em conceber
Em ti o mais brilhante amanhecer
Num ato tão sobejo quanto intenso
Porquanto eu me perceba mais tenaz
E seja ainda o mesmo aventureiro,
Quando a verdade chega, não me esgueiro
E tento tão somente a vida em paz,
Assíduo companheiro da ilusão
Poeta jamais sabe a direção.

32489

Meus olhos devorando fartos peitos
Ainda vivenciam o desejo
Embora com certeza quando vejo
Os sonhos se mostrassem, pois desfeitos,
E quando permaneço vivo, embora
A vida se apresenta em tal mortalha,
Cenário se transforma e já retalha
Enquanto a realidade me devora,
Não pude crer no quanto poderia
Sentir ainda viva esta esperança
Já não concebo mais e a vida cansa
De ter somente o sonho e a fantasia.
Rescindo com a glória e me retrato
No resto de alimento sobre o prato.

32490


Na vida, esse delírio já me incrusta
E traça com terríveis faces luzes
E quando com ternura me conduzes
O quanto acreditar ainda custa,
Gestando esta emoção eu não consigo
Vencer a realidade e ter o sonho,
E sigo mesmo assim, ledo e tristonho,
Tardio na verdade o doce abrigo,
Acende-se o luzeiro, mas é vão
Escura caminhada é o que inda tenho,
E quanto mais espúrio o meu empenho
As trevas nos meus dias moldarão
Restolho, escombro, escória tão somente
Há tanto nega ao solo, esta semente...


32491

Eu te amo! Te procuro, girassol,
E sei que a cada instante em flóreos prados
Os dias entre sonhos demonstrados
Preparam para mim raro farol,
Mas tudo se perdendo pouco a pouco
A solidão batendo em minha porta,
Apenas a ilusão inda conforta
E quando me percebo, quase louco
Vencido pela angústia de saber
O quanto fora inútil cada sonho,
O mundo se aproxima e já me enfronho
Nas sendas tão dispersas do sofrer,
Assim embora eu saiba a redenção
A cada ausência imensa dispersão...

32492

No quanto amor se aproxima
E domina o dia a dia
Novo tempo moldaria
Muito além do que esta estima,
O caminho ora já prima
Por saber tanta alegria,
E se ainda fantasia
Renovando em paz o clima,
Bebo as gotas deste orvalho
E se tanto inda batalho
Procurando enfim o sol
Nos teus olhos, horizonte
Onde a sorte já desponte
E me torno um girassol.


32493


Tantas vezes já quisesse
Encontrar o que perdera
A verdade concebera
E se ainda tento a messe
Nada mesmo recomece
No vazio que tempera
A saudade dura fera
Onde amor ora se tece,
Ledo sonho em abandono
Sem saber de qualquer sono
Noite clara, dia tenso,
O meu mundo se perdendo
Noutro tanto recendendo
Ao passado amargo e denso.


32494

Por maior que esta agonia
Inda mostre face escusa
A saudade tanto abusa
Quanto em mim já se recria,
Onde outrora até havia
A presença mais obtusa
Qual cometa o céu já cruza
E transforma a poesia,
Bebo cada amanhecer
E se tanto me embeber
Não transcende ao que pudera
Vivo apenas a promessa,
Mas a vida já tropeça
E avassala a primavera.


32495

Apelando contra a sorte
Entregando-me ao tormento
Quando sinto forte vento
Não encontro quem suporte
E se nada diz aporte
No vazio me alimento
E sem ter qualquer provento
Alma ao longe se transporte.
Transformando o quanto pude
Não encontro a juventude
Nem tampouco a mocidade,
O caminho percorrido
Noutro rumo pressentido
E a saudade ainda invade...


32496


Na verdade quando alcanço
O meu rumo no teu rumo,
Bebo a sorte, inteiro sumo,
E deveras não me canso,
Se eu pudesse, em tal remanso
Onde em paz eu já me aprumo
Cada sonho que consumo
Noutro sonho sempre avanço,
Esperança dita a sorte
E se tanto se conforte
Quem se fez em rebeldia,
Noutra face, este horizonte
Onde amor em paz se aponte
Traça sempre um belo dia.


32497


Ao tirar este retrato
Da parede, nua sala
A minha alma também cala
E traduz em paz tal fato,
O que tanto fora ingrato
Coração quando avassala
E se a morte fosse à bala
Não teria esse maltrato,
Vejo ali mero reflexo
Do que tanto foi sem nexo
E perplexo perdi
Desconexo caminhar
Onde quis ver o luar
E o vazio estava aqui.

32498

Quando vejo neste altar
Tua imagem, santa e bela
A verdade se revela
No que tanto pude amar,
E se ainda ao me entregar
Outro rumo a vida sela
Navegando, solta a vela,
Tão imenso vejo o mar,
Pode até ter sido engano,
Mas o sonho soberano
Não me deixa mais sentir
Novos ritos, novos dias
E contigo as alegrias
Dominando o que há de vir.


32499

Onde amor fez sepultura
Da emoção deveras clara,
Toda a sorte se declara
E transforma e se afigura
Tanto quanto já perdura
Outra vida agora aclara
E a certeza bela e rara
Nos meus olhos emoldura.
Faço assim de cada verso
Outro sonho aonde imerso
Não me canso de tentar
Perceber outro momento
E deveras pensamento
Toma em mim todo o lugar.


32500

Dominando este sentido
Venho ver felicidade
E se tanto ainda agrade
Nada resta em duro olvido,
Nos momentos, distraído
Bebo a intensa claridade
E adentrando a liberdade
Quem andara em vão perdido
Sabe agora da ventura
E distante da amargura
Beija a lua incandescente,
Turbilhões de pensamentos
Dos meus dias são proventos
Onde o encanto não se ausente.

terça-feira, 11 de maio de 2010

32401 até 32450

32401

Procurando encontrar a solução
De tantas heresias pude crer
Ainda num momento em desprazer
Na incrível e mais temida sedução
Ao vê-la transparente em plena sala
Cenário em absoluta fantasia
O quanto deste sonho moldaria
Uma alma que esta luz rara avassala,
Adentro cada fato do meu eu
E bebo do vazio em que soubera
A vida noutra face, esta quimera
Que há tanto cada passo concebeu,
E agora ao perceber tanta beleza,
Domina o pensamento uma incerteza..


32402


Do vazio que estava todo aqui,
Durante todo o tempo em minha vida
O quanto se prepara e já duvida
Quem sabe a solidão em que vivi,
Resulto deste nada em que criara
Um mero pesadelo e nada mais,
Ainda vejo ao longe estes cristais
Imagem transbordante, porém rara,
Vencer os meus momentos mais cruéis
E crer nesta impossível luz é fato
Que a cada novo tempo em paz reato
Bebendo da esperança em fartos méis.
Risonho meu futuro? Nada disso,
O passo continua movediço...


32403


Na quimera feroz, a solidão
Aonde perfilara o dia a dia
E tendo do meu sonho a companhia
Percebo quanto a vida fora em vão,
Resisto, mas não posso mais lutar
E assim que sinto o sonho noutra face
Porquanto cada passo já desgrace
Deixando para trás o meu sonhar,
E quando uma alma bruta enfim reluta
Sabendo ser mais fútil outro sonho,
No todo que deveras me proponho,
Imagem mais nefasta, mesmo astuta.
Fortuita luz decerto me abandona,
E todo sofrimento vem à tona...

32404

Anseio seus mistérios, me perdi
No imenso turbilhão, redemoinho,
E sinto que se ainda vou sozinho
Do todo imaginado, agora e aqui
Não tenho mais sequer qualquer vestígio,
A vida não passara de mentira,
E quando se acendera a frágil pira
Mantendo o dia a dia em vão litígio,
Resisto, muito embora saiba o quanto
É necessário mesmo algum alento
Jamais bebera a sorte e sem provento
Restando ao sonhador, dor e quebranto,
Não vejo mais a dita em luz imersa
E o mundo para o ocaso agora versa.


32405


À procura do afago, seu perdão,
Não pude controlar meu sentimento
E mesmo quando alguma luz invento
Apenas trevas, dores mostrarão
O quanto do passado representa
A quem se fez do todo, mero e vago,
E quando da esperança inda me alago,
A sensação que sobra é de tormenta,
Vencido sem sequer ter um sorriso
E morto em vida, apenas a mortalha
Selando cada noite agora espalha
No andar em temporais sempre impreciso,
Vasculho cada canto do meu ego
E assim em meio ao nada, inda navego.


32406

És pura, teus caminhos sem deslizes,
Mas quando se aproxima a noite intensa
Embora solitária, a recompensa
Deixando para trás constantes crises,
E ainda que desnuda em lua clara
A brônzea maravilha se mostrando,
O corpo todo em glória enluarando
A doce sensação agora ampara
E amarras teus desejos, cordoalhas
E nelas entre tantos cavaleiros,
Bebendo dos momentos lisonjeiros
Retiras do teu corpo tais cangalhas,
E alçando a liberdade em pleno gozo,
Caminho em luz insano e majestoso...


32407

Sem marcas, que enlodassem teu passado
Vagando pelas trevas noite afora,
O quanto em santidade te devora
Num fogo nunca em vida saciado,
Refém desta fatal hipocrisia
A sorte não se fez amiga quando
O corpo na menina emoldurando
A bela maravilha em que se via
Os seios entre fogos, fúria e sonho
Um cálice sublime, um brinde à Deus
Desejos em delírios, sei que meus,
O quanto do viver logo proponho,
Mas sei desta distância entre o querer
E o tanto que pudesse acontecer...

32408


Por mais que sempre foram infelizes
Os dias solitários de quem ama
E tenta no momento após a chama
Cevar com claridade chafarizes,
E tanto poderia, mas não creio
Se ainda fosse viva esta promessa
E o todo quando em muito se tropeça
Deixando o caminhar bem mais alheio,
Resgata o que já fora noutro tempo
E bebe desta senda enlouquecida
E vendo transcorrer assim a vida,
O sonho se tornando contratempo.
Atemporal loucura dessedenta,
A sorte noutra cena já se ausenta.


32409

Os dias que passaste; mas, dulcíssima
Reinando sobre todos os anseios
E assim ao se mostrar em belos seios
A pele em claridade sendo alvíssima,
Resisto? Não consigo e nem mais quero
Mergulho sem defesas, sou escravo
E quando nos teus sonhos eu me lavo,
O gozo se aproxima e mesmo fero
Explode divindades nos lençóis
E acetinadas fronhas, noite adentro,
No quando deste jogo me concentro
Alheio aos mais diversos arrebóis,
E assim ao ser deveras teu e inteiro,
Qual fora um principesco cavaleiro.


32410

Perdoa coração apaixonado
Que tanto quis viver e não soubera
Da vida como amarga e fria fera
Querendo acompanhar-te lado a lado,
Alado sentimento alçando em céus
Dispersos andarilhos, novo tempo?
Ao menos não percebo contratempo
Decifro tua pele e tiro os véus.
Delírios e desejos, ânsias, sonho...
Mergulho no teu mar e já naufrago
Cada momento audaz, sobejo afago
E nele sem defesas me proponho,
Assim a noite sabe de nós dois,
Mesmo que nada venha no depois.

32411


Num vestido de chita um corpo belo
Vagando pelas ruas, no infinito
De um sonho se mostrando quase um grito
Traslado aonde o quanto já revelo
E toda a sensação de estar contigo
Embora tão ausente dos teus braços,
Assim ao estreitarmos nossos laços
Eu quero e busco enfim sublime abrigo,
Depois de tantos anos, vida afora
A sorte novamente revigora
No olhar enamorado, doce cena,
Minha alma se traduz em fantasia
E bebe toda sorte que se cria
Tornando a minha vida mais serena...


32412

Caminha esta princesa e me domina
Não deixo de seguir a cada passo
O quanto de desejo ainda traço
E tento revogar a amarga sina,
Imagem tão risonha se compondo
E todo o meu passado se dilui
No quanto em poesia a vida flui,
E assim todo o futuro se repondo
No mesmo instante tento outro caminho
Diverso do que tanto imaginara,
A vida se fizera em dor e escara
E agora dos delírios me avizinho,
Martírios vou legando ao mero nada
É quando se percebe nova estrada...


32413


No tempo que sofri e não soubera
Da vida renovando a cada instante
E quando mais ausente se adiante
O tempo novamente em mansa espera
Reside em mim agora esta esperança
E dela me alimento, pois seria
A vida sem amor uma ironia
E quanto mais audaz a sorte avança
Gestando esta divina maravilha
E nela se refaz todo este alento
Do qual e pelo qual se me apascento
Ainda em luz superna a sorte trilha
Resgate de outro tempo em solidão,
Refaz a cada dia a imensidão...


32414

Procurando, nas matas, rica mina
Por onde poderia saciar
A sede de talvez sonhar e amar,
Uma esperança doce que fascina
Quem tanto não soubera de outro instante
Medonha e caricata noite escura,
Agora a solidão já não perdura
Enquanto noutro canto amor levante
E trace novamente um dia manso
E dele refazendo a minha história
Aonde se pensara merencória
A sorte que se ausenta, agora alcanço
E tento perceber serenidade
Na imensa turbulência que me invade...


32415

Meu mundo parecia desgraçado
Sem ter sequer um cais em ventania
Apenas o meu medo se fazia
Notar num tempo duro e desolado,
Restara tão somente algum segundo
De sonho em noite rara estrelas guias
E agora vejo vivas fantasias
E delas com prazer ora me inundo,
Riscando o céu deveras bela luz
E quando este delírio me conduz
Ao farto conhecer de amor sincero,
Não temo mais a mera solidão
E tendo em minhas mãos, o meu timão
Ancoro neste cais tudo o que eu quero…


32416

A lua no meu céu já não domina
Cenário em trevas feito, desumano,
E quando se mostrando apenas dano,
A morte se apresenta cristalina,
Nefasta vida afasta o caminheiro
Da luz que tanto quis e nunca vira,
Porquanto a própria terra tanto gira
O mundo não se mostra por inteiro,
Mas tendo este nuance posso ver
Mesquinha realidade que desfruto,
Minha alma se tomando em pleno luto
O quanto do meu mundo é desprazer,
E assim sem ter sequer um lenitivo,
Apenas tão somente eu sobrevivo...



32417

Embalde vasculhei o povoado,
E casa a cada fui me aproximando
Da doce fantasia e me tocando
A sombra de um momento do passado,
Vencido pelo amor e nada vendo
Senão este cenário em que mergulho
Afasto dos meus pés o pedregulho
E cada novo passo mais desvendo
Revigorando o sonho, mas no fim,
Apenas a insolente solidão,
Aonde imaginara a direção
A seca destroçando este jardim,
E nada vezes nada eu encontrei
Vazia dentro em mim a amada grei.


32418

Queria te encontrar, bela menina
E a vida poderia ser diversa,
Porém realidade desconversa
E apenas mal vislumbro ainda a mina
Aonde no passado fui feliz
E agora em trevas vejo o dia a dia
O bem querer decerto não queria
E tudo o que desejo contradiz,
Amor como se fosse enfim um cardo,
E dele nada resta nem a sombra
Espectro do passado ainda assombra
Difícil carregar imenso fardo,
E quando me percebo em enfadonho
Caminho, vejo o quanto sou bisonho...


32419


Olhando para o chão, onde buscava
As marcas do que fora um sentimento
E agora ao me compor em pleno vento
Do mar uma onda imensa, densa e brava
Assíduo companheiro da ilusão
Não tendo outro caminho senão este
O todo noutro instante se reveste
E mostra a mais completa solidão,
Assim sem nada ter e em nada crer
Perpetuando a dor invés da luz
Porquanto a cada ausência em que me opus
Rendido sem o amor reconhecer,
Vivendo a solidão e dela tramo
O quanto ser escravo e não ser amo.


32420

Não pude discernir tua beleza
Nem mesmo perceber um movimento
No qual ao me entregar tivera o alento
Além de transformar toda incerteza
Em área mais feliz ou mesmo quando
Erguendo o meu olhar, belo horizonte
Aonde novo tempo já desponte
E nele meu sonhar se emoldurando,
Mortalhas do que tive no passado
Agora são cerzidas pelo não
E pude perceber a ingratidão
No quarto há tanto tempo abandonado,
Vestindo esta diversa fantasia
Ao ver em teu olhar a hipocrisia...

32431


A luz do sol já não iluminava,
Quem tanto procurara algum abrigo
E assim ao me tornar um teu amigo
A vida noutra face se mostrava,
Aonde a solidão, imensa lava
Tomava meu caminho, hoje eu consigo
Viver além da incúria e do perigo
Neste oceano aonde o sol singrava
Sangrara muito tempo, solitário
Somente o medo, ausência, este corsário
Traçando num vazio uma existência
Agora em liberdade sou capaz
De ter entre meus olhos rara paz
Liberto da tenaz, vil penitência...

32432

Meu mundo resumia-se em tristeza
E assim não conseguia prosseguir
Vencido pelas ânsias de um porvir
Ao ter somente em tanta incerteza
Gerada pelo anseio insustentável
De um sonho mais audaz, e nada havendo
O quanto poderia em estupendo
Momento se tornara inalcançável
Saudades do que fora e não voltara
Notícias de outros dias, velhas eras,
E quando com terrores tu temperas
A vida semeando em vã seara,
O quadro se mostrara em tez imunda,
Agora a paz enfim domina e inunda...


32433

Mas, quando mais eu me desesperava
Após sentir a imensa turbulência
A vida com terrível virulência
A sorte se moldando quase escrava
Do sonho mais audaz e até quem sabe
Pudesse acreditar noutro momento,
E quando o mar insano e violento
Domina e deveras já não cabe
Esparramando em mim inundações
E os elos se rompendo dia a dia
No todo que me resta mal se via
Do quanto fui feliz, recordações.
E ainda não consigo respirar,
Porém eu acredito haver um ar.


32434


Alvorada em que selo o meu anseio
Traçando imensidão em azulejo
E quando me percebo e assim prevejo
Um tempo aonde em paz eu já não creio.
Sorvendo cada gota da ilusão
Exposta num cenário em vária cor,
Prudência não combina com o amor
Tampouco esta nevasca no verão,
Assim ao me sentir desamparado,
O templo que criara já ruindo,
O todo imaginado se fluindo
Caminho da esperança abandonado,
Eu vejo ao fim do túnel claridade
De um novo alvorecer que o sonho invade...


32435

Nos braços das estrelas, adormeço
E cismo em encontrar a que transforme
A vida noutro tanto e se disforme
Caminho se mostrando sempre avesso,
Residualmente aguardo alguma chance
De ter o meu caminho constelado,
E nele se mostrando um novo lado
Aonde à fantasia eu já me lance,
Negando este vazio em que ora habito
Riscando qual cometa um céu imenso,
E quando deste encanto eu me convenço
O mundo se mostrasse mais bonito,
Liberto coração alçando estrelas
Capaz de até quem sabe ora contê-las?

32436

O canto que dedicas não escuto
Ausente dos meus olhos, meus ouvidos
E aonde se pensassem divididos
Momentos num cenário bem mais bruto,
Arcando com enganos ergo o olhar
E busco no horizonte este clarão,
Meus dias se mostrando em negação
Por onde poderia começar?
Restando esta tormenta e não me iludo,
Se nada escuto agora, e não percebes
Inúteis na verdade velhas sebes,
O coração mantenho quieto e mudo;
Roubando do silêncio o seu encanto
Mesmo não mais te ouvindo, teimo e canto.


32437

O medo de morrer adentra a sala
E tomando o meu quarto já de assalto
Aonde se mostrasse algum ressalto
Somente sem defesas avassala.
Um nauta sem saber se houvera um norte
Vazio caminhar em noite escusa,
A sorte noutra senda não abusa
E apenas vejo ao fim tormento e morte,
Não quero acreditar, mas desta forma
O mundo não permite outra alegria
O quanto inutilmente desfazia
E ao mesmo tempo tudo se deforma,
Mergulho nesta insânia e sem ninguém
Apenas o silêncio me contém.


32438

Na palidez tristonha, nada sei
E nem acreditara em solução
O mundo refletindo a alegação
Que tantas vezes quis e até ousei,
Mas sendo necessária à vida, a lei
O quanto se perdera em direção
E desta forma as noites não virão
Traçando o que deveras desejei,
Arcando com enganos sou capaz
De mergulhar na insânia e tentar paz
Servindo de alimária ou mesmo até
Singrando no vazio em tez sofrível
O canto se mostrando mais audível
Traçando este destino em rara fé.

32439

A vida me transmuda a cada instante
E sei do quanto posso e até não pude
Deixando no passado a juventude
Ao largo do infinito se adiante
O passo de quem tenta novamente
Um mundo aonde a paz seja fiel,
E assim girando em mim um carrossel
Invade e toma agora a minha mente,
E posso acreditar no que talvez
Ainda na inconstância já não sabes
Bem antes que em verdade tu desabes
Ou tente controlar o que não crês,
Eu sigo peito aberto rumo ao tanto
E nele com ternura envolto manto.

32440

Espero fantasias, nada além
E tudo poderia ser diverso
Do quadro mesmo quando desconverso
E ainda novo tempo ao longe vem,
Medonha face dita este abandono
E faço da mortalha um avatar
Pudesse noutro rumo mergulhar,
Porém só do vazio ora me adono
E adornam-me terríveis luas turvas
Ruborizada noite em tom sanguíneo
Procuro qualquer coisa em meu domínio
E tento contornar em paz as curvas,
Mas sei que nada existe após a estrada
E mesmo assim caminho rumo ao nada!


32431

Em meio a tempestades, peço tréguas
E sei quanto impossível aportar
Sem ter sequer nem mesmo algum lugar
Distante dos teus braços tantas léguas,
Vencido pela angústia em farto horror
Matizes são grisalhas no meu céu,
O amor jamais cumprira seu papel
E tudo se mostrando a decompor,
Facetas variadas da emoção
Ariscos dias teimam em surgir
Renegam a esperança e sem porvir
Apenas outras cenas mostrarão
O quanto que perdi da vida em sonho,
E mesmo assim a tê-lo eu me proponho.

32432

Nos campos procurando uma açucena,
Quem sabe nova cena se mostrasse
E quando a noite veio mais amena
Traçando em harmonia nova face,
A sorte que deveras me envenena
Agora noutro tanto já se trace
E vendo a lua imensa, rara e plena
O pensamento os ares logo grasse,
Gerando dentro em mim novo horizonte
Aonde meu futuro já se apronte
E traga com ternura o que não vira,
Da tez enlameada onde tivera
O duro sortilégio da quimera
A vida transmudando, roda e gira...

32433


A cor maravilhosa deste olhar
Tornando este horizonte azulejado
Transforma toda a dor do meu passado
E toma todo o espaço, devagar.
Pudesse ser assim a vida inteira
Cenário abençoado em tal matiz,
Porém o dia a dia já desdiz
A cena se demonstra, mas ligeira,
E tudo não passando de miragem
Apenas a brumosa noite vem
E nela novamente sem ninguém
Cinzenta na verdade esta paisagem,
Pudera ser diverso, ah quem me dera,
Porém inutilmente uma alma espera...

32434


Encanta meus olhares, me alucino,
Não deixe de volver ao menos tente,
E quando retornar tanto apascente
Moldando com carinho o meu destino,
Restara de um poeta mera sombra
E dela a costumeira invalidez,
O quanto do meu sonho se desfez
E assim a realidade agora assombra,
Somando o que pudera e não existe
Aumenta-se o temor do dia a dia,
E sem ter mais minha âncora a sangria
Domina o coração amargo e triste,
E quando neste espelho eu me retrato
Apenas um espectro caricato.

32435

Por quantas noites, tive tanta insônia,
Nem mesmo acreditando noutro dia
A vida sem sentido se fazia
Uma ilusão atroz e nunca idônea
A cólera encetando a minha dita
E ainda se mostrando inutilmente
A lua que deveras se apresente
E mesmo sendo enorme e até bonita
O quanto se perdera deste sonho,
Poético cantar não mais fascina,
E quando se percebe amarga a sina
O quadro se afigura ora medonho,
Resisto, mas desisto logo adiante
A vida não passara de um instante...

32436

Amor é sentimento em desatino
E nada salvaria quem procura
A luz em noite eterna e sem brandura,
O peso do viver já não domino,
Arrisco-me decerto e nada vem.
Somente o medo tanto me acompanha
A sorte se mostrara noutra sanha
E agora novamente sem ninguém,
Nefasta realidade molda a cena
E tudo se mostrando quase em vão,
Ainda poderia no perdão,
Mas nada do que tento ainda acena
E assim sem ter remédio eu sigo alheio
Satélite sombrio, astro eu rodeio.


32437

A minha salvação já não mais vejo
E audaciosamente um suicida
Prepara cada cena da partida
E tanto quanto posso em cada ensejo
Mergulho neste abismo que criara
E arranco estas raízes mais profundas,
E quando com ternura tu me inundas
A sorte vai sedando cada escara,
Mas nada cicatriza a imensa chaga
A morte se tornara uma obsessão
E mesmo se aos meus olhos se darão
Estrelas onde o sonho em paz se afaga,
O sortilégio dita a minha sina
E o luto prematuro me fascina...


32438


Amor que recomeça e novamente
Adentra sem perguntas, por saber
O quanto é merecido este prazer
E assim se molda em paz e traz à mente
Recordações diversas e felizes
Vencendo os desacertos de costume
Ainda que deveras inda rume
Já não comportaria mais deslizes,
E sendo sempre etéreo navegante
Restando cada passo rumo ao falso
E tanto me entranhara o cadafalso
Masmorra onde ilusão já se agigante
Usando da esperança qual tecido,
Futuro em negação e sem sentido.


32439

Se faz destas terríveis emoções
O engano dia a dia sem caminho
E quando me percebo e estou sozinho
Das sendas outras tantas divisões
Herdades e veredas, alamedas
Restingas, áreas nobres e agrovilas
E quando por destinos vãos desfilas
Ainda que um sorriso me concedas,
Eu sinto quão espúrio o ser assim
Vagando sem destino ou calmaria
A morte noutro tanto teceria
Angústia que eu conheço e sei sem fim,
Redoma protegera e agora em nada
A vida finalmente transformada.


32440

É fonte do desejo, minha mina,
O encanto destes olhos sedutores
E sei que te seguindo aonde fores
Qual fosse algum farol logo domina
A cena e não me deixa nem pensar.
Mergulho sem defesas em teus braços
E quando me percebo em meus cansaços
Deveras lá pretendo descansar.
Vencer estas batalhas costumeiras
Deixando-me levar por correnteza
E mansamente ser a tua presa
Estrelas que me trazes mensageiras
De deuses e de sonhos, alegrias,
Que a cada nova noite tu recrias.

32441

Embalde procurando corações
Aonde poderia ter um porto
E quando a sensação de atroz aborto
Tomando com terror os meus timões
Não vejo mais sequer embarcações
O mar de uma ilusão agora é morto,
E tanto se fizesse quando exorto
Ao passo mais dorido em que me expões
Vencido e sem saber se tenho ainda
A sorte de talvez sobreviver
No quanto pude mesmo apodrecer
Verdade se apressando já deslinda
Um horizonte turvo e nada mais,
Expondo-me decerto aos temporais.


32442

Escuto tua voz; sempre distante
E quando me pensara aproximando
As ilusões formando ledo bando
No quanto cada passo se adiante
Mordaça dominando minha luta
E quanto mais audaz já não consigo
Tentara futilmente algum abrigo
E a sorte se mostrara mais astuta
Restando-me somente a farsa feita
Tentáculos diversos da emoção
E nada se mostrara desde então
A morte a cada ausência se deleita
Mesquinhos dias mostram o que sou,
Somente este não ser, hoje restou.

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A vida vai passando em mais diversos
Caminhos entre pedras e tormentas
E quando noutra farsa te apresentas
Inúteis com certeza são meus versos
E sei dos meus enganos, mas prossigo
E novamente em falso agora eu piso,
Aonde se pensara mais preciso,
O templo sonegara algum abrigo
E vejo esta seara aonde outrora
Pudesse imaginar quase um templário
Agora o sofrimento é necessário
E a fúria do não ser já me devora,
Quem fora no passado resoluto,
A cada novo dia mais reluto.

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Gorjeio da saudade me alucina,
E teimo contra tudo e contra todos
Os dias acumulam seus engodos
A sorte se prepara pra chacina,
O pendular caminho em turbulência
A vida não prepara este andarilho
E quando no vazio ainda eu trilho
O olhar se toma intenso em vã clemência
Pudesse caminhar em liberdade
Alçar corcéis em céus maravilhosos
Meu Pégaso em destinos pedregosos
A solidão decerto ainda invade
E quantas vezes busco alguma luz
Aonde a incoerência se produz.


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As pálpebras fechadas, livre sonho
Alçando os horizontes mais diversos
E tanto neste mundo vão imersos
Caminhos onde mesmo eu me proponho
Vencer as mais cruéis dificuldades
E em todas as vitais vicissitudes
Porquanto ainda mesmo agora mudes
No todo a realidade ora degrades
E resta apenas isso e nada mais
Afigurada a sorte em dissonância
Semeias no vazio a discrepância
Em tons profanos, sons quase venais
E tento ainda ver solucionado
O mundo que ora trago do passado.

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Os olhos baços, tristes nada dizem
E quando mais audazes os meus passos,
Caminhos que procuro agora lassos,
Realçam e deveras contradizem
O quanto pude crer em libertárias
Manhãs somente em treva e nada além,
Semente desairosa não convém
Nem mesmo quando sonhas sendas várias
Corriges os meus erros, mas persisto
E tanto quanto posso ainda creio
Ao mundo prosseguindo sempre alheio
No olhar já refletido este Mefisto
Que tanto me açodara no passado
E agora de meus dias apossado.

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Num átimo te encontram luzes fartas
E teimo contra toda a virulência
Aonde se bancando em inocência
Os sonhos mais profícuos tu descartas,
Reajo contra a fúria que alimento
E tento novamente ser feliz
O encanto se desvia e por um triz
Renega da esperança algum provento
Morrendo dia a dia, pouco a pouco
Não tendo outra saída, embora tente
Por mais que a sorte mude ou novamente
Deixando o meu viver audaz e louco,
Eu quero e não consigo libertar-me
A vida me condena ao vão desarme.

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As dores que provocas sem remédio
Os dias refletindo o nada ter
E ainda se pudesse bem querer
O quanto se perdendo em tosco tédio,
Adentro as fantasias e não vejo
Além deste cenário decomposto,
O amor se mostra agora em vão desgosto
E tudo o que pretendo em vil desejo
Açoita-me decerto em noite vã
O látego cortando minhas costas
Entranhas viscerais estando expostas
Jamais conhecerei outra manhã
Assim a vida segue em ódio e fúria
Não resta-me senão dor e lamúria.


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A morte se aproxima e não se engana
Domando cada passo que inda tento
E o céu em turbulência e violento
Seara se mostrando desumana,
Mordaz a face escusa de quem teima
Vencer com calmaria esta borrasca
Do todo não restando sequer casca
Minha alma se apresenta em dura queima,
O céu em diademas constelares,
Agora em tom brumoso morta a lua
Enquanto ao léu o sonho em vão flutua
Disperso do que tanto mais sonhares
Não posso e nem pretendo ter mais vida,
O quanto me restara atroz agrida

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Noutro momento, lúbrica deidade
Em lânguido cenário; já desnuda
E quando mergulhando embora iluda
Delírio contumaz audaz invade
Erguendo o meu olhar a vejo e tento
Num átimo outro tanto mais veloz,
E quando me percebe a vil algoz
Esquiva se transforma em pensamento,
Aonde te encontrar? Somente em sonho?
Não posso ter a vida em tal loucura
A dor além da dor assim perdura
E todo este viver se faz medonho,
Arisca criatura se esvaindo,
E o tempo se mostrando em dores, findo...