terça-feira, 20 de abril de 2010

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30219

Nefastos mensageiros do passado
Batendo em minha porta, noite afora,
E quando a poesia não ancora
O barco há tanto tempo naufragado,
Mergulho neste insano mundo errado
E a fonte em sofrimento que se aflora
Matando uma esperança desde agora,
O tempo se mostrando noutro fado.
Restando ao sonhador quem sabe um dia
Aonde com certeza poderia
Viver felicidade, mas aonde
O mundo se transforma e nada diz,
O meu olhar tristonho este infeliz,
Em que lugar diverso, o sonho esconde?

30220

Revoltos os cabelos de quem amo
Tocados pelo vento, em brisa mansa,
A sorte quando a ti, querida alcança
Sabendo do prazer que ora reclamo,
Não deixa qualquer dúvida e se eu chamo
Usando o verdejar de uma esperança
Ainda procurando esta aliança,
Não quero ser deveras servo ou amo,
Apenas companheiro de ventura
E tanto se mostrasse em tal ternura
Caminho desvendado pelo amor,
Seguindo cada passo rumo ao tanto,
Nesta beleza insólita, se eu canto
A vida se proclama num louvor...


30221


No casto olhar sobeja maravilha
E tendo esta emoção nada retém
O passo de quem busca por alguém
Enquanto luas claras a alma trilha
E sendo muitas vezes armadilha
O encanto que decerto já contém
Quem sabe desvendar e muito bem
Porquanto como um sol imenso brilha,
Esgotam-se meus versos na procura
De quem se fez além, doce ventura
E sabe transtornar enquanto acalma,
Assim ao me entregar sem mais defesa
Seguindo os rastros tantos da beleza
Entrego sem pudor; inteira, esta alma.

30222

Na palidez sublime do luar
Tocando a tua pele em noite imensa,
Minha alma a cada passo se convença
Da bela maravilha de te amar.
E tendo esta certeza a me tomar,
Pujante caminhada em recompensa,
Enquanto esta paixão decerto intensa
Não deixa sobrar nada em seu luar
Eu tenho esta feliz e rara messe,
E quando cada noite recomece
Contigo me entregando sem saber
Do quanto poderia em dor talvez
Gerando assim completa insensatez,
Mergulho sem defesas no prazer...

30223


Vermelhos olhos dizem do que tanto
Em dores perfilei os vários dias
E neles emoções são heresias
Coleto a cada não um novo pranto
Por vezes solitário eu me adianto
E tento disfarçar em poesias,
Ainda que deveras sejam frias
Palavras na verdade são meu manto.
E posso até tentar vencer o inverno
Eterno que domina a minha vida,
Mas quando se percebe sem saída
O quanto poderia ser mais terno
Jamais reconhecendo o meu final,
Teimoso; ainda tento em ritual...


30224


Nestes teus lábios quentes meu sossego,
Aonde poderia pelo menos
Viver dias mais claros e serenos
E neles com ternura novo apego,
Mas sei que na verdade sigo cego
Vencido pelos medos e venenos,
Seriam mais tranqüilos quando amenos,
Mas como se o vazio ainda nego?
Rescinde-se deveras o contrato
E quando mais ausente me maltrato
Regato em aridez nega a torrente,
E tendo tão somente um verso em mãos,
Os dias serão sempre assim tão vãos
Por mais que uma esperança se apresente.


30225


Das sensuais carícias porventura
Não posso mais negar algum resquício
E quando mergulhara em precipício
A vida sem ternura se amargura,
E tanto quanto posso em noite escura
Fazer de uma esperança velho ofício,
O mundo sem caminho, etéreo vício
Enquanto este terror doma e perdura.
Ferrenhos caminheiros noite afora,
Amor quando em amor já não decora
O tempo de sonhar vejo no fim.
E tudo o que pensara destruído,
Caminho totalmente sem sentido,
Renega mesmo o sonho de onde vim...


30226


Sanguíneas cores ditam meu futuro,
E tendo disfarçar tantos espinhos,
Aonde os dias fossem mais sozinhos,
Apenas encontrando ao fim o escuro.
E cismo contra a força, e me torturo
Ausentes dos meus olhos colos, ninhos,
E tento mesmo sendo em desalinhos
Momentos em que insano me aventuro.
Resisto vez em quando, mas não vejo
Sequer a menor sombra do desejo
Domando o que seria alguma luz.
E tendo o desvario como guia
Aonde se pudesse a poesia,
Somente esta mortalha me conduz...

30227


A foto amarelada na gaveta
O tempo não perdoa mesmo quando
O olhar em novo dia se tomando
Ao quanto foi feliz já me arremeta,
Quem dera a vida fosse algum cometa
E assim novo momento clareando,
Jazendo no meu peito este nefando
Caminho sem sequer desejo e meta,
Perdido em noite escusa, sem ninguém
Somente a solidão ainda vem
E torna insustentável minha vida,
A sorte que pensara fosse minha,
Há tanto se perdera e hoje daninha
Não sabe e nem procura mais saída...

30228

Torturas ditam prantos neste que
Durante tanto tempo imaginava
Que a vida fosse mansa, mas a lava
Domina o dia a dia e nada vê
Somente este vazio e ainda crê
Na sorte que deveras se escapava,
Enquanto a poesia for escrava
E o mundo se perder; amor cadê?
Nem sombra do que fora no passado
Apenas um momento que adorado
Previa melhor sorte no futuro.
Resíduo do que fora fantasia,
A morte se aproxima e propicia
Cenário amargo e torpe, sempre escuro...


30229

Aonde houvesse a rubra maravilha
Em fráguas mais constantes, nada veio
Somente a cada passo outro receio
Enquanto a solidão, fera armadilha,
Demonstra o passo a passo e não mais brilha
A sorte que deveras num anseio
Pudesse transbordar, mas nunca cheio
O copo da esperança agora humilha
Uma alma que palmilha em vão espaço
E a cada amanhecer logo desfaço
O todo que este sonho permitira,
Ainda que pudesse acreditar
Ser meu o raio imenso do luar,
Porém a terra roda e eterna, gira...


30230


Amando estes florais, jardins e cores,
Não pude discernir as falsas luzes
Aonde com terror tu me conduzes
Seguindo o teu amor por onde fores,
Medonha face expondo tais horrores
E neles tão somente vejo as urzes,
E quando poderia, reproduzes
A cada novo dia mais rancores,
Arrasto-me deveras e não vejo
Sequer o que talvez fosse ternura,
A vida sem razão tanto amargura
E nela algum sorriso, vão lampejo,
Não pode traduzir felicidade,
Enquanto este temor domina e invade...


30231

Amor por ser tão lindo e perigoso
Gerando a cada instante dor e glória
Enquanto face amarga e merencória
Por outro lado, riso pleno e gozo,
Assim este que é sempre majestoso,
Mudando o rumo inteiro de uma história
Por mais que se perdendo diz vitória
Por mais que tantas vezes caprichoso,
É nele onde me vejo mais alegre
E quando a minha vida mesmo integre
Persiste após tempestas, sendo assim
Eterno enquanto vivo num momento,
Delírio onde em tortura me apascento,
Início de um sobejo ou triste fim.


30232

Por ser de tantas flores, preferida
A rosa se mostrando em tanto espinho
Traduz a bela fêmea em seu carinho
E nela com ternura tanto agrida.
Mergulho nesta insânia e minha vida
Sabendo tão dorido o raro ninho,
E quando em teu perfume enfim me aninho
O corte preparado, outra ferida.
Assim ao me mostrar no amor inteiro,
Cuidando com afinco do canteiro
O tempo transcorrendo em água e sol.
Dourando com suprema maravilha,
Ao mesmo tempo dita esta armadilha,
Cegando e me guiando, qual farol...

30233


Repousa no seu leito a bela dama
E deixa que se veja seminua
Beleza assim exposta em plena lua,
Ternura que deveras quer e clama,
Acende a cada instante a fúria e a chama,
Minha alma neste instante já flutua
E vendo aquela deusa, assim cultua
Envolta por delírio em rara trama,
Assiduamente tento da janela
Vencer a timidez que se revela
E prisioneiro mesmo desta que
Ao se mostrar inteira não percebe
Quanto ilumina assim a imensa sebe
E embora assim exposta; nem me vê.

30234


Beleza se prateia em clara cena
E tudo o que pudesse ser assim
Tocando com ternura dentro em mim,
Minha alma ao ver teu corpo se serena.
E quando amor domina e me envenena
Reinando sobre todo este jardim,
O peso do passado de onde vim,
O sonho de um futuro concatena.
E creio ser possível ter no olhar
Além desta beleza a se mostrar
Sinceras luzes feitas deste amor.
E tanto me entreguei que neste instante
Ao ver este cenário deslumbrante
Em pleno inverno e eu morto de calor...


30235

Gorjeia o coração e ao longe escutas
Clamares de quem tanto te deseja
E a sorte desta forma sempre seja
Diversa da que outrora em tolas lutas
Dizia desta insânia, mas relutas
E quando toda a glória se é sobeja
O amor neste momento enfim viceja
Vencendo estas tormentas, toscas, brutas.
Assim ao se mostrar inevitável
O mundo molda em cor suave a amável
O dia mais feliz que porventura
Virá e me tornando bem mais forte,
Contendo toda a luz que nos conforte
Calando este vazio que amargura...


30236


Qual fora em plena noite um passarinho
Vagando em noite escura sem destino,
O coração audaz deste menino,
Procura por alguém qual fosse um ninho,
E tantas vezes segue em vão, sozinho,
Porquanto noutro encanto me fascino,
O amor sendo demais e cristalino,
Moldando novo encanto onde me alinho.
Recebo cada gole desta lua
E bêbado de luz nada contém
O canto enamorado deste a quem
A vida se mostrara enquanto atua
Gerando novo sonho a cada instante,
Um pássaro liberto e radiante...


30237


Quão delicada e amarga a vida quando
É feita em desventura ou esperança,
E quando o nada além do sonho alcança
O mundo pouco a pouco transformando
O que pensara belo num nefando
Momento aonde a fúria da lembrança
Aos poucos destruindo a temperança
Demonstra outro cenário se moldando
Do quanto poderia, mas não fora,
E esta alma tantas vezes sonhadora
Perdida em farta angústia, sem por que.
Assim ao me encontrar em noite fria,
Ausente dos meus olhos poesia,
Procuro qualquer luz, porém cadê?


30238


Sentindo o teu perfume inebriante
Qual fora de uma rosa, a mais bonita
A sorte se mostrando enfim bendita
Mudando toda a vida num instante,
Mergulho neste encanto deslumbrante
Uma alma sonhadora ora acredita
Na senda mais sublime e assim edita
A cada novo passo um diamante.
Porém realidade volta à tona
E toda esta ternura me abandona,
Restando para mim a solidão,
Silente noite em busca de horizonte
E nada nem a sombra já me aponte
Do amor e da esperança a direção.


30339

Alvura toma conta desta noite
Em plenilúnio vejo este cenário,
O amor quando demais, um relicário
E nele cada sonho que pernoite,
Embora a solidão sempre em acoite
Eu tento perceber qual visionário
Momento mais feliz, porém é vário
O sonho tão saudoso, vil açoite
E quando esta vergasta me entranhando
Rasgando a minha pele expondo os ossos,
Das velhas ilusões, meros destroços
E o que pensara outrora bem mais brando
Agora se percebe em dor imensa,
Mas mesmo assim amar sempre compensa.


30340

A boca carmesim de minha amada
Tocando com ternura lábios, pele
E a tanta maravilha me compele
Avança sem pudor a madrugada,
Agora nos seus braços caminhada
Enquanto em tal delírio já se sele
O amor que tantas vezes me compele
Tornando mais suave esta jornada,
Vencer os meus temores, ser só seu
Há tanto noutro mar sonho perdeu
A rota e do timão sequer sinal,
Mas quando me encontrei consigo eu pude
Rever a tão longínqua juventude
E amor se transformou fenomenal!


30341


Teu rosto gera em mim sonho diverso
E tento decifrar caminhos onde
Amor com tanta glória não se esconde
Usando em tradução somente o verso,
Pudesse enfim conter este universo
E nele toda a glória. A luz responde
E nesta maravilha enquanto sonde
Estrelas encontrando encanto imerso
Nos brilhos mais sutis daquela a quem
Eu dedicando a vida, já contém
Licores de raríssimo sabor.
Vivendo cada instante sem perguntas
As almas quando andando sempre juntas
Transcendem ao que fosse mesmo amor.


30342

Um astro navegando em céu imenso
Cometa que persigo a cada sonho,
E quando novamente me proponho
Viver amor por certo eu me convenço
Do passo pelo qual já recompenso
O dia mais atroz, duro e medonho,
Agora o meu caminho é mais risonho,
E sei do sentimento mais intenso,
Vencer os meus antigos desalentos
Bebendo com prazer dos vários ventos
Aberto o coração nada segura
Quem tanto se entregou e sem defesas
Seguindo com ternura as correntezas
De um belo amanhecer com tal brandura...


30343

Ao repousar decerto no teu colo
Depois de tantas noites solitárias
Enfrentando quimeras, procelárias
Encontro a maciez de um raro solo,
E quando me encontrando sem o dolo
Das duras tempestades, alimárias
E nelas alegrias temporárias,
O quanto de ternura em paz assolo,
Resisto aos meus tormentos e persisto
Lutando contra a força das marés,
E sei do quanto amor que tens, pois és
A deusa que buscara a cada instante,
E assim em tanto amor sabendo disto
O mundo se mostrara deslumbrante.

30344


A frialdade toma a primavera
Matando qualquer flor que ainda houvesse
E tendo este terror aonde a messe
Sublime a cada instante mais se espera,
O amor ao se mostrar temível fera
Gerando com horror a dor que tece
E toma cada instante eu tento em prece,
Somente este vazio degenera
O quanto fui feliz e não sabia,
Assíduo passageiro da alegria
Agora solitário nada tenho,
O amor que tanto quis, belo e ferrenho
Renega algum porvir e sendo assim,
Preparo a cada dia, o amargo fim...


30345


Sentindo em teu olhar a lividez
De quem imaginara novo sonho
E tendo este momento tão bisonho,
No qual com toda a dor já nem me vês.
Residualmente ainda tens na tez
O brilho solitário, mas tristonho,
E quando novo dia até proponho,
Passado neste instante já desfez
O que pudesse ser bem mais tranqüilo
Apenas o rancor ora desfilo
E beijo as tuas sombras, nada mais,
Agora o que se pensa é noutro porto,
Amor há tanto tempo semimorto
Já não resiste mais aos vendavais


30346

A noite me inundando de saudades
Trazendo esta lembrança mais atroz
E nada nem ninguém ouvindo a voz
Apenas se vislumbram tristes grades,
E quando novamente tu me invades
Qual fosse de teus rios tosca foz,
O amor que sempre fora vivo em nós
Agora não resiste às tempestades.
Medonha face vejo neste espelho
E quando vez por outra me aconselho
Resposta repetida: negação.
As aves que se foram noutro bando,
O medo em terror se transformando,
Sem retornar jamais a arribação.

30347


Enquanto se banhando em frio e neve
A vida não permite ao sonhador
Qualquer momento feito em tanto amor
E mesmo ao nada ser o sonho atreve,
Sem ter sequer quem possa ou mesmo leve
Aos mais sublimes mundos, tanto horror
Gerado pelo imenso dissabor
Uma alma que pensara ser mais leve
Agora não consegue se livrar
Das dores que carrega desde então,
Aonde imaginara algum verão
Somente neve e frio a me tocar,
Ausente de teus braços, o que faço?
O mundo se perdendo em ledo espaço...


30348

O fogo se espalhando em noites vãs
Transforma os meus momentos e percebo
Que amor não se mostrara só placebo
Traçando em alegrias amanhãs
E quando se delira em tais afãs
O encanto que me dás sobejo, eu bebo
E tanta maravilha enfim concebo,
Deixando para trás noites malsãs...
Pudesse ser assim, talvez um dia
O mundo novamente poderia
Traçar aurora clara em tal matiz
Gerando dentro em mim a primavera,
Mas quando a solidão doma e tempera,
O quanto desejei já se desdiz...

30349


A indiferença mata qualquer luz
E torna mais sombria a minha vida,
No quanto poderia, mas duvida
A mão que tantas vezes me conduz.
Risonho caminhar em contraluz
Espalha a cada verso a despedida,
E aonde se pensara mais ungida
Nefasta tempestade reproduz.
Cenário tão mesquinho do passado,
Agora novamente relembrado
Calado coração já não escuta
Sequer algum bafejo da esperança
E quando ao nada ter amor me lança
Afasto-me deveras desta luta...


30350


No gélido caminho envolto em medo,
Arrisco vez em quando algum alento,
Mas quanto mais procuro e me atormento,
Deveras poesia não concedo,
E sei já desde sempre o tolo enredo,
Urdindo dentro em mim o sofrimento,
Buscara ter somente um manso vento,
Mas quando em tempestade desde cedo
O mundo se transforma e nada tendo,
Somente este terror sem dividendo,
Resíduos de uma vida mais feliz.
A porta já cerrada agora impede
E todo o caminhar não mais procede
A vida a cada instante contradiz...


30351


A lava que se oculta em meus vulcões
Guardada sob a face de quem tenta
Seguir a vida em paz, mas violenta
Loucura se explodindo em expressões
Diversas quando a fúria tu me expões
E nem mesmo a ternura me apascenta
Assim nesta procura uma alma atenta
Sabendo da caçada e dos arpões
Não deixa que se faça em erupção
O dia mais terrível desde então
Gerado pela insânia de um vazio,
E quando me percebo solitário,
O amor ausente, e tanto necessário
Furor se afasta logo e assim me esfrio.

30352


Quando eu te falo em plena mansidão,
Usando desta calma que aparenta
Diversa realidade se apresenta
Tocando com tal brisa este verão,
Mal sabes da possível explosão
E nela a tez temível, violenta,
Porquanto uma alma insana não se ausenta
Apenas se calando, negação.
Vestindo a fantasia que inda resta,
Por mais que talvez seja tão funesta
A festa se negando desde quando
O amor que imaginei nunca existiu
E o coração que pensas ser gentil,
Aos poucos em tal fera transformando...


300353

Uma voz impassível disfarçando
A furiosa mente de quem tanto
Vencera com terror o desencanto
E mostra nova face, em tom mais brando,
O mundo que criara desabando
Cobrindo a minha pele escuso manto
E tudo se perdendo em tal quebranto,
A sorte noutra dor se transmudando,
Pudesse ser feliz, talvez um dia,
Quem sabe novo sonho moldaria
Tirando esta carcaça que recobre
Uma alma muitas vezes mais venal
Deixando ver a face mais banal,
E até quem sabe uma alma pura e nobre.


30354

Paixão que em frenesi domina uma alma
Daninha face exposta do prazer,
E quanto mais medonho posso ver
O quanto com terror, negara a calma
Nem mesmo a poesia que me acalma
Pudesse contra a fúria do saber
Ausente dos meus olhos o poder
De ter bem mais distante qualquer trauma,
E assim ao me sentir abandonado,
Nefasta realidade, amargo enfado,
Risonha tempestade no horizonte
Em brumas e neblinas tons grisalhos,
Procuro pelo menos por atalhos
Que volvam a sorver da rara fonte.


30355


O sol ardente toma este cenário
Num horizonte azul, brilhar intenso
Mas quando no que fomos inda penso,
O dia se transforma e sinto o vário
Terror moldando em dor o itinerário
Do quanto poderia menos tenso,
E assim ao me entregar, não me convenço
Sequer de um novo dia solidário.
A solidão é dura e quando enfrenta
As ânsias de uma luz gera a sangrenta
Batalha por momento mais gentil,
E tudo se perdendo num instante
O mundo que eu sonhara fascinante,
Somente o desespero então se viu.

30356


Ondeia sobre os vastos milharais
O vento transformando em áurea luz
Beleza que à beleza me conduz
Tornando tão sublime os mais iguais
Momentos onde em tons tão magistrais
Dourada face expressa e então seduz,
Neste horizonte aonde o olhar eu pus
Delírios em imagens divinais,
O teu cabelo espesso, a minha pele,
Loucura de um desejo me compele
A navegar caminhos belos, raros
E tendo em flavos sonhos a visão
Do amor gerando assim nova explosão,
Os pelos que me tocam; louros, claros...

30357


Docemente belo teu sorriso,
Enquanto me fascina e me provoca,
Amor não se contendo já se aloca
E bebe deste imenso paraíso,
Não deixa que se tenha algum juízo,
E sem aviso adentro rara loca
E quando minha boca a tua toca
Jamais é necessário algum aviso,
Vibrando na emoção de um beijo teu
Meu mundo no teu mundo se verteu
Um afluente apenas, nada mais,
E quando me percebo junto a ti,
Vivendo o que deveras mais senti,
Os dias se transformam, magistrais...


30358

Roseiras sangrentas num canteiro
Aonde poderia acreditar
Na bela compleição a se mostrar
Cuidada por um tenro jardineiro,
E quando desta cena já me inteiro
Não posso num instante desvendar
Segredos que se escondem ao luar
E da mortalha vejo o mensageiro.
Sanguíneas emoções a vida traz
A quem se deu além do que pudera,
A vida se transforma e quando a fera
A cada noite vibra mais audaz,
A morte se aproxima do jardim,
Reflexo do que ocorre dentro em mim...



30359


Andando pelos ares, poesia
Girando em carrosséis loucos, insanos,
E quando se pudessem mais humanos
Diversa desta imensa hipocrisia
O sonho noutro encanto se faria,
E quando fossem outros, soberanos,
Momentos muito além dos desenganos
A noite não seria assim tão fria.
Resisto ao perceber que ainda posso
Viver um doce alento teu e nosso,
Mas sinto ser apenas lenitivo
E ausente do que seja claridade,
Apenas fantasia me degrade
E mesmo contra tosos, sobrevivo...


30360


Noites desabrochadas em luar
Na prata que domina o meu quintal
Aonde poderia em triunfal
Momento sem temores tanto amar,
Não posso e nem devia caminhar
Sabendo desta insânia que fatal
Transcende ao grande amor e bem ou mal,
Resume o que não pude imaginar.
Imagens do passado no presente,
Angústia se tornando mais feroz,
E quando ainda escuto a tua voz,
O sonho mais feliz, ledo, pressente,
E tendo em minhas mãos, velhos sinais,
As dores que me deste, sempre iguais...


30361


Por entre este dourado em verdes campos
Resiste meu olhar e te procura,
O amor quando se mostra em tal ternura
Sublimes maravilhas, pirilampos
E tanto poderia ser assim
Quem sabe no final a imensa glória,
Porém a vida sendo merencória
Jamais traria paz ao meu jardim,
Jazigo da esperança, nada levo
Somente este fantasma de um amor,
Que a cada novo dia a decompor
Pensara mesmo fútil ser longevo,
E quando se expressando no vazio,
Ainda em ilusão um sonho eu crio...


30362

Teu perfil delicado mostra o quanto
Amor se faz maior quando se quer,
A divindade em forma de mulher
Espalha a cada passo seu encanto,
E saibas que te quero tanto e tanto,
Não sendo o meu amor comum, qualquer
Havendo nesta vida o que vier
Contigo sempre estou, e não me espanto
Sequer com as manias que tu tens,
E quando dos meus dias mais aléns
Dos vários sentimentos que possuo,
Em ti a cada instante e sempre mais,
O amor em sendas raras, magistrais
Deveras com ternura então flutuo...


30363


O amor que tranqüiliza quem caminha
Buscando pela paz tão necessária
Não tendo em sua frente a procelária
Sabendo ser a sorte inteira minha,
E quando na emoção ele se aninha,
A vida noutra vida em luminária
Transcorre tão serena aonde um pária
Vivera a sensação de alma sozinha.
Retendo o meu olhar em teu olhar,
Percebo a divindade que ora exalas
Palavras deste encanto são vassalas
Nas salas e nos quartos, farto gozo,
E assim ao me entregar sem ter limites,
Deveras tantas luzes que ora emites
Tornando o meu caminho majestoso...


30364


Percebo na paisagem mais bonita
O quanto no horizonte amor rebrilha
E quando se percorre a doce trilha
Uma alma mais feliz tanto palpita
E assim a cada passo em paz já fita
O céu em cores raras, maravilha,
E quando a fantasia em paz palmilha
Seara tão sublime, a mais bendita.
Risonha vida traça o dia a dia,
Apaixonadamente sigo em ti,
E vivo cada instante em que senti
O mundo noutro tom, e a poesia
Domando cada verso em paz e glória
Refaz o que pensara em tosca história.


30365


Quem poderia então traçar tal rosto
Senão um Deus sublime em perfeição,
E quando em teu olhar clara feição
O amor se mostra a nu, assim exposto,
O tanto que se quer suave gosto
Moldando novos dias que virão,
Traçando dos meus sonhos direção,
Gerando a paz imensa sem desgosto,
Viver esta ilusão e ter em mente
Que todo o grande amor quando se sente
Domina cada instante e me escraviza,
Assim da tempestade que ora vejo,
Aos poucos aplacando o meu desejo
Espero no final, suave brisa...


30366

Quem será se um artista em seu buril
Pudesse transformar a pedra em vida,
Assim tanta beleza em ti contida
Seria eternizada em tom sutil,
O quanto desta forma não se viu,
E nela o tempo mostra a despedida,
Mas quando feita eterna, não duvida
Quem nunca percebera ou pressentiu.
E quando a natureza em tom divino
Gerando tanta luz eu me fascino
E bêbado da glória de te ter
Emaranhando em teias mais perfeitas
Enquanto aqui desnuda, amada deitas,
Num Deus incomparável passo a crer.


30367


Não pude imaginar um ser mais belo
Tampouco poderia sendo assim
O amor que tanto invade e toma em mim,
Arando uma esperança em bom rastelo,
E quando tanto encanto aqui revelo,
Sabendo cada toque, chego enfim
A toda a maravilha e se hoje eu vim
Adentrar a ilusão em seu castelo,
Qual fora um cavaleiro de outras eras
Vivendo as mais sublimes primaveras
Tocado pela luz da lua cheia,
Minha alma extasiada em tanto brilho,
Outrora quase um pária, um andarilho
Ao ver tanta beleza se incendeia...


30368


Não há forma mais bela e delicada
Nem mesmo em silhuetas mais diversas
E quando tanta luz em mim tu versas
A sorte se mostrando iluminada
Qual fora um pleno sol na madrugada
Deixando no passado as mais perversas
Doridas expressões, sendas dispersas
Agora no teu corpo, emoldurada
A glória de um instante cristalino
E quando me percebo e me fascino,
Entranho paraísos nesta vida,
Quem sabe noutros dias poderei
Viver a plenitude sendo o rei
E tendo-te desnuda, adormecida...

30369


Sentindo este perfume que inebria
Ouvindo a voz macia de quem clama
Ao perceber eterna a rara chama
A vida não traduz só fantasia,
E vendo tão sobeja esta alegria
Que ao grande amor deveras sempre chama
Meu corpo neste instante te reclama
Enquanto escuto a voz da poesia,
Levando-me ao momento mais feliz,
Na fonte eternamente cristalina,
A voz inebriante da menina
Traçando na verdade o que mais quis
Resulta num momento inesquecível
E amor não se calando, inconfundível...

30370

No tranqüilo cenário em que te vejo
Andando mansamente em lua imensa,
E quando deste encanto mais convença
O mundo neste instante, num lampejo
Tomado pelas ânsias do desejo,
E nele de uma ausência outrora tensa
A sorte se transforma e mais intensa
A vida que deveras mais almejo,
Por vezes caminheiro do vazio,
Aonde quis a sorte nada vinha,
E tanto poderia, mas não minha
A glória onde às vezes eu me aninho,
Reside dentro em nós esta esperança
Que a cada novo dia mais avança...

30371


Perpassa sobre as curvas do caminho
O brilho deste olhar, raro horizonte,
E quando se percebe que desponte
O tempo clareando em raro alinho,
O quanto no passado fui mesquinho,
Até que conhecendo a bela fonte
Do amor que me decora e traça a ponte
Tomada com ternura em teu carinho,
Bebendo desta mina inesgotável
A vida noutro nível se apresenta,
E ausente dos meus olhos a tormenta,
O mundo finalmente mais amável,
Bebendo cada gota deste tanto
Em sonho inebriado, agora eu canto...


30372

Seguindo cada sombra desta que
Deveras ao guiar já me transtorna,
O amor que na verdade assim se entorna
Trazendo tanta glória em que se vê
Beleza sem igual na qual deslindo
Um belo alvorecer em raio claro
E tanto amor deveras te declaro
Sabendo deste encanto agora infindo.
Resumo meu sonhar em cada instante
Aonde possa ter além do todo,
Passara minha vida em charco e lodo,
Agora o meu caminho é deslumbrante,
Viceja dentro em mim a primavera
Amor quando demais amor tempera...


30373


Pareados seguimos vida afora,
Não tendo mais temores, nem segredos,
Aonde se esconderam velhos medos,
Somente a poesia agora aflora,
E o quanto deste sonho nos decora
Mudando com certeza tais enredos,
Os dias que vivera, toscos, ledos,
Nem mesmo a solidão volve e devora,
Resisto aos mais terríveis descaminhos,
E sinto em minhas mãos os novos ninhos
E deles perfazendo esta esperança
A vida não permite mais a queda
Caminho para o abismo o sonho veda
E sobre as cordilheiras já nos lança.

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31171

Meu verso quantas vezes procurara
Palavra que pudesse traduzir
Momento mais tranqüilo no porvir
Diante de uma vida dura e amara,
Fugindo das amarras esperara
Um gozo mais audaz e ao impedir
A fúria que freqüento a se bramir
Enquanto a nova vida se prepara,
Sentir esta emoção domando a fúria
E nela sem tormenta e sem lamúria
Beber a tempestade corriqueira,
Assim ao se fazer mais libertário
Eternidade doma o calendário
Quando o sonhar se torna uma bandeira.


31172


Demônios que carrego há tantos anos
E deles não consigo mais calar
A voz ao impedir a luz solar
Compraz-se com temores, desenganos.
A vida se fazendo em novos planos
Os erros que cometo são humanos,
E nada impediria de lutar
Sabendo como é duro navegar
Enfrentando borrascas, velhos danos
E neste mar imenso, ondas tantas
E quando vendo as fúrias tu te espantas
A ventania intensa se desanda
E assim ao trazer tanta tormenta
Apenas o carinho te apascenta
E a lua polvilhando esta varanda...


31173


Imagem refletida espelhos d’alma
Eu pude discernir entre as vontades
Apenas sombreados, claridades,
O quanto se mostrara não acalma
E tendo a cada passo novo trauma
Portanto insuportáveis velhas grades,
Ainda que tentasse novidades,
Conhecido minha vida, palma a palma.
Saveiros de um passado mais atroz
Discernem portos onde possam ter
Ancoradouro mesmo em desprazer,
E a incúria vez em quanto toma a voz,
Do quanto ser feliz já não me afasto,
Um mote dito amor surrado e gasto...


31174


Ao se rir a ironia aflora e dita
A vida de quem tanto quis um dia
Aonde a nova história se faria,
E sei quanto verdade se é maldita,
Ao tanto se perder noite infinita
Não vendo qualquer luz que poderia
Luzir em lua cheia, e a poesia
A cada amanhecer tomando grita,
Não posso caminhar por sobre os astros
Tampouco reconheço passos, rastros,
Adentro esta emoção que tu geraste,
Amar e ser feliz a cada instante
Um sonho tantas vezes delirante,
Na lua com o sol belo contraste...


31175

Pois tu virás comigo embora eu veja
A tempestade ao fim de cada dia,
Jornadas onde a deusa poesia
Tomando cada cena mais viceja
E tudo o que se quer, uma alma almeja
É ser feliz e nesta fantasia
Marcada pela sorte se irradia
E torna esta seara mais sobeja,
Vestindo uma ilusão quem tanto busca
A vida sem terror, não sendo brusca
Permite ao navegante sem procelas
Viagem pela vida mais tranqüila
E quando a noite estrelas já desfila
Traduz a claridade que revelas...


31176


Constelação de luzes mais diversas
Mosaico colorido em noite imensa,
Do quanto ser feliz quem me convença
Ditando toda a sorte aonde versas
Falando destas sendas que dispersas
Uniste como rara recompensa,
Ao quanto poderia em sorte tensa
E tanto com prazer tu desconversas,
Vencido pela doce sensação
Dos dias mais suaves que virão
Traçando no horizonte claridade,
E tendo com ternura cada passo,
O amor ocupa enfim um vasto espaço
E dita com candura a liberdade...


31177


Na chaga que eu herdara a cicatriz
Tomando cada espaço não permite
Que ainda a dor passada volva e grite,
O mundo quando em luzes já não diz
Do quanto se mostrara este infeliz
Vivendo muito aquém do que acredite,
A vida discernindo o seu limite,
Ensina ao coração tolo aprendiz,
Vencendo estas venais vicissitudes
E a cada novo dia que tu mudes
Verás com mais ternura o amanhecer,
Assim sabendo a sorte caprichosa,
Herdando este canteiro, em toda rosa
A primavera enfim vai renascer...


31178


Os erros que cometo dia a dia,
Enganos de quem tenta ser feliz,
Assim ao se mostrar um aprendiz
A sorte desejada já se adia,
E nada do que tanto em paz queria
Contrariamente a vida por um triz
Errando bar em bar, este infeliz,
Já não conhece mais a luz do dia,
Sarjetas, botequins... o meu passado
E ao ver novo caminho em paz traçado
Resisto aos meus demônios e prossigo,
Agora na certeza de outra luz,
O passo que deveras me conduz
Traçando sem temor um bom abrigo.




31179

Fantasmas que enfrentei por toda a vida
Demônios entre fúrias e terrores,
E quando procurara pelas flores
A sorte se prepara em despedida,
Não pude acreditar, e sei perdida
A fonte destes versos sonhadores
Morrendo entre mortalhas, dissabores,
Enquanto a realidade sempre agrida,
Vestindo a mesma roupa em rotas cenas,
As noites que buscara mais serenas
Apenas tempestades, temporais.
O amor quando se fez incandescente
No fundo não sabia quanto a gente
Precisa vez em quando de algum cais...


31180


A cada gargalhar da vida insana
Esboço reações, mas nada faço
A dor tomando espaço após espaço
Aos poucos novamente tanto engana,
O corte mais profundo, a voz profana
Amor que reconheço, cada traço,
E quando se pensasse noutro laço
A morte com temor já desengana,
Festejos do passado e no presente
Silêncio em bares, luas e cometas,
Enquanto nada trazes ou prometas,
Uma alma solitária, esta demente
Adentra tão somente nas tabernas
E assim entre vazios tu me internas...


31181


Sem ter caramanchões nem alamedas
As ruas que polvilho com saudade
Falando das entranhas da cidade
Aonde com ternura me concedas
Momentos mais felizes, tardes ledas
E delas cada sombra que me invade
Mostrando cada fria realidade
E quando mal percebo; tu te enredas
Tomando de partida este cenário
Sabendo ser amor bem necessário
E tanto se traduz em riso e pranto,
Mas quanto mais audaz a minha voz,
Eu sinto bem mais forte o duro algoz,
E mesmo assim, dorido ainda canto.



31182


Sem ter sequer jardim aonde eu possa
Colher nem mesmo as flores que cevara
No velho coração, torpe seara,
Aonde a dor adorna e já se apossa,
Sem ter a poesia que remoça
Sem ter a noite em paz que se declara
Em lua maviosa bela e rara,
Sabendo que a ternura não é nossa,
Errático procuro em paz um canto
Aonde mergulhando sem quebranto
Quimeras que vislumbro me assombrando
Sem ter qualquer alento, sigo assim,
Um simples espantalho sem jardim,
A própria natureza se negando...

31183


Rastejo imerso em sóis e tento ver
A claridade imensa que não via
E dela se fiasse a fantasia
Traçando ao me negrume o amanhecer,
Em tantas turbulências pude crer
Apenas no que a sorte ainda guia,
E morto em vida bebo esta agonia
Gerada pelo anseio em desprazer.
Arguto? Muitas vezes ou sutil,
Nefasto, enamorado ou tolo engodo
Um pouco deste quase ou mesmo todo
E quando a realidade se sentiu,
Poeta abrindo as asas no horizonte
Aonde o que imagina reina e aponte...


31184


Fugaz e numa ausência mais cruel
Terrivelmente imerso no meu ser,
Alvissareiro canto eu passo a ter
E dele se adivinha qualquer céu,
Aonde este cometa em carrossel
Vagando em noite imensa posso ver
E quando se dourando amanhecer,
Azulejado enfim, suave véu.
Mas nada do que tanto desejara
Amor ou mesmo um braço mais amigo,
E quando solitário e em vão prossigo,
Silente em vida fria, tola e amara,
Voltando do escritório, fim de tarde,
Que o dia novamente não retarde...


31185


Por já não ser quem fora no passado
Os dias renascendo em cores várias
Essencialmente sei tão necessárias
Palavras que me tragam o recado
Do quanto poderia e sem enfado
Depois das noites frias, tolas, párias
As sendas mais sublimes, luminárias.
E tudo se transforma noutro prado
Aonde vicejasse esta esperança.
E quando a realidade agora alcança
Poeta sonhador se vê desnudo,
E tanto poderia, mais não tive,
Revejo cada cena e nunca estive
Um mundo tão gigante, mas miúdo...


31186


Do pouco que inda resta tento ver
Momento aonde o dia renascesse
E tendo esta certeza, nego a prece
E sinto o meu passado revolver,
Residualmente encontro o desprazer
E nele cada corte me obedece
A vida noutra vida não se esquece
E busca o que pensara já perder.
Restando ao coração luta sombria
E desta realidade não fugia
Quem sabe e reconhece algum tropeço,
Vestindo a fantasia de bufão
Poeta sem caminho ou direção
Recolho cada engodo que eu mereço.


30187

Morrendo sem qualquer chance de luta
Eu vejo o meu retrato a cada esquina,
A sorte que deveras me fascina
Porquanto entregue à força imensa e bruta
O quanto poderia ser astuta
Não tendo nova luz, enfrenta a sina
E tanto quanto pode se ilumina
Usando da palavra, não reluta.
E tenta disfarçar em versos frágeis
Ao dias que pensara serem ágeis
Em ágios tão diversos já cobrados.
Os ritos costumeiros não mais trago,
E tento desairoso algum afago
Aonde os dias foram desolados...



30188


Se a despedida nega qualquer brilho
Encontro não refaz o que perdemos,
E quando se procuram pelos remos
O barco naufragando em falso trilho,
E quando novo rumo ora palmilho
Diverso do que tanto merecemos,
Não pude desvendar o que perdemos
Nem mesmo o coração tolo andarilho.
Resisto aos mais complexos dissabores,
Esgoto a minha força nesta luta,
E tanto se pudesse quem me escuta
Ainda revolver jardins e flores,
Marcando a ferro e fogo cada verso,
Vazio após o nada este universo.


30189


O corte do arvoredo nesta rua
Aonde nós sonhamos quando infantes
Os dias que se foram, deslumbrantes
Imagem se mostrando amarga e nua.
E quando a mesma história continua
Deixando para trás dias brilhantes,
O quanto poderia por instantes
E apenas solidão, domando, atua.
No gole de cerveja, bares, festa,
Sabendo desde nada que ora resta
Resíduos de um momento mais feliz.
Ao se ver arvoredo destruído
É como se podasse e sem olvido
Futuro desde agora se desdiz...


30190


Daquele temporal comum há tanto
Não resta sequer brisa, a vida passa,
E tudo tensionando, esta fumaça
Demonstra o que cevei em desencanto.
O parto sonegado, a morte, o pranto,
Arbusto da esperança nesta praça
E o gole mais amargo da cachaça,
No fundo ao me rever, calado, espanto.
Um dia imaginara ter nas mãos
Além deste futuro em belos grãos
A força incomparável. Juventude.
Mas nada do que fora se persiste,
Retrato que vislumbro amargo e triste,
Porém no coração. Mesma atitude...


30191

Granizos e nevascas, duro inverno
O tempo preconiza o meu final,
E quando poderia triunfal,
Nos ermos do não ser assim me interno
Tentando algum momento bem mais terno
E nele ter um rito magistral,
Aonde se perdera sempre igual
Momento doloroso, torpe inferno,
Assisto à derrocada deste sonho
E quando um novo dia em vão proponho
Resiste-se ao meu canto a realidade,
E tendo como fonte de ilusão
Apenas este amor a ingratidão
Herdeira do não ser tomando, invade.


30192


Nada mais poderia contra quem
Por vezes espalhara em voz sombria
Realidade tola em que se via
O mundo que vazio não contém
Sequer a menor sombra deste alguém
Que há tanto sem perguntas já partia
Tornando bem atroz a noite e o dia,
Medonha fantasia, sonho aquém.
Resisto quando tento desvendar
As causas desta insana despedida,
Porém ao caminheiro sem saída
No imenso labirinto já sem voz,
A morte se tornando um quase alento
Se a cada novo engodo me atormento,
O mundo que me sobra, o mais feroz...


30193


O rosto quase estúpido daquela
Que tanto se fez minha e não queria
A sorte renovada dia a dia
E apenas falsidade me revela,
O quanto do passado a vida sela
E traz em novo tom esta heresia
Mortalha que ilusão tosca tecia
Prepara tão somente agora a cela,
E vejo sem futuro a caminhada,
Audácia não permite qualquer luz,
E tanto quanto ao nada me conduz,
Gerando turbulência em madrugada.
Risonho passageiro do passado,
Agora em tempo sórdido e nublado...


30194


Uma amizade opaca e sem ventura
A fonte da ternura se desfez
E quando se mostrara insensatez
Diversa do que tanto se procura,
A vida novamente me amargura
Ainda que deveras já não vês
O peso desta espúria gelidez
Inverna o que pensara em noite pura.
Agora carregando simplesmente
Mortalha do que fomos só prevejo
O fim do belo sonho aonde um dia
A sorte noutra luz se mostraria,
Porém da imensidade, só lampejo.


30195

Nesta luta incessante pela vida
Vencido e vencedor unidos vamos
E quando se percebem outros ramos
A sorte demonstrada mais unida
Permite que se veja uma saída
E nela quando em gozo desvendamos
Caminhos pelos quais nós entranhamos
A sorte não trará mais despedida,
Assim se concebendo da união
Insofismável força se acredita
Na senda mais audaz, pois infinita
Traçando novos tempos que verão
Um bem comum, embora esta utopia
Expresse tão somente a fantasia.



30196


Canalhas são algozes do futuro
Reféns de uma horda pútrida e voraz
O quanto se demonstra mais capaz
Gerando a cada dia imenso muro,
Se quando inutilmente inda procuro
Qualquer caminho e nada satisfaz
Quem tem no seu olhar força tenaz,
Enfrenta qualquer tempo, mesmo escuro.
Brumosa realidade em tez sombria,
Num turbilhão imenso vida e corte,
Quem sabe se propondo novo norte
A vida não refaz a alegoria
Aonde ser feliz é mais plausível
E não somente assim, quase impossível.


30197

A sorte em despedida nega o fato
Aonde um brilho tome este cenário,
No canto mais suave de um canário
Por vezes ilusão inda retrato,
O amor que tanto quis por ser ingrato
Mudando em solidão o itinerário
Traduz este senão desnecessário
Rasgando da esperança algum contrato,
Resisto muitas vezes ao que penso
Ser quase mais um tempo a devorar
As ânsias de quem tanto quis amar,
E quando noutro encanto me compenso
Expresso a negação feita em terror,
Matando pouco a pouco algum amor...

30198


Ausência do que fosse uma amizade
Ternura mais alheia a quem se deu
O tanto que pensara ser só meu
E o dia a dia amargo já degrade,
Porquanto uma ilusão me desagrade
Espalha com terror realidade,
E o peso do viver sempre pendeu
Enquanto a sorte alheia se escondeu,
Jogada nalgum canto, atrás da grade.
Agraciado às vezes pela sorte,
Não posso ter somente o sofrimento
E quando noutros braços me apascento,
Encontro com ternura um manso norte
E assim sem ter sequer medo eu prossigo,
Fazendo de mim mesmo um grande amigo.



30199

Tropical coração procura a paz
Embora tempestades sejam tantas
E nelas quantas vezes tu quebrantas
Porquanto o passo seja mais audaz,
E quando não pudesse em contumaz
Caminho entre quimeras; agigantas
Deixando para trás e quanto cantas
A tua voz aplaca a dor mordaz.
Anseio por momentos onde eu possa
Viver a fantasia tua e nossa
Sabendo ser feliz, ao menos isso,
Arcando com os dias mais doridos,
As sortes entre sonhos esquecidos,
Singrando novos prados, eu me viço.


30200

A lâmina fatal, o corte fundo,
O risco de viver não me abandona
E quando a realidade vem à tona
O quanto de prazer ainda inundo,
Sabendo o coração mais vagabundo
Do nada ou mesmo pouco se inda adona
Esquece a fantasia e já ressona
Vivendo o paraíso mais fecundo.
Residualmente trago dentro em mim
As dores e os tormentos costumeiros,
Mas quando se percebem os canteiros
E neles perfumoso e bom jasmim
Eu creio ser possível nova senda,
Aonde uma alegria já se atenda.



30201

A luta já vencida contra o medo
Permite que se creia na manhã
Aonde não se vendo em luz tão vã
O sol que enamorado eu te concedo,
A coerência dita este segredo
E nele confirmando o meu afã
Sabendo que terei novo amanhã
Refaço a cada passo o mesmo enredo
Incontrolável canto aonde eu tento
Tomando com ternura o pensamento
Vencer os dissabores dia a dia,
E tanto se fez meu o que eu buscava
Esta alma que jamais se fez escrava
Conhece deste sempre uma alforria.


30202


Meu canto se tornara mais feliz
No pouco que talvez ainda diga
Do quanto a sorte em paz se faz amiga
E toda esta tristeza já desdiz.
Resisto aos meus momentos, pois feliz
E nada do que tanto desabriga
Enquanto a própria luz promove a liga
Unindo o que deveras bem mais quis.
Alhures vejo a sombra do que fomos,
E tudo se desfaz em toscos gomos,
Realidade mata a fantasia,
E não podendo ter esta colheita,
Apenas no vazio se deleita
Quem tanto procurou e não sabia...



30203

Destas rosas distantes; sombra eu vejo
E apenas os espinhos e as daninhas
E quando no passado foram minhas
Tomando com ternura meu desejo
Sabendo do vazio não prevejo
Sequer outros momentos, noutras linhas
As flores das espículas vizinhas
O amor se demonstrara em pranto e pejo.
Resisto ao que pudesse ainda dar
Momento de alegria, mas ausente,
Apenas o tormento se pressente
E nele não se pode cultivar,
Estradas tão floridas? Nunca mais,
Perfumes hoje são residuais...


30204


Em que profundidade eu poderia
Saber onde escondeste nosso amor?
E tento mesmo quando em dissabor
Viver a paz em rara fantasia.
Mergulho no passado e o que me guia
Apenas o terror e ao me propor
Num tempo feito em glória e sem calor
A vida se tornara em agonia.
Agônico caminho para quem
Vencendo os seus temores pode ver
Ainda que tardio o amanhecer
E quando a bela aurora toma e vem,
O olhar se perde além neste horizonte
E busca um sol divino que se aponte...


30205


Esperança em terrores demonstrada
A fome não permite novo encanto,
E quando se mostrara em tosco manto
A vida preparando uma emboscada,
Açoda-me o temor de nova estrada
O peso me vergando em farto espanto,
E tento em desalento, e quando canto,
A voz sem ter razões segue embargada.
Eu tanto acreditara no futuro
Eu tanto imaginara um dia bom,
Mas quando a realidade dita o tom,
A cada novo não se me amarguro
Percebo ser assim inutilmente
O amor que sempre vejo mais ausente...


30206


Amor nos engrandece, mas bem sei
Dos seus momentos frágeis e se tento
Buscar alguma luz, o pensamento
Desvia o que deveras procurei,
Riscando do futuro o que sonhei
Se quando vejo apenas desalento
O quadro se demonstra em sofrimento,
E tudo destroçando a velha lei
Ditada pelo sonho adolescente
Do encanto que deveras se apresente
Dourando a minha vida tão sombria.
E quando me permito acreditar
Ausente dos meus olhos o luar,
Como seria então um novo dia?

30207

A vida que se faz em dor e riso
Expressa maravilhas e terrores
Assim ao perceber por onde fores
O quanto cada sonho é tão preciso
Embora se acumule o prejuízo
E nele se perfaçam tantas dores,
Não posso desvendar os teus pendores
E ao mesmo tempo crer em algum siso,
Sisuda companheira de desdita,
No quanto se propõe enquanto excita
Sonega uma ventura mais ousada,
E assim entre o viver e o nada ter,
Pendulo muitas vezes sem saber
O quanto poderia ou mesmo nada...

30208


As horas onde nunca pude ter
Sequer algum momento de alegria
Enquanto a realidade desafia
O tempo se transcorre sem se ver,
Ausente caminhada em desprazer
E todo o meu viver já se porfia
Envolto nesta espúria fantasia
Tentando adivinhar o que há de ser.
Resido no vazio e nada trago
Senão esta impressão de dor e estrago
Riscando cada linha desta agenda,
Não pude conhecer qualquer ternura
E tanto quanto a vida me tortura
Sem ter sequer prazer que ainda atenda...


30209


Ao teu lado podia desvendar
Caminho que talvez trouxesse paz,
Mas quanto mais feroz, duro e falaz
O tempo não se deixa transformar
E o corte a cada não sinto tomar
O peso do viver não satisfaz
E o encanto que buscara ausente paz,
Não deixa qualquer sombra de luar.
Existo e talvez creia ser bastante
Por mais que na verdade se adiante
A vida não me traz felicidade.
Mergulho nesta insana caminhada
E tendo sempre o não como alvorada
O tédio, simplesmente assim me invade.


30210


Vontade de saber por onde andaste
Depois de tantos anos, solidão,
E quantas novidades mostrarão
Causando cada dia outro desgaste,
E tanto poderia em tal contraste
Saber das tempestades de verão
E mesmo novos dias mostrarão
O amor que pelo amor já não notaste.
Assim ao se fazer mais necessário
O mundo se transforma e em tal cenário
Assisto a minha face deformada.
E tento qualquer forma de otimismo
Sabendo no final imenso abismo
Da vida em vida amarga, desolada.

30211

Excedem forças tantas heresias
Aonde se pudessem mais benesses
O quanto do vazio ainda teces
E nele tantas vezes tu recrias
Momentos onde dores e agonias
Gestando tão somente as velhas preces
Porquanto na verdade não mereces
Além das mesmas noites vagas, frias.
Estive muito aquém do que talvez
Amor não mais gerasse insensatez
E tudo o que não vês inda mostrando
Caminho bem diverso do que agora
Ao tanto que não vi e se demora
Transcende ao se jamais se fez nefando.

30212


Amor em suas trilhas poderia
Traçar novo momento mais suave
Enquanto a realidade sempre agrave
Matando o que talvez fosse alegria,
E tendo a realidade dia a dia
E nela uma esperança seja a nave
E tanto se pudesse ser uma ave
Em brando delirar a fantasia
Alçando a liberdade mais audaz
Sabendo o que em verdade satisfaz
Quem tenta inutilmente ser feliz
A morte me açodando a cada instante
Portanto que deveras se adiante,
Refaz o que este sonho já não quis.


30213


Entrega-se ao perfume mais ferrenho
O peso desta insânia que consome
Ainda vejo olhar e nele a fome
Mudando o caminhar e não mais venho
Buscando o que deveras já contenho
E quando a fantasia ao longe some,
O peso do viver sequer se dome
Matando o que sonhara e não retenho.
Assiduamente busco um horizonte
E dele se percebe cada fonte
Minando em águas turvas, poesia.
O quanto ser feliz não é mais crível
E assim amar se fez quase impossível,
E tudo o que busquei não conhecia...


30214


O quanto do meu sonho foi cruel
E tudo não se fez senão destarte
E a sorte se mostrando sempre à parte
Cobrindo a minha vida em tosco véu,
Eu sinto ainda assim amargo fel
E tento, mas sincero sou descarte
E nada do que pude ao sonegar-te
Geraste a tempestade em torpe céu.
Corsário da ilusão amor não deixa
Sequer que se perceba qualquer queixa
E alheio aos meus caminhos não mais vê
A vida se tornando assim vazia
A porta da esperança não se abria
E o mundo se mostrando sem por que...



30215

A cada canto vejo outro cenário
E nestes mesmos tantos que se vê
O peso do passado diz por que
O amor não mais seria necessário.
E não percebo apenas no adversário
O quanto em desmazelo a vida crê
Tampouco me entranhando se revê
A cena que restou qual relicário.
Expondo esta verdade mesmo quando
O tempo se mostrasse em novo ardil,
A vida na verdade não previu
Sequer o que pudesse transtornando
E vejo retratado este vazio
E nele sem sucesso e em vão porfio.


30216



Quem nos quer governar se inda pudesse
Saber além do nada que apresenta
Mudasse esta razão tão violenta
Fazendo muito mais que a simples prece,
Cordeiro quando grita, sabe e tece
Que a vida em servidão não apascenta
E mesmo enclausurado ainda tenta
Saber se a liberdade dita messe.
Risível camarada do passado
Agora este bufão mal disfarçado
Explora a dor alheia e não tem pejo.
Um dia após a velha tempestade
Aonde a calmaria venha, agrade
É tudo o que deveras mais desejo.


30217


Não sabe controlar sequer seu rumo
Quem tenta comandar a nossa vida,
E tendo desta forma mal urdida
A história se perdendo em tolo fumo,
E quando novamente eu já me aprumo
Preparo a cada verso uma saída
E tendo já de cor a despedida,
Deveras com terror não me acostumo.
Exumo-me dos erros do que outrora
Mostrara a face imunda onde devora
Atocaiada presa, mas não quero
Saber desta figura tão nefasta
Minha alma pouco a pouco já se afasta
Deste sorriso espúrio amargo e fero.


30218


A cada porta vejo retratado
A face deste estúpido falsário
E sei que na verdade tal cenário
Traduz a vida feita em vão enfado,
Riscando já de agora do passado
A sombra deste ser tão temerário
Mudando com certeza meu fadário,
O peso não suporto, desolado.
Resisto aos meus anseios, nada levo
E tendo este caminho mais longevo
Não posso permitir a recaída,
Retrato na parede? Amarelado,
O gosto deste sonho malfadado
Jamais permitiria o bom da vida...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

30156/57/58/59/60/61/62/63/64/65/66/67/68/69/70

30156


Nesta luta incessante em que eu pudesse
Vencer o meu temor no dia a dia
Usando tão somente a poesia
E nela só por ela, como em prece
A vida noutro tanto já se tece
E cada nova dor não mais se cria
Rendido aos bons alentos, fantasia,
Deveras com ternura se obedece
Ao sonho mais gentil e sendo assim
Meu verso se espalhando sem um fim,
Gerado pelo gozo incomparável
De um dia mais feliz, leda vontade,
E quando a realidade já me invade
O sonho se tornou tão improvável...


30157


Necessito da força quando luto
Para vencer meus medos e temores,
E quando noutro rumo tu te fores
Esboça-se um momento bem mais bruto,
A sorte se mostrasse em torpe luto
E sendo mais comum, tantos terrores
Não pude controlar os meus humores
E tento mesmo quando nada escuto
Arrisco-me a sonhar, mera esperança
E nada além da morte já me alcança
Cansado de tentar inutilmente
Vencer os meus demônios, nada faço
E quando a cada dia perco espaço
Um cais bem mais distante não se sente.

30158


Para ser conquistada a sorte plena
É necessário mesmo caminhar
E tendo mais distante algum luar
Somente este vazio me serena
A vida por si só já me condena
E dela não consigo mais calar
A voz incomparável a gritar
Mudando com terror a mansa cena,
Senzalas que me deste, inda trago
E bebo cada gota sem afago
Caindo na mesmice da ilusão
Amor pura crendice? Tu disseste,
E quando me percebo em solo agreste
Esqueço n’algum canto o velho grão.


30159


Erguendo sobre os pés os meus anseios
Vivendo sem saber se terei sorte,
Porquanto a própria vida não conforte
Adentro sem saber antigos veios
E colho dos atrozes vis receios
E deles construindo um falso norte,
A cada negação maior o corte
Os dias são deveras mais alheios.
Restando dentro em mim uma esperança
Vazia mesmo quando em tons se lança
Tentando novo brilho, outro matiz,
Quem dera se pudesse a florescência,
Porém amor se faz em convivência
E assim quem sabe um dia eu sou feliz.


30160


Jamais o mesmo amor que tu me deste
Será de certa forma o que eu queria
Aonde se espalhasse a fantasia
O mundo não entorna medo e peste,
O quanto do passado inda trouxeste
E nele se refaz esta utopia,
Usando a mesma velha melodia
Sem ter qualquer caminho que me ateste
Da glória que virá, embora seja
A vida muito além desta sobeja
E rara maravilha que se vê.
As dores fazem parte do cenário,
Porém espinho sendo necessário
Dará para o jardim vivo por que.



30161

Tu és o que sonhei e nunca minto
Razão para viver e ser feliz,
Mas quando a realidade já não quis
Amor ao se mostrar agora extinto
Deveras não trazendo algum instinto
Somente transmudando este matiz
O céu eternamente opaco e gris,
De cores mais alegres já não pinto,
Desta aquarela feita em fantasia
O quanto noutro tempo poderia
Trazer algum alento e nada vejo
A cena do passado mais distante
O mundo que quisera fascinante
Perdido nalgum canto em vão desejo...


30162


Em ti cada sorriso poderia
Traçar novos momentos, mas a vida
Que tanto nos maltrata ou mesmo agrida
Não deixa que se veja novo dia,
Amar sem ter limites? Utopia.
Porém a antiga estrada ora perdida
Prepara para a amarga despedida
E torna sem sentido a poesia,
Resisto aos temporais, mas nada disso
Permite que se creia em novo viço
Aonde movediço meu caminho,
E tanto sem destino, rumo ou meta,
A vida de um atroz, louco poeta
Explica o caminhar tolo e sozinho...



30163


Atados pelos laços da paixão
Pudéssemos seguir a vida afora,
Mas quando esta saudade me devora
Traçando novamente a negação
Vivendo do que fora solução
A morte pouco a pouco rememora
O dia mais feliz e vai embora
Mudando desde já tal direção
Resisto quanto posso, mas não vejo
Saída aonde um dia procurava
Das cinzas da emoção, antiga lava,
O tempo não traria este azulejo
E morto sem saber se ainda existe
Um porto, o coração mordaz e triste...


30164

Amor em nossas vidas? Ledo engano,
Jamais acreditei noutro caminho
Não fosse da ilusão; tolo vizinho
O tempo renegando cada plano,
E quando mergulhando em oceano
Abismo e precipício; eu faço o ninho
E neste imenso vão se já me aninho
Do quanto poderia não me ufano.
Mortalhas que teci durante a vida
Agora me cabendo muito bem,
O amor quando demais, nada contém
Senão a própria morte sendo urdida
E tanto poderia, mas sem ter
Só resta a quem porfia, então, morrer...


30165


Meu mundo nos teus braços? Fantasia
Que a vida sonegou faz tanto tempo,
O amor que não vencera contratempo
A cada nova história se perdia.
Restando tão somente esta quimera
E dela não se vê mais solução
Aonde quis deveras o verão
Ou mesmo algum outono ou primavera
Inverna-se em granizo e tempestade,
Geadas dentro em mim, nevasca e frio,
Ainda insanamente desafio,
Mas quando vejo a morte que me invade,
Não resta outro caminho, sigo em frente
Até que esta mortalha me apascente...


30166

Uma felicidade imensa dita a sorte
De quem sabendo o quanto amor permite
Não deixa que a verdade se limite
Ao quanto o dia a dia nos conforte,
E tendo a sensação de raro aporte
Vivendo cada cena no limite
Assim ao se entregar ao que acredite
Perfaz desta ilusão sobejo norte.
Mas tendo dentro em mim esta incerteza
Do quanto poderia ser melhor
Um mundo mais tranqüilo, ou tão pior
Se tudo já perdesse em tal tristeza.
Não tenho as esperanças do menino
Que há tanto nos sobrados da ilusão
Fizera com ternura cada chão
E agora mais distante não domino
As rédeas do que fora uma alegria
Restando ao velho peito, esta agonia...


30167


Tramando toda noite outra esperança
Depois das tempestades dia a dia,
O quanto deste amor é fantasia
Ao nada, ao mesmo lodo já se lança
E quando ainda busco temperança
A sorte se revela em rebeldia
E amor se transformando em heresia
Penetra com firmeza, dura lança.
Mortalha desta vida inútil temo
O quanto não podia acreditar
E vendo sobre brumas o luar,
A nau sem direção sem leme ou remo,
Navega sem destino, perde o porto,
O amor que tanto quis, agora é morto...


30168


Vibrasse em nossos corpos o desejo
Que tanto produzira uma ilusão
Há tempos já mudando esta estação
O quanto se perdera e agora vejo
Vazio o caminhar antes sobejo,
Anseio por momentos que trarão
De novo ao meu caminho a redenção
Restando tão somente dor e pejo.
Audaciosamente eu procurei
As sendas mais bonitas e floridas,
Assim ao perceber as despedidas,
Não pude e nem concebo ser o rei
Deste cenário feito em treva e dor,
Ausente dos meus braços, teu calor...



30169


São páginas relidas tanta vez
Amores entre dores e promessas
E quando nova história recomeças
Revejo o que o passado já desfez
E tento ainda em rara lucidez
Vencer as emoções e sendo dessas
Escravo enquanto pude, mas confessas
Diverso caminhar e nele crês.
São mansos os primórdios de um amor,
A tempestade gere seu final,
E quando se mostrara assim a nau
Em pleno temporal, perdendo a cor,
Acordo solitário novamente
Do quanto esta ilusão eu sei se ausente.


30170


Encontro o meu caminho em noite fria
E bebo cada gota em luz diversa
Falando da emoção aonde versa
O quanto pode enfim a poesia
Não tento mais lutar, a alma porfia
E sabe desta senda mais perversa
Recomeçando assim nossa conversa
A história se repete dia a dia.
Um tempo após o tempo de sonhar
Em contratempo morto algum luar
Luzindo sobre nós a falsa estrela
Que tanto já não guia e nem transforma
O amor quando se perde, em nova forma
Da frágil, tosca luz, não posso vê-la...

30131/32/33/34/35/36/37/38/39/40/41/42/43/44/45/46/47/48/49/50/51/52/53/54/55

30131

Numa luta incessante em busca do meu eu
Em solilóquio espreito algum momento aonde
A vida por si mesma enquanto me responde
Arrasta pouco a pouco o que já se perdeu.
E quando me percebo às vezes um ateu
História sem saber porquanto tanto esconde
O quadro mais atroz por mais que se arredonde
Arestas tão sutis; deveras conheceu.
Um resto de ilusão, um medo sem por que
O quanto se queria e nunca mais se vê
Pedaços de uma vida expostas num porão
Retrato na gaveta a mortalha de um sonho
E vendo caricato olhar tolo e risonho,
Pudesse num instante em terna migração...


30132

Sendo um algoz canalha a vida se permite
Viver a cada instante o quando já não pude
Meu caminhar sombrio, espúrio enquanto rude
Não reconhece mais sequer algum limite
Por mais que ainda tente ou mesmo inda acredite
Não vejo o que restou nem sombra, juventude
E quando a vida cobra um pouco de atitude
A sorte desregrada evoca em vão palpite
Andando bar em bar em ronda interminável
Procuro cada parte ainda que sombria
Do que se fez verdade e o tempo corroia
Não tendo mais visão de um quadro mais palpável
Brumosa realidade invade e me tomando
Traduz alguma luz num tempo ora nefando...


30133


A sorte quase sempre expressa um novo acerto
Aonde a vida possa entranhar por diverso
Caminho em que se veja ou mesmo se disperso
Delírio onde meu sonho enfrento ou já deserto.
E quando a fantasia em tempo mais aberto
Expressa a realidade e toma este universo
Por vezes mais sutil, sobre o que tento verso
E quando me percebo, ainda estou alerto.
Talvez pudesse mesmo entranhar terras tantas
Sem ter qualquer defesa e nelas me quebrantas
Sabendo desta inércia enquanto nada pude.
Assim ao me perder encontro restos tais
Formando este arremedo aonde vi cristais,
Matando alguns sinais; longínqua juventude...



30134


Ausência de amizade e mesmo o desamor
Conduzem passo a passo humanidade enquanto
Pudesse se criar quem sabe em novo canto
O verdadeiro gozo aonde em tal louvor
Ouvíssemos talvez o encanto redentor
De quem se fez além de um vão, mero quebranto
Imagem mais perfeita aonde eu vejo o amor.
Não pude com certeza além do passo audaz
Sabendo alegoria apenas uma paz
Que tanto desejei sem faca, foice e bala,
Mas quando vejo assim seara em pedra e pus
O sonho mais tranqüilo ao qual nunca me opus
Invés do brado imenso, agora em vão se cala...

30135


Coração tropical em alma lusitana
Assisto ao meu caminho em ambos continentes
Alegrias sutis em dias descontentes
O encanto do saber enquanto a voz se engana
O rosto enternecido, uma alma soberana
Os cortes da saudade; olhares mais distantes,
Assim ao me sentir no quanto me adiantes
Fazendo do meu verso a forma sã profana
Bocagiano sonho irônico Pasquim,
O mundo todo cabe, em mares dentro em mim,
E tento prosseguir embora em passos vãos
Das rendas de além mar, aos vinhos tropicais
Licores em quadris, românticos varais
Crisântemos, canteiro, em vários, vagos grãos...


30136


A lâmina cruel adentrando esta pele
Rasgando o que já fora apenas fantasia
A morte sem desculpa, o quando da sangria
Violenta tempestade enquanto me compele
Destino sem alento a sorte não mais sele,
E quando mais atroz quem sabe poderia
Viver novo momento, ainda uma utopia.
Aonde o nada ser ao tanto pode atrele.
Risonho? Com sarcasmo eu tento conceber
O que jamais vivi e sem alvorecer
Na iridescente forma aonde algum poeta
Desvenda a maravilha em tons claros, sutis,
Porém realidade inválida desdiz
E tudo o que eu pensei já nem mais se completa...



30137

A luta tanta vez se mostra mais voraz
E enquanto se desnuda a face tão cruel
Da qual se transmitindo amargo e torpe fel
Do qual não poderia ao menos ver a paz
Refeito do passado o nada agora traz
Da bruma mais tenaz o imenso e tosco véu
Seguindo cada passo, embora siga ao léu
O peso do viver explode em tom mordaz.
Vergasta do não ser e nem tentar seguir
Aonde a sorte trace um bálsamo, o elixir
Que possa sanear a vida em dores feita,
Borrascas enfrentei enquanto poderia
Viver ao menos sombra escusa da alegria,
Porém em solidão esta alma espúria deita...






30138

O canto se tornando um hino à liberdade
Depois de tanta luta aonde nunca soube
Vencer qualquer senão e mesmo quando coube
Apenas o terror que tanto nos degrade
Somando cada verso ao quanto não mais pude
Vestir a fantasia imensa do senão
Rasgando a poesia e nela em imersão
Deixar um mero arroubo espúria juventude.
Riscar do mapa o sonho e não saber sequer
Se tudo fora em vão nem mesmo algum momento
Do qual se fez o encanto e quando enfim lamento
O peso traduzindo o medo que vier
Esboça a natureza implícita do quando
O mundo não se vê deveras transtornando.


30139

Distante do jardim aonde rosas tive
Não pude acreditar em florescências várias
As noites são sutis e quando temerárias
Falando do vazio enquanto sobrevive
O terror mais tenaz e enquanto me contive
As mansas ilusões por vezes necessárias
De todos os meus vãos decerto procelárias
Sem ter sequer a sombra estúpida que prive
O cantador do verso envolto em tais matizes
Falando da ilusão e nela seus deslizes
Cicatrizando assim o quanto ainda resta
Do peso do viver envolto em temporais
Os dias do futuro ainda magistrais
Não traçam esta face agora mais funesta.


30140


Em tal profundidade entranho-me deveras
Tentando perceber se ainda poderia
Viver além do quanto apenas fantasia
Exposto em tal cenário às mais terríveis feras
E quando mesmo ausente ainda em vão esperas
Não vês no meu olhar a face tão sombria
Porquanto nada faço além desta utopia
Aonde o mundo tenha a paz com que temperas
O dia mais atroz, o medo mais cruel
E tendo esta certeza invado assim teu céu
E risco com palavra elíptico caminho,
Na sideral beleza envolta em luzes tantas
Se eu mesmo assim em ti querida já me aninho
Decerto ao perceber por vezes desencantas.

30141





As hóstias da esperança; há tanto não me trazem
Sequer algum alento ou mesmo a paz que busco
O mundo em tom venal e sendo sempre fusco
Traduz o nada ser e neles não embasem
Os dias que eu pudesse enquanto se desfazem
Os sonhos mais gentis num quadro em que mais brusco
Por vezes esquecido ou quando assim me ofusco
Escassas luzes; teimo aonde se defasem.
Poeta ou sonhador, não posso mais negar
Que tudo quanto quis se perde num vagar
Diverso do que tanto um dia procurei.
A morte não transcende ao quanto desejava
Sabendo ser minha alma exposta em cinza e lava
Gestando a fantasia em torpe e tola lei.


30142


O parto da esperança enquanto nada traz
Ao abortar o sonho expressa a realidade,
E nada mais do quanto ainda traça e invade
O peso do viver eu sei quanto é mordaz.
O gesto inusitado entoa a falsa paz
E quando se procura inútil liberdade
O velho pantanal porquanto seja audaz
Enfrenta a cada dia o peso que desfaz
E nega em plena luz alguma claridade,
Censura, morte e vela, augúrios de um vazio
E neste nada ser o quanto inda porfio
Esgota a minha vida em nadas repetidos,
Afãs diversos vejo e entranho este desdém
Sangrando em todo verso o que já não contém
O peso do viver em tons sempre esquecidos.


30143


Apenas o sorriso esboçado por quem tanto
Pudesse acreditar na salvação das almas
Enquanto a realidade expondo velhos traumas
Esgota o mesmo assunto e dita o desencanto
Traçando o rastro alheio e nele cada pranto
Pudesse traduzir o que já não acalmas
E aclara a verdadeira expressão em que espalmas
Momentos onde a gula arrancada cada manto
Desnudando a face embora mais medonha
De quem se fez atroz e nega enquanto sonha
O verdadeiro ocaso entregue ao nada além
Persisto, pois poeta enquanto questiono
Sabendo do passado e nele servo ou dono,
Embora do quem fui as sombras se mantêm.

30144


Irônico caminho afasta-me de Deus
Pudesse ter certeza apenas deste amor
Que feito no perdão bem mais do que um louvor
Não deixa alguma luz apenas para o adeus.
Os dias mais venais, não são somente os meus,
Demônios, Satanás, vestidos com rigor
Em paletó, gravata; expressem apogeus
De tanta hipocrisia em vendilhões ateus
Enquanto este cordeiro exposto sem pudor
Amealha os fiéis aos pútridos canalhas
Que enquanto vêm poder se esquecem deste Cristo
Agiotas da cruz, dos templos vendilhões
Enquanto Tu, judeu, palavras vãs espalhas
Ainda solitário; aqui, teimoso insisto
Ouvindo com terror a voz dos carrilhões...



30145


Teus olhos são a luz que guia a cada passo
O velho marinheiro em busca de um farol
E tendo esta beleza exposta em raro sol
Caminho mais seguro em mar imenso traço,
Após qualquer procela eu vejo no arrebol
A claridade intensa ocupando este espaço
E tanto tranqüilizo embora às vezes baço
Seguindo com firmeza, um manso girassol,
E tanta vez eu pude encontrar tal clareza
Imersa em farta treva em noites mais doridas,
Assim ao perceber o quanto após perdidas
Navegações sem rumo, um cais acolhedor,
E tendo finalmente assim esta certeza
O mundo se mostrando em novo tom: o amor


30146


Reflexos deste olhar deitando sobre o mar
Cristais em cristalina água refletindo
Beleza sem igual num raro quão infindo
Momento aonde a vida eu pude desvendar
E tendo esta certeza aonde procurar
Sinais de um deus sublime e sei que tanto lindo
O amor se fez maior e dele pressentindo
Eternidade em vida e nela mergulhar
Percebo quanta luz emite-se no encanto
E tanta maravilha agora em paz eu canto
Aonde fora ateu o coração se entrega
E beija a raridade e traça a virescência
Tornando vicejada intensa florescência
Transforma em raridade a mais sobeja adega.

30147


A dura travessia envolta em sombras tantas
Não deixa que vê creia ainda na alvorada
A noite me trevas feita, eu sinto desolada
E nela com terror brumosas duras mantas,
Satânica figura expressa o que te espantas
Amordaçando a voz de quem se fez amada.
No charco dentro da alma a imagem destroçada
E tento disfarçar enquanto te agigantas
E mostras com sorriso irônico a verdade
Que tanto possa mesmo alçar a realidade
Degrada-se o futuro esboça-se em temor
O quanto já sonhara o pobre redentor,
O preço de uma farsa em luto traiçoeiro
Matando qualquer rosa esgarça este canteiro.

30148


Em dia mais sombrio eu pude perceber
A face do demônio em que me entranho enquanto
Ao mesmo tempo luto ou quando atroz eu canto
O que pudesse ter em lúbrico prazer,
Serpentes que carrego e nelas posso ver
O olhar de Satanás enquanto me adianto
No passo mais mordaz, espúrio e tolo pranto
Derrotado, mas sei o gozo do poder.
Onerosa história em trágico cenário
O quanto a morte é bem por vezes necessário
Sacrificante sonho embaça a realidade,
E o pobre do cordeiro em cruzes desfilando,
Mostrando quanto é duro e mesmo tão nefando
Funérea face crua aonde o amor degrade.

30149


Outrora ao baque surdo a queda anunciada
Do sonho de quem tanto um dia quis além
E sabe do vazio aonde se contém
Seara que julgara; infante, abençoada.
A face de Satã em ritos demonstrada
Mesquinharia vê o quanto em farto bem
Expõe tanta riqueza e nela se convém
Falar do que não pude esboçar alvorada.
O pântano redunda apenas numa prece
Que tanta falsidade a quem ama oferece
Ainda se nefasta a imagem do cruzeiro
Atando o libertário e verdadeiro Cristo
E nele acreditando ainda teimo e insisto
Sabendo ser assim o irmão mais verdadeiro
Não creio neste exposto em igrejas e ritos
Um novo Prometeu? Invade os infinitos!

30150


Do labirinto escuro encontro uma saída
E sem o Minotauro eu não serei Teseu
Tampouco uma riqueza ou mesmo um himeneu
A quem já sabe mesmo a glória de uma vida.
O prêmio sendo assim a luz já prometida
Não tendo qualquer senda aonde fosse ateu
Um mundo imaginário e nele sem o breu
Uma ardentia basta a quem enfrenta a lida
De peito aberto e sabe a mágica do ser
Sem ter sequer a sombra insana de um poder
Que possa trazer ouro ou mesmo uma riqueza
Além do respirar e ter felicidade
Não quero mais corrente odeio qualquer grade
Sabendo ter no amor divino esta beleza!


30151

Sangrias na tortura à qual eu me submeto
E tendo esta certeza ainda que venal
Pudesse caminhar degrau após degrau
E nada do que tento ou erro onde cometo
Do tudo o quanto fora um arremedo, um gueto
O mundo não se fez de forma sempre igual,
Assim o ser/não ser deveras tão normal
Permite cada toque aonde me arremeto
Nas cinzas de um cigarro as marcas que deixaste
O corte rasga fundo e nada além do vago
E sendo assim talvez o quanto ainda afago
Não deixa que se veja apenas no contraste
Entre o quanto pudesse e o nada produzido,
O mundo onde prossigo, há tanto já perdido...


30152


Ao revelar a sorte entranho estas searas
Diversas das que um dia eu pude conceber,
A furiosa face expondo o desprazer
Por onde tanta vez; ainda desamparas,
E sinto a mesma insânia e nela me preparas
A queda inusitada aonde eu possa ver
A sorte desairosa, o corte a se fazer
Deixando em rastro e dor, chagas, talho e escaras.
Apego-me ao que fora imagem mais sutil
De um tempo em que sonhar em paz o amor previu,
Rastejo sobre o chão e tento desvendar
Os rastros que deixaste e neles conseguir
Talvez adivinhar o quanto do porvir
Eu possa mesmo agora, aos poucos caminhar...


30153


O perfurado olhar ditando a mesquinhez
De quem tanto se quis e nada mais conhece,
O amor não me traria ao menos qualquer messe
E desta forma sinto o quanto de desfez.
Diverso do que tanto ainda mesmo crês
O beijo mais audaz, a fúria reconhece
E sabe do vazio e nele sempre tece
O quanto mais ausente a rara lucidez.
Negar o meu caminho e ter outro horizonte
Porquanto a vida trace enquanto desaponte
Seria alguma fuga e nela não se faz
Semente sobre um chão em aridez constante,
Por mais que me iludindo eu possa neste instante
Viver ainda um pouco o encanto mais audaz...


30154


Sorriso de ironia, o gosto da vingança
A vida se promete em ares tão diversos
Fazendo do vazio apenas tolos versos,
O quanto do que quero a sorte não alcança,
E quando fosse algoz, verdugo, faca e lança
Olhares mais sutis e posso até perversos
Não sabem discernir sentidos que dispersos
Trariam qualquer dor e nela esta lembrança.
Vestígios tão somente e nada mais consigo,
O mundo condenando ao velho desabrigo
Servindo como fosse imagem caricata
Miragens do que sonho, ourives do vazio.
O tanto que pudesse e o nada onde recrio
A vida mesmo assim, não cansa e me maltrata...



30155


E mostra em gargalhada a face mais terrível
De quem se fez atroz e nada mais esconde,
O mundo que procuro agora e não sei onde
Permite alguma voz, até mesmo inaudível
E sendo caminheiro atrás deste impossível
Momento aonde o tanto escute e não responde,
O passo rumo ao nada ainda que se estronde
Jamais será decerto além de perecível
Assim meu verso morto em nascedouro e fonte
Não tendo nem resposta, ausência de horizonte
Ensimesmado tenta além deste vazio,
A voz solta no espaço e nela se percebe
A imensidão do nada, e sendo assim a sebe
Mal importando mesmo o que nele desfio.

domingo, 18 de abril de 2010

30101/02/03/04/05/06/07/08/09/10/11/12/13/14/15/16/17/18/19/20/21/22/23/24/25/26/27/28/29/30

30101

E morre enquanto tudo ainda se mostrasse
Num cenário gentil embora tão falsário
O amor que tanto quis pensara necessário
Aos poucos me mostrou a verdadeira face
E sendo tão cruel gerando um duro impasse
A cada novo não, eu sinto temerário
E tanto poderia além de torpe e vário
Mudar o dia a dia enquanto o nada grasse.
Resíduo desta senda envolta por mistérios
Não sendo tão comum no amor se ver critérios
Império derrotado a morte se aproxima
E tudo o que se quer ainda é ter certeza
Do quanto em violência atroz a correnteza
E tento mesmo quando a fúria não redima
Nem mesmo me traria a luz de um túnel brusco.
Ao ver o meu final, uma esperança eu busco...



30102

Pelo menos soubesse aonde se escondeu
A estrela que pensara em noite tão escura
Trouxesse lenitivo e tudo se perdura
Gerado tão somente assim em torpe breu.
O corte que se vê; terror já conheceu
A sorte desairosa, a voz que se amargura
Ausente há tanto tempo a glória da ternura
A porta se emperrando, a chave se esqueceu.
E assim a fechadura, a maçaneta, o risco
O peso do viver e nele não arrisco
Somente a mesma queda há tanto repetida,
Degrau após degrau; degrada-se esperança
E quando ao nada além a voz torpe se lança.
Há quanto já perdi razões para esta vida...

30103


Talvez inda restasse alguma luz, quem dera...
O mundo não se vê além do próprio espelho
E quando noutro tanto às vezes me aconselho
Apenas o vazio eu sei que ainda espera.
Sonhara com castelo aonde hoje tapera
O peso do passado envergando o joelho,
O risco de viver, o olhar hoje vermelho,
Quem pode acreditar esquece-se da fera
E quando recriasse o canto noutro tom,
Não tendo para tal sequer caminho e dom,
Errôneo traço exposto ainda não traduz
Hermético delírio esgota o que se fez
E tanto poderia; espúria insensatez
E nela o que se vê recende à morte e pus.


30104


Um verso que não fosse apenas realista
Um sonho que talvez gerasse amanhecer.
Se tanto inda pudesse ausente apodrecer
De uma alma onde se vê o fim que não desista
E toma a cada corte e doma a mão do artista
Não sei se ainda cabe um resto de prazer
Embora inda resista em luta um frágil ser,
Não posso na verdade enfim ser otimista.
Esgota-se o caminho e não se vê mais nada
Sequer alguma luz, ou mesmo algum lampejo,
Assim sendo quem sabe o tétrico desejo
De ter noutro momento a vida em nova alçada.
Caçando assim o quanto um dia fora além
O sonho pelo sonho, apenas o que vem...


30105


Quem dera timoneiro enfrentando tempestas,
Quem dera ancoradouro aonde vi o nada.
História que conheço e sei tão mal contada
E nela luzes vis amargas e funestas
Enquanto ao tanto sonho ainda em vão tu gestas
Momento que se possa em nova madrugada
Pensar noutra manhã quem sabe ensolarada,
Mas nem sequer um raio adentra então as frestas.
Arisca fantasia, a realidade nega
Caminho sem destino, uma alma tola e cega
Percorre o que pensara em senda maviosa,
Porém a vida chega e nega cada passo,
O quanto do sonhar em trevas sempre traço,
Quem dera jardineiro? Este jardim sem rosa...

30106

Vestido de ilusão caminhara contra
As ondas mais cruéis envoltas em mil sombras
E quanto mais me vês deveras mais assombras
Enquanto o caminho a sorte desencontra
E tendo esta certeza imersa no meu ser
Percebo a derrocada em cada passo dado,
E tudo o que pensara expressa o duro enfado
Aonde mergulhara imenso desprazer.
O risco de sonhar traz sempre o desafio
E não mereço além do pouco que inda trago,
A morte com sorriso expondo o seu afago,
E nela entranho o medo, e mesmo se desfio
Os erros mais comuns aonde me perdi,
Vestígios do que fui encontro ainda em ti.


30107


Imagem refletida em tons diversos, grises,
A carga do viver, os feixes mais pesados,
Os dias que sonhei, agora desvendados
Não deixam que se veja além das várias crises,
Os tempos que passei bem sei tão infelizes
E deles nada trago a não ser os enfados,
Risível caminheiro em busca dos passados,
E quando mais preciso, eu sinto que desdizes.
Um trágico pendor, a morte trama o luto
E quantas vezes teimo e mesmo até reluto
Mas sei que no final, derrota se aproxima
E vendo o verso amargo aonde poderia
Dizer do quanto em mim é viva a fantasia,
Porém do quanto pude estúpida agonia...


30108


Se rindo enquanto tento ao menos disfarçar
Escapo vez em quando embora na verdade
A vida não trará sequer a realidade
E tendo mais distante ainda a luz solar,
O rito se percebe e nele ao me mostrar
Gerando o que pensei além do que me agrade
A senda se traçando aquém da liberdade
Não pude e nem consigo em paz, mais navegar,
Esgares são comuns, e neles me percebo,
Ateu por quanto pude em Cristo sempre crer
Na vida após a vida, alento e até prazer
E desta fantasia ou mito ou rito eu bebo
Retorno ao mesmo chão de onde não poderia
Fugir, pois nele a morte relata uma alegria.


30109


Virás sempre comigo, uma esperança atroz
E tanto se fizesse ainda apresentável
O solo que pensei há tempos mais arável
Enquanto ninguém ouve ao menos minha voz,
Assim ao perceber mais forte nossos nós
O quando poderia eu sei mesmo intratável
Riscar em poesia o mundo imaginável,
Mas sei o quanto espero um novo logo após.
Ao perecer um dia aguardo o nascimento,
E neste eternizar decerto o meu alento,
O vento renovado, a sorte se mostrando
No quanto posso crer e ter esta mensagem
Que possa transformar em bela esta viagem
Invés do quanto vês, apenas ar nefando...


30110


Constelações em farpa e fúria desenhadas
Estrelas do que foste e nada mais restara,
A noite sem a lua eu sei já não é clara,
Assim como sem sol, são turvas as estradas.
Entradas, risos, gozo, as horas desoladas,
A solidão se ancora e torna a senda amara,
E quanto poderia a cicatriz; a escara
Tomando cada pele e nela desenhadas
As marcas deste sonho atroz, porém sensato,
O quanto do que posso e jamais arrebato
Não diz da realidade e nega qualquer luz,
A morte se aproxima e dita o seu legado,
O mundo que ora vivo é sombra do passado,
Que tanto me fascina e mesmo me conduz...


30111

Na chaga por herança imagem do que outrora
A vida me trouxera em cenas mais doridas.
E quando se percebe ausência de saídas
Apenas o vazio ainda toma e ancora
O medo do sonhar, angústia que devora
Os cortes mais sutis, as horas, despedidas,
Não vejo mais por que ainda atroz acidas
Se tudo o quanto resta é saber ir embora.
Não posso contra a força e nem mesmo resisto
O quanto acreditei na face de Mefisto
Um Fausto se iludindo, uma alma sem valia
A morte pode ser talvez a solução
Saber que nunca mais em mim qualquer verão...
Mas toda a realidade em palidez porfia...

30112


Cada erro cometido impede a caminhada
E tendo esta certeza embora mais fugaz
O quanto deste olhar já não traduza a paz
Somente em mim resiste a dor do não ser nada,
Alçando alguma estrela espúria e desolada
Mereço o funeral em vida que se faz
No quarto de dormir, na face mais mordaz
Daquela que me beija e vejo destroçada
A história sem porvir, o vândalo sonhar,
Abarco enganos, sigo invés de mansidão
Tomando cada verso a dor da negação,
Pudesse ter nas mãos, o grão, jardim, pomar...
Esboço de um passado imerso em tais mentiras
E os restos do que fui, aos poucos vens e tiras...


30113

Vencido por fantasma envolto em sombras tantas
Não pude conceber um dia mais tranqüilo
E quando a podridão desta alma hoje desfilo
Ao mesmo tempo ris enquanto desencantas.
Nefasta vida feita em árduas lutas, quantas
Pudera imaginar e quando em dor destilo
Meu verso mais atroz não sendo mero estilo,
Verdade traduzida e assim tu me quebrantas.
Resisto vez em quando e tento até sorrir,
Mas nada me restando, a morte, um elixir
Que possa redimir quem tanto se fez mau,
O barco sem destino, o cais bem sei ausente,
Naufrágio em solidão é tudo o que pressente,
Na turbulenta rota, a frágil, torpe nau.


30114


A cada gargalhada em ironias feita
O medo se apresenta e mostra a realidade
Não tendo um só momento ainda que me agrade
Como será a vida estúpida e desfeita
Jazigo da esperança uma alma quando deita
Vencida pelo nada exposta à velha grade
Sem ter qualquer caminho encontra a tempestade
E nela sem saber o quanto se deleita.
Rejeito então um porto e mostro a minha face
Medonha e se nefanda é tudo o que inda trago,
Ainda poderia ao menos num afago,
Mas quando a vida chega e o fim aos poucos trace
A gargalhada traz somente uma ira imensa,
E nela a fera quieta em fúria amarga pensa...

30115


Por já não ter nenhum momento em paz e luz
Eu busco nesta treva a força que talvez
Pudesse serenar o quanto se desfez
Do amor que nunca tive e jamais reproduz
Cenário benfazejo, agora exposto em pus
E tudo se transforma ausente lucidez
Mesquinho fato aonde o mundo que tu vês
Transcende à fantasia e quando em vão me opus.
Na lâmina afiada, a ponta do punhal,
A morte se aproxima e vejo em triunfal
Momento este cenário arranhando o meu verso.
E quando me transformo em trevas, nada mais,
Encontro finalmente aí o porto e o cais,
No olhar de quem odeio o riso mais perverso.


30116


Sem sequer um jardim aonde cultivasse
A rosa mais bonita imersa entre as daninhas
Palavras que são tuas pudessem ser as minhas
A vida não mostrando além da mesma face
E dela se criando o quanto não se trace
Mudando vez em quando assim as toscas linhas
E tanto procurei, mas já não mais alinhas
E neste nada ou pouco o que me resta? Impasse.
Passível de mudança o rumo de quem sonha
Portanto se faria ainda que bisonha
Verdade não contesto e sigo contra a fúria
Sem mesmo imaginar lacrimejo ou lamúria
Sabendo que no fim já não me importaria
Sentir a força imensa, intensa das marés
E sendo tanto assim bem mais do que tu és
A noite talvez dite ao fim uma alegria...


30117

Rastejo sob os sóis aonde tu cevaste
Canteiros que sutis não deixam qualquer flor
Gerada pela angústia ausente beija-flor
Condena-se afinal somente ao seu desgaste.
Resisto contra a força e sei que este contraste
Produz este vazio e nele sem me opor
Vencido pela fúria imensa, o sonhador
Já não concebe mais ao menos qualquer haste
Mortalha do passado ainda cabe e bem,
O tanto que sonhei e sei que não convém
Resiste à realidade e dita em tom feroz
A morte a cada passo, espúrio caminheiro
Não tendo sob o olhar ao menos o ponteiro
A bússola sem norte o que me resta? Atroz...

30118


É fugaz nesta ausência a luz que ainda brilha,
E tendo com certeza um passo mais audaz,
O tanto que podia a vida já não traz
E sigo sem saber da estúpida armadilha,
Uma alma quando insana à toa e em vão palmilha
Buscando o que seria ao menos mansa paz,
E leda caminheira enquanto o nada traz
Esgueira-se na sombra e tonta ainda trilha
Percorro o meu caminho envolto no passado,
Morrer seria benção. Mas nada se transforma
Somente o vento frio e a imensidão da noite,
Saudade desfilando assim em frio açoite
Estúpido poeta, aos poucos se conforma...


30119


Só por não ser quem fora outrora quando vivo
Não resta mais de mim resquício que inda conte,
E não sabendo mais se resta um horizonte
O olhar que um dia tive, às vezes mais altivo
Expressa a realidade aonde sobrevivo,
Tentando sem sucesso ao menos uma ponte
E nela novo rumo, embora não se aponte
Senão as ilusões; e delas, eu me privo.
Resistiria sim pudesse acreditar
Na noite em calmaria ou lua sempre cheia,
Porém a solidão, terrível me incendeia
Negando cada sonho e trama o pesadelo,
Meu passo se perdendo em fútil caminhada
Do quanto que pensei; restando o mesmo nada
E mesmo assim feliz apenas por sabê-lo.


30120


Do vago que inda resta a quem se imaginara
Além do nada ser um pouco mais ou menos,
Os dias não serão decerto mais amenos
Nem mesmo a lua em fúria expressa noite clara,
O vândalo sonhar adentra esta seara
As horas que perdi, envoltas nos serenos
Os cortes tão venais e deles os venenos,
A morte em pleno sol, aos poucos se declara
Carcaça do passado ainda aqui comigo,
A vida não concebe o sonho que persigo,
E tendo tanta dor não posso mais, brumoso
Vencer o temporal que ainda trago em mim,
Sentindo amortalhado o quanto resta enfim
E incrível que pareça, há nisto um raro gozo...


30122


Morrendo sem qualquer caminha que permita
A sorte benfazeja ainda que fugaz
De quem se percebera e nisto se compraz
De ter após a luta a morte por desdita,

Não pude ter no olhar sequer bela pepita
E quando se pensara ausente a doce paz,
O peso do passado enquanto ainda traz
A porta semi-aberta e nela se acredita

Vencendo o que se fez em torpe fantasia
A cargo da vitória a morte não procede,
E quando a solidão ainda me concede

Um pouco de esperança imersa em agonia
O vento me tomando invade cada cena
E tudo o que se fez ainda não serena.

30123

A despedida nega a chance de outra senda
E assim ao desnudar a face mais atroz
O pendular caminho escuta qualquer voz
E dela não se crê nem mesmo no que atenda
Vontade de quem sonha e quando sob a venda
O parto não se faz e tanto algum algoz
Pudesse traduzir o que inda resta em nós
Deixando a realidade e nela gera a lenda.
O passo rumo ao quanto ou quando mostra a face
Desnuda da verdade ainda que mordaz
Resulta no vazio enquanto assim se faz
O poço em que mergulho e nele já se trace
O cândido caminho ou mesmo mais tranqüilo
E quando em temporais, teimando em vão desfilo...

30123


O corte do arvoredo aonde houvera sombra
O prado destruído, a senda inabitável
O solo degradado um dia fora arável
Verdade e estupidez, enquanto toma e assombra,
Negando algum conforto, ausência de uma alfombra
E assim se mostra o não e nele se impecável
Caminho produzido agora não amável
Nem mesmo as ilusões, o caminhar alfombra
E quando em solo agreste a morte se porfia
Ultrizes temporais matando o que se quis
Terríveis noites vejo e nada de amanhã
A sorte traduzindo o que se fez tão vã
O peso do viver, imensa cicatriz
Que a cada amanhecer expõe a cicatriz.


30124


Daquele vendaval aonde poderia
Vencer o meu engano imerso no passado
E tanto o meu caminho em novo desenhado
Gerindo após o medo, histérica alegria.
Resisto ao que pudesse ainda me trazer
Depois de tanta chuva amena claridade
E quanto mais a dor aos poucos me degrade
O peso da esperança arrasta espúrio ser.
Jogado nalgum canto, esboço reações
E quando a realidade ainda vens e expões
Transcendo ao nada enquanto ainda quis o sonho
Figura tão nefasta em ar torpe e medonho.


30125


Granizo com nevasca, inverno dentro em mim,
Incerto caminhar um passo quase ateu,
A crença que sustenta há tempos se perdeu
A morte me açodando estorvo dita o fim.
Sabedoria humana? É mera caricata
A face da verdade já nada mais retrata,
O peso acumulado, o risco sem juízo
A servidão humana, a fúria em trevas dita
Imagem que eu criara às vezes tão bonita
Deixando como herança o imenso prejuízo
Do verme que surgi ao verme num banquete
O ciclo se cumprindo e a mítica rejeite.

30126

Nada mais teria enquanto porfiasse
Lutando contra a força imensa das marés
E tendo esta corrente atada aos nossos pés
A vida se resume em tola e tosca face
Vivendo tão somente envolto neste impasse
Jamais traduziria o quanto não mais és
E o peso do passado atado quais galés
Enquanto novo dia ainda não se trace
Vazios que inda trago expressam a mortalha
O coração audaz porquanto dita a luta
A cada caminhar encontra a fúria bruta
E mesmo contra tudo inerte já batalha
E o pendular caminho entoa a liberdade
Legando ao sofrimento um ar de falsidade.


30127


O rosto tão espúrio aonde se percebe
Razão para lutar ou mesmo ainda crer
No quadro desenhado em total desprazer
E assim ao penetrar dos sonhos a alma plebe
Não vê e nem podia o vento que recebe
Singrando a tempestade aonde pude ver
Retrato do que fui e invisto no não ser
O que talvez traduza a mansidão da sebe
Embora tão voraz o medo que me assola
O corte traz o medo e nele a salvação
Ainda que eu pudesse imerso em tal verão
Perdendo o quanto fora ainda imensa cola
E tanto não conheço o fim da dura estada
Por tantas vezes em raios desolada.


30128


De uma amizade opaca estúpido caminho
Aonde muita vez pensara calmante
Por tanto que a verdade enquanto enfim se ausente
Destrua qualquer sonho e assim sigo sozinho
Do medo que se vê apenas adivinho
O fim em solilóquio e nada se apresente
Tomando este cenário aonde se pressente
A morte emoldurando avinagrando o vinho.
Lutando contra a força ainda que mais fraco
O quanto se perdera aonde não atraco
Navego em mar sombrio, ausente algum timão
E tudo não passando ao menos de ilusão
A morte me redime e traça eternidade
Quem sabe ali terei paz e tranqüilidade?

30129


Estúpido este rosto exposto aos mais doridos
Momentos em que a sorte ainda poderia
Gerar alguma luz em pleno e claro dia
Assim os meus sinais jamais são percebidos;
Mortalha do que fui, outrora em tais olvidos
Renascem pouco a pouco e gestam fantasia
Ocaso diz do ocaso, acaso se faria
Um novo amanhecer e neles vejo urgidos
As telas que pretendo em luzes mais diversas
Enquanto sobre o medo eu sinto que tu versas
Risível caminheiro envolto pelas brumas
E tanto se fez farsa o que pensei real
Ascendo ao nada ser degrau após degrau
Enquanto mais distante eu sinto que te esfumas.


29130

De uma amizade opaca as cinzas persistindo
E nada do que trago ainda poderia
Trazer a claridade em novo e belo dia
O quanto se perdeu em rito amargo infindo
Não deixa qualquer sombra e quando me deslindo
Decifro o que não sou e nem pudera ser,
A morte se transforma e deixa amanhecer
Embora te pareça um momento mais lindo
Envolta no vazio, eu sempre posso ver
Resquícios do que fui e tanto me atormenta
A voz mais dolorida expressão do vazio
E quanto mais cismando enfrento o desafio
Sem ter sequer a luz e assim segue sedenta
Na busca de uma fonte aonde eu possa enfim
Traçar o muito pouco ainda vivo em mim...

30065/66/67/68/69/70/71/72/73/74/75/76/77/78/79/80/81/82/83/84/85/86/87/88/89/90/91/92/93/94/95/96/97/98/99/100

30065


Eu que tantas vezes renegava
A glória disfarçada em luz ou medo,
Agora neste verso te segredo
O quanto se perdera em cinza e lava,
Por mais que a vida seja dura e brava
Se tanto ou quase pouco eu me concedo,
A senda se moldando noutro enredo,
Não deixa mais a sombra da alma. Escrava.
Escavo dentro em mim velhas cavernas
E quando pouco a pouco tu me internas
Percebes neste tanto que fui eu
O mundo insofismável, verso triste
E mesmo contestado quem insiste
Vasculha cada parte que perdeu.



30066


Pudesse adormecer como as crianças
Embora em seus terrores, pesadelos
Os sonhos mais gentis ao revivê-los
Gerando novos tempos e esperanças.
E quando ao nada ser a voz se lança
Tocando mansamente os meus cabelos,
Os dias embrenhando em seus novelos
A morte a cada instante mais me alcança.
Funesta cena feita em cada não
E tento muitas vezes um sinal
Que possa permitir novo degrau
E dele se perceba anunciação
Do dia que trará claros momentos
Diversos destes tantos sofrimentos
Aonde cevo a mesma plantação.


30067


Quem me dará o beijo que procuro
Imerso nos desdizes de ilusões
E quando nova cena tu propões
O tempo continua sendo escuro,
Se tanto solitárNO Oio eu me amarguro
Ainda posso crer noutros verões
E os versos se condenam. Procissões
Por onde cada falso, outro perjuro.
Necessitava ao menos um alento,
Mas tudo o que cevei hoje recolho,
Recebo em pagamento olho por olho
E tendo obrigação de beber vento,
Mesquinha realidade? Não seria,
Apenas o provento da agonia.


30068


No olhar tão magoado de quem tenta
Vencer suas tempestas costumeiras
Aonde se preparam tais lixeiras
A morte a cada passo se apresenta,
Embora em sofrimento seja lenta
Não posso mais fugir destas bandeiras
E tanto poderia quando inteiras
As horas nesta fúria, violenta.
Errático percorro incoerências
E tanto se fizessem convivências
Sem ter a vida ao menos, e é concreto
Um ato que encerrando a tola peça
Sem nada que me iluda ou mesmo impeça
No quanto nunca fui eu me deleto.




30069

Calvários que me restam, morte e cruz
E ainda posso perceber o fim
Depois de tudo, enquanto vejo assim
O quando nada do que fui produz
Insanamente beberei o pus
Um simples bálsamo tocando em mim
E neste tanto poderia enfim
Vivenciar o que restou de luz…
Audácias tantas entre tantos medos
E navegar por oceanos vários
Aonde os dias não seriam ledos
Os passos lúbricos, sutis contrários
E o mesmo nunca se tornando audaz
Jamais encontro, finalmente a paz.


30070


Exibo a face deste atroz poeta
Que tantas vezes procurou alento
E não sabendo enfrentar tanto vento
Aos poucos louco seu cantar deleta
E nesta insânia ao caminhar repleta
A vida em dores fartas teima e tento
Saber do quanto não se fez tormento
Ainda vendo a amarga noite veta.
Estorvos sinto e não me calo mais
Nem podem tanto em tal terror; venais
Singrar as ondas deste ausente mar
Aporto sonhos; mergulhando em vão
Percebo o fim, neste terrível não
Aonde pude com destreza amar...


30071

Não quero nunca teu perdão, jamais
Necessitei do que se fez mordaz
E tanto pude conceber a paz
Embora versos me pareçam tais
Que quando luto ao procurar um cais
Ainda o medo que se tem me traz
O que não pode ser somente audaz
E quebrando os mais gentis cristais.
Tanto enfadonho o caminhar sozinho
Buscando inúteis sensações de um ninho
Ausente mesmo do que penso ainda
Na imensa glória de fazer meu verso
E quando vejo este porvir disperso
Apenas nada em tal terror deslinda...


30072


Erguendo a mão ao açoitar engodos
Não poderia caminhar em trevas
E quanta luz ainda teimas, levas
Deixando além estes terríveis lodos.
Os dias trágicos; conheço todos
E tantas dores se aproximam; levas;
E neste bando ao me perder tu cevas
Escudo o medo em teus sutis, vis, modos.
Mordaça tramas nesta ausência fera
E quando a noite perpetua a espera
Ferrenho e pálido este nada diz
Do quanto posso ainda mesmo em não
Tentar vencer este temível chão
Embora saiba em tua face, a atriz.


30073

Espúrias noites, solidão atroz
E quando posso perceber um dia
O quanto nego e sem qualquer magia
A vida nega ao sonhador a voz,
Unindo frágeis caminhares, nós.
E tanto medo ao se mostrar recria
O pantanal em que o não ser porfia
Negando o tanto onde se quis a foz.
Morrendo cedo, navegar no não,
E sem farol o navegante errático
Pudera ter neste momento o prático
Desejo estático; um melhor timão,
E tanto soube perceber meu fim,
Porém sonego o que inda resta em mim...


30074

Cadenciando o meu viver cruel
Percorro estradas onde pude ver
Cenário vário e nele tanto o ser
Cobrira a sorte com terrível véu.
E quando pude, caminheiro ao léu
Reconhecer em meus enganos crer
No jamais pude conhecer, saber
Deste sabor que me trará teu fel
Ao amargar em tenebrosa noite
A vida trama a cada instante o açoite
E gera a dor nesta semente atroz,
Lavrasse a vida com ternura e paz,
O mundo nunca mais venal, mordaz
Uma esperança encontraria a foz...


30075


O teu perfume ao adentrar na sala
Revive a glória em que talvez houvesse
Da vida inteira a mais divina messe
Saudade doma e com terror não cala
Uma alma tola que se fez vassala
Encontra a dor e não resolve a prece
Quem dera ainda o renascer que tece
Viva renasce e se mostrando em gala...
Apenas sonho e na verdade sinto
A turbulência num vulcão extinto
Destas fumaças, minhas ânsias feitas
E sei que ausente deste olhar tu ris
O quando fui e não serei feliz
Às horas mortas, noutro ser deleitas...


30076


Prazer em gozos variáveis sendas
E quando pude perceber o nada
Aonde a sorte sem saber calada
Cobrindo olhar em tenebrosas vendas,
Porquanto ainda meu delírio atendas
A faca em trágica manhã mostrada
A fúria atroz, esta medonha estrada
Amores foram simplesmente lendas
E tendo enfim o meu terror exposto
As marcas toscas dominando o rosto
Envolto em trevas andarilho audaz
Bebesse a luz e poderia então
Em pleno inverno renascer verão
Quem sabe enfim conheceria a paz.



30077


Sem a tramela o coração se esvai
Exposto mesmo aos mais difíceis dias
Aonde tantas luzes traçam frias
Manhãs nefastas então neve cai
Pudesse ter algum momento aonde
A própria vida não seria assim,
Enquanto vejo sem sentido o fim
O mesmo nada meu caminho esconde.
Resisto ao menos. Bastaria a luz
Nesta fornalha uma esperança ardendo
Das cinzas todas, não pudesse além
Do mesmo vago que em verdade vem
Matando enfim, o que jamais desvendo,
Vendida sorte, um andarilho em vão
Conhece apenas este inútil grão.

30078


Nudez que traz delírio a quem se fez além
Do todo ande fora e nada poderia
Viver além do quanto a vida em alegria
Ou mesmo em tempestade, aos poucos me contém
Resisto inutilmente e tanto sei do bem
E quando se demonstra apenas a agonia
O verso mais atroz encerra a fantasia
E o fim da amarga peça exposta ainda vem,
Não pude acreditar e nem mesmo calado
O mundo que tracei, por vezes desolado
Explode no vazio aonde me entregara,
Servindo de mortalha a quem se fez audaz
A porta do passado, há tempos se desfaz
Deixando como herança estúpida seara...


30079

Do jeito que se quer a vida em luzes fartas
Pudesse até talvez gerar incongruências
E nelas não se vê nem mesmo coincidências
Enquanto o caminhar aos poucos tu descartas,
Jogando sobre a mesa as viciadas cartas,
Olhando com terror procuro coerência
Mas nada do que vejo expressa uma inocência
As horas do futuro eu sei são tão ingratas;
Resisto às tentações do gozo pelo gozo
E tento transformar ainda em majestoso
O quanto desta estrada expõe falsas promessas,
E quando vês o não por onde ainda teço,
Expressas num sorriso o quanto foi tropeço
E a mesma cena atroz, sorrindo recomeças.


30080


A moça transbordado os lúbricos anseios
Deixando para trás os velhos preconceitos
Adentra sem pensar diversas camas, leitos
E sente este calor intenso nos seus seios,
Aonde poderia ainda haver receios
Os gozos mais sutis expressam seus direitos
E neste turbilhão enquanto são aceitos
As línguas em prazer descobrem tantos veios.
Assim a noite passa em rendas e cetim,
Até chegar manhã novo começo ou fim.
Vazio novamente após a tempestade.
A lágrima escorrendo, o copo de cerveja
Saudade ou mesmo o nada, em fúria após lateja.
Na maquiagem borrada a solidão invade...


30081


A vida sem a moça, a moça sem a vida
Numa avidez gentil ou mesmo degradante
O quanto não se quer e ainda se adiante
Porquanto a solidão, deveras tudo acida.
E vejo este cenário e nele a despedida
Por mais que o tanto ser outrora fascinante
Traduza este vazio agora mais constante
A porta do motel traduz uma saída
Dos sonhos mais sutis, do nada revelado,
O gozo prometido o frasco já quebrado,
E a vida continua em bares escritórios
Depois da fria entrega um arrependimento,
Porém o que fazer? No sábado outro vento
Tanto antes, nada após. Momentos ilusórios...


30082

Do tanto quanto bem ainda posso ver
Gestado dentro em mim num dia mais nefando
O corpo noutro corpo, aos poucos deformando
Espelho retratando a morte em seu poder.
Não pude em desafio ao menos recolher
O que pensara outrora e sei que desde quando
A juventude em ruga e medo me tomando
Retrato do que eu fui? Jamais reconhecer.
As coisas mudam sim, e nada pode ao tempo
Porquanto se fazendo em erro e contratempo
Maturidade esboça apenas caricata
Imagem degradante aonde poderia
Fingir que ganhei tanto em tal sabedoria,
Mas quando vejo a face espúria que maltrata
Especular verdade esboça tão somente
O fim que a cada dia, imenso se apresente...



30083

Amor sem ter juízo é simples redundância
Juízo em desamor talvez bem mais sensato,
E quando no já fui apenas me retrato
A sorte diz da sorte em tola discrepância
Não pude conceber sequer qualquer distância
E tanto poderia o encanto de um regato
Na sua mansidão, mas quando em tal maltrato
A vida se porfia e nela a cada estância
Gestando esta quimera aonde posso ainda
Sentir ausência plena, a mortalha tecida
Sabendo ser assim o caminhar da vida.
Pereço a cada instante ausência se deslinda
Decifra o fim do sonho e quando me percebo
A morte se aproxima e dela nela em paz eu bebo.


30084


Tornando nossa noite um momento feliz
Promessa realizada em luzes bem mais claras,
Mas quando volta o dia e o nada me declaras
O sonho que tivera enfim se contradiz.
O peso do viver expressa a cicatriz
E sei do quanto vejo em alegrias raras
Distante deste olhar as mais belas searas
O sol já não permite algum claro matiz
E tanto quanto pude em ânsias conceber
Um tempo aonde um dia em novo amanhecer
A sorte mostraria além deste vazio.
Mas pelo menos tive a noite prazerosa,
Perfume de um momento expondo assim a rosa
No outono um dia quente, um temporão estio...


30085


A festa na cidade, o sonho de menino,
A vida não traduz mais esta sensação
E quanta noite eu tive; imerso na paixão
Mal sabendo enfim o quanto é cristalino
Momento mesmo vago enquanto me fascino.
Depois a tempestade, a noite em solidão...
Resisto ao meu anseio e sei que não virão
Jamais outros sutis delírios de um destino
Imerso em treva agora, o quanto tive em brilho
Velhusco coração se o meu passado trilho
Bebendo desta fonte embora há tanto ausente
Saudade do que quanto agora feito em nada
Gerando novamente a redentora estrada,
Embora tão somente a morte se apresente...



30086

A moça seminua entranha no meu sonho.
A lúbrica vontade há tanto abandonada
Agora se percebe e doma a madrugada
Ainda resta então um cenário risonho,
E quando um novo verso eu teimo e até componho
Falando deste todo embora eu viva o nada,
Revejo num segundo aquela bela estrada
Seguida por quem hoje encontra um vão medonho.
Não pude disfarçar sorriso quase estúpido
E num olhar sutil, quem sabe mesmo cúpido
Amenizando a ruga exposta neste espelho,
A boca já sem dente, os cabelos grisalhos,
Voltaram num segundo aos mais belos atalhos...
Porém ao mesmo tempo, os dedos neste engelho...


30087


A gente ao mesmo tempo encontra o nada e vê
Senzala do passado ainda vive embora
Renova-se sutil e quando assim decora
O mundo noutra face esgota algum por que.
O carma concebido envolto se revê
No quanto fora atroz a vida que se aflora
A cada negação, e tanto se demora
Revivo o que se fez lamparina e sapê.
E agora num neon esboça-se a verdade
Terrível contra-senso ainda que me agrade
Conforto mata um pouco as minhas esperanças.
Meus filhos não verão as sombras do que fui,
E nem sequer o quanto expõe o que hoje rui
Traçando este futuro aonde em luz avanças.


30088


O corpo desejado há tempos não mais veio
E todo o que se foi jamais retornará
A porta já fechada o quanto havia cá
Do menino morto, ao menos o receio
Permanece vivo, e sendo sempre alheio,
Resiste à novidade e nunca brilhará
A servidão humana, o corte mostrará
Apenas timidez e dela meu anseio.
A boca escancarada, o riso nunca aberto,
O passo pelo não, caminho que deserto
Enquanto crio enfim um mero personagem
Mas quando num espelho eu vejo a minha face
Não nego esta visão, ainda que se trace
Diversa do que sou, espúria paisagem.


30089


O olhar de quem jamais se acreditou além
Desta mesmice eterna aonde se fez vida
E não sabendo mesmo encontrar a saída
Singrando um tolo mar, e quando me convém
O peso do passado e disso sei tão bem
Ainda sonegando a fúria em que se agrida
Errático caminho audácia em despedida
Jogado em algum canto e sendo sempre aquém
Do que permitiria encanto de quem sabe
Viver sem perguntar apenas o que cabe
Desaba o que criei: fantasias sutis.
Reparo a cada engano um dia que não veio
E sinto que talvez qualquer mero receio
Esboce a realidade enquanto a contradiz.


30090

Portal do Paraíso? Apenas negação
Do todo que pensei ao menos num instante
A cena percebida eu sinto degradante
E nela mais terror tomando a direção
Porquanto eu poderia traçar novo senão
A vida não permite e mesmo alucinante
O passo que se deu e nele se agigante
A fúria mais sutil aumenta a sedução.
Eu pude conceber um verso onde talvez
O encanto do passado agora se desfez
E dele não sabia as cores mais suaves.
A morte é pressentida e nela realizo
O pendular caminho em dor, medo e granizo,
Porém nas asas vejo as libertárias aves.


30091

Manhã se refazendo após as tempestades,
Barracos, casas, morto o sonho de quem tanto
Vivera transformar o antigo desencanto,
Mas teve ainda assim as mais terríveis grades.
E quando a sensação de pena toca e invades
Não vês a nossa culpa e dela este quebranto
Gerando pelo medo e agora traça o pranto
Como se esta injustiça: imensas novidades!
A porta de algum céu escancarada a quem
Conhece do perdão, do amor que lhe convém
Bem mais que teoria, ou mesmo uma falácia.
Mas tudo recomeça e segue sempre assim.
O meio se qualquer justificando um fim,
Lutar contra si mesmo, eu sei que é rara audácia!


30092


Na cálida presença envolta em luz tranqüila
Não pude perceber somente a imensa farsa
E quem pudesse tanto agora só disfarça
E nada do que fora em paz sabe e desfila.
O amor tal caricato em fel sempre destila
A sorte traiçoeira e sendo agora esparsa
Encontra no terror amigo e bom comparsa
Inútil confraria, embora a mesma argila.
Ferrenho caminhar envolto em temporais,
Negando a melhor sorte ao que se fez audaz,
E tanto poderia o quanto satisfaz,
Mas ouço a mesma voz expondo o nunca mais.
Risível sorte? Nunca a vida se mostrara
Embora tenebrosa em forma assim, tão clara.


30093


Entranha aprofundada aonde poderia
Saber de nova luz ou mesmo uma esperança.
O quanto do vazio ao nada sempre alcança
Jamais perpetuando além desta agonia.
O verso bem pudesse ainda em alegria,
Mas quando sinto em mim a dura e fria lança
Mortalha cultivada aonde o não avança
A sorte se mostrando assim bem mais sombria.
No féretro comum, a carpideira sorte
Não deixa que se veja ao menos qualquer norte,
E tendo este não ser em corriqueira voz
O peso me vergando, o mundo em dores tantas
Enquanto nada vejo ainda tu te espantas.
Mal sabe vivo em nós, este medonho algoz.


30094


E mata em ironia a sorte benfazeja
Inocente sonho, ausência de futuro.
O parto sonegado, a morte em tom escuro,
O corte se aprofunda e nada que se veja
Permite ainda a luz enquanto a vida almeja
Um salto até qualquer domando assim o muro.
Neste vazio torpe insano eu me perduro
Morrendo uma ilusão; a sorte relampeja.
Eu tive dentro em mim certeza que perdi,
Etérea fantasia o mundo desde aqui
Cultua novos reis e deles se faz crente,
Ao ver o meu caminho em trevas, negações
O peso do passado aonde o nada expões
Não tendo mais um cais que ainda se apresente.


30095


Orgástico amanhã? É mera fantasia,
O vândalo que existe em mim não mais cabendo
Vestindo esta mortalha e nela um dividendo
Enquanto se transforma apenas me recria
Perdido este andarilho envolto em poesia
Não sabe e nem percebe a morte se embebendo
Desta aguardente aonde o corte me envolvendo
Não deixa que se creia além de uma agonia.
Eu verso sobre o nada e dele me amortalho,
O quanto quis a vida em novo e bom retalho
Fazer qualquer emenda e tendo em resultado
Alguma luz, embora eu saiba deste não
E nele os meus sutis caminhos moldarão
Somente este vazio e dele farto enfado...


30096


Àquele quem em delírio expressa o seu vazio
Não posso mais falar nem mesmo sobre o nada
Que tanto emoldurasse a podre e vã estrada
Aonde o meu caminho aos poucos desafio.
Revejo este cenário e nele sendo o frio
A contumaz estância e dela a madrugada
Impõe ao andarilho a mesma degradada
Estada no passado enquanto em vão porfio.
Peçonha costumeira açoda que procura
Ao menos navegar embora em noite escura
Sem ter estrelas tenta em riscos conhecidos
Vencer o seu demônio embora em dias ledos
Soubera desvendar alguns dos seus segredos
Revive sem saber momentos já vividos.


30097


Na farsa que se impõe em faces tão diversas
Demônios são comuns e deles adivinho
A embriaguez audaz expressa em todo vinho
Sanguínea realidade; aonde queres, versas
E tendo com terror as tétricas conversas
Percebes sem saber o lúbrico caminho
E nele o que talvez pudesse ter carinho
Satânica vontade em sendas mais dispersas.
Perversa fantasia? Ao menos verdadeira.
Do quanto se demonstra em face mais venal,
O amor não se traria além de um ritual
E dele se transforma em luta que não cessa.
Mas nada do que traz a vida em falsa imagem
Permite alguma senda e sinto ser miragem
O que talvez pareça a ti uma promessa...


30098


Desde que a vontade ainda me trouxesse
Momento mais feliz e nele renovando
O fardo do viver que sei tanto nefando,
E dele não se vê sequer a sorte e a messe,
Portanto o caminhar enquanto recomece
Permitindo a luz embora sonegando
O quanto posso ainda em trevas me guiando.
Não tendo outro momento além do que se expresse
Em dor e tempestade, amortalhada estrada
E sendo sempre assim a morte dita o rumo,
O quanto do vazio em mim teimo e consumo
Pudesse ter a senda em sóis já desvendada.
É ledo o meu destino e nada se transforma
Num pantanal minha alma, espúria e torpe forma...


30099


Egresso do naufrágio esgoto a minha sorte
E tento ao menos ver um cais, pura ilusão
O luto em vida vejo e nele a direção
Do quanto nada sou e nada me comporte,
Ainda poderia enfim na minha morte
Sentir um resto ledo, ausente meu verão,
Esboço em ironia a tétrica aversão
Aprofundada em mim, a chaga, escara o corte
Resíduos do que fui andando pela casa,
E tanto sinto assim que este final se atrasa
E nada poderia ao menos consolar,
O riso do passado, o risco do futuro
Carcaça que hoje sou, meu passo neste escuro,
Aonde não se vê nem crê na luz solar...


30100

Persiste sem saber quem tanto quis a glória
E vendo o seu retrato agora amarelado
Jogado na gaveta expressa o seu passado,
A morte então seria ao menos a vitória.
Um pária apodrecido, apenas uma escória
Nefasta realidade, ausente algum legado,
A fétida mortalha em solo aprofundado
E tudo se transforma em leda e merencória
Imagem do que fora outrora um ser vivente,
E o rosto decomposto é o que se vê, se sente
Traduz o quanto um dia ainda quis diverso.
E não sobrevivendo à neve que me toma,
Aonde a divisão domina antiga soma,
Semente se gorando, expressa-se em meu verso