segunda-feira, 17 de maio de 2010

33051 até 33100

33051

Ser tudo o que queria o coração
E prosseguir sem ter sequer desculpas
Aonde se pensaram tantas culpas
Cultuas com ternura algum perdão
O cais em que procuro a solução
Enquanto um novo mundo ainda esculpas
Dos passos em enganos tu me culpas
E vês que também perco a direção
Pudesse o meu saveiro em ancoragem
Diversa do pensa e com coragem
Couraças bem mais fortes criarias,
Mas sei o quanto fora sempre fútil
E tento caminhar, embora inútil
O rumo onde deveras desafias.

33052

Liberta esta coragem de lutar
E ver o quanto podes se quiseres,
E quando te lembrastes de um alferes
Das alterosas vejo o meu lugar,
Girando contra a fonte a se mostrar
E nela entre temores e vieres
Singrando mares tantos interferes
E feres quem cansara de enlutar.
Resido no passado e busco o dia
Enquanto a noite ainda aqui desfilas
E quando noutros olhos, mesmas filas
O tempo proclamando esta heresia
Criando inevitável tal jazigo
Aonde em noite escusa já me abrigo.


33053

Não tendo e nem teria cais e pé
Vestindo os diamantes das gerais
E nestes caminhares em cristais
O quanto se perdera em som e fé,
Riscando cada espaço sei qual é
O rumo pelo qual não verás mais
Os dias entre tantos desiguais
Poeira ganha espaço e segue até.
Lamentos entre riscos e verdades,
Semente de madrugada quando invades
Bebendo cada cálice do vinho
Aonde sem medida ou medo eu vivo
E danço esta esperança qual cativo,
Vivendo cada verso mais sozinho...

33054

Girando contra o tempo volta e meia
Arrasto meus demônios pela sala
E quando a tempestade avassala
A lua voltará decerto cheia,
Morena que tanto toca quanto é teia
E vence na medida em que me fala
Do tempo que se foi e nada cala
Aonde esta cigana me norteia.
Cravo e canela, morenice
Daquela que se tanto diz ou disse
Felicidade trama no horizonte,
A lua dançando nua em noite plena
O quanto do meu sonho já serena
Permite esta emoção aonde apronte.

33055

Viam-se nos olhares de quem tanto
Quisera a liberdade, fartas cruzes
E aonde se pensaram claras luzes,
A noite se tornando em tal quebranto
A dita me envolvendo em turvo manto
Aonde nada pensas ou conduzes
O todo que deveras reproduzes
Tomando com terror delírio e canto.
Cravadas nos meus peitos tais estacas
E quando me amortalhas logo emplacas
Com fúria cada passo onde eu pudera
Vencer o esquecimento e procurar
Ainda que distante algum lugar,
Porém a vida nega a vaga espera.

33056

Revejo os meus demônios cada instante
Aonde poderia crer num cais
E tantas as promessas que jamais
Encontrarei qualquer uma constante
E ainda que meu passo se adiante
Não vendo nem querendo nunca mais
Os olhos entre farsas e cristais
Os cortes aprofundas delirante.
E ainda que pudesse ser diverso
No tanto em vão por onde teimo e verso
Reverso da medalha, sinto o frio,
Gerado pelo engano contumaz
E quando me percebo já sem paz
O tanto do que sonho é desafio.


33057

Se eu puder cantar e ter ainda
A noite enluarada ou mesmo o sol
Tomando com ternura este arrebol
A cena então seria clara e linda,
Mas quando a realidade tudo finda
E vejo-me deveras um atol,
Morrendo sem destino, caracol,
O peso do passado se deslinda
Girando sem sentidos, girassóis
Ainda sem saber quaisquer faróis
Um faroleiro perde a direção,
E sabe do planeta que não veio
E quando novo tempo dita o anseio
Somente esta semente em podridão.

33058

Riscando do meu mapa qualquer norte
Tentando perceber a luz aonde
A lua a cada dia mais se esconde
Fugindo do carinho que a suporte,
Morrendo sem sentir a própria morte
O quanto do passado não responde
E o bêbado caminho dita a fronde
Deste arvoredo exposto ao frio corte.
Ao menos na cidade poderia
Nas rondas e nos bares, poesia
Mas nada do que tive se repete,
E quando novo tempo se aproxima
Faltando serenata lua e rima
Ausência em turbulência se reflete.


33059

Das filas e senzalas costumeiras
Negando qualquer fonte ou existência
Pudesse ser apenas coincidência
O que se percebe agora quais bandeiras,
E tanto quanto podes ou te esgueiras
Cumprindo assim terrível penitência
O sino se dobrando em inclemência
As moscas sempre as mesmas, carpideiras,
Retarde o velho passo e tu verás
Ausência do que tanto disse em paz
E a morte se aproxima do balcão,
Salões em danças festas e boleros
Os dias poderiam ser sinceros,
Mas nada do que ronde o coração...


33060

Janelas entreabertas do meu peito
Aonde penetrando versos vários
E tantos olhos morrem adversários
Tentando vislumbrar onde me delito
Delito cometido e me deleito
Nos templos destruídos, relicários
Sonhando com visões, imaginários
Caminhos onde o passo fosse aceito,
Resumo com palavras ou com sonhos
Os quadros quase sempre mais bisonhos
Deitando sobre as velhas emoções
E busco noutro canto ou mesmo em mim,
Seara aonde possa ver enfim
Lotados meus bornais de provisões.

33061

Memória, escória d’alma ou mera escora?
Assisto aos meus enganos do passado
E vejo o quanto tanto andara errado
E a fonte que alimenta me devora,
Um podre cais aonde o barco ancora
Caminho pelo tempo destroçado
Arcanjos entre sonhos de pecado
A imagem tosca e pútrida demora
E toma com furor o dia a dia
Matando qualquer luz na poesia
Ou gera mais demônios dentro em mim,
Memória do que fora e não mais quero,
Num ato vil cruel e sei que fero,
Revive cada instante de onde eu vim.

33062


Procuro cada cena da janela
Aonde se espreitara a vida inteira
E vejo quanto falsa ou verdadeira
A história muitas vezes se revela,
E tanto quanto pude abrir a vela
Ainda sem saber sequer fronteira
Mistérios de outro tempo, tudo esgueira
E apenas a janela doura a cela,
Velórios que carrego dentro da alma
Momento onde a mortalha em fúria acalma
E o peso do sonhar que não me larga,
A vida se mostrando em tons diversos
Gerando assim em mim dispersos versos
Por vezes dolorida, outras amarga.


33063

Não queres meu caminho? Tudo bem.
A vida não repete estas histórias
E aonde se pensara nas vitórias
Apenas o vazio ainda vem
E quando me percebo sem ninguém
Juntando os meus pedaços as memórias
Entranham noutros ritos, merencórias
E a velha tempestade me contém
Evitar sofrimentos? Nada disso,
Se ainda esta sangria em mim cobiço,
Vagando pelo pouco que restara
Do todo demonstrado no passado
Agora o meu caminho desolado
Bebendo com prazer a sorte amara.

33064

Enganos são comuns a quem procura
Viver felicidade sendo atroz
O mundo aonde rompem-se tais nós
E o todo perfilado em noite escura,
Ausência de carinho se perdura
Não muda nem sequer domina a foz
E o bêbado sentir que vem após
Aldeias mais distantes, terra dura.
À beira do que fosse qualquer vida
Vibrando em sintonia com o nada,
Tão resoluta mente destroçada
No pouco que inda resta já duvida
Do amor cenário torpe e inusitado
Mistura de perdão e de pecado...


33065

Quando à noite dormias entre estrelas
E luas tão diversas quanto belas
Os barcos entre mares, soltas velas
Certezas de esperanças posso vê-las
E quando em minhas mãos puder contê-las
Distantes emoções já me revelas
E tantas vezes sonhos nobres selas
Envoltos em ternuras, quero crê-las
E ter além do cais uma esperança
Aonde o coração em luzes lança
Vivendo tão somente a fantasia
De quem se permitindo ser feliz,
No amor quando demais deveras diz
O todo que este sonho ora desfia...


33066

Em tantas melodias, cada sonho
Tocando estes espaços siderais
Vivendo com ternura muito mais
Do que num verso simples eu componho,
O mundo outrora frio ou enfadonho
Agora se mostrando em rituais
Diversos adentrando por astrais
Caminhos onde a sorte recomponho.
Vestindo desta rara luminária
A vida noutra cena temerária
Deslinda-se em suprema maravilha,
E quem se fez há tempos solidão
Percebe em tão suave direção
A imensa claridade que ora trilha.

33067

Sentindo a viração de um tempo rude
E dele renascendo em maciez
O quanto deste encanto se refez
Permite ao coração que se transmude,
E sei quanto este amor por tanto ilude
E nesta mesma vida sem porquês
Os dias são diversos do que vês
Ausente de meus olhos juventude,
Mas quando dessedento esta vontade
No amor intenso em gozo que me invade
Permito renascer esta esperança
Sentindo a viração em brisa feita
Minha alma com ternura se deleita
E o paraíso em vida agora alcança.


33068

Embalado sonho em lua imensa
Aonde se percebe este acalanto
E quando em fantasia tento e canto
Buscando tão somente a recompensa
Do beijo incomparável que convença
E deixe para trás a dor e o pranto
No todo feito em luzes me agiganto
Não tendo quem talvez inda me vença,
Resisto aos meus anseios? Não consigo,
E tento nos teus braços meu abrigo
Vivendo cada instante em luz sublime,
No amor quando em delírios se permite
A vida muito além de algum limite
De todas minhas dores já redime.


33069

A lua derramando em seus clarões
O brilho em que desnuda tu te banhas
Prateia-se por sobre estas montanhas
E quando em tal beleza tu te expões
O mundo se perdendo em seduções
Percebe da ilusão diversas manhas
E tantas noites ditam novas sanhas
E nelas com ternura as emoções
Das quais já se alimenta a poesia
E quando nos teus braços bem se via
A bela maravilha em raios tantos,
Meu verso embevecido se alimenta
E a sorte de um amor, antes sedenta
Cedendo sem defesa aos teus encantos.


33070

O coração expressa esta vontade
Depois de tantos ais, a solidão
Agora volve noutra direção
Enquanto esta beleza em paz invade,
O amor ao transmitir felicidade
Traçando novos dias que virão
Mudando novamente esta estação
Porquanto a própria vida desagrade,
Encontro em tua face esta resposta
E tendo deste amor rara proposta
Eu posso enfim dizer que estou em paz,
Momento sem limites, nada além,
E quando a fantasia nos contém
Eu vejo finalmente o que isto traz.

33071

O véu que te cobria em alvos tons
Tocando a tua pele alabastrina
Imagem delicada me fascina,
Momentos que adivinho raros, bons,
E assim amor expressa belos dons
E neles a vontade que domina
Enquanto te percebo, uma menina
Escuto o paraíso em claros sons,
Mergulho na paixão que se emanando
Tornando o nosso dia agora brando
Vibrando com ternura em harmonia,
E assim ao te encontrar imersa em lua
Minha alma te procura e já cultua
Amor que em tanto amor, luzes recria.

33072

A lânguida beleza desta tez
Aonde se percebe maravilhas
E quando no passado as armadilhas
O próprio encanto em glória hoje desfez
Traduz esta suprema insensatez
Na qual amor derrama belas trilhas
E quando como um sol imenso brilhas,
Irradiando em mim tu já me vês
Imerso ao endeusar rara beleza,
E assim a minha sorte se afigura
Tocado por tão nobre criatura
Satisfação de ser apenas presa
De quem se fez rainha enquanto salva
Estrela em que me guio, tomando alva.

33073

Envoltos por momentos de fartura
Encontro-me nos braços de quem amo,
E quando na verdade ainda tramo
A sorte em que este canto se procura
Voltando ao meu passado em tez escura,
No quanto discernindo cada ramo
Da história que se muda já programo
A vida como fosse uma moldura
E teço o dia a dia em tanta luz,
Ao magistral caminho já conduz
O amor que encanta e doma o coração,
Saber-te e acreditar neste momento,
Traçado com ternura onde me alento
Vivendo estes delírios que virão.

33074

Palpitas ao sonhares, coração
E sabes muito bem quanto eu desejo
Daquela a quem se fez a cada ensejo
Caminho que meus passos guiarão,
E tento novamente desde então
Saber do quanto possa, e me verdejo
Nas ânsias deste encanto mais sobejo,
Podendo desvendar a tentação
Da qual e pela qual eu me alimento,
O amor quando demais vira provendo
Do sonho envolto em raras maravilhas,
E sei que também queres cada passo
Do mundo aonde em sonhos, vida eu traço,
E além de qualquer astro, sempre brilhas.


33075

Cismando em noite clara eu te procuro
E sinto em cada arfar tua presença
Ao ver bem perto, aqui, a recompensa
De um tempo mais atroz, temível, duro,
A sorte que deveras amarguro
Depois de tanto tempo em dor imensa,
Agora noutro rumo, se convença
Do quanto tanto amor; em ti, perduro.
Vestindo esta ilusão nada me impede
Nem mesmo a tentação já se concede
O vento aproximando da janela,
Clamando por teu nome, com ciúmes,
Temendo que deveras tu te esfumes,
Meu sonho dos umbrais fecha a tramela.

33076

Os teus cabelos soltos, raro vento,
Tocando a tua pele em arrepios
E assim ao se sentir prazer em frios
Um mundo sem igual, desejo e invento
E quando nos teus rumos me alimento
Os dias do passado, tão vazios
Agora enfrentam raros desafios
E tentam nos teus sonhos provimento.
E pavimento os dias com teus laços
Usando como apoio os firmes braços
Do amor que nada mais inda segura,
E a vida renovada em cada verso
Deixando para trás rumo diverso,
Mostrando-se deveras clara e pura.

33077

Enquanto tu sonhavas, eu tentava
Dormir e não consigo nem descanso
E quanto nestes sonhos me esperanço
A vida outrora fria atroz e brava
Em nova e bela face se mostrava
E quando se percebe este remanso,
Aonde o coração agora manso
Em toda a maravilha se encontrava,
Risonho caminhar por entre flores
Seguindo com certeza aonde fores,
Tentando subverter a correnteza,
Bebendo cada gole da alegria
E nisto nosso amor se refaria
Moldado com ternura e com pureza.


33078

Minha alma embriagada pelo sonho
De um dia mais suave e mais tranqüilo
Enquanto nos teus dias eu desfilo,
Um novo amanhecer eu já proponho,
E quando mergulhando em ar risonho,
O amor se propagando em calmo estilo,
Sem perguntar mais isto nem aquilo,
Caminho mais feliz, quero e componho
Nos braços da mulher que tanto quero
Viver este delírio mais sincero
Sem ter defesa alguma e ser feliz,
É tudo o que imagino, e nada cala
A sorte desta luz ora vassala,
Traçando com brandura o que bem quis.


33079

Tua alma tantas vezes já me priva
Das duras emoções onde eu tivera
Ausente de meus olhos primavera,
No quanto se mostrando pensativa
Vivendo cada instante ora me criva
Do gozo cujo brilho me tempera
E tanto apascentando em mim a fera
Adormecida e agora já cativa,
Andando sobre estrelas, raro espaço,
Singrando este oceano aonde eu traço
O mundo desejado e deslumbrante,
Ao menos sou feliz e nada disto
Transcende ao próprio encanto, pois insisto
Viver esta loucura a cada instante...

33080

Tremias de prazeres inauditos
E entre meus braços via ressurgir
Aquela que se fez em meu porvir
Com sonhos poderosos e bonitos,
Seguindo da esperança velhos ritos
O quanto deste mar sinto bramir
Vagando em noite clara quis sentir
Além do que me dizem velhos mitos,
Os tantos caminhares por lugares
Aonde tu também, sinto trilhares
Riscando qual cometa um belo céu,
O amor ao nos tornar entorpecidos
Tomando com firmeza os meus sentidos
Cobrindo co’esperança, um raro véu...

33081

Imagem semelhante em mar imenso
Aonde encontro em ti o ancoradouro
E quando tanto amor se faz tesouro
É nele que deveras sempre penso,
E tanto poderia e me convenço
Do sonho nosso imenso sorvedouro
Restando a quem se quis onde me douro
O navegar em tempo mais intenso,
Vencer as armadilhas e tempestas
Enquanto aos tais delírios tu te empestas
Estendo os braços como fossem cais,
E sinto-te decerto junto a mim,
Bebendo a poesia vejo enfim,
Os fins dos velhos duros vendavais...

33082

Qual fora sensitiva que ao tocar
Defende-se das tramas mais diversas
Assim também no amor quando tu versas
Deixando-te depressa arrepiar,
Tocando a tua pele devagar
Porquanto noites claras vão imersas
Nos sonhos onde entranhas em dispersas
E redentoras luzes; demonstrar
Caminho aonde eu possa perceber
O quanto deste encanto diz prazer
E assim nesta beleza emaranhado
Vivendo sem defesas cada instante
Percebo um dia nobre e deslumbrante
Um tempo divergente do passado.

33083

À noite num luar maravilhoso
Adentramos espaços sem limites
E quanto mais aceites e acredites
Maior será decerto cada gozo,
Vibrando neste espaço majestoso,
Entranham-me mais sonhos se permites
E tendo nos meus olhos os palpites
Dos quais encontrarei mais prazeroso
O mundo procurado desde quando
Esta amizade em luz se transformando
Gerando novo amor, incontestável,
Assim somamos tanto quanto posso,
Vibrando em sintonias este nosso
Carinho que desejo interminável.

33084

As ardentias tomam o cenário
E deitam sobre o mar clarões diversos
E assim ao se mostrarem os meus versos
Distantes do passado num calvário,
Eu sinto quanto o amor é necessário
E singro sem defesas universos
E neles me despeço dos perversos
Momentos do passado, temerário.
Restando dentro em mim a poesia
E nela toda a sorte já se urdia
Vencendo com ternura os temporais,
O amor irradiando em luz suprema
Enquanto rompe assim feroz algema
Atando-nos em sonhos de cristais.

33085

Perfumes espalhados pelo vento
Tomando todo o espaço dizem tanto
Do amor aonde aos poucos mais me encanto
Enquanto mansamente ora me alento,
E tantas vezes vejo este momento
Deixando no passado algum quebranto
Ousando da esperança em verde manto,
Tocando com ternura o pensamento.
Vestígios dos meus dias mais doridos,
Jamais adentrarão novos sentidos
E tudo se transforma plenamente,
Assim ao me encontrar em tez suave,
Sem nada que decerto ainda agrave
O imenso sentimento que apascente.

33086

Bebendo desta doce maravilha,
Um néctar sem igual adentra em mim,
Qual fosse a florescer deste jardim
Aonde toda a sorte já palmilha
E quanto mais beleza o amor polvilha
Descrendo do terror por onde eu vim,
A sorte se demonstra e sendo assim
A lua mais constante agora brilha,
E sei dos meus antigos dissabores,
Percebo a sutileza destas flores
Aonde todo o gozo eu concebi,
Quem fora no passado mais distante
Agora se percebe radiante
Qual fora num canteiro um colibri.


33087

A noite parecendo em constelar
Beleza dominando o céu imenso
E quando neste amor eu quero e penso
Tocando a nossa pele devagar
A sorte desejada e mergulhar
Na glória deste encanto raro e extenso
A cada novo verso me convenço
Do quanto é mavioso sempre amar,
Não deixe que este sonho um dia acabe,
Nem mesmo este palácio em vão desabe
Deixando-se mostrar em frágil base,
A vida se refaz a cada dia,
E quando nos teus braços percebia
Suave frágua em paz que nos abrase.


33088

Suspiro ao me lembrar de cada dia
Aonde nós pudemos ser felizes,
E tantas vezes vendo velhas crises
A sorte noutra face mostraria
O quanto deste amor que tanto guia
Permite superar duros deslizes,
E assim ao se mostrar o quanto dizes
Viver felicidade em alegria,
Não posso mais negar o quanto eu quero
O amor sendo deveras mais sincero
Gerando novos tempos dentro em mim,
Eterno movimento desta vida
Agora permitindo esta saída
Depois de tanta luta, vejo enfim...

33089

Das flores que cevara em meu canteiro
Durante a vida inteira, primaveras,
Aonde com ternura tais esperas
Trouxeram tanta dor ao jardineiro,
Agora no momento derradeiro
Imerso entre terrores, medos, feras
Percebo este perfume em que temperas
Meu mundo muitas vezes traiçoeiro
E sei que finalmente posso ter
Nas mãos a maravilha do prazer
Incomparável luz em que ora creio,
Valendo com certeza toda a vida
E tendo finalmente resolvida
A história feita em trevas e receio...


33090

A pérola querida dita amor
Durante tanto tempo em mar profundo,
Agora se percebe num segundo
E mostra sem limites seu valor,
Abençoado dia a se compor
E nele quando em glórias eu me inundo
Nas tramas deste encanto eu me aprofundo
E bebo este momento sedutor,
Vencendo os meus antigos medos venho
Depois de tanto tempo em duro empenho
Trazer novo futuro em olhos mansos,
Dos pélagos diversos que encontrara
A sorte se mostrando bem mais clara
Permite-me encontrar raros remansos.

33091

Palavra lavra a sorte de quem tenta
Vencer com calmaria ou mesmo fúria
Detendo ou mais expondo uma lamúria
Na forma mais sutil ou violenta
O corte quando em versos se apresenta
Seara aonde expondo medo e incúria
O peso do viver dita a penúria
E nela toda a glória dessedenta
Restando a quem tentara ver além
O quanto da verdade não contém
Ou mais do que pudesse imaginar,
Assim a poesia se transforma
E bebe sem limites, regra ou norma,
Consegue nossos egos libertar.

33092

Saudoso dos teus olhos, o horizonte
No qual eu mergulhei sem ter defesas
Meus dias em teus rumos, meras presas,
Aonde a fantasia sempre aponte
E quando novo tempo dita a fonte
E dela se percebem correntezas
Geradas pelos medos e belezas
Sem ter sequer o quanto desaponte,
A ponte que nos une, raro amor,
Ainda molda sempre o tom e a cor
Do passo que se dá buscando o eterno,
Só sei quanto se vê já sem limites
O mundo pelo qual tanto acredites
E nele sem pensar também me interno.

33093

Sorrias mansamente no meu colo,
Deitando-te deveras com prazer
E pude neste instante mesmo ver
O quanto neste amor eu já me assolo,
A vida sem tortura medo ou dolo,
Sabendo quanto é belo renascer
E tendo neste olhar o amanhecer
Dourando com delírio todo o solo,
Farejo com ternura novos dias
E neles beijos as sombras onde guias
Os passos entre tantos que tu trazes,
Compassos mais diversos, ilusões
E quando tantos brilhos tu me expões
Tocando com ternura as minhas bases.


33094

Deitada já desnuda no meu peito
Depois do amor imenso que fizemos,
Os dias mais diversos conhecemos
No amor a cada tempo satisfeito,
E assim enquanto em glórias eu me deito
Usando da esperança como remos
Os mares delicados conhecemos
Enquanto te deleitas me deleito
E tudo se traçando em harmonia,
O amor quando em amor agora erguia
Um brinde ao mais completo sentimento,
Tramando com ternura novo templo,
Aonde em perfeição glórias contemplo,
Deixando ao desalento o sofrimento...


33095

A brisa nos tocando em noite clara,
Adentrando janelas entreabertas
E quando a solidão também desertas
O amor em plenitude se declara,
A sorte muitas vezes mais amara
Aquém das alegrias descobertas
Rolando sobre a cama, nas cobertas
Ao mesmo tempo doura e sempre ampara,
Resistir ao desejo? Não consigo,
E vivo a minha vida ora contigo
Sagrando com ternura a eternidade
Minha alma se entrelaça com a tua
E assim ao mesmo tom da clara lua
A vida sem perguntas nos invade.

33096

Desmaia ao longe a lua enamorada
E sente este perfume que se emana
Das flores em noturna luz profana
Adentram toda a imensa madrugada,
A noite em raro brilho perolada
Expondo-se desnuda e soberana
Ao mesmo tempo dita enquanto engana
Talvez seja brumosa outra alvorada,
Mas sei que na lembrança levarei
Instante incomparável rara grei
E deste novo dia que virá
Um homem diferente, mais suave
Por mais que a vida mesmo ainda agrave
A redenção existe e a encontro já.

33097


Respiro este perfume que me trazes
E nele bebo a sorte mais feliz,
O quanto tanto amor a vida quis
E nele novos dias mais audazes,
Permitem-se delírios tão tenazes
Aonde houvera medo e cicatriz
A sorte neste instante já desdiz
E beijo a maravilha em raras pazes,
Sentindo esta promessa em doce aroma
Beleza incomparável já nos toma
E torna a nossa vida sem igual,
Quem tem o privilégio de sentir
O quanto amor transforma o meu porvir
Momento tão sobejo e triunfal...


33098

Das mansas maravilhas de um canteiro
Encontro estas respostas que procuro,
O mundo muitas vezes sei escuro,
Porém no teu olhar raro luzeiro
E quando me entregando verdadeiro
No quanto deste encanto quero e juro,
Diverso do temor não me torturo
E sei do farto amor e nele inteiro
A vida após saber dos temporais
E sinto-me seguro neste cais
Um doce ancoradouro em que talvez
O instante derradeiro de minha alma
Encontre a poesia em que se acalma
No amor que em tanto amor meu canto vês.

33099

Suspiro enamorado quando sinto
Tua presença aqui, a redenção
Dos dias mais doridos desde então
Aonde imaginara o amor extinto,
E quando nestas cores eu me tinto,
Vestindo dos problemas solução
Sabendo que estes cantos mostrarão
Um tempo mais suave e tão distinto
Dos velhos andrajosos do passado,
E tendo o teu amor sempre ao meu lado
Caminho sem temores para a morte,
Eternidade agora eu acredito
E sei que neste encanto estou bendito
E encontro finalmente o meu suporte.


33100

Deliro-me ao sentir tua presença
E sei do quanto é belo poder ter
No olhar esta certeza de poder
Viver o quanto amor sempre convença
A sorte se mostrando em recompensa
E dela cada tempo a me envolver
Nas teias do desejo eu quero crer
Que a vida não será jamais tão tensa,
Acreditar na força da paixão
E ter a cada passo a direção
Que possa me mostrar a liberdade
Aonde dessedento os meus terrores,
E sigo-te decerto aonde fores
Porquanto tanto encanto em mim já brade.

domingo, 16 de maio de 2010

33001 até 33050

33001

Viver felicidade aonde um dia
Pensara noutro rumo bem diverso
E tendo a companhia do meu verso
Ainda noutro tempo sonharia,
Vencendo com ternura uma heresia
De um mundo que eu conheço, mais perverso
E quando vasculhando no universo
Buscando estrela nova que me guia
Restando solitário coração
Depois de tantos anos, ilusão
Amortecendo a dor de um nada ter,
Quem tenta delirante novo rumo
Beber da tempestade todo o sumo,
Viver sem ter limites, o prazer...

33002

Sentindo sem limites o que quero
Vestindo a fantasia que me cabe
Bem antes quando o todo já desabe
Tentando pelo menos ser sincero,
O mundo se mostrando sempre fero
Ainda na verdade nada sabe
Nem mesmo quando a vida já se acabe
Ou tendo algum futuro regenero
Vestígios do passado trago em mim,
E renovando a vida chego ao fim,
Momento em amplidão e pequenez.
O quadro desenhado pela sorte
Transcende com certeza à própria morte
Eterno caminhar assim tu vês.

33003

Cantando abandonado pelos cantos
Ouvindo o mesmo choro do passado
E nele novos dias, rebuscado
Desejo se mostrando em desencantos,
Viola se fazendo em dor e prantos
Seguindo com firmeza o já traçado
Caminho percorrido ou desolado,
E navegando assim em claros mantos.
Tapetes onde piso da esperança
Levando por espaços mais distantes
E ainda se acredita em diamantes
Aonde no vazio a voz se lança,
Esqueço o que deveras poderia
Ser ainda resultado em noite fria...

33004

Ao menos não se vê mais poesia
Aonde no passado fora mote
E agora preparando novo bote
Apenas expressando teimosia,
O verso noutro verso se recria
E quando se prepara pro rebote
O tempo navegando já se esgote
E molde noutra forma a fantasia,
Soneto após soneto, nada vale,
O quanto a minha voz ainda fale
Ou morra solitária, tanto faz.
Cantando por cantar e nada mais,
Exposto aos meus desejos marginais
Ainda continuo, sou tenaz.


33005

Espero o que se espera e não se vê
Além desta ilusão vendida à prazo
Resulto do que fosse algum acaso
E vivo sem motivos, sem porque,
O quadro do passado se revê
Na foto condenada ao mesmo ocaso,
E quando ainda luto e já me atraso,
O todo que eu pensara ninguém lê.
Jogado pelos cantos, bebo um gole
Da sorte que decerto já me esfole
E trama com palavras doentias
Enquanto noutro rumo preferias
Saber dos meus cadáveres somente,
E assim à traição tudo apresente.

33006

Residualmente vivo a sorte ainda
E posso destroçar onde retrato
A vida sem limites, risco ou fato
O medo noutro tanto agora brinda,
E sabe a sutileza quase infinda
De quem já se percebe em tal maltrato
Vencido companheiro num destrato
A forma do passado se deslinda,
Engano o meu caminho com mentiras
Expondo-me decerto em tantas tiras
E logo nada mais teria aonde
O mundo sem respostas não me traça
Senão a mesma fúria em vil fumaça
Ninguém escuta a voz sequer responde...

33007

A solidão se mostra inteiramente
E nada posso mesmo ainda ver
Senão ausência atroz do bem querer
E abandonado assim ainda sente
O mundo desabando novamente
E tudo não podia mesmo ser
Quem sabe inevitável perecer
Do sonho com certeza não mais mente.
Não tendo outra saída, digo adeus
E creio que mergulhe em olhos teus
Até meu nunca mais, fatal e pálido
O sonho desejado, mera face
Do quanto o dia a dia ora desgrace,
E deixe este fantoche, quase esquálido.

33008

Amara simplesmente a vida inteira
E nada do que tanto imaginara
Fizera esta manhã decerto clara
A ponte destroçada, derradeira,
Quem faz de uma esperança a mensageira
Bebendo com terror se desampara
E morre sem sentir ou se prepara
Sabendo desta sorte corriqueira.
Selando com meu verso a realidade,
Apenas o vazio ainda invade
E tomo um novo porre, bebo mais,
Esta aguardente amarga, a tal da vida,
Tocando com horror em despedida,
Quebrando a cristaleira e seus cristais.

33009

Dar a volta por cima? Até tentei,
Mas percebendo a queda inevitável
E a fúria deste mar imaginável
Aonde uma tristeza dita a lei.
Restando quase nada inda plantei
Em solo que pensara mais arável
No fundo novo engodo e descartável
Caminho aonde tanto mergulhei.
Escuto a voz distante de quem tanto
Amara num instante e o desencanto
Lavara para longe e sendo assim,
O mundo ronda a morte e se anuncia
Na face mais atroz dura e sombria
Trazendo finalmente agora o fim.


33010

Tristezas coletando dos meus mundos
E vendo sem saber outro caminho
No quadro desenhado em dor e espinho
Os versos são tão meros, vagabundos,
E quando não pudesse mais imundos
Encontro o desalento e vou sozinho,
Nem mesmo da alegria me avizinho
Os dias demonstrados, moribundos,
E quando ainda tento alguma luz
Mergulho no vazio e se produz
Um tétrico espetáculo feroz,
Gritando sem sequer ser mais ouvido,
O tempo noutro tempo imiscuído
Jamais escutaria a minha voz...

33011

A noite comportando atrocidades
E bebo cada gole deste sonho
E sei que na verdade não componho
Senão as velhas vãs iniqüidades
Mergulho nos vazios, ansiedades
E quando nova mente eu me proponho
Sentindo-me deveras mais medonho
Distante dos meus olhos claridades,
Nem mesmo se acalmando em luz suave
O quanto poderia e já se agrave
Desertos acumulo dentro em mim,
As flores destruídas, nada resta
Somente a face amarga e tão funesta
Traçando o que vivera até o fim...


33012

Paixão após paixão, a vida segue
E nada mais terei senão tal fato
Guardado como fosse um vil retrato
Aonde na verdade não prossegue
Senão as velharias; sigo entregue
Aos meus demônios e desato
Os laços com o senso, e me maltrato.
O tempo no vazio já se empregue.
E o todo que buscara não resiste,
A morte se apontando agora em riste
E o fim do caminhar prepara a queda,
Aonde não se entenda além do vago,
E quando de esperanças eu me alago,
Realidade chega e tudo veda...

33013

Estradas sem destino, vago à toa
E quando a realidade se apresenta
Na tez mais dolorida quão violenta
O pensamento ainda sonda e voa,
Nefasto dia ainda em mim ecoa
E tanto quanto pode me apascenta
E nesta fantasia uma tormenta
Adormecida ainda sobrevoa.
No pasto dos meus sonhos, tolerância
E nada do que fora em discrepância
Gerando um prado manso e sem fastio.
Mas quando me percebo em solidão
Acordo e vejo enfim que fora em vão
O mundo aonde em versos desafio.

33014

Servido como fosse a sobremesa
Banquete de ilusões expondo a face
Aonde a fantasia já desgrace
Deixando-me levar em correnteza,
Ainda se prepara esta surpresa
E nela o quanto o sonho tolo grasse
Mergulha nos espectros deste impasse,
E morro sem saber sequer certeza.
Residualmente tento outro caminho
E vejo-me decerto mais sozinho
E nisto acreditando piamente
Estrelas, velas, barcos, mares, lua...
O pensamento doura e assim flutua
Enquanto o dia a dia me desmente...

33015

Restando a quem trabalha este desejo
De ao menos um descanso, de um carinho
Mas quando retornando ao velho ninho
Sequer a fantasia que eu almejo,
O mundo que pensara em azulejo
Traduz o dia a dia mais sozinho
E tanto poderia noutro vinho
Apenas se inda fosse algum lampejo.
Mas nada tendo em mim, mesquinharias...
E assim quando distantes poesias
Esqueço pouco a pouco do que sou,
Viajo por estrelas e cometas
E ainda que deveras me arremetas
Resíduo sem valor, mero, restou...

33016

Bebendo cada gota do veneno
Ainda que se mostrem soluções
Diversas das loucuras onde expões
Um tempo mesmo atroz, não concateno
Vitória nem sequer outro sereno
Enquanto não houver aqui verões
Inverno se mostrando em turbilhões
E neles cada passo eu me condeno.
Resisto vez em quando e até procuro
Vencer a solidão, saltando o muro
Por onde se desfia a falsa luz,
E quando assim porfio inutilmente
Verdade se apresenta e qual demente
Vertendo pela pele sangue e pus...


33017

Legado de um momento sem sucesso
O mundo não podia me trazer
Senão esta faceta em desprazer
Condena-se deveras ao regresso
Do todo e prosseguindo até confesso
O quanto nunca pude cometer
E quase misturando ao me fazer
Medonha face agora recomeço
E tento novamente ser feliz,
Mas quando esta verdade me desdiz
Não deixa sequer sombra de esperança
E assim sendo vazio e tendo apenas
Do quanto poderia, meras cenas,
Ao nada sempre ao nada uma alma lança...


33018

No todo de um caminho muita vez
Sensivelmente exposto às discordâncias
Ainda se buscasse ressonâncias
Aonde na verdade nada vês
Perceba quanto tempo se desfez
Diverso das loucuras, discrepâncias
E nestes caminhares vejo infâncias
Perdidas em total insensatez,
Mergulho nas lembranças que carrego
E vejo o meu destino onde navego
Sem ter sequer as tréguas necessárias,
As ondas retornando vez em quando
E o mundo noutra face se mostrando,
Antigas sensações imaginárias...


33019

Ouvindo a velha voz do meu passado
E não pudesse crer noutro caminho,
Singrando tempestades adivinho
O tempo noutro tempo disfarçado,
E quando não pudera ter ao lado
Sequer a sensação de algum carinho
Da morte com a qual eu me avizinho
Não deixo nem a sombra por legado,
Aprendo a navegar contra as marés
Ondeio em tais procelas, mas diviso
O mundo sem saber de algum juízo
Atado eternamente às tais galés
E nelas eu percebo o teu olhar,
Qual fosse estrela amarga a me guiar...

33020

Por onde desceria o pensamento
Se assim não fosse a vida, vil resina,
O quanto do passado determina
Ao menos o meu passo bem mais lento,
Por vezes eu andara em sofrimento
E quando esta verdade me domina,
Acendo meu viver em lamparina
E sorvo de uma infância meu alento.
O tempo foi cruel e me tomando
O resto do que eu tinha dominando
Assim o dia a dia em tez feroz,
Apenas aguardando fosse um rio,
Mergulhar onde aos poucos me esvazio
Tocando com ternura última foz.

33021

Fantoches simplesmente dizem tudo
Do quanto poderia ser assim
O mundo apodrecido dentro em mim
E quando ainda atento eu já me iludo,
Não quero acreditar no quanto mudo
Após a morte vir em meu jardim,
E toda a fantasia chega ao fim,
Decerto este caminho agora ajudo
E tento com cigarros e montanhas
Vencer estas partidas sempre ganhas
Por trevas entre luzes mais sombrias,
Prefiro um arremate com firmeza
A ter que prosseguir nesta incerteza
Tornando movediços os meus dias.

33022

Quem dera fosse ao menos concebido
Pra ter o privilégio de sonhar
E quando procurara descansar
Apenas noutra história percebido
Morrendo a cada instante aonde olvido
Do tempo mais sincero a se formar
Deixando para trás céu e luar,
O verso já não fora traduzido,
Tampouco alguma luz mergulharia
No vandalismo exposto nos meus dias
E ainda se pudessem heresias
Matando a insuportável fantasia,
Mas tudo ainda resta sobre a mesa,
A morte de bandeja é sobremesa...

33023

Pudesse ter ao menos piedade
E ver outro cenário mais diverso,
Assim não poderia crer no verso
E nele não saber fidelidade,
Mas tanto quanto quero esta verdade
Rondando sem saber este universo
Girando sem sentido, mesmo inverso,
Traçado com amor ou lealdade.
Resisto às tentações e vou sozinho,
Apenas não serei jamais mesquinho
Nem mesmo irei vender esta palavra,
A seca dominando o meu canteiro,
E tento ser decerto verdadeiro
Sabendo ser inútil minha lavra.

33024

Sentindo nos teus olhos caridade
Eu peço, por favor esqueça disto,
Eu penso e em conseqüência logo existo
Por mais que ainda quieto já não brade,
O bêbado caminho da cidade
Pesquiso e tento mesmo quando insisto,
Vencer o que pudesse e se desisto,
Não vale qualquer tom, tranqüilidade.
Extingo alguma forma de sonhar,
E tento mesmo sendo devagar
Tocar este horizonte após a lua,
No fardo tão comum em meu bornal,
A morte se aproxima, e é mais leal,
No derradeiro instante sempre atua.

33025

Eterno desengano doma a cena
E tudo não se vê senão retrato
Do tempo ainda quando me desato
Porquanto a própria vida me envenena.
A sorte se inda houvesse se apequena
E o beijo na verdade diz maltrato,
Já não seria tanto assim mais grato
Não fosse a poesia que serena.
Jargões diversos sei, tantos clichês
E neles com certeza tu não vês
Sequer a menor sombra do que fomos,
Risíveis madrugadas solitárias
Aonde se pensaram solidárias
Partindo para sempre tolos gomos.


33026

Eu sei que vez em quando sou bem rude
E não resisto ao fato de saber
O quanto se mostrara sem vencer
A minha doce e amada juventude,
Por mais quando decerto ainda mude
O passo não demonstra e nem faz ver
Realidade imensa e sem querer
Não tomará qualquer nova atitude.
Jorrando feito um poço em área nobre
O mundo pouco a pouco já descobre
O temporal vindouro, mas se omite
Assim também persisto em desventura
Enquanto a solidão teima e perdura,
Ultrapassando em mim todo limite.


33027

Procuro nesta vã imensidão
Traçar outro caminho, mais contente,
E sei o quanto a vida se apresente
Diversa desta intensa solidão,
Olhando para a fonte, na amplidão
Porquanto novo rumo na nascente
Disfarça a intensidade do poente
Causando logo após renovação,
E assisto ao meu caminho no teu sonho
Reflexo deste tom onde componho
A vida após saber do quanto vale
O risco de sonhar e mesmo assim,
Voltando ao meu princípio creio enfim,
Bem antes que minha alma já se cale.


33028

As velhas tábuas dizem solução
A quem neste naufrágio já se dera
Mergulho no passado e a primavera
Traduz com mais vigor do que o verão
O sonho de sobeja floração
E nela a nova vida se tempera
E todo o meu caminho regenera,
Deixando para trás velha estação.
Mas quando neste outono sinto o frio
Do inverno que deveras se aproxima,
Ainda mesmo quando não se estima,
Percebo a mutação do velho clima
E quando o meu futuro desafio,
Encontro tão somente este vazio...


33029

O mundo em que eu sonhara, soberano
Vencendo as intempéries costumeiras,
Traçando com ternura estas bandeiras
Deixando no passado o desengano.
Enquanto caminhando quase insano
Vagando pelas rondas estradeiras,
As portas se fechando, derradeiras,
Matando o que restara deste humano.
Retratos discordantes e complexos,
Os sonhos dos meus dias são anexos
E tanto poderia acreditar
No raio que não veio nem percebo,
Ainda da ilusão, inútil, bebo,
Porém no imenso céu, perco o luar...

33030

Negando melhor sorte, olhos fechados,
Deixando nos armários velhas fotos,
Momentos de alegria são remotos,
E os dias amanhecem já nublados;
Os sonhos na verdade se perdendo
E tudo transformando em solidão
Pudesse novamente outra versão
Do amor e do desejo percebendo
As gotas sobre o rosto me tocando,
Matando a minha sede num momento,
Depois sei que virá um desalento,
Porém ao menos tive este segundo brando.
Fechando os olhos vejo a face
De quem ainda ao longe, o sonho trace...


33031

Caminhos onde estrelas e tormentas
Misturam suas cores e seus brilhos
E quando os pensamentos andarilhos
Buscaram novas luzes, apresentas
Diversas ilusões e quando inventas
Mergulhos por diversos empecilhos,
Estrada que pensara em bons ladrilhos
Agora se mostraram violentas,
Não vejo mais sequer a imensa alvura
Aonde toda a sorte se perdura
Deixando este sombrio e vão cenário,
Aonde pude crer felicidade,
Não tendo solução que ainda agrade
Amar seria um mal tão necessário?

33032

Quisesse ter as flores mais augustas
Tocando o meu olhar em primavera,
Mas quando a própria vida degenera
Mesmo as felicidades mais robustas
Não posso mais arcar com duras custas
Tampouco novo tempo ainda espera
Quem sabe a solidão, cruel pantera
Na qual os teus demônios sempre incrustas,
Vencido pela ausência de esperança
Aonde quis lauréis já nada vejo,
Aproveitando assim um mero ensejo
A voz noutro vazio o mundo lança
Balanço entre o querer e o prosseguir
Sabendo que jamais vou conseguir.

33033

Apenas reverdecem outras sendas
Enquanto as velhas morrem neste outono,
E quando me percebo em abandono
Espero pelo menos que me entendas
E já que tuas mãos não mais estendas,
Eu vejo a solidão e ora me adono
A intensa fantasia busco ou clono
E tento disfarçar com frágeis vendas.
Não quero ter somente por acaso
O tempo além da rota, findo o prazo,
Jogado sobre os restos, fria escória
A morte se aproxima e me redime
Porquanto cada dia não exprime
Funérea madrugada merencória.


33034

Adentrando por tantas galerias
Buscando nestas furnas o que sou
E tanto no vazio se entregou
Quem sabe destas noites meras, frias,
E tento enquanto ainda não mais vias
Resisto e desta forma quando vou
Refém do quanto a vida me negou,
Expresso a solidão em poesias.
Na face decomposta vejo o quanto
Roubado dos meus sonhos qualquer canto,
Percebo a imensidão do nada ser,
E tudo se mostrando em tom cruel,
Aonde se buscara além do fel
Resisto muito aquém do bem querer.


33035

Distante do restante da alcatéia
Vagando em noite escura, pois brumosa
Alçando a tempestade em que se goza
A face desdentada da platéia,
O mundo como fosse podre idéia
Ao mesmo tempo enquanto caprichosa
Permite ainda mesmo assim a rosa
Até quando se trama em assembléia
A fonte inconseqüente não traria
A réstia de uma farsa em poesia
Na imensa cordoalha em que ora me ato,
O corpo dessedenta esta vontade
E teima contra toda obscuridade,
Mas sei o quanto é frágil meu regato.


33036

Assumo este papel de troglodita
E tento as panacéias sonegadas
Enquanto caminhasse por estradas
Tentando reverter a amarga dita,
E quando a lua imensa vem e fita
Deixando para trás as destroçadas
Imagens sem poder enluaradas
Portanto sem remédios, em desdita.
Ferocidade apronta esta armadilha
E enquanto a poesia ainda trilha
Caminho mais diverso, sigo o rumo
Do velho camarada abandonado,
E tento novamente ter ao lado
O engodo pelo qual em vão me aprumo.

33037

Atento às mutações do dia a dia
Não posso mais calar a minha voz
Ao ver a face escusa deste algoz
Matando em sacrifício a poesia,
No quanto é necessária uma harmonia
E o fato de ser tolo e até feroz,
Redime tantos erros, mas em nós
Apenas a verdade concebia.
Caduco verso feito em tons sombrios
E neles estas rimas, desafios,
Na métrica e num tom mais intimista
Eu tento desvendar este mistério
E sei quão duro vejo tal minério
Enquanto o meu olhar mais nada avista.


33038

Pessoas de Pessoa velhas luzes
E assim ao mergulhar no cancioneiro
Encontro ao fim da tarde este luzeiro
E nele cada cena reproduzes
Mudando de figura, velhas urzes,
Agora num instante costumeiro
Tentara ser do sonho um mensageiro
Herdando tão somente enfim as cruzes,
É certo que o futuro não se vê
Tampouco se percebe em tal clichê
Variações que possam me animar,
Residualmente tento alguma chance
E quando no vazio a voz se lance,
O resto vai ficando em seu lugar.


33039

Porquanto em solilóquio desconverso
E tento novamente ver por onde
A velha fantasia ora se esconde
Matando algum sentido no meu verso,
Eu sei que possa ser até perverso
Quem busca invés de nave, o velho bonde
Mas quando tanto entrave não responde
Ao quanto desejara ou mesmo verso,
No todo apodrecido, resta apenas
Ainda que sombrias, velhas cenas
E delas não recrio quase nada,
Quem dera renascer esta velhusca
Faceta, mas verdade logo ofusca
E a sorte se mostrara noutra estrada.


33040

Em nádegas pensantes vejo a vida
Tomando com terror maior espaço
E quando noutro intento ainda traço
Imagem se prepara em despedida,
Já dando esta partida por vencida,
Meu verso vai perdendo o seu espaço
E tento até vencer pelo cansaço,
Mas sei que a solução já foi urdida.
E como não consigo imaginar
A bunda num mais pálido pensar
Eu perco todo o tempo com a mente,
Quem dera se pudesse ter nas mãos,
Além da fantasia em tolos grãos,
Proeminência enorme e já pensante.

33041

Jogando minha vida neste esgoto
Por onde qualquer queda se imagina
Ao menos penetrando na latrina
Não vejo o mundo assim puído e roto,
O todo que pensara agora é coto,
E a sorte com certeza não domina
E tanto poderia noutra mina,
Porém vagina doma todo escroto,
E assim ao me pensar noutro caminho,
E vendo que deveras vou sozinho
Prefiro a consciência libertária
Embora claramente tenha nexo
Toda importância dada ao tal deus sexo,
Mas sei que uma mudança é necessária.


33042

Serpente que expulsou do paraíso
Casal sempre guloso e desejoso,
Quem sabe no final pagando o gozo
Perdera totalmente o seu juízo?
Assim quem paga a conta e o prejuízo
Quem anda neste mundo caprichoso,
E quando se percebe melindroso
O todo não domina qualquer siso,
Esqueço do final, não sei se ainda
A história recomeça ou lá se finda
Só sei que depois disso, nada presta.
O mundo foi virado já do avesso
E sei que na verdade o recomeço
Não deixa nem sequer ao menos fresta.


33043

Abraço-me ao que fora amor e agora
Não deixa qualquer sombra mais de sonho,
O tanto da verdade decomponho
Enquanto a fantasia me devora,
No tempo sem saber sequer demora,
A vida noutro tanto mais medonho,
Enquanto no passado eu já me enfronho
A sorte não percebe sequer hora.
Eu quero acreditar que a velha musa
Embora desdentada e até careca,
Nariz sempre entupido, uma meleca,
Não necessita mais tirar a blusa
Tampouco fazer cara de gostosa,
Por quanto a poesia o tempo glosa.

33044

Acendo outro cigarro e tiro um trago
Bebendo mais um copo da aguardente
Ainda o que me resta e se apresente
Embora garantido imenso estrago,
Demônios mais diversos eu afago
Arranco minha face e já sem dente
No olhar quase satânico, um demente
Riscando o velho nome, sigo gago,
E tento perceber outro momento
Aonde nada veja nem alento
E atento às tais mudanças principais,
Encontro qualquer sombra de um Noel
Vestida em Melancia, ou mesmo ao léu
Fazendo melodias nadegais.

33045

Pereço enquanto tento ressurgir,
E vejo a foto escura de um passado
Aonde noutro tempo desvendado
Jamais se pensaria no por vir.
E tento descobrir um elixir
Que faça meu futuro assegurado
Em troca deste verso bem rimado,
Tentando novo gozo permitir.
Mas como se não posso ver senão
A mesma velharia e desde então
Estou numa sinuca, das de bico,
Não sei se ao partir, deveras sigo,
Nem sei se aqui correndo me persigo,
Mas devo confessar, por mim eu fico.

33046

Jazigo da esperança? Nada disso,
Eu quero renascer e que se dane
Se a vida permitindo a nova pane
Traduz um caminhar mais movediço,
E quando novo tempo até cobiço,
Porquanto cada dia desengane,
O fato que deveras já se explane
Permite que se creia nalgum viço.
Escapo da mesmice quando invento
E tento ser diverso de mim mesmo,
Por isso é que bem sei quando ensimesmo
Às vezes eu me torno mais sedento,
E cedo quando vem a primavera,
Deixando a velha dor, em longa espera...


33047

Das tantas persianas da janela
Subindo os corrimões da velha escada,
Aonde imaginara madrugada
Apenas a fumaça se revela,
E tanto poderia noutra cela
Embora seja assim sempre fadada
Uma alma noutro rumo ou caminhada
Enquanto a fantasia não se sela.
Azedo-me com versos vez em quando
E tento algum sorriso, sem sarcasmo,
Há quanto já nem sei sequer o orgasmo
E o tempo ora pressinto se acabando,
Tomando mais um gole de café
Procuro manter viva a minha fé.


33048

Sou chato como deve sempre ser
Quem tenta descobrir e nada encontra
Não é que na verdade eu siga contra
A correnteza e nada possa ver,
Só sei que a poesia dá prazer
E quando a realidade desencontra
Qual peixe se escondendo de uma lontra
Eu tento com palavras proteger
Caquética figura do soneto,
E nela não se vê senão tais ossos
Resume-se em verdade nos destroços
Por isso vez em quando me arremeto,
E tento defender este defunto,
Mudando de conversa, mesmo assunto.

33049

Às vezes eu me sinto um paquiderme
E piso sobre todos os que vejo,
No fundo aproveitando algum ensejo
Perceba ser apenas quase inerme,
Assim arrepiando uma epiderme
A fonte inesgotável do desejo
Mostrando esta nudez raro lampejo,
Eu volto a ser deveras tolo verme.
E sei que isto te traz futilidade
Embora tenha alguma utilidade
O fato de ser mais que fantasia,
Mecânicas à parte sigo em frente
E quando me pressinto mais presente
A história noutra face se esvazia.

33050

Deixara de pensar em ser embuste
O fato de saber de um tom poético
E sei que inda pareça mais patético
Sabendo quanto mesmo ainda custe
Voltar a ser deveras mais macio
O coração pesado em dores feito,
E quando bebo a lua mal me deito,
O tempo de sonhar teimo e recrio,
Mordaz realidade traz à cena
O quanto nada disto mais importa,
Apenas arrombar decerto a porta
Enquanto a fechadura o tempo empena.
Assim ao se mostrar mais realista
Um horizonte turvo já se avista.

32951 até 33000

32951

A volta do que fora e não valera
Deixando marcas fundas, cicatrizes
Aonde nós pensávamos felizes
Apenas a tortura conhecera
Cenário mais atroz se concebera
E neles outros tantos quando dizes
Dos variáveis tons, tantos matizes
E a morte em plena vida se tecera,
Vencidos pela angústia do vazio
No quanto me entregara e nada havia
A porta se mostrara em fantasia
E assim ao me encontrar nada crio
E morro na rotina a cada dia
Perdera da emoção qualquer pavio..


32952

Pisando devagar em folhas mortas
Deixando meu outono para trás
O frio se aproxima e sempre traz
Trancadas neste instante minhas portas,
E quando do passado ainda aportas
Tomando este caminho mais audaz,
O olhar que ainda tenho, tão mordaz
Mantendo assim fechadas as comportas,
E tantas vezes vejo este engrenagem
Vivida por um sonho, uma bobagem
E nada se mostrasse mais diverso
Do quanto acreditei em tempos idos,
Os dias vão perdendo os seus sentidos,
Restando tão somente um vago verso.

32953

Fumaças entre nuvens madrugadas
E as cenas repetindo este tormento,
Aonde muitas vezes violento
As normas entre tantas destroçadas,
Resumos dos momentos, madrugadas
Entregues ao que possa o pensamento
Palavra sem sentido ganha o vento
E busca outras manhãs ensolaradas,
O toque da buzina do meu carro,
A sorte com certeza tira um sarro
E nada mais do tempo ainda vejo,
Aporto no futuro e sinto a sombra
Da morte em plena vida que me assombra
E nada se aproveita neste ensejo.


32954

O meu caminho vaga em ruas turvas
E segue sem destino em longas chuvas
As mortes encaixando como luvas
E vejo com descrença velhas curvas.
Não pude mais saber de outra verdade
Tampouco merecesse nova chance
Ainda que ao vazio não se lance
A porta com certeza não agrade
A quem buscara inútil, fútil, luz
E o corte se aproxima da garganta
A voz ainda tenta e se levanta,
Porém somente à morte se conduz
Um esmolar caminho segue o rito
Levando ao suicídio, ao infinito.

32955

Fazendo das escórias meu provento
Negando qualquer chance a quem pudera
Vencer com calmaria qualquer fera
Deixando o pensamento ao longo vento
E no meu rumo se inda fumo o sofrimento
No peso do passado se tempera
O gozo novamente gira a esfera
E dela a morte traça o pavimento.
Néscios caminhos tramo em solidão
Num ermo desenhar etéreo e vão
Galgando temporais em noite opaca
Os pés procuram solo, mas não resta
Sequer de uma esperança qualquer fresta
E assim a própria vida já se empaca.

32956


Não acredito em bruxas, nem em santos
Mas quando me perguntam como vou
Respondo que estou bem, o que restou
Dos meus dias transformo em desencantos
E sigo embebedado pelos cantos
Mergulho nos resíduos do que sou
E tento ainda ver se ora sobrou
Metade pelo menos dos meus mantos
O véu desta esperança já puído
Ao menos poderia algum ruído
Falar do quanto cri e nada veio,
Mas logo noutro canto bebo o fim
E sinto o meu destino sendo assim,
Apenas simplesmente algum receio.


32957

Não quero mais servis nem serventias
Aonde no passado mergulhaste
Com toda fúria e sonegaste
As mais diversas luzes, ardentias
E quando noutro tanto tu recrias
A ponta do que seja faca ou haste
Ainda que deveras me sangraste
A noite não traria sombras frias
E nem as fantasias mais ferozes,
Medonhas gargalhadas dos algozes
Nem vozes discrepantes destes tais
Mesquinhos caminhares noite afora,
A fonte do passado me devora
Deixando para trás velhos cristais.

32958

Passado adormecido pelos cantos
Não serve para nada, morto está
E quando se percebe aqui e já
Os novos sonhos beijo belos mantos
E ainda se mostrasse desencantos
O sol incrivelmente brilhará
Independentemente tomará
Secando ou renovando tolos prantos,
Não quero a velharia de onde venho,
E ainda que mostrasse algum empenho
O mofo dominando o velho armário
A morte a cada instante se fazendo
E o tempo noutra face renascendo
Mostrando o quanto o sonho é necessário.


32959

Aonde me fiz teu e não vieste
Toando o mesmo canto do passado
Ainda noutro tempo decorado
Negando qualquer tom, caminho ou peste
Restando do que eu fora, nem metade
Aguardo alguma voz onde não houve
Nem mesmo a ventania ainda se ouve
Por quanto a própria vida não agrade,
Nascentes dentro em mim trançando rios
E neles desabando em cachoeiras
As plantas que tu vês são derradeiras,
Mas nelas inda vejo desafios,
Esmeraldina sorte de quem luta
Ainda que a verdade venha bruta.


32960

Por um fio seguindo cada fera
Em seus momentos terminais
Vestindo estes tormentos desiguais
Escarrando a fome e nela se gera
O quanto poderia ser quimera
E o gozo dos cenários em cristais
Retinta madrugada, madrigais
E o beijo deste espectro é o que se espera.
Realço com meu canto cada fase
E nela mesmo quando o tempo atrase
Trará novamente brilho ao meu caminho,
Só sei que desafio a própria morte
E quando se prepara o fundo corte
Eu bebo solitário o doce vinho...

32961

Aonde se pudesse em maravilha
A rosa mais bonita do jardim
Agora ao perceber chegando ao fim
Amor onde esperança não palmilha
Vestindo esta ilusão a sorte trilha
Caminho tão diverso e mesmo assim
Durante muito tempo ainda em mim
Vivera a fantasia, uma armadilha.
Resisti e consigo a liberdade
Porquanto tanta luz ainda invade
Em tom disperso e mais fugaz
Não quero nem saber do meu passado
O mundo noutro tempo renovado
Agora quero amar, mas sempre em paz.

32962

Na batalha final entre deidades
Mergulho no oceano dividido
E nele nada toca meu sentido
Enquanto noutro canto te degrades
Riscando estes espaços claridades
E nelas outro tempo percebido
O mundo que queria repartido
Agora perfilado em unidades
Mesquinharias tolas nada creio
E quando no caminho sem rodeio
Encontro novamente algum tormento
Não vago pelas ondas, resto em cais
E tanto acostumado aos temporais
Apenas do não ser eu me alimento.

32963

Riscando qualquer sombra do que ainda
Reside num instante ou mesmo mais,
Restando noites frias e banais
O resto que desejo não mais finda,
A morte no presente se deslinda
E mostra em faces turvas, magistrais
Risonhos caminhares, e jamais
O corte se propaga enquanto brinda
Resquícios de esperança são fugazes
No todo que deveras não mais trazes
O medo se estampando em tal progresso
Que nada mais resiste e vejo a face
Tramada pela angústia que inda grasse
E ao quanto mais sonhei, teimo e regresso.


32964

Não pude conceber a minha sorte
Aonde na verdade nada havia
E tanto poderia outra alegria,
Mas como se o viver nega o suporte?
Resumo neste verso o dia a dia
De quem a própria morte agora adia
E sabe finalmente o podre norte,
Vestígios deixarei e já me basta
Saber que a face escusa e mesmo gasta
Do mundo que sonhara nunca veio,
Ainda bebo em honra a quem se fez
Em plena consciência e lucidez,
Diverso do caminho que eu anseio.

32965

Dançando a noite inteira em ruas, céus
Vencidos pelos gozos mais sublimes
No quanto deste todo ainda estimes
Exibes nos teus olhos fogaréus,
E cobrem velhos dias novos véus
E neles emoções em que redimes
Os erros cometidos, tolos crimes
Seguindo em tempestade noutros léus.
E assim ao serenar a tempestade
Deixando para trás qualquer valor
Entranho nas mesmices de um amor
Enquanto no passado houvesse grade
Agora não percebo mais algemas
E assim a vida passa sem problemas.

32966

Catando os meus pedaços pelas ruas
Metade coletada em cada lixo
Um homem sem destino, um pária, um bicho
E nele com ternura ainda atuas,
As áureas madrugadas, belas luas
A sombra não passando de um esguicho
E quando perpetuo aqui meu nicho
Destas sarjetas tantas que cultuas
Bebendo também mesma podridão
Esgota-se abissal a negação
Do sonho mais feliz, tolo e burguês
Assim na insanidade maviosa
Aquela que se fez divina rosa
Agora noutra face se desfez.

32967

Ainda não haveria sequer tristeza
Houvesse pelo menos a esperança
Que a cada novo tempo já se alcança
Qual fora meramente simples presa
E nela toda a caça, com certeza
Poderia ter na mão também a lança
E sendo assim espécie de vingança
Reage contra a incúria, a natureza.
Legado de um momento aonde eu vi
O todo se perdendo e desde aqui
Bebendo cada gota da saliva
Da terra moribunda em tez amarga
O gozo prometido já se embarga
Enquanto uma alegria ora se priva.

32968

Vagando pelas ânsias do passado
Gerando estes momentos do futuro
E nada do que eu busco em solo duro
Promete o novo tempo desejado,
O quanto fora apenas mal traçado
Agora noutra face já perdura
E quando mergulhando em amargura
Não posso adivinhar outro legado.
Lavando com terror as minhas mágoas
Bebendo as poluídas, turvas águas
Encontro estas respostas que buscara,
O pantanal exposto invés do vale
Permitindo à esperança que se cale
Na sórdida ilusão, pobre seara...

32967


Seguindo o meu caminho sem saber
Nem mesmo olhar pra trás ir para frente
No quanto a realidade me apresente
Vontade de lutar e conceber
Momento mais diverso e poder ver
O templo resolvido, mas descrente
Caminheiro vazio nada sente
Senão a mesma ausência a se verter.
Abrindo os meus caminhos, reza e prece
O todo do futuro se obedece
E nada mais teria senão isto:
Retalhos sobre a cama, sou refém
Da morte que deveras sempre vem,
Mas como fosse um louco ainda insisto.

32968

O meu canto poderia apascentar
Ou mesmo transgredir a velha norma
E quando a realidade se deforma
Não tendo mais vontade de lutar
Encontro meus pedaços no lugar
Aonde noutro intento em velha forma
Somente este vazio agora informa
Da bela fantasia de um luar.
No discrepante passo rumo ao nada,
A porta percebida e já cerrada
Transforma o meu caminho em dor e treva,
Atormentado eu sigo em busca vã
Tentando adivinhar outra manhã,
Mas como se em verão intenso, neva?

32969

Levando o meu caminho sem sentido
Vagando por estrelas entre tantas
Ainda quando cedo te levantas
Deixando no passado o já perdido
Desenho muitas vezes esculpido
Nas ânsias das vontades quando cantas
E tentas subverter ou mesmo espantas
Os sonhos desenhados por Cupido
Eu teimo em contramão, e vejo além
Enquanto na verdade me convém
Calar-me e nada mais, melhor seria,
Mas como se te quero e desejo enfim
O amor que ainda existe e vive em mim,
Não permitindo ausência, uma heresia.

32970

Aonde nada faço e nem faria
O candeeiro apagado da esperança
E nele retornando à ser criança
Em temporais diversos, na agonia,
Ardendo dentro em mim tal fantasia
E nela cada voz ao longe lança
Rompendo com ternura uma aliança
Embora no lugar, hipocrisia.
Vestindo angelical imagem tento
Vencer o que pareça algum lamento
E bebo sem pensar em goles fartos,
Mas sei que no final, nada virá
A morte desenhada desde já
Negando às esperanças novos partos...

32971

Voltar ao meu caminho principal
Depois destes desvios naturais
E tendo nos meus olhos sempre mais
Momento que julgara triunfal
E agora quando volto ao ritual
E dele afasto logo os temporais
E as sortes que busquei atemporais
Deveras permitindo outro degrau,
Ascendo ao que pudesse imaginar
Acendo esta lanterna a me guiar
Na espúria madrugada em trevas feita,
E quando mal percebo a luz do sol,
O tempo retornando em arrebol,
Uma alma finalmente satisfeita.

32972

Não vou cegar meus passos rumo afora
E tanto pude crer na hipocrisia
Gerada pela mesma fantasia
Que ainda sem sentidos nos devora.
Resisto e quando a sorte se demora
Não posso mais negar a alegoria
E tanto noutro tempo moldaria
Tomando com terror; ferida e espora
Arrisco cada passo rumo ao quanto
Pudesse novamente e sei, portanto,
Que é tudo uma ilusão, mas mesmo assim,
Subindo cada escada que apresente
No tanto quanto amor seja freqüente
Podendo novamente ter-te em mim...

32973

Aguardo esta chegada, e nada vem,
O medo não faz parte desta vida
Mas sei que na verdade sem saída
O tempo sempre olhando com desdém,
Navego por um mar e nada tem
Semente que pensara destruída,
E toda a podridão já percebida
Resume a mesma ausência. Sem ninguém...
Refém do que pudesse ser um sonho
Enquanto o paraíso é tão risonho
Medonha face mostra a realidade
No todo apenas vejo resumido
O quanto não se mostra mais no olvido
E ainda sem defesas toma e invade...

32974

Mereço realmente este final
Entranho nas magias do passado
E vejo o quanto havia já quebrado
O copo da esperança, este cristal,
Galgando inutilmente o sideral
Caminho pelo tempo mal traçado
O resto que apresento maltratado
Transcorrendo num ritmo sempre igual
Esboça qualquer face aonde eu creia
E adentra sem pudores cada veia
Entorpecendo o passo que inda possa
Viver a poesia, mas não ligo,
Aonde se pensara num abrigo
Somente esta terrível, fria, fossa.


32975

Chegando de repente de viagem
Nascendo dos meus olhos a esperança
E nela com certeza a vida alcança
Aquilo que pensara ser barragem
Supera com ternura esta engrenagem
E trama a cada dia esta aliança,
Rompendo do passado a velha lança
Criança que inda busca uma hospedagem
No peito enamorado da morena
E quando com sorrisos ela acena
A vida se transforma num segundo,
E assim de tanta glória e de beleza
Antes lutando contra a correnteza
Agora deste sonho já me inundo.

32976

O amor não comportando mais juízo
Não deixa que se veja quase nada,
A vida noutro tanto destroçada
Somando a cada passo o prejuízo,
E quando deste sonho mais preciso
A sorte noutra senda abandonada
Escreve com ternura cada estada
No que mais se aproxima ao Paraíso;
Mas quando a negação doma o carinho
Deixando tão somente dor e espinho,
A morte talvez surja como um trilho,
E ainda sem saber do meu futuro
Bebendo deste fel se me amarguro,
Retorno ao meu começo, um andarilho...

32977

Não posso mais conter esta verdade
E nela transformando o dia a dia
Em louca e mais sobeja fantasia
Tomando com ternura toda a herdade,
Amor que faz perder a identidade
Enquanto nos domina e até nos guia
Gestando ou digerindo a poesia
Sem nada nem tormenta que inda o enfade.
Jogando contra a sorte, teimo e tento
Viver ou pelo menos crer no vento
Deixando este dilúvio no passado,
Entorno-me em paixão e sendo assim,
Ainda que aridez tome o jardim
Eu me sinto por fim recompensado.

32978

Se eu guardo o guardanapo na gaveta
Marcado pela boca carmesim,
Assim também guardando dentro em mim
Por mais que noutro rumo eu me arremeta,
Quem sabe a fantasia, algum cometa
Retorne do princípio de onde vim
E trace novamente no jardim
Delírio que deveras se prometa
Nas ânsias delicadas e felizes
Agora são risonhas cicatrizes
Aonde em tantas crises se fizera,
O amor quando em saudades revivido
Esquece do tormento e soerguido
Recende a mais florida primavera.


32979

Jogado pelas ruas, pária sou
E tento receber algum afeto
Embora o prato seja mais completo
No resto que ninguém quis ou sobrou,
O tanto aonde pude e não restou
Nem mesmo o que pudesse ser dejeto
E agora ao me sentir bem mais abjeto
Insana companhia, aonde eu vou
Vestígios de um farsante, bandoleiro
E deste caricato ainda inteiro
Com lavras e palavras tenebrosas,
Porém na maciez de um velho engano,
Ainda resta a sombra de um humano
Em meio às tais imagens asquerosas.

32980

Queria pelo menos um descanso
Aonde num remanso se mostrasse
A vida sem saber sequer da face
Decomposta que agora em vão alcanço,
E quando sobre os restos eu avanço
Porquanto a tempestade ainda grasse
No tanto que deveras me desgrace
Ainda quero ser ou sou mais manso.
Velejo em fantasias mares tantos...
E bebo da esperança seus encantos,
Acordo solitário e em pleno riso,
Queria alguma paz, e pelo menos
Instantes que pudessem mais amenos
É tudo na verdade, o que preciso...


32981

Apenas meu olhar e nada mais
Expressa a realidade do vazio
No qual por vezes tento e desafio
Sabendo-me distante de algum cais,
Restando do passado em temporais
A velha sensação do ausente estio
E neste mergulhar ainda crio
O peso dos meus dias, velhos ais.
Desfaço o meu caminho a cada ausência
E nesta sorte tento a confluência
Gerada pelo fardo do viver.
E mudo, simplesmente ainda tento
Vencer com calmaria qualquer vento
E neste mesmo instante a me perder...

32982

Não vejo mais tristeza ou alegria
Seguindo calmamente até a morte
E nada que deveras me conforte
Nem tampouco ainda em heresia
Transtorne ou novamente cria
Mundana sensação de gozo e sorte,
Não sou tão frágil nem tão forte,
Apenas brisa leve que se guia
No sol, no imenso sol, e nada mais.
Urgindo em minha vida novo cais?
Cansado até demais para tentar,
As somas já não tento nem invento
Alheio ao que é prazer ou sofrimento,
Aos poucos me entregando sem lutar...

32983

Resisto e tão somente até por que
O tempo não perdoa quem se entrega,
Porém minha alma segue amarga e cega
E tanto desejara e nada vê
No pouco ou neste tanto que inda crê
Por vezes, um poeta, já navega
E quando se percebe, ora renega
E tenta desfazer; busco e cadê?
Não posso ter ainda alguma luz,
Restando a sombra amarga do vazio
Sonhar é quase mesmo um desafio,
Ao qual com toda força eu já me pus,
Mas a alma não se cala em rebeldia
E bebe a se fartar da poesia...

32984

Espúrios caminhares entre tantos
E resta tão somente o meu passado
Diverso do que fora imaginado
E dele sorvo ainda velhos prantos
Jogando meus pedaços pelos cantos
O todo não se mostra mais traçado,
E ainda que pudesse ser logrado
Não resistiria aos vãos quebrantos.
Seguindo cada estrela sem saber
Do fim da mesma história, nada a ver
Somente esta sombria noite eterna,
E quando nos teus olhos me encontrei
Por pouco, novamente me enganei
Achara descoberta uma lanterna...

32985

Nascendo dentro em mim riacho aonde
O tempo se perdera sem sucesso,
E quando ao meu começo enfim regresso
É nele que minha alma já se esconde,
Porquanto a fantasia perde o bonde
Porquanto a vida trague este progresso,
No todo que sonhara, retrocesso
E assim vou perseguindo qualquer fronde
Que possa traduzir esta alameda
Por mais que a própria vida me conceda
Momento de alegria, tudo é vão,
Nascendo dentro em mim a fonte imensa
E nela a cada dia esta alma pensa
Buscando ao fim da vida a direção.


32986

Depois de tanto tempo imaginara
A cena de um passado mais feliz
Porém a própria vida nada quis,
E agora se restando chaga e escara,
O canto que acalenta desampara
A fonte já não mostra o chafariz
Do amor quem fora outrora um aprendiz
Agora não se vê na fronte amara,
Repito com ternura ainda os versos
E quando invento luzes e universos
Eu sempre me enganando, tolamente,
Mas sei que nada resta deste todo,
Quem vive tão somente a lama e o lodo,
Sonhando com o brilho, ledo, mente...

32987

Pudesse retornar à velha casa
Aonde se fez tanto em poucos dias,
Mas nada do que trame em harmonias
As horas são diversas, frágil brasa
E o quanto em poesia nada embasa
Espalha pelos cantos fantasias
E morro sem saber das alegrias
E delas nem sinal, a vida arrasa
E deixa infelizmente esta mortalha
Aonde novamente a sorte talha
Puindo o que restara da esperança,
E morto em vida tento algum respiro,
Mas quando neste abismo eu já me atiro,
A morte novamente assim avança.


32988

Aonde se fizera algum sorriso
Eu vejo tão somente o mesmo espinho,
Seguindo o meu caminho mais sozinho
O passo nunca mais fora preciso,
E o medo transtornando o meu juízo
E sem sentir a paz onde me aninho?
Morrendo sem ninguém tanto carinho
Ainda necessito e vem granizo...
Pudesse te encontrar em lua cheia
Rondando a minha noite em luz perfeita
E assim a própria sorte não rodeia
Deixando o meu caminho em solidão,
A morte a cada dia mais se aceita,
Quem sabe seja mesmo a solução?

32989

O mundo digerindo cada passo
Destrói toda centelha de esperança
E quando no vazio a voz se lança
Ao mesmo tempo o dia já não traço,
Mergulho neste nada e me desfaço,
A voz ao léu sem rumo, ora se cansa
E a sombra aterroriza, fina lança
E bebo do terror a cada espaço,
Moído pela vida, insensatez
E nela cada dor aonde vês
Apenas o fantasma do que fui,
Qual rio que seguindo sem destino,
Buscando alguma foz, já não domino
E sem saber sequer por onde flui...

32990

Amei e me entregando sem saber
Aonde poderia ser feliz,
Deixando em desencanto a cicatriz
E nela coletando o desprazer
Vencido pela fúria posso ver
As chagas entranhando este infeliz
Caminho aonde o sonho ainda quis,
Restando tão somente o nada ter.
Morrendo sem saber qualquer sentido
O mundo noutro tanto destruído
Brumosa tarde cai sobre o cenário
E assim o temporal que eu adivinho
Deixando-me decerto mais sozinho,
Num ar mais que temível, temerário...

32991

Medonhas noites traçam dias claros?
A esperança renovável como fosse
O pote arrebentado sem o doce
E nela seus delírios não são raros.
Mas quando se aproxima a mesma bruma
O tempo variável não permite
Que ainda se perceba sem limite
O quanto o meu olhar não acostuma.
Resisto e vez em quando ainda rio,
E tanto ou muito pouco do que eu era
Resume o que pudesse em primavera
E sei quanto é mentira ou desafio.
Levando a minha vida simplesmente,
Navegando ao sabor desta torrente.


32992

Ainda que eu pudesse acreditar
No quarto abandonado da esperança
E nele a solidão deveras dança
Tocada por um raio de luar,
E mesmo se eu pudesse navegar
O fim, imenso cais já não se alcança
Quem tenta sem amor ou temperança
Jamais alguma coisa há de tocar.
Legando ao meu futuro alguma sombra
Que ainda se permite enquanto assombra
Moldando a cada ausência novo tempo.
Vendendo a solidão, isto é bem claro,
O amor que ainda nego e não declaro
Seria no momento um contratempo?

32993

O corte da navalha adentra o porto
E marca com seus erros meu caminho,
Quem tanto se fizera mais sozinho
Agora se percebe semimorto,
O tempo preparando algum aborto
E nele sempre ausente este carinho,
O resto do que eu fora, me avizinho
E tento caminhar, buscar conforto
Aonde nada houvera nem havia,
Inutilmente tento a poesia,
E a paz que ainda tento não se vê
Matando com ternura o velho amor,
Espero novo templo, redentor,
Mas sei que a vida resta sem por que...

32994

Passando a limpo a vida neste instante
Percebo num espelho esta verdade
E quando quis saber tranqüilidade
O fato se mostrara degradante,
Na senda desvendada, um imigrante
Que aos poucos outros sonhos busca e invade
No todo aonde vive e se degrade
O corpo se imergindo, vil farsante.
Negando o meu destino, desatino
E quando nada mais sequer domino,
Encontro este menino que morrera,
E tanto do passado me alimento
Buscando inutilmente este provento
Que o tempo sem limite pervertera.

32995

Balanças os quadris e vês o fato
Do sonho realizado da galera,
Mas quando novo tempo já se espera
Apenas retratando outro maltrato,
Assim sem poder ter nas mãos o prato
A fome com certeza mais tempera,
Quem tanto desejara desespera,
E sei que no final nada arrebato,
Somente a mesma velha fantasia
E nela toda a senda se veria
Desnuda do que fora uma ilusão,
Amigo, a vida sempre foi assim
Vazio em sobremesa, triste fim,
Restando a quem caminha a tentação...


32996

Bebendo mais um trago da aguardente
Deixada sobre a mesa por acaso,
O tempo vai perdendo rota e prazo
No quanto mais vazio se apresente.
Vivera simplesmente qual demente
E ainda sem saber se eu quero, atraso
E beijo cada sombra deste ocaso
No qual a vida entrega plenamente,
Viver sem amanhã e sem saber
Se ainda poderia amanhecer
Depois de tantas noites solitárias;
A paz tão esperada, falsa luz
E ainda quanto mais lutando opus
Resistem bem ao longe, luminárias...


32997

O que seria da vida sem te ter?
Medonha face exposta da mentira
E quanto mais a luz já se prefira
Maior a turbulência eu posso ver,
Sentindo a cada passo o desprazer
Aonde a realidade ora me atira,
A vida não acerta mais a mira
E o mundo desabando no meu ser.
Não vejo outra saída e nem que eu queira
A sorte dos meus braços, derradeira
Há tanto se perdera noutra cena,
Resisto tão somente por sonhar
Embora veja ao longe este luar,
Enquanto a bruma imensa me envenena...


32998

De repente poderia acreditar
No amor que se fizesse mais presente,
E tudo quanto ainda se apresente
Negando a minha vida, devagar,
Gerando este vazio a demonstrar
O quanto a solidão se faz freqüente
Na vida de um escombro, de um demente
Um barco que não tem onde ancorar.
Naufrágios são comuns, eu te garanto
Restando novamente dor e pranto
Aonde não se vê mais qualquer brilho,
Bebendo gole a gole deste hospício,
Cavando com meus pés o precipício
Inferno em própria vida, assim eu trilho.

32999

Não posso perdoar sonegação
Do sonho mais feliz ou mesmo fraco
E quando noutro porto ainda atraco
Errando vez em quando a direção
Talvez encontre ali a solução
Comendo da esperança mero naco,
Ao quanto poderia se inda ataco
Resposta que virá; decerto é não.
Jogado pelos cantos, sem sentido,
O peso do viver não dividido
Sorriso desdentado desta morte,
Arcando com meus erros novamente,
O beijo que eu buscava já se ausente
Prevendo ausência mesma de suporte.

33000

Sorrisos de ironia costumeiros
Verdade é que eu mereço, errei demais.
Mas quando se percebem vendavais
E neles os meus passos derradeiros,
Ainda poderiam verdadeiros
Momentos noutros tantos desiguais,
E tudo se mostrando em madrigais
Aonde vez em quando ainda esgueiro
E tento renovar o já perdido,
O espelho mostra o tom envelhecido
E a roupa ora puída da esperança
Retalhos sobre a cama, nada além
Ainda a solidão é o que convém
A quem ao desengano enfim se lança.

32901 até 32950

32901

Chegando muito cedo quem deveras
Eu não imaginava ter por perto,
E quando a realidade já deserto
Ainda penso noutras primaveras,
Assim enquanto vês as mesmas feras
E delas não consigo, peito aberto
Vencer e imaginando, mesmo alerto
Metamorfoses ditam novas eras,
E a morte se aproxima e não me deixa
Sequer pensar, sonhar, e sem ter queixa
Adentro os seus caminhos e indefeso
Não tendo outra saída, vou entregue
Até que o turbilhão já se sossegue
E irremediavelmente esteja preso.

32902

Qual fora uma efeméride, num ato
Somente dividido em várias cenas
Num transcorrer em horas duras, plenas
Envolta por prazer e desacato,
Numa constância mansa de um regato
Inundações, às vezes, mas apenas
Momentos em que aos poucos envenenas
Ou mesmo por resposta eu te maltrato,
Na brevidade expressa em raros gozos
Noturnos caminhares, prazerosos,
E depois a rotineira e tola ermida,
Sozinho em multidões, assim a vida
Início preparando a despedida...

32903

Instante mera foto de um conjunto
Que tanto se perdendo ou diluindo
No espaço sendo o próprio mesmo findo
E nisto renascendo em novo assunto,
Porquanto estes cenários teimo e junto
Tentando algum formato torpe ou lindo,
E assim neste somar já prosseguindo
Quebra cabeças, peças re-ajunto
Vivendo cada ausência ou mesmo a vida
E nela se percebe a ressurgida
Manhã depois da noite em treva ou lua,
E deste somatório de emoções
Porquanto sejam tantas divisões
Uma noutra decerto continua.

32904

Alguma coisa sempre se perdendo
No vai e vem da vida em noite e dia
E assim se perfazendo a fantasia
E dela outro tempo já se vendo
Porquanto cada fato de outro adendo
Renovação se faz e se sentia
Nesta medida exata em que seria
Compêndios em compêndios se envolvendo.
Ressurjo quando tento nova história
E morro a cada instante na memória
De um mundo tão mutável, mas constante
E neste carrossel, roda gigante
O tempo não condiz com a verdade
Na medida em que o velho se degrade.

32905

Amor começa enquanto prenuncia
O fim da tarde e tanto modifica
Enquanto derrubando me edifica
Ao mesmo tempo deveras anuncia
A morte incontestável de outro dia
E tanto quanto possa não explica
Tampouco do que vem mostrando dica
Refaz onde se o encanto perderia.
Amar e conceber outro momento
E dele se mostrar quando freqüento
Um renovado ser, mesmo que falso,
Tropeço após tropeços eis o amor
E tanto renovável forma e cor
Gerando a salvação e o cadafalso.

32906

Aonde se acabasse um ideal
A vida não teria mais sentido,
E tendo mesmo estando adormecido
O sonho libertário fonte e nau
Da qual por vezes fujo, mas igual
Momento se apresenta ressurgido
Ou mesmo disfarçado e distraído
Galgando a cada dia outro degrau,
Por vezes me calando em estratégia
A vontade porquanto seja régia
Domina o pensamento e mesmo assim,
Aflora-se meu sonho vez em quando
E aos poucos me sentindo transmudando,
Mas coerentemente chego ao fim.

32907

Embora tenha visto aqui meu cais
E até sentido os pés em terra firme
Por mais que a realidade sempre afirme
O olhar neste horizonte busca mais,
A vida não permite claramente
Os sentidos unirem concebendo
O quanto se pudesse em estupendo
Momento quando o sonho nos desmente
Assim nesta inefável caminhada
Por entre meus escombros e esperança
O tempo noutro fato já se lança
Por mais que a meta esteja demonstrada.
Renovo-me e talvez isto sustente
Esta inconstante fúria em minha mente.

32908

Arrisco-me porquanto ainda viva
E sei do quanto é boa a nova aragem,
Rever de vez em quando a paisagem
Imagem que persiste em tez altiva,
Mas quando da esperança já se priva
A vida se contendo em tal barragem
Impede qualquer sonho e sem miragem
Não há quem na verdade sobreviva.
Ausento de mim mesmo desde quando
Percebo o meu olhar sempre buscando
Um brilho ainda até residual
E dele alimentado, não sacio
Mutante criatura eu me recrio,
Monótono, mas busco ser dual.

32909

A morte segredando em meus ouvidos
A sorte desairosa, mas constante
Por mais que na verdade se levante
E tente disfarçar outros sentidos,
Os dias entre dias percorridos
Moldando a fantasia num levante
Inútil quando eu vejo estar diante
Dos fatos tantas vezes repetidos.
Renovo-me e procuro ainda ver
Futuro aonde sei haver passado
Inutilmente sinto degradado
O que deveras dera mais prazer,
Até que num descanso ou num vazio
O fim encerra o ciclo em que desfio.

32910

Riscando o meu caminho em inconstância
Em ondas mais diversas, mesmo mar,
Negando o que bem sei poder voltar
E nisto não sentir mais discrepância,
A vida renovada em militância
Porquanto é necessário, pois sonhar
E quando chega ao fim, sem se notar
Do todo nem sequer sombra da infância
Enquanto restitui-se em nova forma
A sombra do passado nos informa
O quanto não cumprimos ou falhamos,
Aos poucos esta fronde, hoje raiz
No quanto se perdera busca e quis
O vicejar sublime de seus ramos.


32911

Porquanto andara tanto em meio às sombras
Durante muitas léguas, vida afora
Ainda vejo quando ao longe aflora
A sorte desejada em tais alfombras,
Mas quando na verdade se apresenta
O mundo entre luzeiros mais fugazes
E neles vez em quando te refazes,
Viver é conceber esta sedenta
Imagem que jamais será calada
Nem mesmo saciada plenamente,
E quando eu me renovo e me apresente
Com face sutilmente disfarçada,
Não percebendo assim a direção
E nela esta constante mutação.

32912

Adentro pensamentos e buscando
Algum sinal de vida aonde outrora
A fera adormecida já se aflora
E torna o caminhar bem mais nefando,
Negar a minha história, transformando
Sem ter sequer noção de um tempo e de hora
No quanto a vida em si já se demora
Eternamente o todo reformando,
Até que num formato terminal
A morte com seu brado ritual
Eleve-se e domine toda a cena,
Por ser assim e nada mais, insisto
Se eu penso e se decerto ainda existo
A parte que me cabe é tão pequena...

32913

Floresce em mim a sombra do que eu quis
E nunca poderia consistir
Na fonte de um momento no por vir
Gestado a cada ausência ou cicatriz,
No quanto ser alegre ou infeliz
Bebendo do que tanto irei sentir
Apenas pelo fato de existir
No qual a realidade contradiz,
E sendo assim vital fugacidade
O quando do meu todo se degrade
Até chegar à tola podridão
Realço os meus fantasmas, mas os tenho,
Mas quando de esperanças eu me emprenho
O empenho gera a mesma negação.

32914

Entre ócios tão diversos vida passa
E tento segurar o que não vejo,
E assim apenas sendo este lampejo
E mera forma expressa em tal fumaça
Ainda procurando qualquer graça
E nela refazer um ar sobejo
Prescrito pelo quanto mais almejo
No fundo o fim da peça a vida traça.
E sei deste caminho inevitável
Penhascos entre rocas, rochas, morte,
Farturas entre sonhos, vão aporte
O todo se mostrara inalcançável,
Existo e por saber que ainda vivo,
Encontro pelo menos lenitivo.


32915

As lâmpadas acesas, sala aberta,
E nada adiantando esta promessa
O quanto do viver não recomeça
Enquanto a própria vida não desperta,
Servindo ao navegante como alerta
Momento vez em quando já se engessa
E o turbilhão seguindo ora sem pressa,
Aos poucos me servindo de coberta.
Acetinada sombra de um momento
Aonde pelo menos me apascento
Sabendo da puída resistência
E quero crer possível novo dia,
Embora na verdade o que se via
Em progressiva forma, inexistência.

32916

Por vezes neste quarto eu cambaleio
Tentando algum apoio aonde eu sinto
Apenas o fulgor de um velho instinto
Usando da alegria qual recreio,
E quando a realidade ainda anseio
E beijo este vulcão em mim extinto
Dos antros mais vorazes eu pressinto
O tempo que jamais um dia veio.
Negar a coerência e ser aquém
Do todo que decerto sempre vem
Moldando com adagas o caminho,
Encontro neste espelho em rugas feito
Retrato aonde em vão inda me aceito
E da verdade aos poucos me avizinho.

32917

Prestes a sentir o que em verdade
Jamais eu poderia imaginar
Na juventude há tempos, demonstrar
A face aonde o mundo se degrade,
À parte dos meus sonhos, claridade
Não traduzindo ao menos o lugar
Aonde eu poderia desfilar
Somente qualquer tom: felicidade.
Não vejo e nem seria uma surpresa
Saber da inexistência desta mesa
Porquanto do banquete nem sinais
O todo se perdendo em mil pedaços
E quando se transformam velhos traços
Os fatos refletindo o nunca mais.

32918

Um deserto que ainda habito quando
A noite se aproxima e solitária
Não deixa qualquer sombra, necessária
A quem se fez deveras noutro bando,
O mundo com tal fato realçando
A dita muitas vezes temerária
E nela cada ausência é procelária,
Porém pressinto o todo desabando
No vago caminhar em noite escusa
O quanto a vida enfim ainda abusa
Da busca incoerente, mas constante,
Eu tento discernir em plena sombra
A imagem espectral que ainda assombra
Num ato inconseqüente e degradante.

32919

Sentindo a me tocar o vento brando
Em brisas ou quem sabe mesmo em fúria
A sorte não suporte mais lamúria
E neste quadro eu sinto emoldurando
O fato de viver e semeando
Ainda mesmo em vão qualquer incúria
E pego de surpresa em tal penúria
Jamais se imaginara em mim nevando.
Mentindo muitas vezes finjo bem,
E sei da incoerência que convém
Enquanto minto ou tento em omissão
Negar a própria face da verdade
Por mais que ainda beba a realidade
Eu não vislumbro mais tal divisão.

32920

Veludos do passado, sedas nobres
E agora nos retalhos que te trago
Ainda se percebe algum afago,
Porém nem mesmo sombra tu descobres,
Na expectativa imensa em que recobres,
Existe a placidez de um frágil lago
Não tendo este poder, queria um mago
Momento feito em luzes, ouros, cobres.
São meras ilusões de um sonhador,
A culpa é desta insana poesia
Que tanto quanto poupa e me recria
Gestando com loucura um torpe amor,
Ainda não percebe a face escura
Da lua que no céu clara emoldura.

32921

É como se no incerto caminhar
Houvesse algum alento pelo menos
E a vida traduzindo tais venenos
Nos quais eu me entreguei e sem pensar,
Vestígios de uma sombra em luz solar
Tornasse os dias duros mais amenos
Portanto já seriam bem pequenos
Os velhos turbilhões onde lutar.
Encontro em galerias de minha alma
As sobras pelas quais o tempo acalma
E transcorrendo em paz o que talvez
Noutro momento possa até trazer
Imensa turbulência em desprazer
E apenas este sonho não desfez.

32922

Tantas vezes procuro algum sinal
Que possa me trazer ao menos paz,
E quando a gente fosse mais tenaz
A vida não seria bem e mal
As horas num momento germinal
Transformam novamente o que se faz
Em outra discrepância até audaz
E assim se rezando o ritual
Até que nada sobre ou mesmo reste,
O passo em caminhada mais agreste
Permite que este mundo amadureça
E nisto a realidade dita o tempo
Imerso em alegria e em contratempo
Tomando sem limites a cabeça.

32923

A sorte não produz a mesma face
E mesmo nos sinais onde arrebento
A fome se mostrando sem provento
E nisto cada engano bem se trace,
Aonde a fantasia já não grasse
Exposto às variantes deste vento,
O mesmo sol que dita provimento
Gerando noutro instante duro impasse.
Restingas entre praias, mares, mesma areia
O cais já se ausentando e sem sereia
A vida não permite fantasias,
Assaltos entre balas e vielas,
No canto em que deveras tu revelas
As duras emoções dos torpes dias.

32924

Relembro cada dia do que fora
Imagem refletida noutro espelho
E quando no vazio me aconselho
Resposta nunca sendo tentadora
Denota a falsa imagem em reflexo,
Assim em profusões diversas cenas
E nelas quantas vezes envenenas
Tornando o já sem rumo mais se nexo.
Dos pós em prós e contras sigo
E tanto navegando em sortilégio
O amor que não pudesse ser tão régio
Ditando com terror qualquer perigo,
E assim ao desatar caminho e senda,
O nada que inda trago não se atenda.

32925

Assídua voz em tons diversos tendo
Caminhos discrepantes entre tatos
Vencidos pelos sonhos os contratos
Não vejo nem entendo mais adendo
Retendo com palavras não desvendo
Senão os meus ritos, meus retratos
Em atos divergentes, lautos pratos
E neles o que tive se perdendo,
Acasos entre ocasos, casos são
E beijo a conseqüência do verão
Na brônzea maravilha desnudada
Mas logo repasso noutra face
O traço que a verdade já desgrace
E volto novamente ao velho nada.

32926

Refém da poesia em ti mergulho
E tento reverter caminho torto,
Buscara inutilmente qualquer porto
Apenas por ouvir longo marulho,
E sendo na verdade mero entulho
Resíduo do passado semimorto
Mesquinha realidade vulgo aborto
Ainda vou fazer muito barulho.
E nada do que possa ser assim
Diverso do que espero inda de mim,
O pangaré desta alma traiçoeira
Bebendo esta aguardente batizada
Transcende à qualquer forma de alvorada
E assim na liberdade dou rasteira.

32927

Rodopiando em diverso temporal
O tempo vai tomando cada fato
E sendo tão comum este retrato
Aonde se mostrara desigual
Imagem que proponho, tanto qual
Ainda noutro tanto, mesmo prato
Lavando a fantasia no regato
O mar se mostra ausente ou pontual,
Esqueço dos meus medos, meus anseios
E busco novamente em devaneios
Momentos que talvez ainda tenha,
E neles crer no amor, mesmo tardio
E quando em outros versos me recrio
É como reacender fogueira e lenha.

32928

Assino com meu sangue o compromisso
Do tempo quando em tempos mais dispersos
Invade com furor todos os versos
E nisso me percebo quase omisso,
O tanto quanto pude e mais cobiço
Vibrando em ares fartos e diversos
No todo dos meus sonhos vão imersos
E assim se manteria ainda o viço.
Vestígios do que tanto quis em fases
Aonde cada dia que inda trazes
Permite amanheceres com ternura,
No encanto feito em dor ou mesmo luz,
O amor já sendo a fonte que produz
Ao mesmo tempo a paz ou a loucura.

32929

Amei e não podia mais negar
O fato escancarado nos meus atos,
E quando percebera novos tratos
Distantes do que pude imaginar,
Vibrando em emoções pude tocar
Os sonhos entre tantos vãos retratos
E sinto se talvez pudessem gratos
Momentos onde a sorte fui buscar,
E sei que por amar não bastaria
E nesta fase agora, meu outono,
Entregue ao mais terrível abandono
Na espreita deste inverno em noite fria,
Um novo amanhecer, mesmo tardio,
É mais do que um caminho: um desafio!

32930

Descendo pelos antros da seara
Amarga aonde tanto quis lutar
E vendo inutilmente se mostrar
A noite aonde nada mais aclara,
O verso inconseqüente se declara
E tenta vez em quando disfarçar
Usando de outra imagem; divagar
E ter nos meu destino o que me ampara
É como receber em plena noite
O sol em fúria feito, iridescente
Porquanto se perceba onde se acoite
A fantasia tola e necessária
Assim, ao se tocar o que se sente
Completo-me na intensa luminária...

32931

Fazendo do meu canto uma fonte
Da qual já não pudesse me livrar
E tendo a cada prece outro sonar
Ainda que não veja no horizonte
Sinal aonde a vida mostre e aponte
Por onde deveria começar
Ou mesmo noutro tempo me ancorar
Destroços de uma velha e dura ponte.
À porta dos meus sonhos sentinelas
Mordazes sensações às quais atrelas
Os dias entre sonhos, fantasias,
O parto é demorado e quando surge
A imagem deste caos aonde se urge
A vida em faces claras, mas tardias...

32932

Percebo o quanto pude e não consigo
Sentir além da vasta negação
Aonde a vida molda a direção
E trama a cada curva um vão perigo,
Apenas ao somar o desabrigo
Não mais queria ter a solução
E o pranto sem total lamentação
Somente disfarçando, pois nem ligo.
Esqueço e recomeço além do todo
E quando me pensara em pleno lodo
Renasço e nada deixo para trás,
A vida determina esta mudança
E o quando a plenitude já se alcança
Um novo desafio ela nos traz.


32933

Um pouco do universo existe em mim
E todas as figuras que percebo
Do assassino frio já concebo
Cenário de onde fujo e tento ao fim
Negar a mesma face de onde vim,
E quando noutro tanto acaso embebo
Demônio se pensando quase um Febo,
O beijo da mortalha, um estopim,
E neste conhecer as variáveis
De uma alma entre diversas faces vista,
No quanto poderia pessimista
Os dias com certeza são mutáveis
Em tal dicotomia posso ver
A dissonante face do meu ser.

32934

Negar a discordante fantasia
Aonde o meu passado renascesse
E tanto quanto possa merecesse
A sorte renovando em agonia
O tempo quando a vida desafia
E sendo sem saber imensa messe
O encanto aonde o tempo se obedece
E morre quando muito em alegria.
Das pétalas diversas, flor sombria
Matando a primavera, nega o fato
E quando esvaziando mundo e prato
A porta não se vê, pois negaria
Saída a quem se fez em cor dispersa
À qual a poesia já não versa.

32935

Recomeçar caminhos após medos
E receber a sorte do não tido
Mergulho sem saber de algum sentido
Tentando desvendar velhos enredos,
E sei das discrepâncias dos segredos
O temporal tocando o já perdido
A morte transformando o dividido
Em dias mais longínquos mesmo ledos
Na estupidez gerada pelo fardo
E nele cada trama vira um dardo
Penetrando profunda furna em mim,
Mesquinharias grassam pelo vão
E toda realidade em direção
Diversa da que ainda existe enfim.

32936

Resolvo meus problemas com adagas
E facas e punhais, revólver, bala,
Assim a sorte às vezes avassala
E deixa para trás ausentes plagas,
E enquanto as fantasias tu afagas
Deixando-se antever em plena sala
O pouso necessário e não se cala
Procuras também mesmo pelas chagas
Extintas esperanças noutro quarto
E assim cada cadáver que reparto
Prenunciando o próximo transcende
Ao quanto do vazio ainda levo
Percebo o meu destino aonde cevo
A morte quando dela alma depende.

32937

Jorrando dentro em mim inferno e chama
Pendulando por faces agressivas
E nelas as montanhas mais cativas
Geradas pela fúria em pleno drama
Se resolutamente uma alma clama
E tenta noites claras permissivas
As horas em que tantos sonhos privas
Mergulham no passado e nada trama
Sem amas, serviçais porra nenhuma,
A vida com certeza se acostuma
À torpe liberdade em gozo e festa;
Errático planeta desmembrado
Do todo que já fora emaranhado
Demonstra a cara amarga e nada presta.

32938

Distância não conheço e nem queria
Saber do sofrimento desta ausência
Amor quando se faz em anuência
Permite a bela noite em voz vadia.
A chuva desabando não traria
Sequer a dor precoce em penitência
Ao menos santidade na clemência
Da qual e pela qual o sonho guia.
Resumo de uma vida em tempestade
Porquanto cada engano desagrade
As lutas vão travadas entre céu e mar,
E quando poderia estar perdido,
Encontro finalmente este sentido
No tanto que aprendi contigo a amar.

32939

Relembro deste beijo em noite clara
Serena madrugada gozo à plena
E ainda ao reviver a velha cena
A bela melodia se declara,
E toda a fantasia já me ampara
E nela se percebe quando acena
A sorte noutra face mais amena
E nega qualquer dor nesta seara,
Beijando a tua boca noite imensa
A vida traz assim a recompensa
De quem se quis feliz e não sabia
Que toda a maravilha se resume
No quanto deste sonho a vida assume
E transforme em calorosa, a noite fria.

32940

Nada do que pudesse ser maior
Que amor entre os sentidos mais perfeito,
E quando noutra senda me deleito
Tomado pela fúria do suor,
O beijo transformando num acorde
E nele toda a música se faz
Traçando com ternura fogo e paz
No quanto tanto gozo se recorde,
Amar e ser feliz sem ter perguntas
As almas delicadas quando juntas
Percorrem infinitos sem saber
Do quanto se pudesse ser além
Vivendo esta beleza que contém
A sorte inusitada de um prazer.

32941

Não pudera saber da tempestade
Que tanto se escondera dentro em nós
E quando me percebo noutra foz
A voz do meu passado ainda invade,
E tanto quis viver felicidade,
Mas a vida inclemente, vil algoz,
Restando totalmente impune e atroz
Não deixa qualquer sombra que inda agrade,
A chuva que ora vem torrencial
Entorna no meu peito em desigual
Caminho e se transforma em dor e mágoa
Pudesse ser feliz, ao menos isso,
Mas quanto mais eu vejo movediço
Meu mundo no vazio já deságua...

32942

Notícias variadas que mandaste
Falando de momentos mais felizes
E quando dia a dia contradizes
Eu vejo a falsidade feita em haste,
A vida se condena a tal contraste
E nela se percebem tantas crises
Geradas pelos medos e deslizes
Diverso caminhar onde traçaste
Futuro desvairado e sem sentido,
Deixando uma esperança em pleno olvido
E neste nada ser eu me revendo
Após o contumaz caminho em vão
Bebera com certeza a direção
Do vento noutro tanto me movendo.

32943

Negar a realidade é como ser
Especular retrato de outra face
E ainda que a verdade te desgrace
Melhor é prosseguir e perceber
Irradiante brilho a se sorver
E nele não deixando algum impasse
Porquanto mesmo a vida já não grasse
Entranhas mais diversas do querer.
Não quero mais nem lágrimas ou dor,
Viver o falso brilho de um instante
Aonde se imagina um diamante
Melhor do que ao vazio se propor,
E tanto enamorado quanto vivo,
Dos sonhos mais audazes não me privo.

32944

Às custas deste sonho sigo em frente
E tanto poderia se não tento
Ao menos o que manda o pensamento
E nele toda a glória se apresente
Amor quando demais nunca apascente,
Mas mesmo sendo assim louco e sedento
Não tendo outro caminho nem invento
Momento aonde o mundo se apresente
Da forma mais diversa que seria
Gerada pela paz e fantasia
Trançando por espaços siderais,
Vivendo a cada instante sem buscar
Respostas que inda possam disfarçar
Apenas desejando e muito mais.

32945

O tempo diz do quanto é necessário
Seguir contra a maré, mesmo pudesse
Vencido pelo fogo que se tece
Gerado pela insânia, vão corsário
O mundo não se mostre noutra messe
Tampouco restaria ainda a prece
Tocado por terror imaginário.
Vivendo sem perguntas, por viver,
E sem saber de falsas luzes vejo
O tanto que procuro noutra senda
Aonde todo amor a vida estenda
E mostre o serenar de algum desejo.

32946

Retorno do passado aonde eu quis
Beber esta seara divergente
Porquanto cada dia se apresente
Diverso do que outrora e por um triz
Vencendo o meu olhar, riscado a giz
No espelho aonde o mundo é penitente
Enquanto novo verso não invente
Ainda continuo este aprendiz.
Sonhando sem fronteiras, nem limites
Além do que talvez inda acredites
Caçando cada sombra do que eu vira,
O parto necessário à liberdade
Por mais que o dia a dia já degrade
Mantém com toda a força a imensa pira.

32947

Não restará mais nada após o sol
Seguir o seu caminho suicida
Assim ao se mostrar o fim da vida
Num ato indescritível, sem farol,
O quanto poderia ainda em prol,
Mas vejo esta seara em despedida,
E nada se mostrara em face erguida
Matando o que se fez de girassol,
E quanto da harmonia se perdeu
A terra se inserindo em pleno breu
Mortalha derradeira desta a quem
Pensara ser maior, mas na verdade
A cada novo tempo mais degrade
Deixando no passado o que contém.

32948

O tempo se perdera e a juventude
Depois de desabar em cenas falsas
Procura com terror almas descalças
E delas quer que o sonho ainda mude?
Não posso discernir nova atitude
E quando as ilusões deveras calças
Esqueces das estradas, perdes balsas
E ainda se deseja quem saúde?
Noutra face mentiras demonstradas
Renegam as dispersas vis estradas
Molduram no passado a torpe tela,
E assim o quanto pude e nunca veio,
O mundo se afigura mais alheio
Nem mesmo a fantasia se revela...

32949

Refiro-me ao vazio como tento
Vencer os meus anseios contumazes
E sei da vida em fúria, tantas fases
E sigo mesmo assim em desalento,
Eu quero a solução do sofrimento
Em ares mais terríveis e mordazes
E neles o carinho que me trazes
Não serve nem pudesse de provento,
Calçado nesta incrível sensação
Do mundo sem amor e sem perdão
Perdida serenata em lua cheia,
Ao menos a mortalha ainda aquece
E nela toda a sorte já se esquece
Enquanto a fantasia me rodeia.

32950

Revivo com tristeza cada passo
Aonde no passado poderia
Vencer com suavidade e calmaria
O mundo novamente noutro traço
E ainda se tentando nada traço
Senão a mesma face escusa e fria,
O quanto já perdi da alegoria
Vivendo sem caminho e sem espaço,
Resido no momento mais atroz
Aonde se pudesse ser a foz
E sei que na verdade nada existe,
O peso de uma vida não suporta
Quem tenta arrebentar assim a porta
Com olhar amargo e duro sempre em riste.