terça-feira, 16 de março de 2010

27015/16/17/18

27015

E em maremotos, trêmulo planeta
Não suportando mais tanto terror,
Desaba a tempestade e neste horror,
Esperança se torna uma falseta

Vivenciando o fim da nossa história
Cumprindo-se deveras o que oráculo
Dissera há tanto tempo, um espetáculo
Horrendo em tez terrível, merencória

A Terra expondo em dor suas entranhas
Devora gigantesca engenharia
E o nada após o nada se recria,
Não há mais cordilheiras nem montanhas

E após a tempestade feita em lava
“Em noite o dia enfim se equivocava.”


27016

“Em noite o dia enfim se equivocava”
Estúpido final da raça humana,
Que outrora se pensando soberana
Por toda esta extensão, tola, reinava.

Em gestos de ganância destroçando
O que talvez eterno se fizesse
Tentando amenizar com rito e prece,
Porém jamais agira em fogo brando.

E a fúria gera fúria, nada mais,
Repasto para as últimas fornalhas,
Riquezas são deveras meras tralhas,
Poderes emanados de boçais

Criando como fossem frias grades
Dos Céus nuvens espessas, tempestades.


27017

Dos Céus nuvens espessas, tempestades
Rolando sobre os vários elementos,
E nelas se refazem os tormentos
Por mais que ainda tentes, grites, brades

Silêncios absolutos pós a fúria
Deixando esta convulsa Terra nua,
A noite não terá estrela ou lua,
Somente e plenamente farta incúria.

Penúria se mostrando em face escusa,
Na candidez do nada exposto o vão,
E fendas abismais tomando o chão,
Resíduos tornam cena mais confusa

Nem sombra do terror que se espalhava
“E com estrondo horrível, que assombrava.”


27018


“E com estrondo horrível, que assombrava”
Momentos tão convulsos sobre todos,
E toscas criaturas, podres lodos,
Uma onda gigantesca, imensa e brava

Derrama-se por sobre cada estrada,
Desabam cordilheiras, terremotos,
Os sonhos se tornando mais remotos,
A Terra sendo aos poucos destroçada.

Venais tormentos tomam meu olhar
E tudo o que pensara se desfaz,
Retrato tão terrível quão mordaz,
Percebo sobre nós se acumular

E bêbado de tantas tempestades
Assisto à derrocada das cidades.

27012/13/14

27012


“Da terra e água o ser se confundia”
Insondáveis mistérios concretizam
Enquanto tantos seres agonizam
A noite desabando espessa e fria.

Os mares em terríveis ondas tomam
As ilhas, as calçadas e edifícios
Abrindo sob os pés os precipícios
Enormes pesadelos já se somam,

A neve sobre escombros se acumula,
Multidões vagando em procissão,
Não tendo mais destino ou direção,
Demônio satisfaz imensa gula.

Das carnes decompostas, seus petiscos,
Os sonhos fugidios, mais ariscos.

27013


Os sonhos fugidios, mais ariscos
Percebo agonizante a Terra inteira,
E a morte de outra morte mensageira
Eternizando a dor, trovões, coriscos

E as ânsias de uma vida bem melhor
Agora sepultadas neste Inferno,
O que pensara ser suave e terno,
Tragédia vai se impondo, tão maior.

Carcaças devoradas por rapinas,
Não resta sequer pedra sobre pedra,
O olhar mais corajoso já se medra,
Não sobram nem sequer becos e esquinas

E ainda sobre o nada que se cria
“Bramava o mar, o vento embravecia.”

27014


“Bramava o mar, o vento embravecia”
A vida que com luzes foi criada,
Agora totalmente destroçada
Enquanto toda a Terra enegrecia.

Partícipe do caos; nada mais posso
Somente me levar pela torrente,
Por mais que tal cenário me atormente,
Nenhuma reação, ainda esboço.

Insetos, vermes sendo então herdeiros
Fazendo dos escombros a partilha,
Alguma criatura ainda trilha
E avança sobre corpos, garimpeiros

Por mais que o vento ainda se arremeta
E em maremotos, trêmulo planeta.

27009/10/11

27009

E a Terra em convulsões leda bramia
Gerando o desespero em cada face
Destino que profético se trace
E dele desairosa fantasia.

Dos píncaros aos vales mais profundos,
Tempestas e borrascas, nas procelas
Estrelas desabando em turvas telas
Galgando o fim de todos, vários mundos

Nefasta paisagem se percebe
E nela reproduzo os meus temores,
Cenários demoníacos e horrores
Invadem sem limite toda a sebe

Vulcânica expressão em fúria e lava
“O fogo com o ar se embaraçava.”

27010

“O fogo com o ar se embaraçava”
Em erupções diversas sofrimento
Gerado pela insânia do tormento
Que a tudo sem descanso dominava.

Na inglória caminhada pela Terra
A raça humana em dívida venal,
Percebe neste estranho ritual
Sua jornada agora já se encerra

Gargalham-se satânicas figuras,
Voando como corvos sobre todos,
Emergem mais demônios destes lodos
Algum remanso inútil; crês. Procuras.

Mas nada neste inferno ainda havia
Deixando um ar terrível de agonia.


27011

Deixando um ar terrível de agonia
Em pandemônio vejo o nosso fim,
A morte se espalhando e mesmo assim,
A face do terror inda sorria.

Irônicos fantoches que satânicos
Embebem-se do sangue em profusão,
E deles novos seres se farão
Gerando sobre todos, outros pânicos.

Vendavais assolam; chuva intensa,
O solo vai se abrindo e devorando,
As esperanças fogem; torpe bando,
Não há que do futuro se convença

No universo em completa rebeldia
“Da terra e água o ser se confundia.”

27006/07/08

27006

“Relâmpagos, trovões, raios, coriscos”
E a Terra em convulsões leda bramia,
Deixando um ar terrível de agonia,
Os sonhos fugidios, mais ariscos.

E em maremotos, trêmulo planeta
Dos Céus nuvens espessas, tempestades,
Assisto á derrocada das cidades
Ao nada do depois nos arremeta

A sorte desairosa cultivada
Por mãos tão agressivas e insensatas
Imensos fogaréus tomando as matas,
Depois de tudo vejo o simples nada.

Ocaso se demonstra no horizonte,
A fera, raça humana, fim e fonte.

27007

A fera, raça humana, fim e fonte
Momento apocalíptico desnudo,
E quieto observo tudo e sigo mudo
Aguardo alguma luz que inda desponte.

Mas nada. Só percebo este revolto
Mar que adentra praias, casas, ruas.
As faces do planeta, agora nuas,
É como se um demônio eu visse, solto

E o fogaréu se espalha sobre todos,
Ardendo em fartas chamas corpos nus,
Dos Céus se percebendo então a cruz
Que emerge sobre o charco, podre lodo.

Ao ver tal turbilhão memória grava
“Painel da noite em tempestade brava.”

27008


“Painel da noite em tempestade brava”
Cenário demoníaco se vê
E quando se pergunta como e o que
Uma alma da verdade sendo escrava

Percebe nossa culpa e não domina
A voz que lancinante solta em brado.
De tudo me percebo tão culpado
Deveras da hecatombe sou a mina.

Esgotam-se esperanças, vago inferno,
Corruptas ilusões, chagas imensas,
E mesmo que do fato não convenças
Realidade em fúria, logo externo

Já generalizada esta agonia
E a Terra em convulsões leda bramia.

27005

Tocadas pela mão de intenso vento
As sortes se desviam do caminho,
E quando me encontrara mais sozinho
Nem mesmo da esperança algum alento.

Escravo do não ser eu bem tentara
Alguma forma explícita de paz,
E o tempo sendo atroz e até mordaz
Gerando invés de cura, nova escara.

Nos bares feito um bêbado vadio,
Numa aguardente amarga o colo encontro,
Viver é desfiar-se em desencontro,
E a sorte já sem luz não desafio,

E quando ainda tento e até reluto,
O Fado se demonstra mais astuto...

27002/003/004

E levas aos demônios que recrias
Em holocaustos ritos sanguinários,
Aonde se pensaram temerários
Caminhos que nos tracem agonias

Vivenciando apenas a ilusão
E nela se transforma totalmente
Enquanto da verdade mais se ausente
As dores em terrível procissão.

Acasos são comuns e neles vejo
Reflexos do outras eras disfarçados,
Aonde revivendo os meus passados
Futuro se tornando malfazejo.

Esgoto dentro em mim uma esperança
Sabendo que o vazio toma e avança.

27003


Vencer os meus terrores, ser guiado
Por luzes mesmo falsas e enganosas,
Se ainda não houvesse mais as rosas
Jardim das esperanças destroçado.

Só sei que nada sei e estou cansado
Das mesmas desventuras mentirosas
E nelas as histórias caprichosas
Refletem um caminho maltratado.

E quando o coração tão maltrapilho
Seguindo pela estrada aonde trilho
Divisando com todo o sofrimento.

E, trôpego não tenho outro endereço
Senão a mesma queda que conheço
E nela refletido o desalento...

27004


E quando em luzes frágeis inda tento
Fazer dos meus tormentos, alegria
Por mais que outro momento a vida cria
Reflete novamente o desalento.

Ao longe a voz cansada da esperança
Clamando por talvez não creia mais
E nela se percebem rituais
Enquanto ao nada ter a voz se lança.

Apenas quem se fez um sonhador
Recolhe a cada dia seus pedaços,
E os dias entremeiam rotos laços
Tentando algum momento salvador.

Quem dera se inda houvesse alguma luz,
Mas nada, sempre o nada, inda reluz...

27001

Tomando este arrebol medo e lamento
Às vezes percebera alguma luz,
E quando esta ilusão se reproduz
Aos poucos, com certeza me acalento.

Descrevo o meu passado como quem
Vagando pela busca inalcançável
De um tempo aonde fora mais amável
Sabendo que ao final, nada contém.

Estradas onde ainda tenho em mim
Entranhada a poeira e nos sapatos
De todos descaminhos os retratos
Dizendo tão somente de onde vim.

Não deixo de tentar lutar, mas sei
O quão distante estou de minha grei.

27000

Angústias tão comuns de quem procura
Algum momento ao menos feito em paz,
E quando a realidade mostra e faz
Do quanto que quisera, vil tortura.

Assenta-se a poeira e sigo só,
Não tendo nova chance, nem a quero,
Se às vezes sou mais franco e até sincero
Já não suportaria ser o pó

E abrindo o coração, eis a verdade,
Retorno ao meu momento original
E enquanto se mostrasse em festival
O mundo se entranhando mais na grade

A liberdade tem um caro preço,
Porém nela, decerto, todo apreço.

26998/99

E quando mais distante ou por um triz
Vagasse pela noite sem sentido,
Sabendo o quanto dói estar perdido
Revendo tudo aquilo que desfiz.

Arcar com meus enganos ser fiel
A todos os propósitos que trago,
Ao ter a placidez ser com um lago
Invés de destilar somente fel.

Seria muito bom se isso eu pudesse,
Mas com esta amargura insofismável,
Este ideal seria inalcançável
Decerto não teria a sorte e a messe.

Percorro os meus abismos e consigo
Aplacar e absorver cada castigo.


26999


Um tempo aonde possa ser feliz
Depois de ter penado a vida inteira,
E quando se levanta esta bandeira
Realidade chega e contradiz.

Vestindo a fantasia de palhaço
Não pude compreender felicidade,
E quando me envolvendo na saudade
Caminho que traçara já desfaço.

Cansado de lutar e não saber
Se havia ou não um tempo mais tranqüilo,
Veneno tão profuso inda destilo
E nisso alguma forma de prazer.

Servir como chacota? Não, não mais.
Enfrento destemido os temporais...

26995/96/97

Por mais que a solução audaz se tente
O mundo não concebe outra saída
E quando se percebe mais perdida,
Minha alma já se embebe e vai contete

Às turras com meu próprio pensamento
Vencido pelas dúvidas banais
Vestígios do que fora? Nunca mais.
Distante de mim mesmo me atormento.

Adentro outras saídas que não esta
E o peso do viver somente aumenta
A sorte muitas vezes violenta
Em outras, insensível e funesta.

Riscando o meu passado e sesm futuro
Presente transcorrendo vago e escuro...


26996


Abisma com seu vário ingrediente
A sorte tentadora, mas atroz,
E quando não se escuta mais a voz
Por mais que tantas vezes isso eu tente,

Não creio no futuro se não vejo
Alguma luz num túnel refletida,
Na ausência do que fora mera vida
Sem esperança alguma não verdejo

E o caos se aproximando, nada além
Do fim inconstetável eu aproxima,
Aonde poderia novo clima
A gélida manhã insiste e vem,

Negando qualquer raio de algum sol,
Nublando tudo em volta, no arrebol...


26997


No olhar ensimesmado, tal loucura
Gerando este vazio que me açoda
Não posso suportar mais qualquer poda
Tampouco a dor imensa ainda cura.

Somar os nossos nadas e sentir
Que tudo não passara de ilusão
Enquanto as chuvas fortes de verão
Jamais me impediriam de seguir.

Remando contra a força da maré,
Lutando contra tudo e contra todos,
Acumulando assim tantos engodos
Sabendo desta vida como ela é.

Mergulho neste abismo feito em mim,
E sinto paz imensa, até que enfim...

segunda-feira, 15 de março de 2010

ESPIRAL DE SONETOS - Enquanto quis Fortuna que tivesse HOMENAGEANDO LUIS DE CAMÕES

Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum juízo isento,
escureceu-me o engenho co tormento,
para que seus enganos não dissesse.

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos tão diversos,

verdades puras são, e não defeitos...
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos!

Luis de Camões


2


“tereis o entendimento de meus versos,”
Assim quando notardes os caminhos
Por vezes são fugazes e sozinhos,
E quando estou distante; mais dispersos.

E tendo-vos amado mais que posso
Verdades incontidas sobrevêm
Andando da esperança mui aquém
Percebo quão constante ando assim, vosso.

Encanta-me o saber do Vosso Amor
Vencendo os mais diversos sofrimentos,
Adentrando-me então meus pensamentos,
Saber-vos com carinho é qual louvor.

Das águas cristalinas, pura fonte,
O Amor que nos conforta, a foz aponte...

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O Amor que nos conforta, a foz aponte
E adentre Mar imenso em belas sendas
Distante dos receios, fujo às lendas
Envolto em rara luz neste horizonte.

Servir-vos e poder seguir adiante
Com passos destemidos, vigorosos,
Sabendo quão diversos, caprichosos
Caminhos condizentes; diamante.

Ao enfrentar tempestas e procelas,
Navego em águas frias e sigo ausente
Do siso necessário, e se pressente
Atado às vossas mãos, sublimes celas.

Selando com prazeres raro Amor
Nesta esperança clara que se assoma,
E toda esta magia assim nos toma,
Traçando algum caminho redentor.

Invade-me e controla o pensamento
“esperança de algum contentamento.”


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“esperança de algum contentamento”
Domina cada passo rumo ao Norte
Aonde se sanando dor e corte,
O Amor trazendo enfim, suave alento.

Ser-vos-ia demais pedir num sonho
Belezas entre tantas, mais perfeita,
O meu olhar em vós, já se deleita,
Enquanto um Paraíso, enfim componho.

Por ter-vos tão somente nos meus olhos,
Sabendo-vos Senhora dos meus dias,
Espalham-se sobejas alegrias,
Deixando no vazio tais abrolhos.

Iremos dois libertos passarinhos
Assim quando notardes os caminhos.


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Assim quando notardes os caminhos
Erguer-vos mui além do que pensara,
Uma ânsia delirante, bela e clara,
Domina as cercanias, nossos ninhos.

E sendo-vos fiel, lacaio e servo
Num sôfrego desejo a vós me rendo
Momento que deveras estupendo
Guardado dentro d’alma inda conservo.

O Amor em ardentias convertido,
Comporta os sonhos meus, amada Dama,
E quando esta vontade vos reclama,
Nos medos contumazes de um olvido

Sentindo assim liberto, solto ao vento
“o gosto de um suave pensamento.”

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“o gosto de um suave pensamento”
Tomando a direção de antigos dias,
E nele se espalhando fantasias,
Encontro finalmente o meu alento.

Viver em vossos sonhos mais felizes,
Singrando os oceanos mais distantes,
Olhares tantas vezes radiantes
Já não comportam mais medos, deslizes.

E sendo-vos servil, Senhora Minha,
O Amor que trago em mim nunca descansa
E vive tão somente esta esperança
Que dos vossos quereres se avizinha

Os dias sem vos ter, tão pobrezinhos,
Por vezes são fugazes e sozinhos


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Por vezes são fugazes e sozinhos
Momentos em que vós não percebeis
Amor normatizando suas leis
Sorvendo em vossos lábios raros vinhos

Açoda-me a vontade de vos ver
E quando vos ausenta, a vida inglória
Tornando toda a noite merencória,
Ausente de meus olhos, o prazer.

Sentir-vos num instante de ternura,
É tudo o que minh’alma já deseja,
E quando mais sublime é mais sobeja
Trazendo a imorredoura luz da cura

O Amor por mais que nunca o merecesse
“me fez que seus efeitos escrevesse.”


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“me fez que seus efeitos escrevesse.”
O Amor ao dominar meu pensamento
Deixando no passado o sofrimento
Aonde do prazer não sei a messe.

E vendo em vossos olhos farto brilho,
Ao ter tanta Fortuna em vos saber
Ao lerdes meus destinos posso ver
A senda incomparável que ora trilho.

Pertenço-vos Senhora e nada além
Do sonho de ser vosso me sustenta,
Navego em vã procela e na tormenta
Uma esperança audaz aos olhos vem

Momentos radiosos ditam versos
E quando estou distante; mais dispersos...



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E quando estou distante; mais dispersos
Os dias em que tento desvendar
Segredos que permitam caminhar
Por mais que os dias sejam tão perversos.

Alheia aos meus propósitos, Senhora
Jamais vos perceberdes quão me engano
No encanto que é deveras soberano
E a cada novo verso mais aflora.

Pudesse ter nas mãos a direção
E o Norte aonde possa ter a paz,
Somente esta Fortuna satisfaz
Mostrando os belos tempos que virão.

Dos sonhos entranhando rito e prece
“Porém, temendo Amor que aviso desse”.





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“Porém, temendo Amor que aviso desse”
Navego entre procelas mar adentro
E quando nos quereres me concentro
Ausente de meus olhos rara messe.

Do Fado, ao perceber soberania,
Não sendo vosso ainda me pergunto
Se aonde merecia estar bem junto
De quem domina o passo e sempre guia

Trazendo nos meus olhos a esperança
Chegando aos vossos dias e podendo,
Viver momento mágico, estupendo,
Aonde o coração voraz se lança.

Não trago do temor qualquer destroço
E tendo-vos amado mais que posso.


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E tendo-vos amado mais que posso
Não vejo solução senão vos ter
Além de qualquer sonho de prazer,
Vontade incontrolável; quero e endosso

Não pude navegar contra a corrente,
E encontro em vós a praia em que ora aporto,
Temor da solidão agora é morto,
E sinto-me deveras mais contente.

Vencendo os dissabores chego a vós
Fortuna desejada e tão querida,
Do Amor que me domina a sorte urdida
Ouvindo finalmente a minha voz.

E assi ao me tomar o pensamento
“minha escritura a algum juízo isento.”


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“minha escritura a algum juízo isento.”
Não pode se conter; então vos digo
Que em vossos braços vejo o meu abrigo,
Distante dos carinhos me atormento.

Seguir-vos pareado vida afora,
Não posso me furtar a tal desejo
E um dia mais feliz ora prevejo,
Que a bela fantasia me decora.

E sendo de vós, mesmo qual lacaio
Esquivo-me das dores que de antanho
Viviam nestas águas em que banho
O sonho, pelo qual em vós me espraio.

E quando dos meus sonhos vivo além
Verdades incontidas sobrevêm.


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Verdades incontidas sobrevêm
Na audácia em que caminho pela vida,
De quem tanto desejo não duvida
Uma alma que se entregue e sabe bem

Dos vários descaminhos percorridos
Nas ânsias de um Amor que tanto estime,
Um fato prazeroso e sei sublime,
Destroçando as angústias dos olvidos.

Ascendo aos mais perfeitos caminhares,
E vendo em vossos olhos os meus olhos,
Supero quaisquer urzes, sem abrolhos,
Percebo quão soberbos os pomares

Sabendo quando outrora o sofrimento.
“escureceu-me o engenho co tormento.”



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“escureceu-me o engenho co tormento”
O Amor quando se ausente percebi
Estando em vossos braços, mas aqui
Deveras tão somente sofrimento.

Na ausência dos carinhos vos perdendo,
Alheio aos dias claros de verão,
Não vendo nem tampouco direção,
O sonho não produz mais dividendo.

Em vosso caminhar, Senhora amada,
O tempo desafia tantos Fados,
Não suportando mais velhos enfados
A sorte sem vos ter; queda adernada

E quando a noite escura sobrevém
Andando da esperança mui aquém.

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Andando da esperança mui aquém.
Percorro sendas várias sem abrigo,
Sabendo ser cruel, venal castigo,
Apenas o vazio me contém.

Amor com suas hastes; amparara
Os passos deste vago sonhador,
E agora sem caminho a se propor
A noite com certeza, nunca é clara.

Fortuna renegando alguma luz
A quem se fez em vós amante e escravo
Vencendo um oceano imenso e bravo
Ás ânsias mais vorazes me conduz

Amor com sábias mãos futuro tece
“para que seus enganos não dissesse.”

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“para que seus enganos não dissesse”
O Fado muitas vezes se disfarça
Vontade se tornando então esparsa,
Louvando em vossos olhos, rara prece.

Mudasse a direção dos ventos quando
Em vossas mãos pudesse deslindar
Maravilhosa sorte de encontrar
Um mundo bem tranqüilo, suave e brando.

Quisera em vossos dias me perder,
Amor não poderia ter outrora
Caminho mais seguro que d’agora
Seguindo a bela trilha do prazer.

E tendo mais Amor do que inda posso
Percebo quão constante ando assim, vosso.


17


Percebo quão constante ando assim, vosso
Alvissareiros dias entranhados
Diversos dos terrores já passados,
Fortuna em bela senda agora endosso.

Vivenciando em mares mais bravios
Anseios de momento solitários,
Os dias se tornando temerários,
Invés de calmaria, desafios.

E os olhos no porvir, quem poderia
Traçar se não volvesse a ter em si
O quanto deste encanto já perdi,
Em vós ao renovar-se a fantasia

Fazendo em vosso encanto brados, pleitos
“Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos!”

18

“Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos!”
Momentos discordantes e venais,
E enquanto em meu caminho derramais
Desejo, o satisfaço em vossos leitos.

Na angústia em que professo a solidão,
Discórdias entre medos e terrores,
Assim ao se encontrar os dissabores
Decerto novos dias mostrarão

O rumo em que vos tendo como guia
Pudesse transformar a caminhada,
E tanto se percebe em rara estrada
Além do que talvez uma utopia

E tendo-vos deveras com louvor
Encanta-me o saber do Vosso Amor

19

Encanta-me o saber do Vosso Amor
E ter esta Ventura em farto brilho,
No encanto em ser tão vosso maravilho,
Divino caminhar em esplendor.

Os Fados me guiando aos vossos passos,
E neles antevejo o meu futuro,
Outrora um mundo amargo, frio e escuro,
Agora não restando mais nem traços.

Em ser-vos mais fiel, suprema glória,
Viver com a alegria de quem sonha,
Por mais que a vida mostre-se medonha
Saber já desvendar rara vitória

Submeto-me somente por quererdes
“a diversas vontades quando lerdes”.

20


“a diversas vontades quando lerdes”
O quão se fez Amor mais necessário,
Ainda sendo o mundo temerário
Caminhos quando em vós, os creio verdes.

Na senda sempre flórea que ora vejo,
Além da mais perfeita imensidão,
Meus olhos com certeza seguirão
As trilhas que em vós dizem do desejo.

Senhora de Minh’alma ama e dona,
O Fado nos trazendo em par constante
Momento que é deveras deslumbrante
Do pensamento então ele se adona.

Convosco desconheço os vãos tormentos
Vencendo os mais diversos sofrimentos.

21

Vencendo os mais diversos sofrimentos
Não tenho tais temores que noutra era
Ao impedir florada e primavera
Trouxeram tão somente desalentos.

Supero os maus momentos com sorrisos,
E tendo os dias claros vejo o sol
Qual fora um helianto, um girassol,
Em ritos mais sobejos e concisos.

A vida se mostrando em pleno Amor,
Não deixa que se pense noutras cores,
E quando se espalhando em nós as flores
Eu vejo a nossa história recompor.

E traço com carinho e tantos versos
“num breve livro casos tão diversos.”


22


“num breve livro casos tão diversos”
Perfaço com Amor em alma pura,
E quando a noite fosse mais escura
Marcada por caminhos vãos, perversos

Em vós eu poderia desvendar
A clara maravilha deste Fado,
Há tanto pelos sonhos, alentado,
Trazendo cada raio de um luar

Alvissareiros dias, mar tranqüilo,
E nele uma certeza em que se fez
Ao expressar Fortuna e lucidez,
Uma esperança além, ora desfilo

E sinto então, sobejos sentimentos
Adentrando-me então meus pensamentos.


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Adentrando-me então meus pensamentos
Os brilhos fartos todos de um Amor
Dos passos e dos sonhos, o Senhor,
Apascento assim tantos tormentos.

Eu ao ver-vos dama amada em luz suave
Percebo quão divina a maravilha
Na qual uma esperança agora trilha
Fazendo deste encanto sua nave.

Atrevo-me a pensar em novos dias
E neles outras sendas mais floridas
Unindo então deveras nossas vidas,
Negando ao caminheiro noites frias.

Eu sei que com certeza meus direitos
“verdades puras são, e não defeitos...”


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“verdades puras são, e não defeitos”,
Sobejas qualidades e as procuro,
Por tanto seja o dia mais escuro,
Das luzes, vossos olhos sendo feitos

Espelham claridades tão diversas
Matizes que florescem primaveras
Sabendo desde antanho em priscas eras
Jamais as nossas noites são dispersas.

E tendo-vos Senhora é como outrora
Pudesse crer na fonte que irradia
Traçando em vossos passos fantasia,
Na qual toda a verdade se decora.

E quando me entregando ao vosso amor
Saber-vos com carinho é qual louvor.

25


Saber-vos com carinho é qual louvor
E dele me espraiando em vossos braços
Estreitam-se deveras firmes laços
Traçando cada passo com fervor.

Senhora tanto amor quanto vos tenho,
Jamais se conhecera alguém, portanto
À nossa fantasia então vos canto
E nisto, com denodo, meu empenho.

Seguir-vos qual falena segue a luz,
E ter-vos ao meu lado, Fado e sina,
No brilho deste olhar que me fascina,
Certeza de um Amor que me condiz

Em vós tanta beleza quando crerdes
“E sabei que, segundo o amor , tiverdes”



26




“E sabei que, segundo o amor , tiverdes”
Momentos tão felizes e sobejos,
Florindo em nossos passos os desejos,
Seara feita em campos todos verdes.

Augustas emoções em vós; percebo
E delas teço um tempo mais feliz,
No Amor o coração de um aprendiz
Perfaz esta paisagem que concebo.

Usando da palavra posso crer
Num tempo alvissareiro em luzes feito,
E quando deste encanto sei o pleito,
Deveras reconheço o meu prazer

E tendo-vos no dia que desponte
Das águas cristalinas, pura fonte


27

Das águas cristalinas, pura fonte
Espalham alegrias pelos mares
E quando em vossos olhos meus altares
Um raro sol percebo no horizonte.

Fortuna desejando que eu tivesse
Certeza de um momento feito em paz,
Amor quando do Amor se faz capaz
Trazendo ao navegante rara messe.

Escuto a voz do vento a me clamar
Traçando com ternura a maravilha
Que agora o coração deveras trilha
Chegando aos claros reinos do luar

E assim ao perceber-vos universos
“tereis o entendimento de meus versos!”


28


“tereis o entendimento de meus versos”
Ao conceber em vós tanta beleza,
O quanto se vencendo a correnteza
Encontram-se caminhos mais diversos.

E tendo sob os olhos rara luz
Enfrento as tempestades mais venais,
E quando em vossas mãos já me afagais
Imagem tão sublime reproduz

Da fonte aos grandes rios, belos prados,
Marginam redentores emoções
E nelas maravilhas, seduções,
Deixando os dias claros, bem traçados

E assim após saber da rara fonte
O Amor que nos conforta, a foz aponte...

26987/88/89/90/91/92/93/94

Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum juízo isento,
escureceu-me o engenho co tormento,
para que seus enganos não dissesse.

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos tão diversos,

verdades puras são, e não defeitos...
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos!

Luis de Camões


2


“tereis o entendimento de meus versos,”
Assim quando notardes os caminhos
Por vezes são fugazes e sozinhos,
E quando estou distante; mais dispersos.

E tendo-vos amado mais que posso
Verdades incontidas sobrevêm
Andando da esperança mui aquém
Percebo quão constante ando assim, vosso.

Encanta-me o saber do Vosso Amor
Vencendo os mais diversos sofrimentos,
Adentrando-me então meus pensamentos,
Saber-vos com carinho é qual louvor.

Das águas cristalinas, pura fonte,
O Amor que nos conforta, a foz aponte...

3


O Amor que nos conforta, a foz aponte
E adentre Mar imenso em belas sendas
Distante dos receios, fujo às lendas
Envolto em rara luz neste horizonte.

Servir-vos e poder seguir adiante
Com passos destemidos, vigorosos,
Sabendo quão diversos, caprichosos
Caminhos condizentes; diamante.

Ao enfrentar tempestas e procelas,
Navego em águas frias e sigo ausente
Do siso necessário, e se pressente
Atado às vossas mãos, sublimes celas.

Selando com prazeres raro Amor
Nesta esperança clara que se assoma,
E toda esta magia assim nos toma,
Traçando algum caminho redentor.

Invade-me e controla o pensamento
“esperança de algum contentamento.”


4

“esperança de algum contentamento”
Domina cada passo rumo ao Norte
Aonde se sanando dor e corte,
O Amor trazendo enfim, suave alento.

Ser-vos-ia demais pedir num sonho
Belezas entre tantas, mais perfeita,
O meu olhar em vós, já se deleita,
Enquanto um Paraíso, enfim componho.

Por ter-vos tão somente nos meus olhos,
Sabendo-vos Senhora dos meus dias,
Espalham-se sobejas alegrias,
Deixando no vazio tais abrolhos.

Iremos dois libertos passarinhos
Assim quando notardes os caminhos.


5


Assim quando notardes os caminhos
Erguer-vos mui além do que pensara,
Uma ânsia delirante, bela e clara,
Domina as cercanias, nossos ninhos.

E sendo-vos fiel, lacaio e servo
Num sôfrego desejo a vós me rendo
Momento que deveras estupendo
Guardado dentro d’alma inda conservo.

O Amor em ardentias convertido,
Comporta os sonhos meus, amada Dama,
E quando esta vontade vos reclama,
Nos medos contumazes de um olvido

Sentindo assim liberto, solto ao vento
“o gosto de um suave pensamento.”

6


“o gosto de um suave pensamento”
Tomando a direção de antigos dias,
E nele se espalhando fantasias,
Encontro finalmente o meu alento.

Viver em vossos sonhos mais felizes,
Singrando os oceanos mais distantes,
Olhares tantas vezes radiantes
Já não comportam mais medos, deslizes.

E sendo-vos servil, Senhora Minha,
O Amor que trago em mim nunca descansa
E vive tão somente esta esperança
Que dos vossos quereres se avizinha

Os dias sem vos ter, tão pobrezinhos,
Por vezes são fugazes e sozinhos


7

Por vezes são fugazes e sozinhos
Momentos em que vós não percebeis
Amor normatizando suas leis
Sorvendo em vossos lábios raros vinhos

Açoda-me a vontade de vos ver
E quando vos ausenta, a vida inglória
Tornando toda a noite merencória,
Ausente de meus olhos, o prazer.

Sentir-vos num instante de ternura,
É tudo o que minh’alma já deseja,
E quando mais sublime é mais sobeja
Trazendo a imorredoura luz da cura

O Amor por mais que nunca o merecesse
“me fez que seus efeitos escrevesse.”


8


“me fez que seus efeitos escrevesse.”
O Amor ao dominar meu pensamento
Deixando no passado o sofrimento
Aonde do prazer não sei a messe.

E vendo em vossos olhos farto brilho,
Ao ter tanta Fortuna em vos saber
Ao lerdes meus destinos posso ver
A senda incomparável que ora trilho.

Pertenço-vos Senhora e nada além
Do sonho de ser vosso me sustenta,
Navego em vã procela e na tormenta
Uma esperança audaz aos olhos vem

Momentos radiosos ditam versos
E quando estou distante; mais dispersos...



9

E quando estou distante; mais dispersos
Os dias em que tento desvendar
Segredos que permitam caminhar
Por mais que os dias sejam tão perversos.

Alheia aos meus propósitos, Senhora
Jamais vos perceberdes quão me engano
No encanto que é deveras soberano
E a cada novo verso mais aflora.

Pudesse ter nas mãos a direção
E o Norte aonde possa ter a paz,
Somente esta Fortuna satisfaz
Mostrando os belos tempos que virão.

Dos sonhos entranhando rito e prece
“Porém, temendo Amor que aviso desse”.





10


“Porém, temendo Amor que aviso desse”
Navego entre procelas mar adentro
E quando nos quereres me concentro
Ausente de meus olhos rara messe.

Do Fado, ao perceber soberania,
Não sendo vosso ainda me pergunto
Se aonde merecia estar bem junto
De quem domina o passo e sempre guia

Trazendo nos meus olhos a esperança
Chegando aos vossos dias e podendo,
Viver momento mágico, estupendo,
Aonde o coração voraz se lança.

Não trago do temor qualquer destroço
E tendo-vos amado mais que posso.


11


E tendo-vos amado mais que posso
Não vejo solução senão vos ter
Além de qualquer sonho de prazer,
Vontade incontrolável; quero e endosso

Não pude navegar contra a corrente,
E encontro em vós a praia em que ora aporto,
Temor da solidão agora é morto,
E sinto-me deveras mais contente.

Vencendo os dissabores chego a vós
Fortuna desejada e tão querida,
Do Amor que me domina a sorte urdida
Ouvindo finalmente a minha voz.

E assi ao me tomar o pensamento
“minha escritura a algum juízo isento.”


12




“minha escritura a algum juízo isento.”
Não pode se conter; então vos digo
Que em vossos braços vejo o meu abrigo,
Distante dos carinhos me atormento.

Seguir-vos pareado vida afora,
Não posso me furtar a tal desejo
E um dia mais feliz ora prevejo,
Que a bela fantasia me decora.

E sendo de vós, mesmo qual lacaio
Esquivo-me das dores que de antanho
Viviam nestas águas em que banho
O sonho, pelo qual em vós me espraio.

E quando dos meus sonhos vivo além
Verdades incontidas sobrevêm.


13

Verdades incontidas sobrevêm
Na audácia em que caminho pela vida,
De quem tanto desejo não duvida
Uma alma que se entregue e sabe bem

Dos vários descaminhos percorridos
Nas ânsias de um Amor que tanto estime,
Um fato prazeroso e sei sublime,
Destroçando as angústias dos olvidos.

Ascendo aos mais perfeitos caminhares,
E vendo em vossos olhos os meus olhos,
Supero quaisquer urzes, sem abrolhos,
Percebo quão soberbos os pomares

Sabendo quando outrora o sofrimento.
“escureceu-me o engenho co tormento.”



14


“escureceu-me o engenho co tormento”
O Amor quando se ausente percebi
Estando em vossos braços, mas aqui
Deveras tão somente sofrimento.

Na ausência dos carinhos vos perdendo,
Alheio aos dias claros de verão,
Não vendo nem tampouco direção,
O sonho não produz mais dividendo.

Em vosso caminhar, Senhora amada,
O tempo desafia tantos Fados,
Não suportando mais velhos enfados
A sorte sem vos ter; queda adernada

E quando a noite escura sobrevém
Andando da esperança mui aquém.

15


Andando da esperança mui aquém.
Percorro sendas várias sem abrigo,
Sabendo ser cruel, venal castigo,
Apenas o vazio me contém.

Amor com suas hastes; amparara
Os passos deste vago sonhador,
E agora sem caminho a se propor
A noite com certeza, nunca é clara.

Fortuna renegando alguma luz
A quem se fez em vós amante e escravo
Vencendo um oceano imenso e bravo
Ás ânsias mais vorazes me conduz

Amor com sábias mãos futuro tece
“para que seus enganos não dissesse.”

16

“para que seus enganos não dissesse”
O Fado muitas vezes se disfarça
Vontade se tornando então esparsa,
Louvando em vossos olhos, rara prece.

Mudasse a direção dos ventos quando
Em vossas mãos pudesse deslindar
Maravilhosa sorte de encontrar
Um mundo bem tranqüilo, suave e brando.

Quisera em vossos dias me perder,
Amor não poderia ter outrora
Caminho mais seguro que d’agora
Seguindo a bela trilha do prazer.

E tendo mais Amor do que inda posso
Percebo quão constante ando assim, vosso.


17


Percebo quão constante ando assim, vosso
Alvissareiros dias entranhados
Diversos dos terrores já passados,
Fortuna em bela senda agora endosso.

Vivenciando em mares mais bravios
Anseios de momento solitários,
Os dias se tornando temerários,
Invés de calmaria, desafios.

E os olhos no porvir, quem poderia
Traçar se não volvesse a ter em si
O quanto deste encanto já perdi,
Em vós ao renovar-se a fantasia

Fazendo em vosso encanto brados, pleitos
“Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos!”

18

“Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos!”
Momentos discordantes e venais,
E enquanto em meu caminho derramais
Desejo, o satisfaço em vossos leitos.

Na angústia em que professo a solidão,
Discórdias entre medos e terrores,
Assim ao se encontrar os dissabores
Decerto novos dias mostrarão

O rumo em que vos tendo como guia
Pudesse transformar a caminhada,
E tanto se percebe em rara estrada
Além do que talvez uma utopia

E tendo-vos deveras com louvor
Encanta-me o saber do Vosso Amor

19

Encanta-me o saber do Vosso Amor
E ter esta Ventura em farto brilho,
No encanto em ser tão vosso maravilho,
Divino caminhar em esplendor.

Os Fados me guiando aos vossos passos,
E neles antevejo o meu futuro,
Outrora um mundo amargo, frio e escuro,
Agora não restando mais nem traços.

Em ser-vos mais fiel, suprema glória,
Viver com a alegria de quem sonha,
Por mais que a vida mostre-se medonha
Saber já desvendar rara vitória

Submeto-me somente por quererdes
“a diversas vontades quando lerdes”.

20


“a diversas vontades quando lerdes”
O quão se fez Amor mais necessário,
Ainda sendo o mundo temerário
Caminhos quando em vós, os creio verdes.

Na senda sempre flórea que ora vejo,
Além da mais perfeita imensidão,
Meus olhos com certeza seguirão
As trilhas que em vós dizem do desejo.

Senhora de Minh’alma ama e dona,
O Fado nos trazendo em par constante
Momento que é deveras deslumbrante
Do pensamento então ele se adona.

Convosco desconheço os vãos tormentos
Vencendo os mais diversos sofrimentos.

21

Vencendo os mais diversos sofrimentos
Não tenho tais temores que noutra era
Ao impedir florada e primavera
Trouxeram tão somente desalentos.

Supero os maus momentos com sorrisos,
E tendo os dias claros vejo o sol
Qual fora um helianto, um girassol,
Em ritos mais sobejos e concisos.

A vida se mostrando em pleno Amor,
Não deixa que se pense noutras cores,
E quando se espalhando em nós as flores
Eu vejo a nossa história recompor.

E traço com carinho e tantos versos
“num breve livro casos tão diversos.”


26988


“num breve livro casos tão diversos”
Perfaço com Amor em alma pura,
E quando a noite fosse mais escura
Marcada por caminhos vãos, perversos

Em vós eu poderia desvendar
A clara maravilha deste Fado,
Há tanto pelos sonhos, alentado,
Trazendo cada raio de um luar

Alvissareiros dias, mar tranqüilo,
E nele uma certeza em que se fez
Ao expressar Fortuna e lucidez,
Uma esperança além, ora desfilo

E sinto então, sobejos sentimentos
Adentrando-me então meus pensamentos.


26989

Adentrando-me então meus pensamentos
Os brilhos fartos todos de um Amor
Dos passos e dos sonhos, o Senhor,
Apascento assim tantos tormentos.

Eu ao ver-vos dama amada em luz suave
Percebo quão divina a maravilha
Na qual uma esperança agora trilha
Fazendo deste encanto sua nave.

Atrevo-me a pensar em novos dias
E neles outras sendas mais floridas
Unindo então deveras nossas vidas,
Negando ao caminheiro noites frias.

Eu sei que com certeza meus direitos
“verdades puras são, e não defeitos...”


26990


“verdades puras são, e não defeitos”,
Sobejas qualidades e as procuro,
Por tanto seja o dia mais escuro,
Das luzes, vossos olhos sendo feitos

Espelham claridades tão diversas
Matizes que florescem primaveras
Sabendo desde antanho em priscas eras
Jamais as nossas noites são dispersas.

E tendo-vos Senhora é como outrora
Pudesse crer na fonte que irradia
Traçando em vossos passos fantasia,
Na qual toda a verdade se decora.

E quando me entregando ao vosso amor
Saber-vos com carinho é qual louvor.

26991


Saber-vos com carinho é qual louvor
E dele me espraiando em vossos braços
Estreitam-se deveras firmes laços
Traçando cada passo com fervor.

Senhora tanto amor quanto vos tenho,
Jamais se conhecera alguém, portanto
À nossa fantasia então vos canto
E nisto, com denodo, meu empenho.

Seguir-vos qual falena segue a luz,
E ter-vos ao meu lado, Fado e sina,
No brilho deste olhar que me fascina,
Certeza de um Amor que me condiz

Em vós tanta beleza quando crerdes
“E sabei que, segundo o amor , tiverdes”



26992




“E sabei que, segundo o amor , tiverdes”
Momentos tão felizes e sobejos,
Florindo em nossos passos os desejos,
Seara feita em campos todos verdes.

Augustas emoções em vós; percebo
E delas teço um tempo mais feliz,
No Amor o coração de um aprendiz
Perfaz esta paisagem que concebo.

Usando da palavra posso crer
Num tempo alvissareiro em luzes feito,
E quando deste encanto sei o pleito,
Deveras reconheço o meu prazer

E tendo-vos no dia que desponte
Das águas cristalinas, pura fonte


26993

Das águas cristalinas, pura fonte
Espalham alegrias pelos mares
E quando em vossos olhos meus altares
Um raro sol percebo no horizonte.

Fortuna desejando que eu tivesse
Certeza de um momento feito em paz,
Amor quando do Amor se faz capaz
Trazendo ao navegante rara messe.

Escuto a voz do vento a me clamar
Traçando com ternura a maravilha
Que agora o coração deveras trilha
Chegando aos claros reinos do luar

E assim ao perceber-vos universos
“tereis o entendimento de meus versos!”


26994


“tereis o entendimento de meus versos”
Ao conceber em vós tanta beleza,
O quanto se vencendo a correnteza
Encontram-se caminhos mais diversos.

E tendo sob os olhos rara luz
Enfrento as tempestades mais venais,
E quando em vossas mãos já me afagais
Imagem tão sublime reproduz

Da fonte aos grandes rios, belos prados,
Marginam redentores emoções
E nelas maravilhas, seduções,
Deixando os dias claros, bem traçados

E assim após saber da rara fonte
O Amor que nos conforta, a foz aponte...

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E tendo-vos amado mais que posso
Não vejo solução senão vos ter
Além de qualquer sonho de prazer,
Vontade incontrolável; quero e endosso

Não pude navegar contra a corrente,
E encontro em vós a praia em que ora aporto,
Temor da solidão agora é morto,
E sinto-me deveras mais contente.

Vencendo os dissabores chego a vós
Fortuna desejada e tão querida,
Do Amor que me domina a sorte urdida
Ouvindo finalmente a minha voz.

E assi ao me tomar o pensamento
“minha escritura a algum juízo isento.”


26978




“minha escritura a algum juízo isento.”
Não pode se conter; então vos digo
Que em vossos braços vejo o meu abrigo,
Distante dos carinhos me atormento.

Seguir-vos pareado vida afora,
Não posso me furtar a tal desejo
E um dia mais feliz ora prevejo,
Que a bela fantasia me decora.

E sendo de vós, mesmo qual lacaio
Esquivo-me das dores que de antanho
Viviam nestas águas em que banho
O sonho, pelo qual em vós me espraio.

E quando dos meus sonhos vivo além
Verdades incontidas sobrevêm.

26979

Verdades incontidas sobrevêm
Na audácia em que caminho pela vida,
De quem tanto desejo não duvida
Uma alma que se entregue e sabe bem

Dos vários descaminhos percorridos
Nas ânsias de um Amor que tanto estime,
Um fato prazeroso e sei sublime,
Destroçando as angústias dos olvidos.

Ascendo aos mais perfeitos caminhares,
E vendo em vossos olhos os meus olhos,
Supero quaisquer urzes, sem abrolhos,
Percebo quão soberbos os pomares

Sabendo quando outrora o sofrimento.
“escureceu-me o engenho co tormento.”



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“escureceu-me o engenho co tormento”
O Amor quando se ausente percebi
Estando em vossos braços, mas aqui
Deveras tão somente sofrimento.

Na ausência dos carinhos vos perdendo,
Alheio aos dias claros de verão,
Não vendo nem tampouco direção,
O sonho não produz mais dividendo.

Em vosso caminhar, Senhora amada,
O tempo desafia tantos Fados,
Não suportando mais velhos enfados
A sorte sem vos ter; queda adernada

E quando a noite escura sobrevém
Andando da esperança mui aquém.

26981


Andando da esperança mui aquém.
Percorro sendas várias sem abrigo,
Sabendo ser cruel, venal castigo,
Apenas o vazio me contém.

Amor com suas hastes; amparara
Os passos deste vago sonhador,
E agora sem caminho a se propor
A noite com certeza, nunca é clara.

Fortuna renegando alguma luz
A quem se fez em vós amante e escravo
Vencendo um oceano imenso e bravo
Ás ânsias mais vorazes me conduz

Amor com sábias mãos futuro tece
“para que seus enganos não dissesse.”

26982

“para que seus enganos não dissesse”
O Fado muitas vezes se disfarça
Vontade se tornando então esparsa,
Louvando em vossos olhos, rara prece.

Mudasse a direção dos ventos quando
Em vossas mãos pudesse deslindar
Maravilhosa sorte de encontrar
Um mundo bem tranqüilo, suave e brando.

Quisera em vossos dias me perder,
Amor não poderia ter outrora
Caminho mais seguro que d’agora
Seguindo a bela trilha do prazer.

E tendo mais Amor do que inda posso
Percebo quão constante ando assim, vosso.


26983


Percebo quão constante ando assim, vosso
Alvissareiros dias entranhados
Diversos dos terrores já passados,
Fortuna em bela senda agora endosso.

Vivenciando em mares mais bravios
Anseios de momento solitários,
Os dias se tornando temerários,
Invés de calmaria, desafios.

E os olhos no porvir, quem poderia
Traçar se não volvesse a ter em si
O quanto deste encanto já perdi,
Em vós ao renovar-se a fantasia

Fazendo em vosso encanto brados, pleitos
“Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos!”

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“Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos!”
Momentos discordantes e venais,
E enquanto em meu caminho derramais
Desejo, o satisfaço em vossos leitos.

Na angústia em que professo a solidão,
Discórdias entre medos e terrores,
Assim ao se encontrar os dissabores
Decerto novos dias mostrarão

O rumo em que vos tendo como guia
Pudesse transformar a caminhada,
E tanto se percebe em rara estrada
Além do que talvez uma utopia

E tendo-vos deveras com louvor
Encanta-me o saber do Vosso Amor

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Encanta-me o saber do Vosso Amor
E ter esta Ventura em farto brilho,
No encanto em ser tão vosso maravilho,
Divino caminhar em esplendor.

Os Fados me guiando aos vossos passos,
E neles antevejo o meu futuro,
Outrora um mundo amargo, frio e escuro,
Agora não restando mais nem traços.

Em ser-vos mais fiel, suprema glória,
Viver com a alegria de quem sonha,
Por mais que a vida mostre-se medonha
Saber já desvendar rara vitória

Submeto-me somente por quererdes
“a diversas vontades quando lerdes”.

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“a diversas vontades quando lerdes”
O quão se fez Amor mais necessário,
Ainda sendo o mundo temerário
Caminhos quando em vós, os creio verdes.

Na senda sempre flórea que ora vejo,
Além da mais perfeita imensidão,
Meus olhos com certeza seguirão
As trilhas que em vós dizem do desejo.

Senhora de Minh’alma ama e dona,
O Fado nos trazendo em par constante
Momento que é deveras deslumbrante
Do pensamento então ele se adona.

Convosco desconheço os vãos tormentos
Vencendo os mais diversos sofrimentos.

21

Vencendo os mais diversos sofrimentos
Não tenho tais temores que noutra era
Ao impedir florada e primavera
Trouxeram tão somente desalentos.

Supero os maus momentos com sorrisos,
E tendo os dias claros vejo o sol
Qual fora um helianto, um girassol,
Em ritos mais sobejos e concisos.

A vida se mostrando em pleno Amor,
Não deixa que se pense noutras cores,
E quando se espalhando em nós as flores
Eu vejo a nossa história recompor.

E traço com carinho e tantos versos
“num breve livro casos tão diversos.”

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E tendo-vos amado mais que posso
Não vejo solução senão vos ter
Além de qualquer sonho de prazer,
Vontade incontrolável; quero e endosso

Não pude navegar contra a corrente,
E encontro em vós a praia em que ora aporto,
Temor da solidão agora é morto,
E sinto-me deveras mais contente.

Vencendo os dissabores chego a vós
Fortuna desejada e tão querida,
Do Amor que me domina a sorte urdida
Ouvindo finalmente a minha voz.

E assi ao me tomar o pensamento
“minha escritura a algum juízo isento.”


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“minha escritura a algum juízo isento.”
Não pode se conter; então vos digo
Que em vossos braços vejo o meu abrigo,
Distante dos carinhos me atormento.

Seguir-vos pareado vida afora,
Não posso me furtar a tal desejo
E um dia mais feliz ora prevejo,
Que a bela fantasia me decora.

E sendo de vós, mesmo qual lacaio
Esquivo-me das dores que de antanho
Viviam nestas águas em que banho
O sonho, pelo qual em vós me espraio.

E quando dos meus sonhos vivo além
Verdades incontidas sobrevêm.

26979

Verdades incontidas sobrevêm
Na audácia em que caminho pela vida,
De quem tanto desejo não duvida
Uma alma que se entregue e sabe bem

Dos vários descaminhos percorridos
Nas ânsias de um Amor que tanto estime,
Um fato prazeroso e sei sublime,
Destroçando as angústias dos olvidos.

Ascendo aos mais perfeitos caminhares,
E vendo em vossos olhos os meus olhos,
Supero quaisquer urzes, sem abrolhos,
Percebo quão soberbos os pomares

Sabendo quando outrora o sofrimento.
“escureceu-me o engenho co tormento.”



26980


“escureceu-me o engenho co tormento”
O Amor quando se ausente percebi
Estando em vossos braços, mas aqui
Deveras tão somente sofrimento.

Na ausência dos carinhos vos perdendo,
Alheio aos dias claros de verão,
Não vendo nem tampouco direção,
O sonho não produz mais dividendo.

Em vosso caminhar, Senhora amada,
O tempo desafia tantos Fados,
Não suportando mais velhos enfados
A sorte sem vos ter; queda adernada

E quando a noite escura sobrevém
Andando da esperança mui aquém.

26981


Andando da esperança mui aquém.
Percorro sendas várias sem abrigo,
Sabendo ser cruel, venal castigo,
Apenas o vazio me contém.

Amor com suas hastes; amparara
Os passos deste vago sonhador,
E agora sem caminho a se propor
A noite com certeza, nunca é clara.

Fortuna renegando alguma luz
A quem se fez em vós amante e escravo
Vencendo um oceano imenso e bravo
Ás ânsias mais vorazes me conduz

Amor com sábias mãos futuro tece
“para que seus enganos não dissesse.”

26982

“para que seus enganos não dissesse”
O Fado muitas vezes se disfarça
Vontade se tornando então esparsa,
Louvando em vossos olhos, rara prece.

Mudasse a direção dos ventos quando
Em vossas mãos pudesse deslindar
Maravilhosa sorte de encontrar
Um mundo bem tranqüilo, suave e brando.

Quisera em vossos dias me perder,
Amor não poderia ter outrora
Caminho mais seguro que d’agora
Seguindo a bela trilha do prazer.

E tendo mais Amor do que inda posso
Percebo quão constante ando assim, vosso.


26983


Percebo quão constante ando assim, vosso
Alvissareiros dias entranhados
Diversos dos terrores já passados,
Fortuna em bela senda agora endosso.

Vivenciando em mares mais bravios
Anseios de momento solitários,
Os dias se tornando temerários,
Invés de calmaria, desafios.

E os olhos no porvir, quem poderia
Traçar se não volvesse a ter em si
O quanto deste encanto já perdi,
Em vós ao renovar-se a fantasia

Fazendo em vosso encanto brados, pleitos
“Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos!”

26984

“Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos!”
Momentos discordantes e venais,
E enquanto em meu caminho derramais
Desejo, o satisfaço em vossos leitos.

Na angústia em que professo a solidão,
Discórdias entre medos e terrores,
Assim ao se encontrar os dissabores
Decerto novos dias mostrarão

O rumo em que vos tendo como guia
Pudesse transformar a caminhada,
E tanto se percebe em rara estrada
Além do que talvez uma utopia

E tendo-vos deveras com louvor
Encanta-me o saber do Vosso Amor

26985

Encanta-me o saber do Vosso Amor
E ter esta Ventura em farto brilho,
No encanto em ser tão vosso maravilho,
Divino caminhar em esplendor.

Os Fados me guiando aos vossos passos,
E neles antevejo o meu futuro,
Outrora um mundo amargo, frio e escuro,
Agora não restando mais nem traços.

Em ser-vos mais fiel, suprema glória,
Viver com a alegria de quem sonha,
Por mais que a vida mostre-se medonha
Saber já desvendar rara vitória

Submeto-me somente por quererdes
“a diversas vontades quando lerdes”.

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“a diversas vontades quando lerdes”
O quão se fez Amor mais necessário,
Ainda sendo o mundo temerário
Caminhos quando em vós, os creio verdes.

Na senda sempre flórea que ora vejo,
Além da mais perfeita imensidão,
Meus olhos com certeza seguirão
As trilhas que em vós dizem do desejo.

Senhora de Minh’alma ama e dona,
O Fado nos trazendo em par constante
Momento que é deveras deslumbrante
Do pensamento então ele se adona.

Convosco desconheço os vãos tormentos
Vencendo os mais diversos sofrimentos.

21

Vencendo os mais diversos sofrimentos
Não tenho tais temores que noutra era
Ao impedir florada e primavera
Trouxeram tão somente desalentos.

Supero os maus momentos com sorrisos,
E tendo os dias claros vejo o sol
Qual fora um helianto, um girassol,
Em ritos mais sobejos e concisos.

A vida se mostrando em pleno Amor,
Não deixa que se pense noutras cores,
E quando se espalhando em nós as flores
Eu vejo a nossa história recompor.

E traço com carinho e tantos versos
“num breve livro casos tão diversos.”

26973/74/75

26973

“me fez que seus efeitos escrevesse.”
O Amor ao dominar meu pensamento
Deixando no passado o sofrimento
Aonde do prazer não sei a messe.

E vendo em vossos olhos farto brilho,
Ao ter tanta Fortuna em vos saber
Ao lerdes meus destinos posso ver
A senda incomparável que ora trilho.

Pertenço-vos Senhora e nada além
Do sonho de ser vosso me sustenta,
Navego em vã procela e na tormenta
Uma esperança audaz aos olhos vem

Momentos radiosos ditam versos
E quando estou distante; mais dispersos...



26974

E quando estou distante; mais dispersos
Os dias em que tento desvendar
Segredos que permitam caminhar
Por mais que os dias sejam tão perversos.

Alheia aos meus propósitos, Senhora
Jamais vos perceberdes quão me engano
No encanto que é deveras soberano
E a cada novo verso mais aflora.

Pudesse ter nas mãos a direção
E o Norte aonde possa ter a paz,
Somente esta Fortuna satisfaz
Mostrando os belos tempos que virão.

Dos sonhos entranhando rito e prece
“Porém, temendo Amor que aviso desse”.




26975


“Porém, temendo Amor que aviso desse”
Navego entre procelas mar adentro
E quando nos quereres me concentro
Ausente de meus olhos rara messe.

Do Fado, ao perceber soberania,
Não sendo vosso ainda me pergunto
Se aonde merecia estar bem junto
De quem domina o passo e sempre guia

Trazendo nos meus olhos a esperança
Chegando aos vossos dias e podendo,
Viver momento mágico, estupendo,
Aonde o coração voraz se lança.

Não trago do temor qualquer destroço
E tendo-vos amado mais que posso.

26970/71/72

26970

Assim quando notardes os caminhos
Erguer-vos mui além do que pensara,
Uma ânsia delirante, bela e clara,
Domina as cercanias, nossos ninhos.

E sendo-vos fiel, lacaio e servo
Num sôfrego desejo a vós me rendo
Momento que deveras estupendo
Guardado dentro d’alma inda conservo.

O Amor em ardentias convertido,
Comporta os sonhos meus, amada Dama,
E quando esta vontade vos reclama,
Nos medos contumazes de um olvido

Sentindo assim liberto, solto ao vento
“o gosto de um suave pensamento.”

26971


“o gosto de um suave pensamento”
Tomando a direção de antigos dias,
E nele se espalhando fantasias,
Encontro finalmente o meu alento.

Viver em vossos sonhos mais felizes,
Singrando os oceanos mais distantes,
Olhares tantas vezes radiantes
Já não comportam mais medos, deslizes.

E sendo-vos servil, Senhora Minha,
O Amor que trago em mim nunca descansa
E vive tão somente esta esperança
Que dos vossos quereres se avizinha

Os dias sem vos ter, tão pobrezinhos,
Por vezes são fugazes e sozinhos


26972

Por vezes são fugazes e sozinhos
Momentos em que vós não percebeis
Amor normatizando suas leis
Sorvendo em vossos lábios raros vinhos

Açoda-me a vontade de vos ver
E quando vos ausenta, a vida inglória
Tornando toda a noite merencória,
Ausente de meus olhos, o prazer.

Sentir-vos num instante de ternura,
É tudo o que minh’alma já deseja,
E quando mais sublime é mais sobeja
Trazendo a imorredoura luz da cura

O Amor por mais que nunca o merecesse
“me fez que seus efeitos escrevesse.”

26967/68/69

26967

“tereis o entendimento de meus versos,”
Assim quando notardes os caminhos
Por vezes são fugazes e sozinhos,
E quando estou distante; mais dispersos.

E tendo-vos amado mais que posso
Verdades incontidas sobrevêm
Andando da esperança mui aquém
Percebo quão constante ando assim, vosso.

Encanta-me o saber do Vosso Amor
Vencendo os mais diversos sofrimentos,
Adentrando-me então meus pensamentos,
Saber-vos com carinho é qual louvor.

Das águas cristalinas, pura fonte,
O Amor que nos conforta, a foz aponte...

26968


O Amor que nos conforta, a foz aponte
E adentre Mar imenso em belas sendas
Distante dos receios, fujo às lendas
Envolto em rara luz neste horizonte.

Servir-vos e poder seguir adiante
Com passos destemidos, vigorosos,
Sabendo quão diversos, caprichosos
Caminhos condizentes; diamante.

Ao enfrentar tempestas e procelas,
Navego em águas frias e sigo ausente
Do siso necessário, e se pressente
Atado às vossas mãos, sublimes celas.

Selando com prazeres raro Amor
Nesta esperança clara que se assoma,
E toda esta magia assim nos toma,
Traçando algum caminho redentor.

Invade-me e controla o pensamento
“esperança de algum contentamento.”


26969

“esperança de algum contentamento”
Domina cada passo rumo ao Norte
Aonde se sanando dor e corte,
O Amor trazendo enfim, suave alento.

Ser-vos-ia demais pedir num sonho
Belezas entre tantas, mais perfeita,
O meu olhar em vós, já se deleita,
Enquanto um Paraíso, enfim componho.

Por ter-vos tão somente nos meus olhos,
Sabendo-vos Senhora dos meus dias,
Espalham-se sobejas alegrias,
Deixando no vazio tais abrolhos.

Iremos dois libertos passarinhos
Assim quando notardes os caminhos

ESPIRAL DE SONETOS - MÚMIA HOMENAGEANDO CRUZ E SOUZA

MÚMIA

Múmia de sangue e lama e terra e treva,
Podridão feita deusa de granito,
Que surges dos mistérios do Infinito
Amamentada na lascívia de Eva.

Tua boca voraz se farta e ceva
Na carne e espalhas o terror maldito,
O grito humano, o doloroso grito
Que um vento estranho para és limbos leva.

Báratros, criptas, dédalos atrozes
Escancaram-se aos tétricos, ferozes
Uivos tremendos com luxúria e cio...

Ris a punhais de frígidos sarcasmos
E deve dar congélidos espasmos
O teu beijo de pedra horrendo e frio!...

Cruz e Souza


2


“O teu beijo de pedra horrendo e frio”
Explode-se em meu rosto, gelidez,
Num tétrico momento se desfez
Quimérica loucura onde desfio

O gozo em histriônica loucura,
Espasmos entre luzes, medos, sombras,
E quando se deitando nas alfombras
Diversos os delírios, dor e cura.

Etéreas maravilhas entre farsas,
Ecléticos prazeres divinais
Iridescentes primas em cristais
Enquanto me seduzes e me esgarças

Meteoros vagando pelo espaço
Ourives da emoção, teu corpo traço...




3



Ourives da emoção, teu corpo traço
Em lúbricos delírios, luzes fartas,
E quando dos meus olhos tu te apartas
Seguindo feito um louco cada passo,

Esgueiras entre becos, vilas, ânsias
E tramas com sorrisos gozos vários
Moldando prazerosos, teus cenários
Gerando as mais diversas discrepâncias.

Estrídulos noturnos, vagas ondas,
Marulhos entre risos; bebes lua
E vendo a tua imagem clara e nua,
Enquanto meus desejos buscas, sondas.

Nefasto sonho em gozo assim descrito:
“Podridão feita deusa de granito.”

4

“Podridão feita deusa de granito”
A deusa que em lascívia se acomoda
Na cama delirante enquanto roda
Girando em carrossel este infinito.

Atravessando os céus, cometas, luzes
Imersos entre as nuvens, cintilantes
E teimo ver deveras por instantes
Belezas com as quais, reinas, seduzes.

E lúbrica deitada sobre a cama,
Abraço-te demônio ensandecido,
Num ato de terror, fúria e libido,
Insensata mulher, doce, me chama

Na fugaz maravilha em que se fez
Explode-se em meu rosto, gelidez.

5



Explode-se em meu rosto, gelidez,
Eflúvios de um momento em sonhos vários
E quanto mais além dos necessários
Carinhos em que uma ânsia se desfez

Sidéreas fantasias, loucas vagas
Mergulho em abissais, intensidade...
Tenazes maravilhas quando brades
E ao mesmo tempo lúdica me afagas

Ferozes luzes, mantras, ecos, hinos
Decifro no teu corpo teus enigmas
Marcantes cicatrizes quais estigmas,
Ao mesmo tempo gozos, desatinos,

E sinto num momento audaz e aflito
“Que surges dos mistérios do Infinito”.

6

“Que surges dos mistérios do Infinito”
Em meio aos turbilhões sei e pretendo
Num ato tresloucado ou estupendo
Em fúrias, transtornado anseio e grito

Infames os delírios de um profano
Hedônico demônio; em ti me entranho
E bebo cada gota deste estranho
Veneno pelo qual luto e me engano.

Ferrenhas ilusões, vagos receios,
Espúrias fantasias, ares frágeis
Os dedos te percorrem, buscam ágeis
Caminho entre coxas, boca, seios.

E toda esta estupenda insensatez
Num tétrico momento se desfez.


7

Num tétrico momento se desfez
Ensandecida audácia em noite imensa,
Orgástico delírio é recompensa
De toda esta fatal estupidez.

Edênicos caminhos percorridos,
Vacâncias entre vértices e vagas,
Adentro sem temor, sobejas plagas
E bebo destas ácidas libidos

Constelares anelos; ondas várias
Etéreas excrescências, sombras, luzes,
Por tantas paisagens me conduzes,
Em ânsias muitas vezes temerárias

Assim ao perceber-te, louca ceva,
“Amamentada na lascívia de Eva.”

8


“Amamentada na lascívia de Eva”
Insana criatura me fascina
Dos gozos mais mordazes, doce mina,
Ao mesmo tempo luz e imensa treva.

Sedenta, me sacia e mais voraz
Adentra os meus delírios com ternura,
Enquanto me maltrata e me tortura
Intensamente vem e satisfaz.

Espectros do passado me rondando,
Cadáveres das dores renascidos,
Momentos muitas vezes divididos,
Um ar tão tormentoso ou mesmo brando

Emaranhada luz em tom sombrio
Quimérica loucura onde desfio.

9

Quimérica loucura onde desfio
Os meus delírios tantos e fugazes,
Enquanto meus prazeres satisfazes,
A cada anoitecer, um desafio.

Bebendo cada gota do teu gozo,
Explodes feito louca em minhas mãos,
Adentro sem perguntas, furnas, vãos
Momento de prazer maravilhoso.

Excêntricos caminhos desvendados,
Nesta lubricidade que nos doma,
Multiplicando além de simples soma,
Tremores, cataclismos provocados

No solo dos delírios, morta a treva
“Tua boca voraz se farta e ceva”.

10



“Tua boca voraz se farta e ceva”
De todas as vontades satisfeitas
E quando do meu lado tu te deitas,
Delícia se mostrando então longeva.

Excêntrico delírio, insensatez,
Volúpia se entornando sobre a cama,
Teu corpo insaciável já me chama,
Penetro mansamente, e agora crês

No quanto se faz sempre necessário
Fulgor ensandecendo nossas vidas,
Nas fráguas, labaredas percebidas
Adentro teus tesouros, qual corsário

E assim se concretiza esta procura:
O gozo em histriônica loucura.


11


O gozo em histriônica loucura
Levando ao céu e ao limbo ao mesmo instante
Num ato tresloucado e fascinante,
Prazer que tantas vezes me tortura

Lascívia envolvendo nossas peles,
Anseios satisfeitos. Imensidão...
Momentos delicados mostrarão
Delírios com os quais, clamas, compeles.

Num êxtase supremo te idolatro,
Ao mesmo tempo em dores, medos fartos,
Na incrível maravilha destes partos
Ao mesmo tempo diz altar, diz atro.

Explodes em prazer doce e bendito
“Na carne e espalhas o terror maldito.”

12

“Na carne e espalhas o terror maldito”
Enquanto me seduzes com sorrisos,
Inferno matizando paraísos,
Imerso em tais loucuras, nosso rito.

Nefastas maravilhas noites raras,
Ferrenhas emoções em tom tranqüilo,
Se pelo Céu deveras eu desfilo
A porta dos Infernos me escancaras.

Dicotomia gera insanidade,
E teimo em vasculhar cada segredo,
Numa ânsia incontrolável logo cedo,
E a fúria de um desejo assim me invade,

E lânguida me expondo nas alfombras
Espasmos entre luzes, medos, sombras.


13


Espasmos entre luzes, medos, sombras
Enquanto me dominas com fulgor,
Ao mesmo tempo sinto este amargor
Terrível caricata tu me assombras,

Espalhas pela casa o teu perfume,
Sedento em avidez, descontrolado,
Vagando sobre escombros do passado,
Sentindo o teu calor, imenso ardume.

Ascendo assim aos vértices do sonho
E vago entre as estrelas, cordilheiras,
Vontades satisfeitas, corriqueiras,
Ao fundo espectro turvo e tão medonho

Derrama sobre a Terra em tom aflito
“O grito humano, o doloroso grito.”.


14


“O grito humano, o doloroso grito”
Invade estas searas mesmo flóreas
Entranho por estradas que, marmóreas
Transcendem à beleza do granito.

E o quadro se repete novamente,
Esdrúxulos caminhos percebidos,
Arquejo com a força das libidos,
E o gozo tão premente não desmente.

Afetam-se deveras os desejos,
Arquétipos de tempos tão terríveis
E a sombra dos fantasmas mais temíveis
Explodem no meu céu, raros lampejos

Na cama em languidez tu sempre assombras
E quando se deitando nas alfombras.


15

E quando se deitando nas alfombras
Pensara no teu corpo sobre mim,
Delírio desenhado; chego ao fim
Enquanto vejo vivas tuas sombras.

Abraço-te em sidéreas ilusões
E vago qual cometa por espaços
Momentos prazerosos são escassos
Além do que desnuda ainda expões

Nos sonhos e nas ânsias mais audazes,
Mergulho em tuas sendas e desvendo,
Em glorioso anseio em que estupendo
Caminho dos delírios já perfazes

Entretanto distante vejo a treva
“Que um vento estranho para és limbos leva.”

16

“Que um vento estranho para és limbos leva.”
Deixando o Paraíso entre nós dois,
Vivendo sem temor do que depois
Ainda possa ser terror e treva.

Audaciosamente te persigo,
Vagando pelas sendas infinitas.
E quando me aproximo então me excitas
Deitando sobre ti, prazer e abrigo.

Os fardos que ainda trago já não pesam,
Extraio de teu néctar a delícia
Bebendo cada gole com malícia
E os medos e temores se desprezam,

Assim em plena luz, brilho e tortura
Diversos os delírios, dor e cura.


17




Diversos os delírios, dor e cura”
Abismos que cavamos num mergulho,
A cada queda espinho e pedregulho,
Ao mesmo tempo insânia em vã loucura.

Abençoadas noites em que vês
O brilho destes astros entre nós,
Amor que é salvador, venal e algoz
Levando para sempre a lucidez

E adentro em tuas carnes desejosas,
Penetro os teus segredos mais profanos
E mesmo que inda veja desenganos
Sorrindo no momento em que tu gozas

E assim em precipícios mais ferozes
“Báratros, criptas, dédalos atrozes”

18



“Báratros, criptas, dédalos atrozes”
Transfigurando a face desdenhosa
De quem ao me ofertar jardim e rosa,
Mudando com terror, traçando algozes.

Esgueira-se a venal caricatura
Daquela que se fez deusa e rainha,
Enquanto a divindade se avizinha,
A boca mais sedenta, me tortura.

Apalpam-se desejos incontidos,
Incontinentes traços, pesadelos.
Sentindo algum prazer ao revivê-los
Afloram sem segredos os olvidos

É quando vejo em luzes mais esparsas
Etéreas maravilhas entre farsas.


19


Etéreas maravilhas entre farsas
Desejos desvendados e profanos,
A sorte molda acertos entre enganos
E nesta insensatez logo disfarças

E ris dos meus demônios incontáveis,
Terríveis ilusões, medos vorazes,
E quando dos meus sonhos tu desfazes
Traçando outros caminhos impalpáveis

Eu beijo tua boca em arrepios
E teimo em vasculhar cada segredo,
Do gozo que recebo e te concedo,
Refeitos feito em ciclos nossos cios

E em meio às ânsias fartas vis algozes
“Escancaram-se aos tétricos, ferozes...”


20

“Escancaram-se aos tétricos, ferozes”
Delírios luzes fartas, sonhos vãos,
E neles espalhamos nossos grãos
Vagando por espaços, gritos, vozes.

Eclodem nebulosas e quasares
Vestígios planetários, astros vários
E quando se mostrando temerários
Fazemos dos dosséis nossos altares.

Fulguras sobre mim ensandecida,
Deidade, rara sílfide, profusa,
A fome se sacia e se lambuza
Alheia à própria vida que se acida

E tendo no teu corpo raro cais,
Ecléticos prazeres divinais.

21


Ecléticos prazeres divinais
Rastreio teus anseios mato a fome,
E a fúria que deveras nos consome,
Pedindo cada vez e muito mais.

Ascetas caminhantes noutra sebe
Não vêm o delírio que se espalha,
A cama sendo um campo de batalha,
Unidos vencedores, se percebe.

O caos entrelaçando um infinito,
Augúrios variáveis e proféticos,
Momentos prazerosos são ecléticos
E neles refazemos todo o rito

Enquanto num desejo propicio
“Uivos tremendos com luxúria e cio...”

22


“Uivos tremendos com luxúria e cio”
Somando nossos corpos, florescências
E bêbados de luz, vitais essências
Vencendo qualquer fúria ou desafio.

Esgueiras pela cama e te procuro,
Enlanguescida deusa aqui desnuda,
Em serpe esta figura se transmuda,
Dourando com ternura o quarto escuro.

Ansiosamente encontro na nudez
Suprema maravilha, raro encanto,
E tanto quanto quero, mais te canto
Além do que pretendes, mesmo vês

Momentos deslumbrantes, magistrais
Iridescentes primas em cristais.


23

Iridescentes primas em cristais.
Fenômenos, luzernas, brilhos tantos,
Envolta por neblinas, frágeis mantos
A lua com seus raios divinais

Encontra-te em marmórea fantasia,
Argêntea insanidade nos domina,
E toda a profusão da rara mina,
Tomando-me de assalto já sacia.

Irônicas manhãs, noites sedentas
Sacrílegos caminhos descobertos,
Adentro por portais que agora abertos,
Enquanto tu me engoles me apascentas

E assim em correnteza, mil orgasmos
“Ris a punhais de frígidos sarcasmos”.




24

“Ris a punhais de frígidos sarcasmos”.
Envolve-me com pernas, as tenazes
Ao mesmo tempo tragas e me trazes
Momentos divinais, loucos espasmos.

Assim nesta fantástica viagem
Percebo os descaminhos prazerosos,
Herméticos fulgores caprichosos,
Mudando num segundo a antiga aragem.

Ao fundo se percebe a plena lua
Deitando sua prata sobre nós
E o vento se aproxima em tom feroz
Tocando tua pele, bela e nua

Ao mesmo tempo ris em toscas farsas
Enquanto me seduzes e me esgarças.

25


Enquanto me seduzes e me esgarças
Arrancas meus segredos, minhas peles,
Às ânsias e aos delírios me compeles
Com a beleza e graça destas garças

Ao mesmo tempo expões tua rapina,
Emanas os desejos em lascívia
Por mais que uma esperança viva. Prive-a
Durante a insanidade que fascina.

Espreito cada bote preparado,
Alheia aos meus temores, tu te ris,
E sinto-te deveras mais feliz,
Ao ver o sonho enfim despedaçado

Preparas para lúbricos sarcasmos
“E deve dar congélidos espasmos”...

26

“E deve dar congélidos espasmos”
Algozes maravilhas me preparas
Cevando meus prazeres entre escaras
Matando com fulgor velhos marasmos.

E o tempo não se permite outra falácia,
Galgando noites tépidas, insone
Por mais que uma esperança me abandone
Tu trazes num olhar feroz audácia.

E tramas entre chamas, camas, luzes,
Fartura mesmo em trágica aridez,
No quanto ainda vejo que tu crês
Desvendas meus anseios e seduzes

Olhando-te desnuda em sonhos traço
Meteoros vagando pelo espaço.


27


Meteoros vagando pelo espaço.
Adentrando este quarto, seus umbrais
Momentos muitas vezes eternais
Nos quais por vezes sonhos eu desfaço.

Degraus tão variados desta escada,
Delírios entre fogos e geleiras,
E quando pela cama tu te esgueiras
Às vezes adentrando a madrugada,

Alheia aos meus quereres, meus anseios,
Vagando por caminhos que não sei,
Talvez ainda creia noutra grei,
Enquanto acaricio belos seios,

Percebo no mistério que desfio
“O teu beijo de pedra horrendo e frio.”.


28

“O teu beijo de pedra horrendo e frio”
Por vezes me maltrata, mas depois
Na fúria que te entranha; eu vejo, pois
Momento deslumbrante em desafio.

Da gélida explosão, doce quimera,
Verão que se invernado vez em quando
Jamais se reconhece em fogo brando
Incêndio que no incêndio regenera

Astuciosa fera me devora,
Insaciável deusa, voz e gozo.
Caminho tantas vezes caprichoso,
Sabendo desde sempre quando é hora

E assim mesmo que morto de cansaço.
Ourives da emoção, teu corpo traço...

26963/64/65/66

26963


Enquanto me seduzes e me esgarças
Arrancas meus segredos, minhas peles,
Às ânsias e aos delírios me compeles
Com a beleza e graça destas garças

Ao mesmo tempo expões tua rapina,
Emanas os desejos em lascívia
Por mais que uma esperança viva. Prive-a
Durante a insanidade que fascina.

Espreito cada bote preparado,
Alheia aos meus temores, tu te ris,
E sinto-te deveras mais feliz,
Ao ver o sonho enfim despedaçado

Preparas para lúbricos sarcasmos
“E deve dar congélidos espasmos”...

26964

“E deve dar congélidos espasmos”
Algozes maravilhas me preparas
Cevando meus prazeres entre escaras
Matando com fulgor velhos marasmos.

E o tempo não se permite outra falácia,
Galgando noites tépidas, insone
Por mais que uma esperança me abandone
Tu trazes num olhar feroz audácia.

E tramas entre chamas, camas, luzes,
Fartura mesmo em trágica aridez,
No quanto ainda vejo que tu crês
Desvendas meus anseios e seduzes

Olhando-te desnuda em sonhos traço
Meteoros vagando pelo espaço.


26965


Meteoros vagando pelo espaço.
Adentrando este quarto, seus umbrais
Momentos muitas vezes eternais
Nos quais por vezes sonhos eu desfaço.

Degraus tão variados desta escada,
Delírios entre fogos e geleiras,
E quando pela cama tu te esgueiras
Às vezes adentrando a madrugada,

Alheia aos meus quereres, meus anseios,
Vagando por caminhos que não sei,
Talvez ainda creia noutra grei,
Enquanto acaricio belos seios,

Percebo no mistério que desfio
“O teu beijo de pedra horrendo e frio.”.


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“O teu beijo de pedra horrendo e frio”
Por vezes me maltrata, mas depois
Na fúria que te entranha; eu vejo, pois
Momento deslumbrante em desafio.

Da gélida explosão, doce quimera,
Verão que se invernado vez em quando
Jamais se reconhece em fogo brando
Incêndio que no incêndio regenera

Astuciosa fera me devora,
Insaciável deusa, voz e gozo.
Caminho tantas vezes caprichoso,
Sabendo desde sempre quando é hora

E assim mesmo que morto de cansaço.
Ourives da emoção, teu corpo traço...

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26958

“Escancaram-se aos tétricos, ferozes”
Delírios luzes fartas, sonhos vãos,
E neles espalhamos nossos grãos
Vagando por espaços, gritos, vozes.

Eclodem nebulosas e quasares
Vestígios planetários, astros vários
E quando se mostrando temerários
Fazemos dos dosséis nossos altares.

Fulguras sobre mim ensandecida,
Deidade, rara sílfide, profusa,
A fome se sacia e se lambuza
Alheia à própria vida que se acida

E tendo no teu corpo raro cais,
Ecléticos prazeres divinais.

26959


Ecléticos prazeres divinais
Rastreio teus anseios mato a fome,
E a fúria que deveras nos consome,
Pedindo cada vez e muito mais.

Ascetas caminhantes noutra sebe
Não vêm o delírio que se espalha,
A cama sendo um campo de batalha,
Unidos vencedores, se percebe.

O caos entrelaçando um infinito,
Augúrios variáveis e proféticos,
Momentos prazerosos são ecléticos
E neles refazemos todo o rito

Enquanto num desejo propicio
“Uivos tremendos com luxúria e cio...”

26960


“Uivos tremendos com luxúria e cio”
Somando nossos corpos, florescências
E bêbados de luz, vitais essências
Vencendo qualquer fúria ou desafio.

Esgueiras pela cama e te procuro,
Enlanguescida deusa aqui desnuda,
Em serpe esta figura se transmuda,
Dourando com ternura o quarto escuro.

Ansiosamente encontro na nudez
Suprema maravilha, raro encanto,
E tanto quanto quero, mais te canto
Além do que pretendes, mesmo vês

Momentos deslumbrantes, magistrais
Iridescentes primas em cristais.


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Iridescentes primas em cristais.
Fenômenos, luzernas, brilhos tantos,
Envolta por neblinas, frágeis mantos
A lua com seus raios divinais

Encontra-te em marmórea fantasia,
Argêntea insanidade nos domina,
E toda a profusão da rara mina,
Tomando-me de assalto já sacia.

Irônicas manhãs, noites sedentas
Sacrílegos caminhos descobertos,
Adentro por portais que agora abertos,
Enquanto tu me engoles me apascentas

E assim em correnteza, mil orgasmos
“Ris a punhais de frígidos sarcasmos”.




26962

“Ris a punhais de frígidos sarcasmos”.
Envolve-me com pernas, as tenazes
Ao mesmo tempo tragas e me trazes
Momentos divinais, loucos espasmos.

Assim nesta fantástica viagem
Percebo os descaminhos prazerosos,
Herméticos fulgores caprichosos,
Mudando num segundo a antiga aragem.

Ao fundo se percebe a plena lua
Deitando sua prata sobre nós
E o vento se aproxima em tom feroz
Tocando tua pele, bela e nua

Ao mesmo tempo ris em toscas farsas
Enquanto me seduzes e me esgarças.

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26949


O gozo em histriônica loucura
Levando ao céu e ao limbo ao mesmo instante
Num ato tresloucado e fascinante,
Prazer que tantas vezes me tortura

Lascívia envolvendo nossas peles,
Anseios satisfeitos. Imensidão...
Momentos delicados mostrarão
Delírios com os quais, clamas, compeles.

Num êxtase supremo te idolatro,
Ao mesmo tempo em dores, medos fartos,
Na incrível maravilha destes partos
Ao mesmo tempo diz altar, diz atro.

Explodes em prazer doce e bendito
“Na carne e espalhas o terror maldito.”

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“Na carne e espalhas o terror maldito”
Enquanto me seduzes com sorrisos,
Inferno matizando paraísos,
Imerso em tais loucuras, nosso rito.

Nefastas maravilhas noites raras,
Ferrenhas emoções em tom tranqüilo,
Se pelo Céu deveras eu desfilo
A porta dos Infernos me escancaras.

Dicotomia gera insanidade,
E teimo em vasculhar cada segredo,
Numa ânsia incontrolável logo cedo,
E a fúria de um desejo assim me invade,

E lânguida me expondo nas alfombras
Espasmos entre luzes, medos, sombras.


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Espasmos entre luzes, medos, sombras
Enquanto me dominas com fulgor,
Ao mesmo tempo sinto este amargor
Terrível caricata tu me assombras,

Espalhas pela casa o teu perfume,
Sedento em avidez, descontrolado,
Vagando sobre escombros do passado,
Sentindo o teu calor, imenso ardume.

Ascendo assim aos vértices do sonho
E vago entre as estrelas, cordilheiras,
Vontades satisfeitas, corriqueiras,
Ao fundo espectro turvo e tão medonho

Derrama sobre a Terra em tom aflito
“O grito humano, o doloroso grito.”.


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“O grito humano, o doloroso grito”
Invade estas searas mesmo flóreas
Entranho por estradas que, marmóreas
Transcendem à beleza do granito.

E o quadro se repete novamente,
Esdrúxulos caminhos percebidos,
Arquejo com a força das libidos,
E o gozo tão premente não desmente.

Afetam-se deveras os desejos,
Arquétipos de tempos tão terríveis
E a sombra dos fantasmas mais temíveis
Explodem no meu céu, raros lampejos

Na cama em languidez tu sempre assombras
E quando se deitando nas alfombras.


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E quando se deitando nas alfombras
Pensara no teu corpo sobre mim,
Delírio desenhado; chego ao fim
Enquanto vejo vivas tuas sombras.

Abraço-te em sidéreas ilusões
E vago qual cometa por espaços
Momentos prazerosos são escassos
Além do que desnuda ainda expões

Nos sonhos e nas ânsias mais audazes,
Mergulho em tuas sendas e desvendo,
Em glorioso anseio em que estupendo
Caminho dos delírios já perfazes

Entretanto distante vejo a treva
“Que um vento estranho para és limbos leva.”

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“Que um vento estranho para és limbos leva.”
Deixando o Paraíso entre nós dois,
Vivendo sem temor do que depois
Ainda possa ser terror e treva.

Audaciosamente te persigo,
Vagando pelas sendas infinitas.
E quando me aproximo então me excitas
Deitando sobre ti, prazer e abrigo.

Os fardos que ainda trago já não pesam,
Extraio de teu néctar a delícia
Bebendo cada gole com malícia
E os medos e temores se desprezam,

Assim em plena luz, brilho e tortura
Diversos os delírios, dor e cura.


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Diversos os delírios, dor e cura”
Abismos que cavamos num mergulho,
A cada queda espinho e pedregulho,
Ao mesmo tempo insânia em vã loucura.

Abençoadas noites em que vês
O brilho destes astros entre nós,
Amor que é salvador, venal e algoz
Levando para sempre a lucidez

E adentro em tuas carnes desejosas,
Penetro os teus segredos mais profanos
E mesmo que inda veja desenganos
Sorrindo no momento em que tu gozas

E assim em precipícios mais ferozes
“Báratros, criptas, dédalos atrozes”

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“Báratros, criptas, dédalos atrozes”
Transfigurando a face desdenhosa
De quem ao me ofertar jardim e rosa,
Mudando com terror, traçando algozes.

Esgueira-se a venal caricatura
Daquela que se fez deusa e rainha,
Enquanto a divindade se avizinha,
A boca mais sedenta, me tortura.

Apalpam-se desejos incontidos,
Incontinentes traços, pesadelos.
Sentindo algum prazer ao revivê-los
Afloram sem segredos os olvidos

É quando vejo em luzes mais esparsas
Etéreas maravilhas entre farsas.


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Etéreas maravilhas entre farsas
Desejos desvendados e profanos,
A sorte molda acertos entre enganos
E nesta insensatez logo disfarças

E ris dos meus demônios incontáveis,
Terríveis ilusões, medos vorazes,
E quando dos meus sonhos tu desfazes
Traçando outros caminhos impalpáveis

Eu beijo tua boca em arrepios
E teimo em vasculhar cada segredo,
Do gozo que recebo e te concedo,
Refeitos feito em ciclos nossos cios

E em meio às ânsias fartas vis algozes
“Escancaram-se aos tétricos, ferozes...”

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Quimérica loucura onde desfio
Os meus delírios tantos e fugazes,
Enquanto meus prazeres satisfazes,
A cada anoitecer, um desafio.

Bebendo cada gota do teu gozo,
Explodes feito louca em minhas mãos,
Adentro sem perguntas, furnas, vãos
Momento de prazer maravilhoso.

Excêntricos caminhos desvendados,
Nesta lubricidade que nos doma,
Multiplicando além de simples soma,
Tremores, cataclismos provocados

No solo dos delírios, morta a treva
“Tua boca voraz se farta e ceva”.

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“Tua boca voraz se farta e ceva”
De todas as vontades satisfeitas
E quando do meu lado tu te deitas,
Delícia se mostrando então longeva.

Excêntrico delírio, insensatez,
Volúpia se entornando sobre a cama,
Teu corpo insaciável já me chama,
Penetro mansamente, e agora crês

No quanto se faz sempre necessário
Fulgor ensandecendo nossas vidas,
Nas fráguas, labaredas percebidas
Adentro teus tesouros, qual corsário

E assim se concretiza esta procura:
O gozo em histriônica loucura.

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“Podridão feita deusa de granito”
A deusa que em lascívia se acomoda
Na cama delirante enquanto roda
Girando em carrossel este infinito.

Atravessando os céus, cometas, luzes
Imersos entre as nuvens, cintilantes
E teimo ver deveras por instantes
Belezas com as quais, reinas, seduzes.

E lúbrica deitada sobre a cama,
Abraço-te demônio ensandecido,
Num ato de terror, fúria e libido,
Insensata mulher, doce, me chama

Na fugaz maravilha em que se fez
Explode-se em meu rosto, gelidez.

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Explode-se em meu rosto, gelidez,
Eflúvios de um momento em sonhos vários
E quanto mais além dos necessários
Carinhos em que uma ânsia se desfez

Sidéreas fantasias, loucas vagas
Mergulho em abissais, intensidade...
Tenazes maravilhas quando brades
E ao mesmo tempo lúdica me afagas

Ferozes luzes, mantras, ecos, hinos
Decifro no teu corpo teus enigmas
Marcantes cicatrizes quais estigmas,
Ao mesmo tempo gozos, desatinos,

E sinto num momento audaz e aflito
“Que surges dos mistérios do Infinito”.

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“Que surges dos mistérios do Infinito”
Em meio aos turbilhões sei e pretendo
Num ato tresloucado ou estupendo
Em fúrias, transtornado anseio e grito

Infames os delírios de um profano
Hedônico demônio; em ti me entranho
E bebo cada gota deste estranho
Veneno pelo qual luto e me engano.

Ferrenhas ilusões, vagos receios,
Espúrias fantasias, ares frágeis
Os dedos te percorrem, buscam ágeis
Caminho entre coxas, boca, seios.

E toda esta estupenda insensatez
Num tétrico momento se desfez.


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Num tétrico momento se desfez
Ensandecida audácia em noite imensa,
Orgástico delírio é recompensa
De toda esta fatal estupidez.

Edênicos caminhos percorridos,
Vacâncias entre vértices e vagas,
Adentro sem temor, sobejas plagas
E bebo destas ácidas libidos

Constelares anelos; ondas várias
Etéreas excrescências, sombras, luzes,
Por tantas paisagens me conduzes,
Em ânsias muitas vezes temerárias

Assim ao perceber-te, louca ceva,
“Amamentada na lascívia de Eva.”

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“Amamentada na lascívia de Eva”
Insana criatura me fascina
Dos gozos mais mordazes, doce mina,
Ao mesmo tempo luz e imensa treva.

Sedenta, me sacia e mais voraz
Adentra os meus delírios com ternura,
Enquanto me maltrata e me tortura
Intensamente vem e satisfaz.

Espectros do passado me rondando,
Cadáveres das dores renascidos,
Momentos muitas vezes divididos,
Um ar tão tormentoso ou mesmo brando

Emaranhada luz em tom sombrio
Quimérica loucura onde desfio.

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“O teu beijo de pedra horrendo e frio”
Explode-se em meu rosto, gelidez,
Num tétrico momento se desfez
Quimérica loucura onde desfio

O gozo em histriônica loucura,
Espasmos entre luzes, medos, sombras,
E quando se deitando nas alfombras
Diversos os delírios, dor e cura.

Etéreas maravilhas entre farsas,
Ecléticos prazeres divinais
Iridescentes primas em cristais
Enquanto me seduzes e me esgarças

Meteoros vagando pelo espaço
Ourives da emoção, teu corpo traço...






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Ourives da emoção, teu corpo traço
Em lúbricos delírios, luzes fartas,
E quando dos meus olhos tu te apartas
Seguindo feito um louco cada passo,

Esgueiras entre becos, vilas, ânsias
E tramas com sorrisos gozos vários
Moldando prazerosos, teus cenários
Gerando as mais diversas discrepâncias.

Estrídulos noturnos, vagas ondas,
Marulhos entre risos; bebes lua
E vendo a tua imagem clara e nua,
Enquanto meus desejos buscas, sondas.

Nefasto sonho em gozo assim descrito:
“Podridão feita deusa de granito.”