31936
Espadas que me cortam são sinais
Destes momentos tolos onde eu quis
Vencer cada temor e ser feliz
Ainda que eu bem saiba ser jamais
O tanto onde pudera ou mesmo mais
Negando qualquer sorte, ausente bis
Galgando cada espaço, por um triz
Morrendo sem ternura, em abissais.
Não pude com certeza adivinhar
Momento em que pudesse me entregar
Sangrando em cada poro e sendo assim
O tempo renegando uma esperança
Amor amortalhado na lembrança
Traduz a cada ausência mais o fim.
31937
Pudesse deste amor, saber vacina
E mesmo quando em plena febre ou dor
Vencesse com ternura tal torpor
Que tanto quanto pode me domina,
Mas sendo sonhador, eis esta sina
Tentando novamente recompor
Um mundo aonde exista qualquer flor,
E nela novo tempo determina
Assaz maravilhosa noite enquanto
Realidade mostra em contracanto
O desencanto vário e doloroso,
Pudesse amar e ter a recompensa,
Mas quando não tem cura tal doença
O fim já se aproxima em medo e gozo.
31938
Amor saltando o muro desta casa
Não deixa sequer rastro quando passa,
E tanto se mostrando em vã fumaça
Apenas num momento mera brasa,
A sorte se inda existe já se atrasa
E não desejo ser somente a caça
Risonha fantasia segue escassa
Nem mesmo uma ilusão ainda embasa
E tudo se desaba num momento
E quando alguma sorte teimo e tento
Atento ao que não tenho sigo em frente.
Porquanto se apresente este cenário
Enquanto doloroso e temerário
Traduz qual a esperança uma semente...
31939
As cordas da viola arrebentadas
As ondas deste mar se sossegando
Aonde quis tempesta o mundo é brando
As noites entre estrelas decoradas,
Mas vejo noutras cenas retratadas
Imagens deste tanto que é nefando
E beijo o teu cadáver desde quando
As horas se perderam, vãs estradas.
Resíduo do que fora outrora messe,
E quando o meu caminho recomece
Percebo quanto inúteis foram cenas
Acendo o meu cigarro e mais trago
Da morte com certeza raro afago,
As incertezas sempre foram plenas...
31940
Fechando este portão por onde entrava
A sorte de quem tanto quis sorriso,
E ainda que este tempo é mais conciso,
Rondando o pensamento não se lava
Seara costumeira mesmo escrava
Perdendo com certeza algum juízo,
No fim não restará mais prejuízo
Enquanto o dia a dia sempre agrava.
E sei desta burguesa face aonde
A pura hipocrisia já se esconde
E traça com perfumes importados
Venenos em peçonhas mais atrozes,
E sendo assim diversas, mesmas vozes,
Os riscos sempre foram calculados...
31941
Das dores meus irmãos conhecem bem
A face carcomida da verdade
E tanto poderia uma saudade
Falar desse vazio que contém
Mergulho insanamente onde convém
E o risco de viver em lealdade
Persiste mesmo quando a noite agrade
Ou mesmo quando a sombra ainda vem,
Pecaminosos rumos entre tantos
Não quero ter meus olhos puros, santos
Tampouco poderia acreditar
Na tola incoerência aonde um dia
Eu tento com certeza a fantasia
E sei quanto impossível desvendar...
31942
Entre névoas tantas a saudade
Adentra com terror onde deságua
A vida em dolorosa e torpe mágoa
Enquanto o que inda resta desagrade,
Amar é ter nas mãos realidade
Distante do que sonha em forte frágua
Poluição destroça qualquer água
E a morte transcendendo a tal verdade.
Já não me escravizando pelo verso,
E sinto quanto é bom o ser diverso
Perversa e momentânea moda toma
Caminhos que levando à mesma Roma
Trazendo no seu bojo este alimento
Da minha poesia, o seu provento...
31943
Nada que procure ainda acalma
Quem sabe ser a vida mesmo assim,
E quando a poesia dita o fim,
A fúria adentra impune qualquer alma,
E atento ao que pudesse ser um trauma
Escrevo cada verso e tendo em mim
Certeza deste fútil ser que enfim
Vasculha com terror o que diz calma.
Ser lírico é lorota e nada além,
E tudo o que se faz sempre convém
Se a vida for sincera e não negar
O passo mesmo errôneo deve ter
Ao menos a vontade de poder
Vencer com calmaria o bravo mar.
31943
Em meio às tantas vãs ansiedades
Soergo do que fora alguma imagem
E faço por mim mesmo esta viagem
Rompendo do passado toscas grades,
E ainda que mais forte teimes brades
Não veja da esperança qualidades,
Somente se liberta em tais miragens
Rompendo da ilusão suas barragens
Do ser humano espero tais maldades
E sei não ser possível novo afeto,
Porquanto ao ser mutável e incompleto
Jamais traduziria a perfeição
Aonde se deseja inutilmente
Por mais que noutra face ainda expões
Diversos dos teus dias os verões
Realçam as algemas e correntes.
31944
Os olhos rasos d’água o medo impera
E nada ainda possa me dizer
Do quanto desairoso algum prazer
No qual a fantasia degenera
Aonde a realidade não tempera
Sentindo esta vontade esmorecer
O peso mais atroz posso colher
E sei que não contive mais a fera,
Participando assim da dura cena
Minha alma em solilóquio se apequena
E o quadro desbotado na parede
Traduz o que restara deste sonho
E quando a cada ausência decomponho
Aonde irei matar a minha sede?
31945
Verdugo dos meus versos enquadrados
Em tétricas molduras nada vejo
E sendo assim deveras me apedrejo
E tento seguir fatos demarcados
Onde pudesse crer em tantos fados
O dia após o tanto que eu almejo
Enquanto na ilusão inda verdejo
Traduzo em outros tantos malfadados.
Condeno-me afinal ao ostracismo
Cavando com horror ao velho abismo
E sei que no final nada seria
Senão a mesma face desgraçada
Que tanto traduzira outrora em nada,
E dela faço toda a poesia...
31946
Ocupam meu espírito os temores
De tanta aleivosia, medo e senso
E quando nos engodos teimo e penso
Aonde se pudessem mais horrores
As mortes entre pedras, trevas, flores
Senzala de um viver frágil ou intenso
E nada do que ainda pude extenso
Aos pantanais diversos onde opores
Os cárceres das almas condoídas
Tacanha face engodo sazonal,
Errática loucura diz do quanto
Pudesse não viver somente o espanto
Que sempre se aproxima no final.
31947
Alimentando em mim redemoinhos
E deles se fazendo o dia a dia
Porquanto a própria história desafia
E gera em mais tormentos outros ninhos,
Pudesse adivinhar novos caminhos
E tanto quanto sei desta heresia
A morte a cada passo se desfia
E bebo consagrados caros vinhos,
Aonde nauseabundo não se solde
Retrato desumano sendo o molde
Do qual se reproduz a minha face,
Oprimidos os sonhos, nada resta
E a imagem que se vê, torpe e funesta
Traduz cada momento que desgrace.
31948
Nutrimos a miséria que convém
Nos mesmos vendavais entre as porteiras
E quando se levantam tais bandeiras
No olhar de quem comanda este desdém,
E quantas vezes sendo algum refém
Do charco onde se isolam as fruteiras
E delas podridões são corriqueiras,
Traduzem o que tanto queres bem
Esgarças os sorrisos miseráveis
De quem se fez feliz e não porquanto
Ao mesmo tempo entoa mero espanto
E traça com teus passos deploráveis
Caminhos que talvez digam da luz
Escondida detrás de cada obus.
31949
Se de arrependimentos mais covardes
Pudesse desfiar cada rosário
O mundo não pudesse em necessário
Caminho aonde tanto inda retardes
E vejo com terror o quanto inda ardes
Ousando passos vis reacionários
Rezando na cartilha dos otários
Sabendo que virás em torpes tardes,
Acendo esta fogueira dentro em mim
E tento requentar as ilusões,
Os restos que me destes, provisões
Esgotos dos momentos de onde vim
E tento mesmo assim algum sorriso,
O teu favor irônico e indeciso.
31950
Pagando cada dívida com sangue
E tendo com certeza altos juros
Vivendo entre terrores tais apuros
Recendem ao que ainda trago em mangue
Reajo enquanto posso, mas não sinto
A fúria necessária e juvenil,
O peso que envergara ressurgiu
Qual fora este vulcão há tanto extinto,
E não pudesse ao menos ver o quase
Depois de tantas frases inauditas,
E ficam entranhadas as desditas
Urdindo com temor, dispersa fase.
Mudando a direção retorno ao nada,
Bandeira da esperança, destroçada.
31951
Ao entrar em caminhos enganosos
Servindo como pasto para os sonhos
E tendo estes terríveis e bisonhos
Delírios entre porcos andrajosos,
Vencemos muitas vezes orgulhosos
E quando se pensaram enfadonhos
Os tempos novamente mais risonhos
Produzem falsos guizos prazerosos,
Joguetes deste tanto enquanto nada
Querendo o que jamais se pode ter,
Esboçando um sorriso de querer
Aonde nada pude e nem teria,
Um pária sem sossego bebe o gim
Guardado com ternura dentro em mim
E sente mesmo ausente esta magia.
31952
Acreditando em lágrimas que possam
Talvez nos redimir ou mesmo até
Traçar novo cenário sem galé
Do qual as ilusões bem cedo apossam,
E sendo assim estúpidos remoçam
Risonhos disparates de uma fé,
E tanto poderia vendo a Sé
E dela os mais espúrios sons adoçam
Ouvidos que precisam de mentiras,
E mesmo quando expondo trapos tiras
Retiras os temores; falsa cena,
E a morte se aproxima de algum jeito
E encontra este imbecil já satisfeito
Uma alma com engodos, tão serena...
31953
Trismegisto poder num ente solo
Assim ao se fazer este mistério
No qual e pelo qual, mesmo funéreo
Caminho onde aos poucos me consolo,
E sendo a vida assim com ou sem dolo
O tanto que pudesse ser mais sério
Na indiferença mesmo do minério
Mergulho após o nada neste solo,
Porquanto ser do Ser um mero adendo,
No quanto renascer após morrendo
A morte inexistente ou mesmo espúria,
Não creio ser possível sofrimento
Em quem sabe e proclama seu alento,
Mas onde há redenção vejo lamúria.
31954
Deitando em almofadas ricas cenas
Quem herda do mendigo que dormia
Entre pedras, gramas, a heresia
Tomando com terror aonde apenas
O amor se mostraria em tantas plenas
Verdades que a verdade não procria,
E morto o libertário, uma alforria
Jamais dormiu nas almas tão pequenas.
Engano que eu bem sei proposital
Matando novamente quem se fez
Além da mais vulgar estupidez
Um ser entre os irmãos, o magistral
E agora profanado num altar
Sem cerimônia exposto em vil lugar.
31955
Ao homem não encanta o Pai liberto,
Num sádico caminho, bebe a cruz,
E aonde se mostrou real Jesus,
Apenas o cenário de um deserto,
O mundo em paz e amor mal descoberto
Recende e necessita mais do pus,
Negando a mais sublime e bela luz
Apenas pelas trevas encoberto,
Que dane-se a Paixão, dela não quero,
Prefiro o Irmão sereno e mais sincero
Cadáver não me atrai, quanto nefando
Cenário se mostrara o Redentor?
Esquecem-se deveras deste amor
Que em VIDA, o irmão se fez, sempre se dando...
31956
Vontades demoníacas porquanto
Dominam pensamentos, tentações
E quando as mesmas faces e emoções
Desmancham o que fora frágil canto,
Difícil ser cristão, por isso o encanto.
Desejos mais audazes em verões
Enquanto neste inverno tu compões
A vida se mostrando em tal quebranto,
As festas gozos risos e bacantes
Deliciosos mesmos tais instantes
E neles Satanás presença em glória
A pedra não permite a caminhada
Suave; mas em Cristo esta jornada
É feita sobre escombro ausência e escória.
31957
Vaporizados ares em perfumes
De fêmeas, machos, ritos, gozos, risos,
Na terra os mais diversos paraísos
Trazendo aos caminhantes tantos lumes,
Se queres paz eterna que acostumes
Aos dias mais doridos e imprecisos,
A liberdade dita tais granizos,
E trama a cada passo mais ardumes,
Ouvir calado e ter a sensação
Desta injustiça enorme e com perdão
Sanar os espinheiros mais vulgares;
Deveras são de restos e migalhas
Apenas, camas feitas entre palhas
Reais e sacrossantos Teus altares.
31958
Demônio move a Terra a cada passo,
E assim não é possível a quem vê
Sem ter sequer noção de algum por que
Seguir outro caminho que ora traço,
E sinto ser mais fácil cada espaço
No qual a imagem bela em que se crê
Bezerros em dourado rito lê
A história pela qual o mundo eu faço.
Falar de amor, de paz e liberdade
A quem se aprisiona na vontade
Gananciosamente desnudado,
É como procurar em tal palheiro
Agulha onde se tece um mundo inteiro
Porquanto ser mais doce algum pecado.
31959
Não vês com repugnância este Demônio
Pintado com terrível falsidade,
Imagem tão bonita que te agrade
Aumenta a cada instante o patrimônio,
Deliciosamente em pandemônio
Enquanto se traduz outra inverdade
Satã com seu reinado em claridade
Divino caminhar? Negando hormônio
Fingindo ser diverso o que ora anseia,
E quando se percebe adentra a veia
E gera com ternura este abandono.
Goteja prazerosa esta figura,
Enquanto em Cristo vã caricatura
Do hedônico demônio ao tolo sono...
31960
Descemos ao Inferno, ou subimos
Nos gozos aparentes ou reais,
E quando se percebem tais cristais
Orgásticos caminhos tramam cimos,
E vejo quão difíceis estes limos
Aonde escorregamos mais e mais,
Caminhos para o Pai são abissais,
Enquanto para o Demo são floridos,
E sonegando às vezes os sentidos,
Mergulhos tão diversos contra a fome
E a sede do prazer que tanto atrai
Negar o que se quer e Ver o Pai,
Vigie enquanto o homem enfim se dome...
31961
Seguir rumo aos encantos de um Inferno
Gerado com prazeres mais audazes
E quando em voz serena tu me trazes
Momentos de prazeres, eu me interno
Nos antros onde nunca em vida o inverno
Transporta com terrores suas fases,
E assim ao perceber quando me fazes
Feliz com teu carinho audaz e terno.
Serena noite em gozos imprudentes,
E sinto quanto são sempre envolventes
Os braços, coxas, pernas, ritos risos,
Gestando com orgasmos Paraísos,
E neles me entranhando sem pudor.
Satã com seus acordes mais profanos
(Expressa em delicados, belos panos
Cenário, com certeza, sedutor...)
31962
Apenas libertino camarada
Que adentra coxas, pernas, cocaína
Assim aos poucos a alma se domina
E vê com mais prazer a madrugada,
A cena desta forma desenhada
Enquanto a cada instante mais fascina
Nos gozos estampados na menina,
A porta de um inferno arreganhada.
Embriagado eu bebo o farto vinho
E quando noutros tantos eu me aninho,
Desvendo de Satã cada momento,
E volto contra a estrada em tais cascalhos,
São fáceis e gostosos os atalhos
Dos quais insanamente eu me alimento.
31963
Na bela prostituta em gargalhadas
As sortes mais felizes e gentis,
Nas balas nos anseios mais sutis
As horas vagam belas madrugadas,
Em bêbadas figuras desvendadas,
Eu sou por um instante mais feliz,
E tendo tudo aquilo que mais quis,
Perfaço para o inferno tais jornadas,
As peles entre peles e motéis,
As hordas entre corjas, doces méis
E o pântano de gozos nos lençóis
Uma oração que faço a Satanás
E nela o quanto posso ser audaz,
Tramando com delírios meus faróis...
31964
Prazeres clandestinos, o poder
Do forte que desmancha assim o fraco
Um biltre? Nada disso, quando ataco
Certeza de sorver todo o prazer,
Usando com terror eu passo a ver,
Do todo desenhado cada naco,
Erguendo um novo brinde rendo à Baco
Deliciosamente o meu querer.
Eclodem no caminho que perfaço
Deliciosas ninfas, cada traço
Desnuda maravilha em tez profana,
Enquanto este andarilho, este beato,
A cada novo passo, mais maltrato
A força que carrego é soberana.
31965
Exprimo com palavras a verdade
Dos gozos magistrais que encontro em ti,
E sei Satã o quanto mereci
Vivendo com prazer à saciedade,
Assim ao macular a sociedade,
Vomito no que encontro e sei aqui
Compartilhando o tanto que venci,
E nada do que resta desagrade.
Enquanto este romeiro segue assim,
Jogado pelas pedras, no capim,
Expondo a caricata face em Deus,
Eu bebo esta delícia em aguardentes
Pisando sobre os tolos penitentes
Comendo estes farnéis, os meus e os teus...
31966
Caminho entre formigas, pedra e espinho,
As dores são constantes e terríveis
E quando se pensaram impossíveis
Piores são as cenas e sozinho
Não tendo quem me faça algum carinho,
Não posso converter dias plausíveis
E sem prazer vivendo em tais desníveis
Encontro no final o manso ninho.
Assim ao procurar a paz divina,
A morte a cada passo descortina
Lamurias entre tantas desventuras,
Enquanto para o Demo claridade,
Ao Pai somente medo e tempestade
Imerso em noites tristes mais escuras...
31967
Entre opressores vários- meus anseios-
Procuro alguma senda que permita
Viver o quanto possa ser bonita
A vida após vencer difíceis veios,
E mesmo quando olhares são alheios
Renego a imensidade da pepita
Aonde lapidada se acredita
Riquezas entre gozos, sem receios.
Não posso acreditar quão doloroso
Caminho em que eu sonegue cada gozo
Buscando eternidade, um contra-senso.
Se eu quero estar em Ti, Pai soberano,
No quanto perco e mesmo até me dano,
Nem mesmo por instantes, inda penso.
31968
Tirar dentro de mim cada desejo
E crer na eternidade após o não,
E ter toda a certeza em negação,
Caminho dolorido que prevejo;
E se deveras paz ainda almejo
Mudando com firmeza a direção
E ter a mais cruel sonegação
Do quanto poderia ser sobejo.
Difícil caminhada para Ti,
Ganhar quando em princípio eu já perdi
Negar cada prazer e ser só Teu,
Desnudo do que seja mais humano,
E ter a benção feita em todo dano,
E ver a claridade enquanto é breu.
31969
No cérebro pululam mil demônios
E vagam entre as ruas, belas pernas,
Fortunas e delírios, cenas ternas,
Se dentro em mim percebo pandemônios
Beber o sangue mesmo dos campônios,
Rasgar as minhas ânsias em modernas
Figuras que pensara mais eternas
Negar o que aprendi desde os mecônios.
Eu tento a cada instante, mas eu sei
Quanto é difícil Pai seguir a lei
Que traz a negação e nos liberta,
Escravo se acostuma com chibata
E quando destas mãos já se arrebata
Trocando pela vida que é sempre incerta...
31970
A morte a cada vã respiração
Esgota quem tentara ser mais forte,
E sei do quanto ainda nos comporte
O passo sendo dado em negação,
Mergulho neste abismo e sei que é vão
O rumo traduzindo gozo e sorte,
E tanto poderia noutro norte
Viver com alegria e com tesão.
É certo que os excertos são diversos
E os dias quando em Deus seguem imersos
Propagam dimensões bem variáveis,
Mas tanto quanto posso sonegar
O que de humano existe e Te abraçar
Em solos que jamais pensei aráveis...
31971
Descendo pelas costumeiras
Os ares, mares, bares sendas tantas
E quando de manhã tu te levantas
Não vês as faces turvas e matreiras
Das ânsias que dominam, são bandeiras
E nelas as verdades quando encantas
Risíveis camaradas; cedo espantas
E traças com as farsas corriqueiras,
Peçonhas exaladas são mortalhas
E nelas quando aos gozos mais atalhas
Retalhas com furores cada parte,
E tudo se repete enquanto vis
Momentos não te fazem mais feliz
No quanto do prazer queres, repartes.
31972
Incêndios entre farpas, fardas, facas,
E assim caminha sempre a humanidade,
Aonde se pudera em humildade
Não vês já desferidas tais estacas,
E tanto quanto podes não aplacas
Nem mesmo se deveras inda invade
A seca quanto pode à saciedade
Mordaça em tua boca pátrias lacas.
Pacato até que surja este demônio
Que possa transcender ao próprio hormônio
Visceralmente expondo esta vingança
Aí num ato insano já se lança
E queres devorar cada pedaço
De quem noutro cenário agora eu traço.
31973
Violas os sentidos mais cristãos
Enquanto te devora a insanidade
No gozo do prazer a quantidade
Gerada pela infâmia dita os grãos,
E o que pensara outrora serem vãos
Não deixam que se tenha a claridade
Porquanto noutro tempo atrás a grade
Não vence os mais audazes, tolos nãos.
Eclode vez em quando a imensa fúria
E assim conclama sempre ao linchamento,
A cena traz o gozo do alimento
Aonde a besta fera se sacia
Satânicos deveras somos nós,
E a cada novo frêmito este algoz
Arranca a angelical, vã fantasia.
31974
É placentário mesmo este diabo
Que ainda não porfia enquanto quieto,
Mas quando vê repasto predileto
O quanto protegia já desabo,
E ao ver este cenário enfim me acabo
Resisto enquanto posso, mas dileto
Demônio noutro tanto me completo
E assim o verdadeiro ser nababo
Que ainda existe e vive nas entranhas
Subindo dos abismos às montanhas
Expõe a face nua de Satã
E quando não se vê representado
No gozo bem profícuo o disfarçado
Demônio que cultivo a cada afã.
31975
Eu sou já desde o início um canibal
Que adora sangue exposto em cada esquina
E quando a tez atroz mesmo assassina
Redunda num terrível ritual,
Eu bebo cada gota e sei normal,
A fonte aonde a morte me ilumina
Insaciável ser que me domina
Jogando na esperança a pá de cal,
Calvários espalhando a cada dia,
E quando no mendigo em ironia
Não vejo aquele irmão que me ensinaste,
A pútrida faceta verdadeira
Da serpe tão comum e corriqueira
Jamais terá enfim qualquer desgaste.
31976
Uma alma quando ousada verte em pus
E traça com as unhas afiadas
As cenas tantas vezes degradadas
E nelas com certeza singram luz
Ao quanto de satânico me opus
E sei são bem melhores tais estradas
Aonde não se vendo desgarradas
Ovelhas farto pasto reproduz
A senda mais gostosa e desejando
Um tempo aonde etéreo e manso bando
Bebendo cada gota da nascente
Mostrada em limpidez tanta fartura,
Prazer negando a fome já perdura
Traçando amanhecer iridescente.
31977
Entre chacais, abutres, rapineiras
As sortes são daninhas? Não mais creio,
E quando cada podre vão rodeio
Eu beijo as putas, bebo as benzedeiras
Assim ao receber as carpideiras
O pagamento à vista, não anseio
E vejo sob as vestes cada seio
Desejo se aflorando, são bandeiras
As sendas desvendadas na nudez
E tudo o que decerto ainda crês
Não vale um gozo forte e em tal orgasmo,
A parte que me cabe, saciada
Lacônica presença demonstrada
O resto se vendendo com sarcasmo...
31978
Panteras gostam mesmo é da tocaia
E a sorte não produz outro momento
Aonde se pudesse me apresento
Levanto da morena, a curta saia,
E sei que quanto mais assim se esvaia
O tempo noutro tanto eu não lamento
E quando em algum gozo me alimento,
Procuro a insanidade em cada praia.
O sarro, o carro, as mãos tocando os seios
E nada do que possam ser receios
No golpe financeiro, no achincalhe
Portanto ser feliz pressupõe isto
E até se ainda fosse bom, desisto
Bebendo cada pus que se amealhe.
31979
Deus salve as prostitutas e as vadias,
São nelas que eu encontro o Paraíso,
Embora no meu bolso o prejuízo,
As sortes mais audazes tu procrias
Nas coxas e nas mãos, bocas e as pias
Lavando as bocas tolas sem juízo
Do quanto deste gozo mais preciso,
E nele as orações que bendizias
Desta água benta feita em lupanares,
E quando novos rumos procurares
Verás as mesmas cenas do passado.
O carro entre os faróis, sinais e senhas,
Conquanto com tesão tu sempre venhas
Assim nosso destino abençoado!
31980
Anseio escorpiônico em veneno
Delírio desta cauda caudalosa,
E quando vejo o rabo a mente goza,
E assim me considero em ti mais pleno,
A cada requebrado um novo aceno,
E toda a sorte em gruta majestosa,
A porta deste inferno aberta posa
Chamando para o jogo, concateno.
E miro o que pudesse destas ancas
Aonde com vontades bem mais francas
Ascendes ao que tanto desejara,
Bendigo a putaria, meu altar
E posso sem temor me dedicar
Sabendo quanto a grana me escancara...
31981
Monstruosas cenas repetidas
E tento vislumbrar a solução
Enquanto as mesmas horas dizem não
Perdendo o que pudessem minhas vidas
E nada do quanto tu duvidas
Deveras novos dias mostrarão
Se tanto se perdesse meu verão
Não vendo solução mortas saídas,
Resisto às tempestades e pudera
Ainda acreditar na primavera
Mergulho no passado e trago a face
Dos vários e temíveis desalentos
Bebendo cada gota destes ventos
Na morte onde a verdade sempre grasse.
31982
O quanto sou decerto mais infame
E teimo contra a fúria desumana
E quanto mais a sorte toma e dana
A sorte noutra sorte não proclame,
Resido no que possa enquanto clame
A morte desvendada ora se explana
E bebo do passado aonde ufana
O corte que deveras já reclame
Audaciosamente eu sobrevivo
E tento ser por certo mais altivo
Embora saiba ser cativo quando
O medo não traduz outro caminho,
E se demônios crio, já me aninho
No porto quando em vão sigo ancorando.
31983
Eu sei que na verdade sendo imundo
Não tenho outra saída e nem tento,
A morte será sempre o meu provento
Enquanto neste intento me aprofundo,
O resto do passado doma o mundo
E teimo com razão quando me invento
E tanto poderia estar atento
E nada se não fosse vagabundo,
Em moribunda face sou medonho
Bacante delirante quando sonho
Não vê quanto é preciso a paz e sangra
Restando ao navegante ao menos a angra
E nela se procura sempre assim
O que restou ainda; vivo em mim.
31984
Não quero grandes gestos, pois heróicos
E tanto na verdade; engano quem
Já sabe do vazio que contém
Iludidos espectros quando estóicos
Dos bólidos gigantes, são eólicos
Os riscos entre festas quanto tem
Corsários navegantes vão aquém
Cruzeiros entre riscos mais bucólicos
Acasos entranhando ocasos toscos
E beijo os meus enganos entre lances
Porquanto no vazio queres, lances
Cenários muitas vezes bem mais foscos
Ecléticos poéticos titânicos
No fundo são decerto mais mecânicos...
31985
Os gritos entre gritas gestam nada
E ao pântano conduzem quando tanto
E sendo assim se ainda me agiganto
Mergulho nesta senda destroçada,
Resumo cada frase na estocada
Aonde me defendo e me levanto
Se eu posso ou se no poço moldo o pranto
Depois de certas horas, desagrada.
A gata parda mostra as presas e unhas
Além do que decerto inda supunhas
E afia com terrores vis promessas,
E sendo mais sutis as suas manhas
Partidas que julgavas todas ganhas
Ao ver os teus enganos já tropeças...
31986
Apenas um despojo e nada mais,
Assim me retratando, um pária eu crio
E tanto poderia em desvario
Mas nada do que penso em terminais
Momentos não seriam desiguais
E neles cada prece, novo fio,
Acende dos demônios o pavio
E beijo as rosas podres e infernais.
Restituída ao fim a minha história
Adentro cada parte desta escória
Que tanto imaginara persistindo
E sei o quanto a morte não existe
E tanto quando eu pude embora triste
Saber do ser humano, podre e findo.
31987
O mundo é verdadeiro e podre esgoto
Não trago as ilusões da juventude
Ainda que pudesse e mesmo eu pude
Que faço se este manto agora é roto?
O tanto quanto pude se vinhoto
O quadro se moldando e se amiúde
Apenas procurando este ataúde
Da sorte se amputada beijo o coto.
Aporto em tais estranhas cercanias
E quanto mais ainda a morte adias,
As heresias tomam o cenário.
Eu rio do que tanto poderia
E nada da verdade em sintonia
Mostrasse além do encanto temerário...
31988
Tragado pelo mundo em terra imunda
Não pude concentrar a força em luta
Aonde não se vence imagem bruta
Enquanto a sordidez amarga inunda,
E navegando em água podre, afunda
O sonho de quem alma fora astuta
E agora com certeza não reluta,
E vê cada faceta mais profunda.
Resulto do que tanto quis outrora
A própria inexistência aonde ancora
O sonho desespera e desampara,
Restando do cadáver ambulante
Velório que decerto se adiante
E o corte profanando a sorte amara...
31989
O tédio entre tristezas e fornalhas
Festivamente toma toda a cena,
E quando a vida traça em luz mais plena
Ainda entre os demônios tu retalhas
As horas se cerzindo nas batalhas
O fardo não transcende enquanto a amena
Perplexa fantasia ao longe acena,
Não vendo nem as sombras das navalhas.
Existo e na verdade isto me basta,
Sarjeta entre bebidas, podres águas
E quando no vazio tu deságuas
Tua alma incoerente, porém casta,
Não vê a minha face decomposta,
Imersa neste esgoto, em plena bosta.
31990
Meus olhos seguem grávidos do medo,
E sei que talvez isso me socorra,
A cama ainda guarda a velha porra
Do tempo em que feliz, nada mais cedo,
Percebo cada etapa em seu enredo,
E nada além do quanto ainda morra
Do sonho sem ter nada, velha borra
Marcando com terror cada segredo.
Na fétida impressão do ser vazio
E tanto quanto posso ainda espio
E vejo dos meus dias mero engodo,
Participando assim do meu velório
O quanto fui; na vida, merencório
Traduz neste pedaço o inerme todo.
31991
Meus olhos encharcados pelo pranto
Ainda que pareça um contra-senso
Falar de tanta coisa que não penso
E mesmo quando vejo já me espanto,
Não pude renegar o tanto quanto
Vivera em ar sombrio e sendo tenso
Mergulho neste vago quando imenso
E bebo até fartar sereia e canto.
Mas inutilidade dita o verso
De quem se faz assim em existência
Negando do caminho coincidência
Ou mesmo procurando outra seara,
Mais fácil é ser comum e ter no sonho
Figura onde mesmo me componho,
E quando em desespero sempre ampara.
31992
Sonhar com outras horas mais tranqüilas
Enquanto acendo assim o meu cigarro
E quando da ilusão eu me desgarro
Porquanto em cenas tétricas desfilas
Renego as velhas lendas e as argilas
Expresso esta vontade a cada esbarro
Do tempo noutro tempo e quando escarro
Teu ódio sem igual não desopilas.
Resquício do que fora alguma farsa
A sorte se mostrando quando esgarça
A rota agora rota e mais puída
No quadro desenhado em tez profana,
Uma alma mais simplória já se engana
E pensa ter nas mãos a própria vida.
31993
Preparo o meu patíbulo porquanto
Renego qualquer forma de heresia,
E sendo a realidade o que se cria
E nela cada fase dita encanto,
Se a voz mais alta tento e até levanto,
Por mais que seja aberto o dia a dia,
Ainda vive em nós a sacristia
E o olhar deste demônio quase santo.
Ecléticos parceiros de um só jogo,
Não quero e não permito em mim um rogo
Pedindo a quem puder se errei demais,
Meus passos na verdade sendo falsos
São meus assumo logo os cadafalsos,
Assim como gerei meus vendavais.
31994
Tu conheces a face do diabo
E quando vês no espelho este retrato
Deveras com terror negando o trato
Enquanto te percebo e assim desabo.
No todo que porfio não acabo
E mesmo que pudesse ao ter um ato
Em discordância tal, teimo e maltrato,
Faltando para tanto chifre e rabo.
Perpetuando o mal que em mim existe,
O dedo aponta sempre e enquanto em riste
Não deixa que se veja nova face,
Ainda renegando esta verdade
Na tétrica figura que degrade,
Realidade sempre dome e grasse...
31995
Não sou somente hipócrita, sou mais.
E finjo que não vejo quem sou eu
No quanto do meu todo se perdeu
Exposto aos meus anseios tão venais,
Assim ao me encontrar entre animais,
Mais animal ainda se verteu
Uma alma deste ser que não ateu
Matando Deus em ritos marginais.
Escusa criatura, nego a cena
E quando a própria vida me envenena
Eu sorvo cada gota com prazer,
Depois venho pedindo a salvação,
Irônica faceta do leão
Que manso gato teima em parecer...
31996
Surgindo após as tantas tempestades
A voz de quem se fez o tradutor
Dos gozos e dos medos, do terror
Rompendo ou mesmo até gerando grades,
Ainda que deveras desagrades
Do tom aonde mostra este cantor
O quanto desta vida em estupor
Pudesse ter mil sonhos e verdades,
Poeta ou escritor, mero fantoche
Que adentra pela insânia ou no deboche
Arranca dos seus ermos, viscerais
Momentos entre tantos risos, prantos,
E tenta traduzir com torpes mantos
Os dias sempre insanos, desiguais...
31997
Num mundo enfastiado em tez profana
A carne sobrepõe-se plenamente
E embora muitas vezes tanto mente
Que até sua verdade mesmo engana,
A ponte se criando em voz humana
Não deixa outro momento em que se assente
A fúria de um tormento que apascente
Nem mesmo a dor da qual por tanto ufana,
Aplausos e ironias, sem claquete
O todo noutro tanto se repete
E assim interminável poesia.
Que quanto mais desnuda, fere e ri,
E tendo este universo inteiro aqui,
Mais outro na verdade, uma alma cria.
31998
Blasfêmias entre falsos e verdades,
Assisto ao que não pude e nem pudera
Alimentando em mim, ternura e fera,
As cordas arrebento quando invades
E tanto ainda insana teimas, brades
Navega com terror a primavera
E sei da inconsistência da quimera
Tampouco desfiando qualidades.
Medonho caricato espelhos trago
De uma alma em sordidez e se me estrago
Degrado com ternura em falsa luz,
A voz que amaciara ou te iludira
Agora se retalha e em cada tira,
Expondo meramente a dor e o pus.
31999
Crispando o meu olhar neste horizonte
Renego qualquer fonte e mato quando
O tempo noutro tanto se nublando
Apenas o vazio ainda aponte,
E mesmo que outro tempo já desponte,
No quanto desaponta em ar nefando,
A morte se tecendo e desvendando
Negando para a sorte nova ponte,
Esgarço em versos vagos outros tantos
E beijo com furor os desenganos,
Pudesse atear fogo nestes panos,
E os mortos que carrego, sem espantos
Mas pútrida verdade nega o fato
Aonde fielmente eu me retrato.
32000
Não quero a piedade nem tampouco
Apenas a mortalha que me dás
E nada do que possa ainda a paz
Gerando em mim diverso e sonso louco.
O quadro que se tece sendo pouco
E a carne mostra a fúria mais audaz,
Edênico caminho à Satanás
E se pareço insano ou me treslouco,
Risível caricato quando rezas
E tudo que não queres e desprezas
Perece com teu ódio, ser imundo.
Negar a própria sorte; falsifica
A imagem do que tanto agora implica
Num ser em alma podre, um vagabundo
PARA TANTOS, PRINCIPALMENTE MARCOS GABRIEL, MARCOS DIMITRI E MARCOS VINÍCIUS. MINHA ESPERANÇA. RITA PACIÊNCIA PELA LUTA.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
quarta-feira, 5 de maio de 2010
31891 até 31940
31891
No parto que enfrentei, resta placenta,
Assim como nos sonhos nada existe
E a vida se apontando sempre em riste
Invés de calmaria diz tormenta,
Pudesse ter a sorte em que se alenta
O passo mesmo quando este persiste
Vencendo o coração embora triste
Mudando a direção enquanto venta.
Resisto por pensar em algum porto
Embora o sentimento quase morto
Transcende ao que seria mais tranqüilo
E assim entre o não ser e não poder,
Aos poucos passo mesmo a recolher
As sobras deste sonho em que desfilo.
31892
Nas cartas que não fiz, parca e megera
Verdade expondo a face mais cruel
E quando o mundo fosse um carrossel
Valendo sempre assim qualquer espera,
Mas logo o meu caminho destempera
E gera após o nada novo céu
Bebendo cada gole do teu fel,
O corte propagado dita a fera.
Resumo do que um tempo fora mais
E agora entre tormentas, farsas tantas
E nelas tu também já desencantas
Rasgando dos meus sonhos os jornais,
E acordo sem notícias, sem memória,
Quem sabe ali resuma a minha glória.
31893
Nos altos dos meus sonhos, ledos cúmulos
Tomando este horizonte, sol ausente,
E assim a própria vida me pressente
Ao fim de toda história simples túmulos,
E quando mais os medos se acumulam
As sortes não traçadas pelo sonho
Moldando bem diverso o que proponho
Nem mesmo as esperanças mais adulam
E o vândalo terror tomando os olhos
De quem ao semear pudesse crer
Num dia bem melhor e florescer
Além dos mais comuns e vis abrolhos,
Daninhos passos rumo ao nada, eu vejo
E assim dilapidando algum desejo...
31894
Homúnculos vestidos de quimera
Arfantes tempestades, vagos sonhos
E tantos dias mortos e bisonhos,
Aonde poderia a primavera
E quando a própria sorte degenera
Moldando os descaminhos que medonhos
Explodem em terrores e tristonhos
Adentram corações, imensa fera,
Residem nos meus dias outros tantos
Arcando com engodos, desencantos
Espanto-me se eu vejo outro cenário,
E tento navegar em mar imenso
E a cada novo dia me convenço
Do quanto o mar se fez mais temerário.
31895
Nas catedrais silentes de minha alma
Reféns dos sonhos trago as ilusões
E quando nelas dias vãos expões
Nem mesmo a solidão ainda acalma
E o pendular caminho dita a palma
E tento convencer com emoções
Diversas das que tanto nos verões
Gerassem muito além de simples trauma.
Riscando deste mapa cada farsa,
E a noite se mostrando mais esparsa
As graças e delírios de um passado
Jogado nos vazios da lembrança
E quando a própria morte enfim me alcança,
Momento a ser em paz comemorado.
31896
Não pude nem conheço nascer sol
Nem mesmo uma alvorada se desnuda
Aonde a vida eu vejo então miúda
As nuvens recobrindo em gris lençol
O mundo que pensara ser de escol
Aos poucos alma quieta morta e muda
Não tendo da esperança alguma ajuda
Isola-se qual fora algum atol.
E tudo se repete; é sempre igual,
A porta que pensara agora aberta
Aos poucos qualquer rumo se deserta
E o medo se tornando triunfal,
Trituro cada sonho neste não,
E preso não encontro um novo chão.
31897
Persigo meus defeitos de onde venho,
E sinto se esvaindo uma esperança
E quando no vazio a voz alcança
Deixando como morto algum empenho,
Mergulho no que tanto inda contenho
E o resto de uma sombra em aliança
Amortalhando a vida já me lança
Penhascos mais diversos e me lenho.
Legado ainda vivo em cada ausência
Não peço, por culpado ser, clemência
Apenas vou cumprindo esta sentença
A morte será sempre abençoada,
E dela cada frase desvendada
Da sua utilidade me convença.
31898
Vasculho em minha cama, nem lençol,
Aonde em sedas tive as ilusões
No fundo ao enfrentar tantos tufões
Ausente dos meus olhos qualquer sol,
E ainda que lutasse agora em prol,
Diversas as fatais conotações
E nelas estas vis anotações
Marcando com terror átomo e mol.
Melhor seria ter ainda em mim
O que pensara ser qualquer jardim
E agora em aridez vejo o deserto,
O peito sonhador exposto à flecha
Dos sonhos e delírios sequer mecha
Caminho para além jamais aberto.
31899
Vasculho nos meus bolsos, nada tenho
Nem mesmo a chave aonde algum segredo
Que tanto quanto posso não concedo
E deixa para trás qualquer empenho,
Fechando da esperança logo o cenho,
Nos ermos do meu mundo eu enveredo
E sei que qualquer tempo ainda é cedo
E vivo muito além do que eu convenho,
Velhusco camarada da sombria
Noturna e terrível melodia
Não posso mais sonhar, ah quem me dera,
Agora com os olhos no futuro
E vendo este horizonte turvo e escuro
Apenas a mortalha inda se espera...
31900
A noite no meu norte se desaba
E nada de amanhã, nova viagem
A vida não se fez qualquer miragem
E tudo o que eu sonhara agora acaba.
Palácio da ilusão é mera taba,
Porquanto não segura esta barragem,
A cada novo dia outra abordagem,
Dos tempos mais felizes, não se gaba
Quem tenta ver cenário mais audaz
E sabe do que ainda não se faz
Distando dos meus olhos a alegria.
Mergulho neste vão e vivo aquém
Do quanto em poesia já contém
Quem tanto com ternura e em luz se guia...
31901
Quem sabe sorriria para a morte,
Aliviando a dor de quem padece
E nada do que tanta dita a messe
E a vida com terror sempre mais corte,
Não posso contornar qualquer aporte
E vejo que o passado ainda tece
A fúria onde jamais nada amortece
Somente esta ilusão inda comporte
O vento na janela, meu momento
Aonde por descuido me apascento
E volta e meia sonho, sendo assim,
O quanto inda demore é sofrimento
E se deveras sonho ou mesmo tento
A glória redimindo no meu fim...
31902
A dívida que tenho nunca acaba
E sei que é interminável esta senda
Aonde nem o sonho mais se atenda
E toda a fantasia não se gaba
Do vento que devora e ainda trava
O passo de quem tenta ser feliz,
Pudesse caminhar, mas por um triz,
A sorte noutro não se alinhavava,
E o vandalismo escorre em cada olhar
Nos dedos entre sangue, morte e riso,
Assim o meu caminho se impreciso
Não tendo onde deveras aportar
Esboça a realidade de quem teima
Enquanto o dia a dia, toma e queima...
31903
Cáspite! Merecia melhor sorte
Quem tanto procurara um ar suave,
Mas quando a realidade sempre agrave
O passo condenando logo à morte,
O corte se traduz em novo norte,
E a cada caminhar imensa trave,
Porquanto o coração ditando a nave,
Não tendo nem aonde quer e aporte,
Ferrenhas ilusões, nefastos dias,
E assim entre temores e heresias
Não resta-me senão saber do fim,
O peso do viver já não comporto.
Nem mesmo outro cenário enfim suporto,
Refém do desespero, morro assim...
31904
O fogo vem subindo em minhas vestes
E nada que inda possa em paz fazer
O quanto desairoso algum querer
E nele com terror ainda investes
E quando desta dor inda revestes
O mundo perfilado em desprazer,
O todo noutro pouco pude ver
Solares emoções tempos agrestes.
Alvissareiro canto não escuto
E o tempo se mostrando em pleno luto,
Reluto e até refugo, mas não creio
Possível qualquer sonho se o que resta
Transcende à própria vida que é funesta
Gerando invés de paz outro receio.
31905
Os prêmios que perdi, paguei dobrado
E os juros sobre juros, tanta vez
Mostrando quanto a vida já desfez
Do que pensara ser novo chamado,
E tendo o desespero por legado
No olhar que ainda trago, estupidez
Aonde poderia em cupidez,
Mas rispidez em solo mal cuidado,
Esgarçam-se esperanças quando tento
Buscar ao fim da tarde algum alento
E o vento dissipando o que pudesse
Traçar nova alegria, mesmo quando
O sonho vira aos poucos desmanchando
Enquanto esta mortalha a morte tece...
31906
Rasgado pelas garras desta peste
O quanto desta fera existe em mim
E tanto poderia ser assim
Se o mundo noutro tanto ainda investe
O corte se profana enquanto deste
Imenso turbilhão chegando ao fim
E o vendaval acende este estopim
E nele todo o medo se reveste,
Anseio por momento feito em paz
E quanto mais a fome é tão mordaz
Escancarando o peito aos mais doridos
Caminhos entre tantos escolhidos
Resisto e não encontro ainda mais
O que pudesse ser quem sabe o cais.
31907
Mereço ter meu mundo estropiado,
E sei das garras, presas, duras, fartas
E quando deste encanto me descartas
O mundo sem sentir rodopiado
E tanto poderia de bom grado
Sanar as ilusões expondo as cartas,
Porém quando ao vazio ainda partas
Não deixas nem a sombra por legado;
Riscando cada verso nada mais
Do todo que pudesse ser uma obra
Aos poucos toda ausência vem e cobra
Descubro entre os sorrisos e cristais
Peçonhas do vazio aonde um dia
Gerara com ternura a poesia...
31908
O lobo me devora na floresta
Atocaiada fera não tem pena
E quando a minha vida quis serena
Apenas o vazio ainda resta,
A fenda aberta expande e em grande fresta
Mortalha sem defesas ora acena
A lua se deitando imensa e plena,
Nem mesmo a fantasia ainda empresta
A luz que se irradia nada vale
E quando tanto medo me avassale
Esboço algum sorriso, engano ledo,
Pereço enquanto busco solução
O preço de sonhar é negação
E pago quando em dor tenaz procedo.
31909
A vista que me deixa, fica turva
E quase não percebe esta seara
Aonde a poesia desampara
E a sorte se perdendo a cada curva,
E nada do que tanto poderia
Traçar outro caminho em meio ao nada,
Gerando com terror a velha estrada
Na cena que pressinto agora fria,
Verás apenas isto e nada além,
O mundo com terror já não convém
A quem se pensaria mais feliz,
Pressinto assim o fim do velho jogo
O amor não caberia qualquer rogo,
Porquanto a realidade contradiz...
31910
A morte se prepara para a festa
E ainda não prepara a vestimenta
No quanto uma alegria já se ausenta
O medo de sonhar, o que nos resta,
Aprendo com o quanto não se gesta
Do pouco que deveras me alimenta
E nada do passado ainda alenta
A morte com ternura, em plena fresta;
Fadado ao não ser mais do que podia
Aos pés do que sonhei, falsa alegria
Funéreo golpe eu sinto em minhas costas,
Pontadas entre lágrimas e risos,
Os dias mais doridos e imprecisos
Aqueles em que as sortes são expostas.
31911
Espero pela dor depois da curva,
E sei do canivete faca adaga
E quando a poesia ainda afaga
A noite não seria assim tão turva
E faço do poema meu diário
E tanto quanto posso eu me desnudo
Ao mesmo tempo finjo que sou tudo
Enquanto o nada ser é necessário.
Negatoscópio aonde eu me revelo
Ou mesmo outro planeta onde desvendo
O que não mais seria algum adendo
Porquanto sendo imundo se faz belo,
Qual fora um vício, abismo e precipício
Do verso meu refúgio em ócio e ofício.
31912
Apelos que eu já fiz, desesperados,
Arcando com engodos e mentiras
E quando exposto assim em ledas tiras
As velhas colchas dizem dos traçados
Moldados em retalhos destroçados
E deles as verdades tu retiras,
E sei que quanto mais queres, prefiras,
Os riscos de viver serão iguais,
Se os versos que ora faço são banais
Ou mesmo ainda tocam com ternura
Não sendo esta verdade a minha ou tua
Enquanto este bufão, desnudo atua
A sorte a cada não mais se amargura...
31913
Não sou metade nunca tive um meio
Tampouco poderia ser diverso
Se ainda tenho em mim potência em verso
Não posso acreditar no que incendeio
E vejo cada passo mais alheio
E tento desvendar este universo
Falando deste nada aonde eu verso
Colhendo cada flor, puro receio,.
Rastejo como a serpe em prado e campo,
E quando no infinito ainda acampo
Relâmpagos bebendo com furor,
A poesia é morta e não reage
Apenas do eu tanto quis o ultraje
Reveste o que inda resta com rancor.
31914
Castelos de princesas desabados
E sapos com aspectos mais terríveis
Assim os sonhos todos perecíveis
E as sortes noutros tantos alambrados,
Não posso mais ouvir deveras brados
Tampouco concentrar em novos níveis
Os dias que eu bem sei tanto falíveis
Momentos mais sutis erradicados,
Cangalha pesa tanto e quando a trago,
A sina se deslinda em tal estrago
E pago com o fim as minhas cruzes,
Já não me importa flores, colibris,
Do quanto ainda vês e sempre ris,
Revejo a cada dia velhas urzes.
31915
Só sei deste meu nada em nada creio,
E por ser quase cético eu mergulho
Sem ter sequer saber de pedregulho
E nada poderia ser receio
Aonde com terror tento o recreio
E não consigo mais, se eu sou entulho,
O mar sonega agora seu marulho
E o medo de viver ora rodeio,
Negar a minha história é como crer
No quanto vou sentindo esvaecer
O pouco que restara do que fora,
Soneto após soneto e ninguém lê
O mundo para mim sem ter por que
Palavra ensimesmada e redentora...
31916
As pernas nunca marcham em atrozes
Caminho feito em pedras e terrores
Ainda que se plantem sonhos, flores,
Os dias de outros dias são algozes,
Mesquinhas com certeza velhas vozes
E buscam te seguir por onde fores
Usando das palavras, dissabores,
Momentos solitários são ferozes.
Esqueço do meu nome, busco ainda
Outra notícia vaga em noite infinda
E quando nada vem, somente o não,
Açoda-me o temor de já ter sido
Há tanto pelos tempos esquecido,
Teimando em ver real situação.
31917
Quem fora simplesmente esse menino,
Que agora ao se mostrar noutro caminho
Ainda se perceba mais sozinho
E tenta outra mortalha; porém deste hino
Aonde imaginara outro destino
Não teve soluções, e o velho vinho
Agora avinagrado, de mansinho
Resulta no passado e não domino.
O pendular viver é traiçoeiro
E quando deste nada ainda inteiro
O pouco ainda resta, mas resisto,
E sendo solidária esta ilusão
O quanto do que ainda resta em vão
Num mote costumeiro, tento e insisto.
31918
As portas da saudade são ferozes
E nada deixam ver senão meus restos,
Mergulho nestes vãos duros, funestos
E tento dos meus sonhos novas fozes.
Exposto ao que pudessem noutras doses
Momentos maviosos? ‘Stão infestos
Dos tantos e inviáveis mortos. Gestos
Medonhos traduzindo nossas vozes.
Resisto o quanto posso, mas eu sei
Da invariável sorte, dura lei
Da qual e pela qual ainda existe
Um frágil andarilho dentro em mim,
Mas nada me amordaça e sigo ao fim,
O coração exposto e sempre em riste.
31919
Nos pontos de partida, sem destino
Pensando na chegada inalcançável
O passo que percorro imaginável
Levando ao descaminho e me alucino,
Pudesse reviver dobrar de sino,
Veria quanto o tempo é mais findável
Numa ânsia com certeza interminável
O ser e não poder logo imagino.
Esgoto minhas forças e exaurido
O ponto de chegada resolvido
No olvido cada fase que passara,
Refém deste futuro inatingível
O tempo sendo sempre perecível
A solução deveras se fez rara.
31920
Gargalha a gralha rindo-se histriônica
E vê o quanto fomos indigentes,
Os olhos se perderam noutras gentes
A vida se mostrara desarmônica
Aonde quis festiva e fora hedônica
Envolto nos deslumbres dos dementes,
Pudera acreditar, mas entrementes
A morte dominando cada tônica.
Palavra sempre em vão, vagando só,
O todo desfazendo cada nó
E o peso da esperança insuportável
Pensando num momento ainda em paz
O resto se demonstra e já desfaz
Cenário que ora vejo é deplorável.
31921
Nas costas tanto peso, lenhos, cruzes;
No quanto a vida traz já retratado
No espelho de minha alma o meu passado
Aonde a cada não tu reconduzes
Meticulosamente sei das urzes
E vejo o quanto em fúria foi negado,
O sonho novamente amarrotado
Cenário em barricadas, vis obuses.
Assim ao mergulhar neste reflexo
Percebo quanto a vida não tem nexo
E atento às minhas rugas, fugas nego,
E sei o quanto vejo envilecido
Marcando a minha face cada olvido,
Seria bem melhor hoje estar cego.
31922
A franja da ilusão raspando irônica
Tocando cada sonho ou pesadelo
Aonde poderia com desvelo
Viver outra emoção, mesmo sincrônica
A dor se transformando e agora crônica
Caminho não consigo mais contê-lo
E sei e pago tanto por sabê-lo
Da morte a cada falso, cena agônica.
E assino com meu sangue a frase inteira
Quem tanto me acalanta, traiçoeira
A porta não se abrindo realmente.
O vento assola assim meu pensamento
E tanto libertário me acorrento
Enquanto a fantasia ainda mente.
31923
No meu quintal brotando tais urtigas
E tantos espinheiros; das daninhas
Imagens que deveras já continhas
Em cenas tão terríveis quanto amigas.
E quando com teus nãos tu desabrigas
Quem sonha com palavras belas, minhas
No todo erguendo os olhos, mas não vinhas
Sangrias costumeiras e prossigas.
Extintas emoções, momento vago,
E sendo costumeira uma ilusão
Ainda sendo em mim pleno verão
Do inverno, minha herança, eu já me alago.
31924
A morte me namora e me cobiça
E a cada instante eu sinto esta presença
Porquanto a solidão se fez imensa
A vida se mostrara movediça.
Cansado com certeza desta liça
Não tendo no final a recompensa
Do quanto poderia, mas não pensa
Uma alma sem ternura e tão mortiça.
Recolho cada parte e tento ainda
Unir cada metade noutro tanto,
Mas vejo tão somente o desencanto
Aonde a realidade já deslinda,
Ansiosamente um dia quis feliz
O que cada momento contradiz.
31925
A vida sempre deixa um cruel trevo
Encruzilhadas tantas negam rumo,
E quando algum engano ainda assumo,
Não sei por qual caminho posso e devo,
A senda se mostrara e quando atrevo
Do todo nada resta nem o sumo,
E tanto poderia, mas me esfumo
Jamais o pensamento foi longevo.
E assim ao me mostrar inteiramente
A vida noutro tanto teima e mente,
E arisco caminheiro nada vejo.
Mortalha que se tece dia a dia,
Ainda bem distante poesia
Matando o que pudesse ser desejo.
31926
A ponte que me deste, levadiça,
A podre face exposta da verdade
E quanto mais ainda tente e brade
O medo se mostrando ainda viça
E o resto do que eu fora em vida omissa
Partindo do começo, ora degrade
O pantanal imenso que me invade,
Já sabe desta escória, vã premissa.
O peso do sonhar não mais comporta
A morte abrindo aos poucos cada porta
Porquanto me isolasse, nada sou,
Mergulho em brumosa noite vã
E tento adivinhar cada manhã
Somando este flagelo que restou.
31927
Sorrateira manhã que não atrevo
Nem mesmo poderia sendo assim
O resto dominando tudo em mim,
Ainda poderia ser longevo?
O quanto do passado ora descrevo
Usando do meu verso até que enfim,
Aceso desde sempre este estopim
Negando cada sonho onde me atrevo;
Esgarço com palavras o meu sonho
E quando ao que pudesse inda proponho
Não passa de nefasta face enquanto
Meu mundo totalmente destroçado
Ainda sou a sombra de um passado
E vendo o meu retrato eu já me espanto.
31928
Mordes-me com as presas afiadas
E arrancas mil pedaços quando ris
E ainda refazendo a cicatriz
Em novas faces mesmas desvendadas
No quanto poderia em disfarçadas
Expressas o quanto em fúria diz
Gerando a cada instante outro infeliz
E assim recomeçando as alvoradas;
Negando cada sorte em má ventura
O todo retratando a vã procura
Esgotam-se vontades no vazio,
E o frasco arrebentado mostra o quanto
De mim já se tornara outro quebranto
E mesmo sendo inútil, desafio.
31929
Os sons se repetindo em meus ouvidos
Traduzem velhas vozes do passado
O fogo há tanto tempo relembrado
Enquanto novos dias repartidos.
Servindo para quem dita os olvidos
O tempo nunca fora abençoado,
Amar mero fantasma desmembrado
Tocando com terror os meus sentidos,
Medonho e demoníaco caminho
E quando no não ser eu me avizinho
A fome toma conta e em nada creio.
Peçonhas espalhadas pelo vento,
Ao menos escapar por vezes tento,
E sei que não passara de um anseio.
31930
Apenas ao maior dos pesadelos
Ausência do querer que tanta vez
Levara à mais completa insensatez
Momentos tão difíceis de revê-los
O amor quando entranhando em raros zelos
E nele cada parte que se fez
Diversa da que ainda mesmo vês
Moldada pelos nãos, duros desvelos,
Assim ao me entregar sem ter respostas
As faces dos desejos decompostas
As horas não puderam traduzir
O quanto desejei e nada existe
Uma alma solitária segue triste
Buscando não sei onde algum porvir.
31931
Passando pela rua uma alma vã
Noturna melodia em tanta dor,
Dos sonhos se pudesse num andor
Traçar com novo brilho outra manhã
A morte renegando um amanhã
A quem pudesse ter ainda amor
E sendo assim eterno sofredor,
A cena que se vê sempre é malsã.
Resumo de uma vida enlouquecida
E tanto quis amar, mas despedida
A sorte se fizera traiçoeira,
Na ausência de esperança, sigo ausente,
Porquanto a fantasia se apresente,
Do todo que eu sonhei nada se inteira.
31932
Abençoados são aqueles que
No amor e na alegria tecem vidas,
Enquanto as minhas horas já perdidas
Apenas o vazio se revê,
E o quanto se pudesse sem se crê
Aonde as esperanças tão fingidas,
Nefastas realidades são urgidas
No quadro mais insólito e se vê
Amordaçado sonho de quem tenta
Vencer em calmaria esta tormenta
Alheio ao que jamais inda pudera
Alimentando assim a solidão,
Os dias do futuro mostrarão
Apenas retratada em mim, quimera...
31933
Meus dias são assim desventurados
E quando se aproxima o fim da tarde
Ainda que o terror pouco retarde
Momentos com certeza mais nublados,
E os dias esquecidos e passados
Ao lado de quem tanto em sonhos arde
A morte muitas vezes mais covarde
Reféns destes vazios, e vendados
Os olhos não percebem no horizonte
Nem mesmo um sol imenso que se aponte,
E sigo este noturno caminhar,
Pudesse ter ainda esta impressão
Embora saiba ser mera ilusão
Já que matei há tanto o meu luar...
31934
O quanto desejava um belo sonho
E ter ainda a chance de sonhar,
Mas quando a vida volta ao seu lugar
Retrato que ora vejo, o mais tristonho,
E quando algum cenário bom componho,
Imensa tempestade a me tocar,
Ausência de esperança a nos tomar
Meu canto se repete em enfadonho
Tormento aonde tento e inda persigo,
Porquanto não restara um só abrigo,
Eu teimo contra a fúria da estação
Inverno se tornando eterno e duro
Num céu demasiado amargo e escuro
Nem mesmo algum sinal de outro verão.
31935
A dor que ainda trago, sendo imensa
Já não se cala mais e adentra fundo,
E quando destas trevas eu me inundo
Não tendo quem da luz inda convença
A sorte se tramando em noite tensa
Restando ao sonhador um novo mundo,
Mas sei que o coração se é vagabundo
Qualquer réstia se torna mais intensa.
Não pude controlar os meus anseios
E bebo dos vazios sem rodeios,
Alheio ao que talvez pudesse ser
Maior ou mesmo além do nada enquanto
O mundo se tornando em turvo espanto
Renega qualquer forma de prazer...
31936
Espadas que me cortam são sinais
Destes momentos tolos onde eu quis
Vencer cada temor e ser feliz
Ainda que eu bem saiba ser jamais
O tanto onde pudera ou mesmo mais
Negando qualquer sorte, ausente bis
Galgando cada espaço, por um triz
Morrendo sem ternura, em abissais.
Não pude com certeza adivinhar
Momento em que pudesse me entregar
Sangrando em cada poro e sendo assim
O tempo renegando uma esperança
Amor amortalhado na lembrança
Traduz a cada ausência mais o fim.
31937
Pudesse deste amor, saber vacina
E mesmo quando em plena febre ou dor
Vencesse com ternura tal torpor
Que tanto quanto pode me domina,
Mas sendo sonhador, eis esta sina
Tentando novamente recompor
Um mundo aonde exista qualquer flor,
E nela novo tempo determina
Assaz maravilhosa noite enquanto
Realidade mostra em contracanto
O desencanto vário e doloroso,
Pudesse amar e ter a recompensa,
Mas quando não tem cura tal doença
O fim já se aproxima em medo e gozo.
31938
Amor saltando o muro desta casa
Não deixa sequer rastro quando passa,
E tanto se mostrando em vã fumaça
Apenas num momento mera brasa,
A sorte se inda existe já se atrasa
E não desejo ser somente a caça
Risonha fantasia segue escassa
Nem mesmo uma ilusão ainda embasa
E tudo se desaba num momento
E quando alguma sorte teimo e tento
Atento ao que não tenho sigo em frente.
Porquanto se apresente este cenário
Enquanto doloroso e temerário
Traduz qual a esperança uma semente...
31939
As cordas da viola arrebentadas
As ondas deste mar se sossegando
Aonde quis tempesta o mundo é brando
As noites entre estrelas decoradas,
Mas vejo noutras cenas retratadas
Imagens deste tanto que é nefando
E beijo o teu cadáver desde quando
As horas se perderam, vãs estradas.
Resíduo do que fora outrora messe,
E quando o meu caminho recomece
Percebo quanto inúteis foram cenas
Acendo o meu cigarro e mais trago
Da morte com certeza raro afago,
As incertezas sempre foram plenas...
31940
Fechando este portão por onde entrava
A sorte de quem tanto quis sorriso,
E ainda que este tempo é mais conciso,
Rondando o pensamento não se lava
Seara costumeira mesmo escrava
Perdendo com certeza algum juízo,
No fim não restará mais prejuízo
Enquanto o dia a dia sempre agrava.
E sei desta burguesa face aonde
A pura hipocrisia já se esconde
E traça com perfumes importados
Venenos em peçonhas mais atrozes,
E sendo assim diversas, mesmas vozes,
Os riscos sempre foram calculados...
No parto que enfrentei, resta placenta,
Assim como nos sonhos nada existe
E a vida se apontando sempre em riste
Invés de calmaria diz tormenta,
Pudesse ter a sorte em que se alenta
O passo mesmo quando este persiste
Vencendo o coração embora triste
Mudando a direção enquanto venta.
Resisto por pensar em algum porto
Embora o sentimento quase morto
Transcende ao que seria mais tranqüilo
E assim entre o não ser e não poder,
Aos poucos passo mesmo a recolher
As sobras deste sonho em que desfilo.
31892
Nas cartas que não fiz, parca e megera
Verdade expondo a face mais cruel
E quando o mundo fosse um carrossel
Valendo sempre assim qualquer espera,
Mas logo o meu caminho destempera
E gera após o nada novo céu
Bebendo cada gole do teu fel,
O corte propagado dita a fera.
Resumo do que um tempo fora mais
E agora entre tormentas, farsas tantas
E nelas tu também já desencantas
Rasgando dos meus sonhos os jornais,
E acordo sem notícias, sem memória,
Quem sabe ali resuma a minha glória.
31893
Nos altos dos meus sonhos, ledos cúmulos
Tomando este horizonte, sol ausente,
E assim a própria vida me pressente
Ao fim de toda história simples túmulos,
E quando mais os medos se acumulam
As sortes não traçadas pelo sonho
Moldando bem diverso o que proponho
Nem mesmo as esperanças mais adulam
E o vândalo terror tomando os olhos
De quem ao semear pudesse crer
Num dia bem melhor e florescer
Além dos mais comuns e vis abrolhos,
Daninhos passos rumo ao nada, eu vejo
E assim dilapidando algum desejo...
31894
Homúnculos vestidos de quimera
Arfantes tempestades, vagos sonhos
E tantos dias mortos e bisonhos,
Aonde poderia a primavera
E quando a própria sorte degenera
Moldando os descaminhos que medonhos
Explodem em terrores e tristonhos
Adentram corações, imensa fera,
Residem nos meus dias outros tantos
Arcando com engodos, desencantos
Espanto-me se eu vejo outro cenário,
E tento navegar em mar imenso
E a cada novo dia me convenço
Do quanto o mar se fez mais temerário.
31895
Nas catedrais silentes de minha alma
Reféns dos sonhos trago as ilusões
E quando nelas dias vãos expões
Nem mesmo a solidão ainda acalma
E o pendular caminho dita a palma
E tento convencer com emoções
Diversas das que tanto nos verões
Gerassem muito além de simples trauma.
Riscando deste mapa cada farsa,
E a noite se mostrando mais esparsa
As graças e delírios de um passado
Jogado nos vazios da lembrança
E quando a própria morte enfim me alcança,
Momento a ser em paz comemorado.
31896
Não pude nem conheço nascer sol
Nem mesmo uma alvorada se desnuda
Aonde a vida eu vejo então miúda
As nuvens recobrindo em gris lençol
O mundo que pensara ser de escol
Aos poucos alma quieta morta e muda
Não tendo da esperança alguma ajuda
Isola-se qual fora algum atol.
E tudo se repete; é sempre igual,
A porta que pensara agora aberta
Aos poucos qualquer rumo se deserta
E o medo se tornando triunfal,
Trituro cada sonho neste não,
E preso não encontro um novo chão.
31897
Persigo meus defeitos de onde venho,
E sinto se esvaindo uma esperança
E quando no vazio a voz alcança
Deixando como morto algum empenho,
Mergulho no que tanto inda contenho
E o resto de uma sombra em aliança
Amortalhando a vida já me lança
Penhascos mais diversos e me lenho.
Legado ainda vivo em cada ausência
Não peço, por culpado ser, clemência
Apenas vou cumprindo esta sentença
A morte será sempre abençoada,
E dela cada frase desvendada
Da sua utilidade me convença.
31898
Vasculho em minha cama, nem lençol,
Aonde em sedas tive as ilusões
No fundo ao enfrentar tantos tufões
Ausente dos meus olhos qualquer sol,
E ainda que lutasse agora em prol,
Diversas as fatais conotações
E nelas estas vis anotações
Marcando com terror átomo e mol.
Melhor seria ter ainda em mim
O que pensara ser qualquer jardim
E agora em aridez vejo o deserto,
O peito sonhador exposto à flecha
Dos sonhos e delírios sequer mecha
Caminho para além jamais aberto.
31899
Vasculho nos meus bolsos, nada tenho
Nem mesmo a chave aonde algum segredo
Que tanto quanto posso não concedo
E deixa para trás qualquer empenho,
Fechando da esperança logo o cenho,
Nos ermos do meu mundo eu enveredo
E sei que qualquer tempo ainda é cedo
E vivo muito além do que eu convenho,
Velhusco camarada da sombria
Noturna e terrível melodia
Não posso mais sonhar, ah quem me dera,
Agora com os olhos no futuro
E vendo este horizonte turvo e escuro
Apenas a mortalha inda se espera...
31900
A noite no meu norte se desaba
E nada de amanhã, nova viagem
A vida não se fez qualquer miragem
E tudo o que eu sonhara agora acaba.
Palácio da ilusão é mera taba,
Porquanto não segura esta barragem,
A cada novo dia outra abordagem,
Dos tempos mais felizes, não se gaba
Quem tenta ver cenário mais audaz
E sabe do que ainda não se faz
Distando dos meus olhos a alegria.
Mergulho neste vão e vivo aquém
Do quanto em poesia já contém
Quem tanto com ternura e em luz se guia...
31901
Quem sabe sorriria para a morte,
Aliviando a dor de quem padece
E nada do que tanta dita a messe
E a vida com terror sempre mais corte,
Não posso contornar qualquer aporte
E vejo que o passado ainda tece
A fúria onde jamais nada amortece
Somente esta ilusão inda comporte
O vento na janela, meu momento
Aonde por descuido me apascento
E volta e meia sonho, sendo assim,
O quanto inda demore é sofrimento
E se deveras sonho ou mesmo tento
A glória redimindo no meu fim...
31902
A dívida que tenho nunca acaba
E sei que é interminável esta senda
Aonde nem o sonho mais se atenda
E toda a fantasia não se gaba
Do vento que devora e ainda trava
O passo de quem tenta ser feliz,
Pudesse caminhar, mas por um triz,
A sorte noutro não se alinhavava,
E o vandalismo escorre em cada olhar
Nos dedos entre sangue, morte e riso,
Assim o meu caminho se impreciso
Não tendo onde deveras aportar
Esboça a realidade de quem teima
Enquanto o dia a dia, toma e queima...
31903
Cáspite! Merecia melhor sorte
Quem tanto procurara um ar suave,
Mas quando a realidade sempre agrave
O passo condenando logo à morte,
O corte se traduz em novo norte,
E a cada caminhar imensa trave,
Porquanto o coração ditando a nave,
Não tendo nem aonde quer e aporte,
Ferrenhas ilusões, nefastos dias,
E assim entre temores e heresias
Não resta-me senão saber do fim,
O peso do viver já não comporto.
Nem mesmo outro cenário enfim suporto,
Refém do desespero, morro assim...
31904
O fogo vem subindo em minhas vestes
E nada que inda possa em paz fazer
O quanto desairoso algum querer
E nele com terror ainda investes
E quando desta dor inda revestes
O mundo perfilado em desprazer,
O todo noutro pouco pude ver
Solares emoções tempos agrestes.
Alvissareiro canto não escuto
E o tempo se mostrando em pleno luto,
Reluto e até refugo, mas não creio
Possível qualquer sonho se o que resta
Transcende à própria vida que é funesta
Gerando invés de paz outro receio.
31905
Os prêmios que perdi, paguei dobrado
E os juros sobre juros, tanta vez
Mostrando quanto a vida já desfez
Do que pensara ser novo chamado,
E tendo o desespero por legado
No olhar que ainda trago, estupidez
Aonde poderia em cupidez,
Mas rispidez em solo mal cuidado,
Esgarçam-se esperanças quando tento
Buscar ao fim da tarde algum alento
E o vento dissipando o que pudesse
Traçar nova alegria, mesmo quando
O sonho vira aos poucos desmanchando
Enquanto esta mortalha a morte tece...
31906
Rasgado pelas garras desta peste
O quanto desta fera existe em mim
E tanto poderia ser assim
Se o mundo noutro tanto ainda investe
O corte se profana enquanto deste
Imenso turbilhão chegando ao fim
E o vendaval acende este estopim
E nele todo o medo se reveste,
Anseio por momento feito em paz
E quanto mais a fome é tão mordaz
Escancarando o peito aos mais doridos
Caminhos entre tantos escolhidos
Resisto e não encontro ainda mais
O que pudesse ser quem sabe o cais.
31907
Mereço ter meu mundo estropiado,
E sei das garras, presas, duras, fartas
E quando deste encanto me descartas
O mundo sem sentir rodopiado
E tanto poderia de bom grado
Sanar as ilusões expondo as cartas,
Porém quando ao vazio ainda partas
Não deixas nem a sombra por legado;
Riscando cada verso nada mais
Do todo que pudesse ser uma obra
Aos poucos toda ausência vem e cobra
Descubro entre os sorrisos e cristais
Peçonhas do vazio aonde um dia
Gerara com ternura a poesia...
31908
O lobo me devora na floresta
Atocaiada fera não tem pena
E quando a minha vida quis serena
Apenas o vazio ainda resta,
A fenda aberta expande e em grande fresta
Mortalha sem defesas ora acena
A lua se deitando imensa e plena,
Nem mesmo a fantasia ainda empresta
A luz que se irradia nada vale
E quando tanto medo me avassale
Esboço algum sorriso, engano ledo,
Pereço enquanto busco solução
O preço de sonhar é negação
E pago quando em dor tenaz procedo.
31909
A vista que me deixa, fica turva
E quase não percebe esta seara
Aonde a poesia desampara
E a sorte se perdendo a cada curva,
E nada do que tanto poderia
Traçar outro caminho em meio ao nada,
Gerando com terror a velha estrada
Na cena que pressinto agora fria,
Verás apenas isto e nada além,
O mundo com terror já não convém
A quem se pensaria mais feliz,
Pressinto assim o fim do velho jogo
O amor não caberia qualquer rogo,
Porquanto a realidade contradiz...
31910
A morte se prepara para a festa
E ainda não prepara a vestimenta
No quanto uma alegria já se ausenta
O medo de sonhar, o que nos resta,
Aprendo com o quanto não se gesta
Do pouco que deveras me alimenta
E nada do passado ainda alenta
A morte com ternura, em plena fresta;
Fadado ao não ser mais do que podia
Aos pés do que sonhei, falsa alegria
Funéreo golpe eu sinto em minhas costas,
Pontadas entre lágrimas e risos,
Os dias mais doridos e imprecisos
Aqueles em que as sortes são expostas.
31911
Espero pela dor depois da curva,
E sei do canivete faca adaga
E quando a poesia ainda afaga
A noite não seria assim tão turva
E faço do poema meu diário
E tanto quanto posso eu me desnudo
Ao mesmo tempo finjo que sou tudo
Enquanto o nada ser é necessário.
Negatoscópio aonde eu me revelo
Ou mesmo outro planeta onde desvendo
O que não mais seria algum adendo
Porquanto sendo imundo se faz belo,
Qual fora um vício, abismo e precipício
Do verso meu refúgio em ócio e ofício.
31912
Apelos que eu já fiz, desesperados,
Arcando com engodos e mentiras
E quando exposto assim em ledas tiras
As velhas colchas dizem dos traçados
Moldados em retalhos destroçados
E deles as verdades tu retiras,
E sei que quanto mais queres, prefiras,
Os riscos de viver serão iguais,
Se os versos que ora faço são banais
Ou mesmo ainda tocam com ternura
Não sendo esta verdade a minha ou tua
Enquanto este bufão, desnudo atua
A sorte a cada não mais se amargura...
31913
Não sou metade nunca tive um meio
Tampouco poderia ser diverso
Se ainda tenho em mim potência em verso
Não posso acreditar no que incendeio
E vejo cada passo mais alheio
E tento desvendar este universo
Falando deste nada aonde eu verso
Colhendo cada flor, puro receio,.
Rastejo como a serpe em prado e campo,
E quando no infinito ainda acampo
Relâmpagos bebendo com furor,
A poesia é morta e não reage
Apenas do eu tanto quis o ultraje
Reveste o que inda resta com rancor.
31914
Castelos de princesas desabados
E sapos com aspectos mais terríveis
Assim os sonhos todos perecíveis
E as sortes noutros tantos alambrados,
Não posso mais ouvir deveras brados
Tampouco concentrar em novos níveis
Os dias que eu bem sei tanto falíveis
Momentos mais sutis erradicados,
Cangalha pesa tanto e quando a trago,
A sina se deslinda em tal estrago
E pago com o fim as minhas cruzes,
Já não me importa flores, colibris,
Do quanto ainda vês e sempre ris,
Revejo a cada dia velhas urzes.
31915
Só sei deste meu nada em nada creio,
E por ser quase cético eu mergulho
Sem ter sequer saber de pedregulho
E nada poderia ser receio
Aonde com terror tento o recreio
E não consigo mais, se eu sou entulho,
O mar sonega agora seu marulho
E o medo de viver ora rodeio,
Negar a minha história é como crer
No quanto vou sentindo esvaecer
O pouco que restara do que fora,
Soneto após soneto e ninguém lê
O mundo para mim sem ter por que
Palavra ensimesmada e redentora...
31916
As pernas nunca marcham em atrozes
Caminho feito em pedras e terrores
Ainda que se plantem sonhos, flores,
Os dias de outros dias são algozes,
Mesquinhas com certeza velhas vozes
E buscam te seguir por onde fores
Usando das palavras, dissabores,
Momentos solitários são ferozes.
Esqueço do meu nome, busco ainda
Outra notícia vaga em noite infinda
E quando nada vem, somente o não,
Açoda-me o temor de já ter sido
Há tanto pelos tempos esquecido,
Teimando em ver real situação.
31917
Quem fora simplesmente esse menino,
Que agora ao se mostrar noutro caminho
Ainda se perceba mais sozinho
E tenta outra mortalha; porém deste hino
Aonde imaginara outro destino
Não teve soluções, e o velho vinho
Agora avinagrado, de mansinho
Resulta no passado e não domino.
O pendular viver é traiçoeiro
E quando deste nada ainda inteiro
O pouco ainda resta, mas resisto,
E sendo solidária esta ilusão
O quanto do que ainda resta em vão
Num mote costumeiro, tento e insisto.
31918
As portas da saudade são ferozes
E nada deixam ver senão meus restos,
Mergulho nestes vãos duros, funestos
E tento dos meus sonhos novas fozes.
Exposto ao que pudessem noutras doses
Momentos maviosos? ‘Stão infestos
Dos tantos e inviáveis mortos. Gestos
Medonhos traduzindo nossas vozes.
Resisto o quanto posso, mas eu sei
Da invariável sorte, dura lei
Da qual e pela qual ainda existe
Um frágil andarilho dentro em mim,
Mas nada me amordaça e sigo ao fim,
O coração exposto e sempre em riste.
31919
Nos pontos de partida, sem destino
Pensando na chegada inalcançável
O passo que percorro imaginável
Levando ao descaminho e me alucino,
Pudesse reviver dobrar de sino,
Veria quanto o tempo é mais findável
Numa ânsia com certeza interminável
O ser e não poder logo imagino.
Esgoto minhas forças e exaurido
O ponto de chegada resolvido
No olvido cada fase que passara,
Refém deste futuro inatingível
O tempo sendo sempre perecível
A solução deveras se fez rara.
31920
Gargalha a gralha rindo-se histriônica
E vê o quanto fomos indigentes,
Os olhos se perderam noutras gentes
A vida se mostrara desarmônica
Aonde quis festiva e fora hedônica
Envolto nos deslumbres dos dementes,
Pudera acreditar, mas entrementes
A morte dominando cada tônica.
Palavra sempre em vão, vagando só,
O todo desfazendo cada nó
E o peso da esperança insuportável
Pensando num momento ainda em paz
O resto se demonstra e já desfaz
Cenário que ora vejo é deplorável.
31921
Nas costas tanto peso, lenhos, cruzes;
No quanto a vida traz já retratado
No espelho de minha alma o meu passado
Aonde a cada não tu reconduzes
Meticulosamente sei das urzes
E vejo o quanto em fúria foi negado,
O sonho novamente amarrotado
Cenário em barricadas, vis obuses.
Assim ao mergulhar neste reflexo
Percebo quanto a vida não tem nexo
E atento às minhas rugas, fugas nego,
E sei o quanto vejo envilecido
Marcando a minha face cada olvido,
Seria bem melhor hoje estar cego.
31922
A franja da ilusão raspando irônica
Tocando cada sonho ou pesadelo
Aonde poderia com desvelo
Viver outra emoção, mesmo sincrônica
A dor se transformando e agora crônica
Caminho não consigo mais contê-lo
E sei e pago tanto por sabê-lo
Da morte a cada falso, cena agônica.
E assino com meu sangue a frase inteira
Quem tanto me acalanta, traiçoeira
A porta não se abrindo realmente.
O vento assola assim meu pensamento
E tanto libertário me acorrento
Enquanto a fantasia ainda mente.
31923
No meu quintal brotando tais urtigas
E tantos espinheiros; das daninhas
Imagens que deveras já continhas
Em cenas tão terríveis quanto amigas.
E quando com teus nãos tu desabrigas
Quem sonha com palavras belas, minhas
No todo erguendo os olhos, mas não vinhas
Sangrias costumeiras e prossigas.
Extintas emoções, momento vago,
E sendo costumeira uma ilusão
Ainda sendo em mim pleno verão
Do inverno, minha herança, eu já me alago.
31924
A morte me namora e me cobiça
E a cada instante eu sinto esta presença
Porquanto a solidão se fez imensa
A vida se mostrara movediça.
Cansado com certeza desta liça
Não tendo no final a recompensa
Do quanto poderia, mas não pensa
Uma alma sem ternura e tão mortiça.
Recolho cada parte e tento ainda
Unir cada metade noutro tanto,
Mas vejo tão somente o desencanto
Aonde a realidade já deslinda,
Ansiosamente um dia quis feliz
O que cada momento contradiz.
31925
A vida sempre deixa um cruel trevo
Encruzilhadas tantas negam rumo,
E quando algum engano ainda assumo,
Não sei por qual caminho posso e devo,
A senda se mostrara e quando atrevo
Do todo nada resta nem o sumo,
E tanto poderia, mas me esfumo
Jamais o pensamento foi longevo.
E assim ao me mostrar inteiramente
A vida noutro tanto teima e mente,
E arisco caminheiro nada vejo.
Mortalha que se tece dia a dia,
Ainda bem distante poesia
Matando o que pudesse ser desejo.
31926
A ponte que me deste, levadiça,
A podre face exposta da verdade
E quanto mais ainda tente e brade
O medo se mostrando ainda viça
E o resto do que eu fora em vida omissa
Partindo do começo, ora degrade
O pantanal imenso que me invade,
Já sabe desta escória, vã premissa.
O peso do sonhar não mais comporta
A morte abrindo aos poucos cada porta
Porquanto me isolasse, nada sou,
Mergulho em brumosa noite vã
E tento adivinhar cada manhã
Somando este flagelo que restou.
31927
Sorrateira manhã que não atrevo
Nem mesmo poderia sendo assim
O resto dominando tudo em mim,
Ainda poderia ser longevo?
O quanto do passado ora descrevo
Usando do meu verso até que enfim,
Aceso desde sempre este estopim
Negando cada sonho onde me atrevo;
Esgarço com palavras o meu sonho
E quando ao que pudesse inda proponho
Não passa de nefasta face enquanto
Meu mundo totalmente destroçado
Ainda sou a sombra de um passado
E vendo o meu retrato eu já me espanto.
31928
Mordes-me com as presas afiadas
E arrancas mil pedaços quando ris
E ainda refazendo a cicatriz
Em novas faces mesmas desvendadas
No quanto poderia em disfarçadas
Expressas o quanto em fúria diz
Gerando a cada instante outro infeliz
E assim recomeçando as alvoradas;
Negando cada sorte em má ventura
O todo retratando a vã procura
Esgotam-se vontades no vazio,
E o frasco arrebentado mostra o quanto
De mim já se tornara outro quebranto
E mesmo sendo inútil, desafio.
31929
Os sons se repetindo em meus ouvidos
Traduzem velhas vozes do passado
O fogo há tanto tempo relembrado
Enquanto novos dias repartidos.
Servindo para quem dita os olvidos
O tempo nunca fora abençoado,
Amar mero fantasma desmembrado
Tocando com terror os meus sentidos,
Medonho e demoníaco caminho
E quando no não ser eu me avizinho
A fome toma conta e em nada creio.
Peçonhas espalhadas pelo vento,
Ao menos escapar por vezes tento,
E sei que não passara de um anseio.
31930
Apenas ao maior dos pesadelos
Ausência do querer que tanta vez
Levara à mais completa insensatez
Momentos tão difíceis de revê-los
O amor quando entranhando em raros zelos
E nele cada parte que se fez
Diversa da que ainda mesmo vês
Moldada pelos nãos, duros desvelos,
Assim ao me entregar sem ter respostas
As faces dos desejos decompostas
As horas não puderam traduzir
O quanto desejei e nada existe
Uma alma solitária segue triste
Buscando não sei onde algum porvir.
31931
Passando pela rua uma alma vã
Noturna melodia em tanta dor,
Dos sonhos se pudesse num andor
Traçar com novo brilho outra manhã
A morte renegando um amanhã
A quem pudesse ter ainda amor
E sendo assim eterno sofredor,
A cena que se vê sempre é malsã.
Resumo de uma vida enlouquecida
E tanto quis amar, mas despedida
A sorte se fizera traiçoeira,
Na ausência de esperança, sigo ausente,
Porquanto a fantasia se apresente,
Do todo que eu sonhei nada se inteira.
31932
Abençoados são aqueles que
No amor e na alegria tecem vidas,
Enquanto as minhas horas já perdidas
Apenas o vazio se revê,
E o quanto se pudesse sem se crê
Aonde as esperanças tão fingidas,
Nefastas realidades são urgidas
No quadro mais insólito e se vê
Amordaçado sonho de quem tenta
Vencer em calmaria esta tormenta
Alheio ao que jamais inda pudera
Alimentando assim a solidão,
Os dias do futuro mostrarão
Apenas retratada em mim, quimera...
31933
Meus dias são assim desventurados
E quando se aproxima o fim da tarde
Ainda que o terror pouco retarde
Momentos com certeza mais nublados,
E os dias esquecidos e passados
Ao lado de quem tanto em sonhos arde
A morte muitas vezes mais covarde
Reféns destes vazios, e vendados
Os olhos não percebem no horizonte
Nem mesmo um sol imenso que se aponte,
E sigo este noturno caminhar,
Pudesse ter ainda esta impressão
Embora saiba ser mera ilusão
Já que matei há tanto o meu luar...
31934
O quanto desejava um belo sonho
E ter ainda a chance de sonhar,
Mas quando a vida volta ao seu lugar
Retrato que ora vejo, o mais tristonho,
E quando algum cenário bom componho,
Imensa tempestade a me tocar,
Ausência de esperança a nos tomar
Meu canto se repete em enfadonho
Tormento aonde tento e inda persigo,
Porquanto não restara um só abrigo,
Eu teimo contra a fúria da estação
Inverno se tornando eterno e duro
Num céu demasiado amargo e escuro
Nem mesmo algum sinal de outro verão.
31935
A dor que ainda trago, sendo imensa
Já não se cala mais e adentra fundo,
E quando destas trevas eu me inundo
Não tendo quem da luz inda convença
A sorte se tramando em noite tensa
Restando ao sonhador um novo mundo,
Mas sei que o coração se é vagabundo
Qualquer réstia se torna mais intensa.
Não pude controlar os meus anseios
E bebo dos vazios sem rodeios,
Alheio ao que talvez pudesse ser
Maior ou mesmo além do nada enquanto
O mundo se tornando em turvo espanto
Renega qualquer forma de prazer...
31936
Espadas que me cortam são sinais
Destes momentos tolos onde eu quis
Vencer cada temor e ser feliz
Ainda que eu bem saiba ser jamais
O tanto onde pudera ou mesmo mais
Negando qualquer sorte, ausente bis
Galgando cada espaço, por um triz
Morrendo sem ternura, em abissais.
Não pude com certeza adivinhar
Momento em que pudesse me entregar
Sangrando em cada poro e sendo assim
O tempo renegando uma esperança
Amor amortalhado na lembrança
Traduz a cada ausência mais o fim.
31937
Pudesse deste amor, saber vacina
E mesmo quando em plena febre ou dor
Vencesse com ternura tal torpor
Que tanto quanto pode me domina,
Mas sendo sonhador, eis esta sina
Tentando novamente recompor
Um mundo aonde exista qualquer flor,
E nela novo tempo determina
Assaz maravilhosa noite enquanto
Realidade mostra em contracanto
O desencanto vário e doloroso,
Pudesse amar e ter a recompensa,
Mas quando não tem cura tal doença
O fim já se aproxima em medo e gozo.
31938
Amor saltando o muro desta casa
Não deixa sequer rastro quando passa,
E tanto se mostrando em vã fumaça
Apenas num momento mera brasa,
A sorte se inda existe já se atrasa
E não desejo ser somente a caça
Risonha fantasia segue escassa
Nem mesmo uma ilusão ainda embasa
E tudo se desaba num momento
E quando alguma sorte teimo e tento
Atento ao que não tenho sigo em frente.
Porquanto se apresente este cenário
Enquanto doloroso e temerário
Traduz qual a esperança uma semente...
31939
As cordas da viola arrebentadas
As ondas deste mar se sossegando
Aonde quis tempesta o mundo é brando
As noites entre estrelas decoradas,
Mas vejo noutras cenas retratadas
Imagens deste tanto que é nefando
E beijo o teu cadáver desde quando
As horas se perderam, vãs estradas.
Resíduo do que fora outrora messe,
E quando o meu caminho recomece
Percebo quanto inúteis foram cenas
Acendo o meu cigarro e mais trago
Da morte com certeza raro afago,
As incertezas sempre foram plenas...
31940
Fechando este portão por onde entrava
A sorte de quem tanto quis sorriso,
E ainda que este tempo é mais conciso,
Rondando o pensamento não se lava
Seara costumeira mesmo escrava
Perdendo com certeza algum juízo,
No fim não restará mais prejuízo
Enquanto o dia a dia sempre agrava.
E sei desta burguesa face aonde
A pura hipocrisia já se esconde
E traça com perfumes importados
Venenos em peçonhas mais atrozes,
E sendo assim diversas, mesmas vozes,
Os riscos sempre foram calculados...
terça-feira, 4 de maio de 2010
31851 até 31890
31851
Nascendo em sofrimento o verso diz
Do quanto nada a vida me traria
E sendo sempre assim a fantasia
Que gera tão somente a cicatriz
E nela todo o bem que um dia eu quis
Não molda com certeza um novo dia
Apenas mergulhando hipocrisia
O corte não sonega a cicatriz,
Pudesse acreditar em ter risonho
Caminho aonde eu mesmo me envergonho
De ter distante olhar; tosco horizonte,
Brumosa realidade impede o brilho
E tanto poderia, mas não trilho
Sabendo inacessível qualquer fonte.
31852
Meu verso se faz parto em tolo aborto
E nada poderia ser diverso
Se inútil seja sempre qualquer verso
O encanto agora vejo um natimorto,
E toco com ternura ausente porto,
E nele se ainda posso estar disperso,
O vandalismo dita em tom perverso
O quanto poderia e não me importo,
Assim ao me entregar sem ter defesas
Não pude controlar as correntezas
E sei que ultrapassado morro só.
Do todo de um momento feito em glória
A poesia eu vejo merencória,
Soneto se desfaz em ledo pó.
31853
Meu canto em agonia nada vale,
E sei da insustentável poesia
Audaciosamente desafia,
Mas tendo a realidade que me cale,
Porquanto cada monte não se escale
Com olhos de quem sabe da heresia
E vivo sem querer a hipocrisia,
Por mais que alma vazia se avassale.
No todo sou apenas um pedaço,
E quanto mais teimoso, mais desfaço
O sonho de poder ter qualquer luz,
Medíocre, tantas vezes nada digo,
E morro num completo desabrigo,
E ao cadafalso o sonho me conduz.
31854
Invadindo o meu quarto este perfume
Lembrando de momentos mais felizes,
Do quanto a vida trama em quedas, crises
Até que qualquer dia se acostume,
Seguindo inconformado falso lume,
As horas se conduzem aos deslizes,
E quando ainda tento me desdizes
Sangrando qualquer forma, sou estrume.
Travando com mim mesmo tais batalhas,
Enquanto noutras sendas tu espalhas
Teu canto em alegria, a morbidez
Que tanto dita as cordas do meu sonho,
Ainda que nefasta é o que proponho
Já que meu mundo há tempos se desfez;
31855
Gélida ventania tocando a vida
Nevasca após nevasca nada resta,
E tanto ainda havia ao longe, fresta,
Mas vejo a minha sorte em despedida,
O quanto poderia estar ungida
E assim não mais seria esta funesta
Lembrança que ao vazio já se empresta
Cevando com terror toda a ferida.
Jogado pelos cantos desta casa,
Apenas a mortalha não atrasa,
E o fogo se tornando irreversível,
Morrer e ter somente esta certeza,
Não deixa que se creia em sobremesa
Após a vida amara e tão sofrível...
31856
Sabendo tanto o quanto desejamos
E nada conseguimos vida afora
O quanto da vontade nos devora
E traça com terror o que passamos,
Ainda bem distantes nós pensamos
Na fonte maviosa onde se aflora
Beleza incomparável, mas agora
O rito se desmancha e nos calamos.
Agrestes sensações amor nos traz
E aonde se tentara alguma paz
Somente o desespero e o ledo engano,
Não quero mais saber de acumular
As dívidas, cansado de lutar,
E recolher apenas perda e dano.
31857
Amor quando é demais, sempre exclamamos
Tentando acreditar felicidade,
Mas mal o dia a dia nos degrade
De toda esta ventura que traçamos
Não restam mais as frondes, nem os ramos,
E assim ao se mostrar realidade,
O quanto do vazio nos invade
Compele ao desespero que encontramos.
Vencidos pelos males deste encanto,
Ainda que veja ao longe o manto
Aonde em turbulências se sentira,
A fonte da ilusão jamais se cansa,
E mata pouco a pouco uma esperança,
No quanto o desafeto, amor desfira...
31858
Montanhas, vales, rios, céus e ramos
Diversas faces mostram naturezas
Por onde se percebem incertezas
Porquanto na verdade mal amamos,
E quando tais mortalhas já trajamos
Trazendo nos olhares as purezas
Ingênuas de quem sabe sermos presas
Enquanto num momento nós caçamos.
Assiduamente vejo a face escusa
E quem mais se aproxima, tanto abusa,
Correndo sempre o risco de não ser
Aquilo que talvez num claro dia
O sonho mais feliz já fantasia
E sente pouco a pouco se perder...
31859
Por onde tu quiseres seguirei
Os passos mesmo quando em tons diversos,
E sendo assim mais pálidos meus versos
Não mais me importaria qualquer grei,
O quanto nos teus braços naveguei
Traçando inutilmente os universos
E tendo esta incerteza, são dispersos
Os rumos pelos quais eu me entranhei.
Risível face eu vejo de um amor
Que ao já não ter mais nada a te propor
Solúvel em si mesmo, morre enquanto
Pudera ser ao menos mais suave,
E quando a cada não a vida agrave,
Meus olhos se tomando em dor e espanto.
31860
Num vértice divino imaginara
O encanto sem igual de um grande amor.
Mas quando se percebe e perde a cor
Que outrora fora em sonhos bem mais clara,
A morte se lançando em cada escara
Perpetuando a dor, e o sonhador
Ao ver o seu caminho decompor,
Não sabe mais da sorte e se antepara
No vago pronta queda, nada resta,
E a cena até pareça mais funesta,
Mas saiba ser de mim a redenção.
A morte que eu anseio a cada instante
Qual fora o mais sobejo diamante
Na dor encontra enfim lapidação...
31861
Navego claramente em pensamentos
Vagando por espaços mais distantes
E vejo com ternura tais brilhantes
E deixo para trás os sofrimentos,
Porquanto saiba mesmo quando os ventos
Não trazem mais alento, alucinantes,
Por mais que ainda tentes e adiantes,
As horas não souberam dar proventos
Aos meus anseios quando nada havia,
Apodrecida face, alegoria
De um tempo mais atroz que ainda trago,
E nego qualquer sorte inda diversa
E quando sobre o nada a vida versa,
De tudo o que eu pensei restando e estrago.
31862
Durante tanto tempo, a noite inteira
Pensara ser feliz, que ledo engano.
Perdido a cada passo um novo dano
A sorte jamais trouxe esta bandeira
E quanto mais ainda já se inteira
Do quanto poderia e se me ufano
No fundo me preparo ao mais profano
Caminho sendo a morte companheira.
Arrisco vez em quando um passo a mais
As quedas com terror são magistrais,
Funâmbulo perdido em esperanças,
Apenas os grilhões eu reconheço
E quando sobre as pedras meu tropeço
Aguarda pontiagudas, finas lanças...
31863
Já não comportariam mais senhores
Os passos libertários que ora tento,
Mas sei do quanto pode o sofrimento
E teimo mesmo em ver falsos albores,
Ainda que cevasse novas flores,
Destroça este canteiro qualquer vento,
E o medo pelo qual sigo o provento,
Não trama novos dias sedutores.
Resisto ao que pudesse me trazer
Ao menos um momento de prazer
E sei desta total iniqüidade,
Sofrível caminheiro do que tanto
Pensara ainda ser somente encanto
E agora se percebe em falsidade...
31864
Do quanto inutilmente desfrutara
Pensando ser momento quando nada
Pudesse transformar a velha estrada
Há tanto destroçada e se escancara,
Vertendo sobre nós a mesma apara
E quando uma alma sinto perfurada
Não posso com a farsa malfadada
Nem mesmo quando a vida desampara,
Assim ao me mostrar desnudo agora,
O fardo se tornando imenso e vil,
Ainda que se tenha, não previu
A força tenebrosa que devora
O olhar enternecido de quem crê
Na vida mesmo sem saber por que...
31865
Ao píncaro sublime nos conduz
Quem tanto se pensara ser mais forte,
E quando preparara novo corte
Ao menos não negara sangue e pus.
Eviscerado sonho em contraluz
Procura na esperança algum aporte,
Mas nada nem a morte me conforte,
Passada se envergando já se abduz.
Na cândida presença de um alento,
Não posso ter concreta a velha idéia
De quanto mais se mostra pra platéia
Maior deverá ser divertimento.
Bufão em face escusa, nada tenho,
Sofrível nesta vida, o desempenho...
31866
Amor dita a providência
Nos momentos complicados
Dias ermos, vãos e errados,
Onde vejo a coincidência
Tanto luta em inocência
Vida traça em seus recados
Outros dias desolados,
Muito aquém da paciência,
Sigo alheio ao que tentara
Nos teus braços, força e luz
E decerto me conduz
O caminho aonde a escara
Propagando com terror
Renegando o bem do amor...
31867
Por saber que não erraste
Quando um dia se mostrava
Noutra senda, amarga e brava
Condenando ao vil contraste
Vejo assim cada desgaste
Onde outrora se fez lava,
Na palavra vã escava
O que ainda demonstraste.
Riscos tantos, mera fonte
E porquanto inda se aponte
Qualquer trama após aquela
E servil não me servira
Emoção ditando a mira
Onde a sorte se revela.
31868
Quando na alma eu te levei
Companheira de alegrias
Entre tantas fantasias
Outras tantas recriei,
E se a sorte dita a lei
E deveras tu porfias
Quando vês alegorias
Onde outrora caminhei,
Tu verás meras facetas
E porquanto inda cometas
Erros tolos, tu terás
Ao final de certo tempo
Muito mais que o contratempo.
Um minuto feito em paz.
31869
Sendo ausência imenso Mal
Onde perco os meus alentos,
E se em tantos sofrimentos
Vejo a dor num ritual,
Num momento magistral
Viração tomando os ventos,
Muito embora os pensamentos
Ditam rumo desigual,
Eu percebo quanto pude
Mesmo além da juventude
Reatar a velha frágua
E o que tanto desejara
Água límpida e tão clara
Nos teus mares já deságua...
31870
Poderia transformar
O que fora desagrado
Num momento que ansiado
Ensinara a navegar
Em imenso e turvo mar,
Noutro cais vejo ancorado
O que trago do passado
E não pude imaginar,
Sendo assim tão inconstante
O vazio se agigante
E domina este cenário,
Mas só sei que não soubesse
Da alegria em tal benesse,
Onde o sonho é necessário.
31871
Amor que, num momento desfrutamos
Cerzido com tormentas e riquezas
Ao ver em teu olhar raras belezas
Os dias da maneira que sonhamos
Estendem ilusões e destes ramos
Percebo com ternura tais levezas
E sinto tantas luzes quanto prezas
E nelas outros dias entranhamos,
Assim ao se mostrar desnuda e bela
Estrela desejada agora atrela
Em si diversos lumes e andarinho
O coração procura algum alento
E quanto mais feliz eu me apresento,
Espaço soberano em paz, já trilho.
31872
O quanto na verdade desejamos
Esboça algum cenário aonde eu possa
Viver esta emoção decerto nossa
E assim novos momentos começamos,
Renascem do passado novos dias
E neles outras sendas adivinho
Sorvendo em tua boca o doce vinho
No quanto e pelo qual já fantasias
Delírios de um poeta em tons diversos
E crendo ser assim melhor encanto
Ainda mais feliz, contigo eu canto,
Enaltecendo a vida em poucos versos,
E imerso nesta bela claridade
Encontro a mais real felicidade.
31873
Perdendo sempre o rumo, nos achamos.
A vida se mostrando assim mutável
Um sonho que se mostra indecifrável
Porquanto em mares tantos navegamos,
Dos sonhos que com fé acalentamos
Ou mesmo de um cenário incomparável
O solo se mostrara inabitável,
Mas mesmo inutilmente ali cevamos,
Rendidos aos anseios de quem tenta
Enquanto sorve enfim cada tormenta
Vencer com calma a paz os temporais.
Borrascas tão comuns no dia a dia
E quando uma esperança ainda guia
Momentos que buscamos: triunfais...
31874
Em multicores sonhos, navegamos
Procuras incessantes vida afora
E mesmo se a resposta já demora
Em mares mais diversos ancoramos.
Já não comportariam velhos amos
Tampouco esta senzala em que se aflora
Castigo sem ter tempo e nem ter hora
Senhores de nós mesmos, tolos somos,
E vendo assim na imensidão dos tomos
A história repetida em tons iguais,
Por vezes temos ritos mais felizes,
Enquanto coletando cicatrizes
As dores entre os sonhos, maiorais...
31875
Num átimo reluz velha esperança
Mudando os meus caminhos quando eu tento
Vencer em calmaria o desalento
Enquanto no vazio a voz se lança
E assim ao procurar em temperança
A vida ressurgida num momento
E vejo mais feliz o pensamento
Mesmo quando o terror agride e avança
Percebo finalmente o que pudera
Após singrar o mar, dura quimera,
Enfastiados dias não terás
No incomparável brilho nova vida
E quanto mais a sorte sei ungida
Maior a sensação de brilho e paz.
31876
Vida; eu não sei se amor ou por vingança
Vencendo os temporais matando o que talvez
A própria realidade enquanto se desfez
Trouxera mais distante a imensa e vã pujança,
Resisto ao que pudera e quando a voz avança
Gerando algum momento ainda em lucidez
Do amor que a cada corte diverge do que crês
E tanto se moldara ainda na lembrança
Um rito mais sutil porquanto ser feliz
É fato momentâneo e quanto mais eu quis
Percebo tão inútil a imensa variedade
Da qual a luz sombria tornada realidade
Prepara alguma cena aonde nada vejo
Senão restos vazios do quanto eu quis desejo.
31878
Desperta, num momento essa aliança
Trazendo qualquer porto aonde eu possa
Viver essa emoção que a vida endossa
E gera a cada não nova esperança,
Aos poucos percebendo tal mudança
O quanto se pudesse ser só nossa
A sensação que aos poucos nos apossa
Restando muito além desta lembrança,
Vestindo o que não cabe, pois puída,
Assim ao perfazer a nossa vida,
Em tons diversos busco alguma sorte,
Mas nada do que tanto desejava
Supera a imensidão de uma onda brava,
Fazendo turbulento cada aporte...
31879
Dos restos do que fora uma lembrança
Escombros da ilusão tento tecer
As sobras do meu mundo em tal prazer
Enquanto esta emoção bebe a mudança.
Pudesse com olhares de criança
O mundo num instante percorrer,
E nada do que tanto se quis crer
Ao longe no horizonte em paz descansa,
Amar a Deus e crer na liberdade
Neste holocausto imenso que ora invade
O passo de quem busca novo dia,
E assim ao se mostrar voz soberana,
A porta que se abrira nos engana,
Gerada pela inútil fantasia...
31880
Não deixa de cumprir esse dilema
Quem sabe ser diverso o caminhar
E mesmo quando em versos quis buscar
Do céu imensidade em diadema.
Não tendo cada passo aonde tema
Nem quando neste abismo mergulhar,
Risonha maravilha de um luar,
Rompendo qualquer treva, dura algema,
Assim ao se mostrar incontestável
O amor que num louvor interminável,
Não deixa qualquer medo te atingir,
Anseio por total libertação
Sabendo no meu Pai a redenção
Entrego em suas mãos o meu porvir...
31881
Quem pensaria nobre e já se esconde
Nas ânsias de um desejo mais audaz
E quando nem a vida satisfaz
Não tendo com certeza nem por onde
Seguir ao mesmo tempo quanto sonde
Caminho com ternura mais tenaz
Vivendo o que pudesse ainda em paz
Porquanto da esperança imensa fronde.
Vestindo esta ilusão já bastaria
Viver o que pudesse a fantasia
E mesmo além do todo perceber
A fúria insaciável de um momento
E quando me procuro e mesmo alento,
Encontro em teu olhar o alvorecer...
31882
Num revólver, resolvo meu problema?
A vida não se faz desta maneira
E quando a imagem surge, derradeira
Não tendo quem deveras dita a algema,
Do amor que entorpecendo, risco e gema,
A sorte desce em cada ribanceira,
Palavra mais ousada e verdadeira
Não deixa para trás quem inda a tema,
Se assim não fosse o mundo tão mutável
O solo com certeza não arável
Mergulharia a vida num marasmo,
Mas quando me imagino em fortes laços,
Do quanto percebera em novos traços
Contendo com ternura cada espasmo.
31883
A bala engatilhada me responde
E vejo o suicídio como forma
De ter após a luta que deforma
Aonde uma esperança em vão se esconde,
Não pude perceber outra saída
E assisto à derrocada deste sonho
No quanto mergulhara em mar medonho,
Não tendo outro caminho, perco a vida,
E sei ser tão inútil cada verso
Explode dentro em mim esta vontade,
Alheio ao que pudesse realidade,
Nas ânsias de um desejo sigo imerso,
E aposto que jamais serei feliz
Cenário que esta vida nunca quis...
31884
O pássaro não voa, sou miúdo
E tento entre arvoredos qualquer brecha
A vida tão veloz, incrível flecha
E assim a cada passo me transmudo,
O mundo não se fez tão meu amigo,
Nem mesmo poderia se sou mero
E quando algum alento ainda espero,
O máximo é o vazio em que prossigo,
Um nauta da ilusão e da esperança
Organizando a vida dia a dia,
E quando neste nada percebia,
Apenas esta ponta, fina lança
A morte se aproxima e nada faço,
Etéreo quanto eterno cada espaço.
31885
A vida me deixando amarga lei
Na qual eu me embrenhando nada possa,
E quando mergulhando em turva fossa
Retrato na verdade o que sonhei
Aos poucos cada parte eu procurei
E o todo que a saudade ainda endossa
Gerando numa ausência a mesma troça
Resulta neste pouco que inda herdei.
E sendo assim nefasta a realidade,
Porquanto cada amor dita a saudade,
Esgarço-me num verso que não faço,
E todo o meu cantar inutilmente
Não deixa que ainda se apresente,
Do sonho qualquer lume, qualquer traço.
31886
Num canto, abandonado eu fico mudo.
Sabendo serem fúteis os meus versos,
E quando neles sinto vãos imersos
Por mais que ainda tente não me iludo,
Apenas a mortalha ora transmudo
E sei de sentimentos mais dispersos
Vagando sem sentido em universos
Amar merece mais que o vago estudo,
Revejo os meus enganos e os decoro
Enquanto do passado ainda ancoro
Os barcos mais atrozes e sutis,
Não tendo outro caminho, sigo só,
O peso desta vida em pedra e mó
Diverge do que tanto um dia eu quis.
31887
Nada mais tenho e nada mais terei,
Já não me bastaria acreditar
No quanto ainda posso navegar
Se o barco noutra estância desandei.
Recebo da emoção temível lei
E sinto quanto posso desancar
Palavra noutra senda a desnudar
O que jamais um dia inda verei.
Vestígios de litígios, ermos meus,
Apenas ao trazer um novo adeus
Eu tento disfarçar, mas não consigo,
O amor entardecido não maltrata,
Porém sua presença se faz grata
Conquanto não se mostre algum perigo.
31888
Na mata sem saída a vida embrenha
E amortalhando o sonho em trevas feito
Resumo o pesadelo enquanto deito
E tento desvendar da vida a senha
Ainda que o prazer sempre convenha
Bom senso toma conta e sem direito
Ao riso mesmo após já satisfeito
Caminho que deveras inda tenha
Momentos de prazer são poucos, mas
No quanto a própria vida ainda traz
O velho caminheiro com cuidado,
Não deixa se iludir por ventania,
E sabe que amanhã sendo outro dia,
O rumo aonde entrara, desolado.
31889
Resumos que eu não fiz; a noite inventa
E traça com momentos mais sutis
O quanto poderia ser feliz
Ao fim gerando a dor, fatal tormenta,
A sorte muitas vezes desalenta
E deixa o coração tolo aprendiz,
Porquanto tantos sonhos sempre quis
E agora nem a paz já se apresenta.
Resisto às tais vontades mesmo quando
O mundo noutro tanto se ofertando
Em ares juvenis, sendo que agora
Apenas cada ruga do meu rosto
Cobrando do viver um caro imposto,
Aos poucos morte insana me devora...
31890
A porca que engordei, morde ferrenha,
Assim esta ilusão que alimentara
Aos poucos com a fúria em sua cara
Adentra o coração e já desdenha
Do sonho inusitado que inda trago
Vencido pela fúria do não ser,
E quando renovasse algum prazer
No intento incontrolável de um afago,
O vértice se perde em abissais
Do todo aonde urdira um só momento
No vago deste encanto me atormento
E sei que a vida volve nunca mais,
O quadro desbotado nada traz
Somente o desespero em face audaz...
Nascendo em sofrimento o verso diz
Do quanto nada a vida me traria
E sendo sempre assim a fantasia
Que gera tão somente a cicatriz
E nela todo o bem que um dia eu quis
Não molda com certeza um novo dia
Apenas mergulhando hipocrisia
O corte não sonega a cicatriz,
Pudesse acreditar em ter risonho
Caminho aonde eu mesmo me envergonho
De ter distante olhar; tosco horizonte,
Brumosa realidade impede o brilho
E tanto poderia, mas não trilho
Sabendo inacessível qualquer fonte.
31852
Meu verso se faz parto em tolo aborto
E nada poderia ser diverso
Se inútil seja sempre qualquer verso
O encanto agora vejo um natimorto,
E toco com ternura ausente porto,
E nele se ainda posso estar disperso,
O vandalismo dita em tom perverso
O quanto poderia e não me importo,
Assim ao me entregar sem ter defesas
Não pude controlar as correntezas
E sei que ultrapassado morro só.
Do todo de um momento feito em glória
A poesia eu vejo merencória,
Soneto se desfaz em ledo pó.
31853
Meu canto em agonia nada vale,
E sei da insustentável poesia
Audaciosamente desafia,
Mas tendo a realidade que me cale,
Porquanto cada monte não se escale
Com olhos de quem sabe da heresia
E vivo sem querer a hipocrisia,
Por mais que alma vazia se avassale.
No todo sou apenas um pedaço,
E quanto mais teimoso, mais desfaço
O sonho de poder ter qualquer luz,
Medíocre, tantas vezes nada digo,
E morro num completo desabrigo,
E ao cadafalso o sonho me conduz.
31854
Invadindo o meu quarto este perfume
Lembrando de momentos mais felizes,
Do quanto a vida trama em quedas, crises
Até que qualquer dia se acostume,
Seguindo inconformado falso lume,
As horas se conduzem aos deslizes,
E quando ainda tento me desdizes
Sangrando qualquer forma, sou estrume.
Travando com mim mesmo tais batalhas,
Enquanto noutras sendas tu espalhas
Teu canto em alegria, a morbidez
Que tanto dita as cordas do meu sonho,
Ainda que nefasta é o que proponho
Já que meu mundo há tempos se desfez;
31855
Gélida ventania tocando a vida
Nevasca após nevasca nada resta,
E tanto ainda havia ao longe, fresta,
Mas vejo a minha sorte em despedida,
O quanto poderia estar ungida
E assim não mais seria esta funesta
Lembrança que ao vazio já se empresta
Cevando com terror toda a ferida.
Jogado pelos cantos desta casa,
Apenas a mortalha não atrasa,
E o fogo se tornando irreversível,
Morrer e ter somente esta certeza,
Não deixa que se creia em sobremesa
Após a vida amara e tão sofrível...
31856
Sabendo tanto o quanto desejamos
E nada conseguimos vida afora
O quanto da vontade nos devora
E traça com terror o que passamos,
Ainda bem distantes nós pensamos
Na fonte maviosa onde se aflora
Beleza incomparável, mas agora
O rito se desmancha e nos calamos.
Agrestes sensações amor nos traz
E aonde se tentara alguma paz
Somente o desespero e o ledo engano,
Não quero mais saber de acumular
As dívidas, cansado de lutar,
E recolher apenas perda e dano.
31857
Amor quando é demais, sempre exclamamos
Tentando acreditar felicidade,
Mas mal o dia a dia nos degrade
De toda esta ventura que traçamos
Não restam mais as frondes, nem os ramos,
E assim ao se mostrar realidade,
O quanto do vazio nos invade
Compele ao desespero que encontramos.
Vencidos pelos males deste encanto,
Ainda que veja ao longe o manto
Aonde em turbulências se sentira,
A fonte da ilusão jamais se cansa,
E mata pouco a pouco uma esperança,
No quanto o desafeto, amor desfira...
31858
Montanhas, vales, rios, céus e ramos
Diversas faces mostram naturezas
Por onde se percebem incertezas
Porquanto na verdade mal amamos,
E quando tais mortalhas já trajamos
Trazendo nos olhares as purezas
Ingênuas de quem sabe sermos presas
Enquanto num momento nós caçamos.
Assiduamente vejo a face escusa
E quem mais se aproxima, tanto abusa,
Correndo sempre o risco de não ser
Aquilo que talvez num claro dia
O sonho mais feliz já fantasia
E sente pouco a pouco se perder...
31859
Por onde tu quiseres seguirei
Os passos mesmo quando em tons diversos,
E sendo assim mais pálidos meus versos
Não mais me importaria qualquer grei,
O quanto nos teus braços naveguei
Traçando inutilmente os universos
E tendo esta incerteza, são dispersos
Os rumos pelos quais eu me entranhei.
Risível face eu vejo de um amor
Que ao já não ter mais nada a te propor
Solúvel em si mesmo, morre enquanto
Pudera ser ao menos mais suave,
E quando a cada não a vida agrave,
Meus olhos se tomando em dor e espanto.
31860
Num vértice divino imaginara
O encanto sem igual de um grande amor.
Mas quando se percebe e perde a cor
Que outrora fora em sonhos bem mais clara,
A morte se lançando em cada escara
Perpetuando a dor, e o sonhador
Ao ver o seu caminho decompor,
Não sabe mais da sorte e se antepara
No vago pronta queda, nada resta,
E a cena até pareça mais funesta,
Mas saiba ser de mim a redenção.
A morte que eu anseio a cada instante
Qual fora o mais sobejo diamante
Na dor encontra enfim lapidação...
31861
Navego claramente em pensamentos
Vagando por espaços mais distantes
E vejo com ternura tais brilhantes
E deixo para trás os sofrimentos,
Porquanto saiba mesmo quando os ventos
Não trazem mais alento, alucinantes,
Por mais que ainda tentes e adiantes,
As horas não souberam dar proventos
Aos meus anseios quando nada havia,
Apodrecida face, alegoria
De um tempo mais atroz que ainda trago,
E nego qualquer sorte inda diversa
E quando sobre o nada a vida versa,
De tudo o que eu pensei restando e estrago.
31862
Durante tanto tempo, a noite inteira
Pensara ser feliz, que ledo engano.
Perdido a cada passo um novo dano
A sorte jamais trouxe esta bandeira
E quanto mais ainda já se inteira
Do quanto poderia e se me ufano
No fundo me preparo ao mais profano
Caminho sendo a morte companheira.
Arrisco vez em quando um passo a mais
As quedas com terror são magistrais,
Funâmbulo perdido em esperanças,
Apenas os grilhões eu reconheço
E quando sobre as pedras meu tropeço
Aguarda pontiagudas, finas lanças...
31863
Já não comportariam mais senhores
Os passos libertários que ora tento,
Mas sei do quanto pode o sofrimento
E teimo mesmo em ver falsos albores,
Ainda que cevasse novas flores,
Destroça este canteiro qualquer vento,
E o medo pelo qual sigo o provento,
Não trama novos dias sedutores.
Resisto ao que pudesse me trazer
Ao menos um momento de prazer
E sei desta total iniqüidade,
Sofrível caminheiro do que tanto
Pensara ainda ser somente encanto
E agora se percebe em falsidade...
31864
Do quanto inutilmente desfrutara
Pensando ser momento quando nada
Pudesse transformar a velha estrada
Há tanto destroçada e se escancara,
Vertendo sobre nós a mesma apara
E quando uma alma sinto perfurada
Não posso com a farsa malfadada
Nem mesmo quando a vida desampara,
Assim ao me mostrar desnudo agora,
O fardo se tornando imenso e vil,
Ainda que se tenha, não previu
A força tenebrosa que devora
O olhar enternecido de quem crê
Na vida mesmo sem saber por que...
31865
Ao píncaro sublime nos conduz
Quem tanto se pensara ser mais forte,
E quando preparara novo corte
Ao menos não negara sangue e pus.
Eviscerado sonho em contraluz
Procura na esperança algum aporte,
Mas nada nem a morte me conforte,
Passada se envergando já se abduz.
Na cândida presença de um alento,
Não posso ter concreta a velha idéia
De quanto mais se mostra pra platéia
Maior deverá ser divertimento.
Bufão em face escusa, nada tenho,
Sofrível nesta vida, o desempenho...
31866
Amor dita a providência
Nos momentos complicados
Dias ermos, vãos e errados,
Onde vejo a coincidência
Tanto luta em inocência
Vida traça em seus recados
Outros dias desolados,
Muito aquém da paciência,
Sigo alheio ao que tentara
Nos teus braços, força e luz
E decerto me conduz
O caminho aonde a escara
Propagando com terror
Renegando o bem do amor...
31867
Por saber que não erraste
Quando um dia se mostrava
Noutra senda, amarga e brava
Condenando ao vil contraste
Vejo assim cada desgaste
Onde outrora se fez lava,
Na palavra vã escava
O que ainda demonstraste.
Riscos tantos, mera fonte
E porquanto inda se aponte
Qualquer trama após aquela
E servil não me servira
Emoção ditando a mira
Onde a sorte se revela.
31868
Quando na alma eu te levei
Companheira de alegrias
Entre tantas fantasias
Outras tantas recriei,
E se a sorte dita a lei
E deveras tu porfias
Quando vês alegorias
Onde outrora caminhei,
Tu verás meras facetas
E porquanto inda cometas
Erros tolos, tu terás
Ao final de certo tempo
Muito mais que o contratempo.
Um minuto feito em paz.
31869
Sendo ausência imenso Mal
Onde perco os meus alentos,
E se em tantos sofrimentos
Vejo a dor num ritual,
Num momento magistral
Viração tomando os ventos,
Muito embora os pensamentos
Ditam rumo desigual,
Eu percebo quanto pude
Mesmo além da juventude
Reatar a velha frágua
E o que tanto desejara
Água límpida e tão clara
Nos teus mares já deságua...
31870
Poderia transformar
O que fora desagrado
Num momento que ansiado
Ensinara a navegar
Em imenso e turvo mar,
Noutro cais vejo ancorado
O que trago do passado
E não pude imaginar,
Sendo assim tão inconstante
O vazio se agigante
E domina este cenário,
Mas só sei que não soubesse
Da alegria em tal benesse,
Onde o sonho é necessário.
31871
Amor que, num momento desfrutamos
Cerzido com tormentas e riquezas
Ao ver em teu olhar raras belezas
Os dias da maneira que sonhamos
Estendem ilusões e destes ramos
Percebo com ternura tais levezas
E sinto tantas luzes quanto prezas
E nelas outros dias entranhamos,
Assim ao se mostrar desnuda e bela
Estrela desejada agora atrela
Em si diversos lumes e andarinho
O coração procura algum alento
E quanto mais feliz eu me apresento,
Espaço soberano em paz, já trilho.
31872
O quanto na verdade desejamos
Esboça algum cenário aonde eu possa
Viver esta emoção decerto nossa
E assim novos momentos começamos,
Renascem do passado novos dias
E neles outras sendas adivinho
Sorvendo em tua boca o doce vinho
No quanto e pelo qual já fantasias
Delírios de um poeta em tons diversos
E crendo ser assim melhor encanto
Ainda mais feliz, contigo eu canto,
Enaltecendo a vida em poucos versos,
E imerso nesta bela claridade
Encontro a mais real felicidade.
31873
Perdendo sempre o rumo, nos achamos.
A vida se mostrando assim mutável
Um sonho que se mostra indecifrável
Porquanto em mares tantos navegamos,
Dos sonhos que com fé acalentamos
Ou mesmo de um cenário incomparável
O solo se mostrara inabitável,
Mas mesmo inutilmente ali cevamos,
Rendidos aos anseios de quem tenta
Enquanto sorve enfim cada tormenta
Vencer com calma a paz os temporais.
Borrascas tão comuns no dia a dia
E quando uma esperança ainda guia
Momentos que buscamos: triunfais...
31874
Em multicores sonhos, navegamos
Procuras incessantes vida afora
E mesmo se a resposta já demora
Em mares mais diversos ancoramos.
Já não comportariam velhos amos
Tampouco esta senzala em que se aflora
Castigo sem ter tempo e nem ter hora
Senhores de nós mesmos, tolos somos,
E vendo assim na imensidão dos tomos
A história repetida em tons iguais,
Por vezes temos ritos mais felizes,
Enquanto coletando cicatrizes
As dores entre os sonhos, maiorais...
31875
Num átimo reluz velha esperança
Mudando os meus caminhos quando eu tento
Vencer em calmaria o desalento
Enquanto no vazio a voz se lança
E assim ao procurar em temperança
A vida ressurgida num momento
E vejo mais feliz o pensamento
Mesmo quando o terror agride e avança
Percebo finalmente o que pudera
Após singrar o mar, dura quimera,
Enfastiados dias não terás
No incomparável brilho nova vida
E quanto mais a sorte sei ungida
Maior a sensação de brilho e paz.
31876
Vida; eu não sei se amor ou por vingança
Vencendo os temporais matando o que talvez
A própria realidade enquanto se desfez
Trouxera mais distante a imensa e vã pujança,
Resisto ao que pudera e quando a voz avança
Gerando algum momento ainda em lucidez
Do amor que a cada corte diverge do que crês
E tanto se moldara ainda na lembrança
Um rito mais sutil porquanto ser feliz
É fato momentâneo e quanto mais eu quis
Percebo tão inútil a imensa variedade
Da qual a luz sombria tornada realidade
Prepara alguma cena aonde nada vejo
Senão restos vazios do quanto eu quis desejo.
31878
Desperta, num momento essa aliança
Trazendo qualquer porto aonde eu possa
Viver essa emoção que a vida endossa
E gera a cada não nova esperança,
Aos poucos percebendo tal mudança
O quanto se pudesse ser só nossa
A sensação que aos poucos nos apossa
Restando muito além desta lembrança,
Vestindo o que não cabe, pois puída,
Assim ao perfazer a nossa vida,
Em tons diversos busco alguma sorte,
Mas nada do que tanto desejava
Supera a imensidão de uma onda brava,
Fazendo turbulento cada aporte...
31879
Dos restos do que fora uma lembrança
Escombros da ilusão tento tecer
As sobras do meu mundo em tal prazer
Enquanto esta emoção bebe a mudança.
Pudesse com olhares de criança
O mundo num instante percorrer,
E nada do que tanto se quis crer
Ao longe no horizonte em paz descansa,
Amar a Deus e crer na liberdade
Neste holocausto imenso que ora invade
O passo de quem busca novo dia,
E assim ao se mostrar voz soberana,
A porta que se abrira nos engana,
Gerada pela inútil fantasia...
31880
Não deixa de cumprir esse dilema
Quem sabe ser diverso o caminhar
E mesmo quando em versos quis buscar
Do céu imensidade em diadema.
Não tendo cada passo aonde tema
Nem quando neste abismo mergulhar,
Risonha maravilha de um luar,
Rompendo qualquer treva, dura algema,
Assim ao se mostrar incontestável
O amor que num louvor interminável,
Não deixa qualquer medo te atingir,
Anseio por total libertação
Sabendo no meu Pai a redenção
Entrego em suas mãos o meu porvir...
31881
Quem pensaria nobre e já se esconde
Nas ânsias de um desejo mais audaz
E quando nem a vida satisfaz
Não tendo com certeza nem por onde
Seguir ao mesmo tempo quanto sonde
Caminho com ternura mais tenaz
Vivendo o que pudesse ainda em paz
Porquanto da esperança imensa fronde.
Vestindo esta ilusão já bastaria
Viver o que pudesse a fantasia
E mesmo além do todo perceber
A fúria insaciável de um momento
E quando me procuro e mesmo alento,
Encontro em teu olhar o alvorecer...
31882
Num revólver, resolvo meu problema?
A vida não se faz desta maneira
E quando a imagem surge, derradeira
Não tendo quem deveras dita a algema,
Do amor que entorpecendo, risco e gema,
A sorte desce em cada ribanceira,
Palavra mais ousada e verdadeira
Não deixa para trás quem inda a tema,
Se assim não fosse o mundo tão mutável
O solo com certeza não arável
Mergulharia a vida num marasmo,
Mas quando me imagino em fortes laços,
Do quanto percebera em novos traços
Contendo com ternura cada espasmo.
31883
A bala engatilhada me responde
E vejo o suicídio como forma
De ter após a luta que deforma
Aonde uma esperança em vão se esconde,
Não pude perceber outra saída
E assisto à derrocada deste sonho
No quanto mergulhara em mar medonho,
Não tendo outro caminho, perco a vida,
E sei ser tão inútil cada verso
Explode dentro em mim esta vontade,
Alheio ao que pudesse realidade,
Nas ânsias de um desejo sigo imerso,
E aposto que jamais serei feliz
Cenário que esta vida nunca quis...
31884
O pássaro não voa, sou miúdo
E tento entre arvoredos qualquer brecha
A vida tão veloz, incrível flecha
E assim a cada passo me transmudo,
O mundo não se fez tão meu amigo,
Nem mesmo poderia se sou mero
E quando algum alento ainda espero,
O máximo é o vazio em que prossigo,
Um nauta da ilusão e da esperança
Organizando a vida dia a dia,
E quando neste nada percebia,
Apenas esta ponta, fina lança
A morte se aproxima e nada faço,
Etéreo quanto eterno cada espaço.
31885
A vida me deixando amarga lei
Na qual eu me embrenhando nada possa,
E quando mergulhando em turva fossa
Retrato na verdade o que sonhei
Aos poucos cada parte eu procurei
E o todo que a saudade ainda endossa
Gerando numa ausência a mesma troça
Resulta neste pouco que inda herdei.
E sendo assim nefasta a realidade,
Porquanto cada amor dita a saudade,
Esgarço-me num verso que não faço,
E todo o meu cantar inutilmente
Não deixa que ainda se apresente,
Do sonho qualquer lume, qualquer traço.
31886
Num canto, abandonado eu fico mudo.
Sabendo serem fúteis os meus versos,
E quando neles sinto vãos imersos
Por mais que ainda tente não me iludo,
Apenas a mortalha ora transmudo
E sei de sentimentos mais dispersos
Vagando sem sentido em universos
Amar merece mais que o vago estudo,
Revejo os meus enganos e os decoro
Enquanto do passado ainda ancoro
Os barcos mais atrozes e sutis,
Não tendo outro caminho, sigo só,
O peso desta vida em pedra e mó
Diverge do que tanto um dia eu quis.
31887
Nada mais tenho e nada mais terei,
Já não me bastaria acreditar
No quanto ainda posso navegar
Se o barco noutra estância desandei.
Recebo da emoção temível lei
E sinto quanto posso desancar
Palavra noutra senda a desnudar
O que jamais um dia inda verei.
Vestígios de litígios, ermos meus,
Apenas ao trazer um novo adeus
Eu tento disfarçar, mas não consigo,
O amor entardecido não maltrata,
Porém sua presença se faz grata
Conquanto não se mostre algum perigo.
31888
Na mata sem saída a vida embrenha
E amortalhando o sonho em trevas feito
Resumo o pesadelo enquanto deito
E tento desvendar da vida a senha
Ainda que o prazer sempre convenha
Bom senso toma conta e sem direito
Ao riso mesmo após já satisfeito
Caminho que deveras inda tenha
Momentos de prazer são poucos, mas
No quanto a própria vida ainda traz
O velho caminheiro com cuidado,
Não deixa se iludir por ventania,
E sabe que amanhã sendo outro dia,
O rumo aonde entrara, desolado.
31889
Resumos que eu não fiz; a noite inventa
E traça com momentos mais sutis
O quanto poderia ser feliz
Ao fim gerando a dor, fatal tormenta,
A sorte muitas vezes desalenta
E deixa o coração tolo aprendiz,
Porquanto tantos sonhos sempre quis
E agora nem a paz já se apresenta.
Resisto às tais vontades mesmo quando
O mundo noutro tanto se ofertando
Em ares juvenis, sendo que agora
Apenas cada ruga do meu rosto
Cobrando do viver um caro imposto,
Aos poucos morte insana me devora...
31890
A porca que engordei, morde ferrenha,
Assim esta ilusão que alimentara
Aos poucos com a fúria em sua cara
Adentra o coração e já desdenha
Do sonho inusitado que inda trago
Vencido pela fúria do não ser,
E quando renovasse algum prazer
No intento incontrolável de um afago,
O vértice se perde em abissais
Do todo aonde urdira um só momento
No vago deste encanto me atormento
E sei que a vida volve nunca mais,
O quadro desbotado nada traz
Somente o desespero em face audaz...
31845 até 31850
31846
Anseio ser feliz embora veja
A sorte tão distante dos meus braços
E sigo a tempestade em torpes passos
Até quando a verdade me apedreja
E risco assim os céus tendo a alma andeja
E tanto quanto possa que assim seja
A morte trama agora os fortes laços
E deles cada dia em embaraços
Não posso sonegar o que se almeja,
Restituindo aos poucos cada não
E tramo a mais diversa direção
Rumando aos temporais mais costumeiros,
Assim ao renovar-me em morte e vida,
Presença muitas vezes garantida
Na emanação daninha nos canteiros.
31847
Daquela que desejo embora tenha
Certeza deste não que recebi
Voltando o meu olhar chegando a ti,
Não sei e não teria ainda a senha
E mesmo se tivesse não se empenha
Em transformar o quanto me embebi
Num sonho mais audaz, e desde aqui
Não tenho nem a luz que me convenha.
Resisto por viver e nada mais,
Angustiosamente busco o cais
E nele qualquer luz que ainda alente,
Mas nada do que tanto ou mais pudera
Não vale um só minuto desta espera
Porquanto ser feliz é mais urgente...
31848
Sem ter notícia ou traço de quem fora
Imagem de um momento e nada mais
A vida vai trazendo este jamais
Aonde esta mortalha é redentora,
O verso tendo a face aterradora
Esgota o que pudesse em anormais
Caminhos onde fiz mais naturais
E sei que quanto a verdade é promissora.
Cansado de falar sem ser ouvido,
O passo se perdendo, resolvido
A não permitir qualquer clausura
Escrevo pra mim mesmo e isto basta,
Palavra por palavra bem mais gasta
Não mais traduziriam tal procura...
31849
Não vivo um só momento e nem pudera
Viver a imensidade do não ser,
E tento quando muito, até poder
Vencer com calmaria qualquer fera,
Arrasto-me em tais solos, nada espera
Senão mesmo vazio que ao tecer
Extrai de mim o podre amanhecer
Enquanto o que inda resta degenera.
Assumo a invalidez de cada verso
E tento ser feliz neste universo
Aonde nada vale o que se pensa,
Mediocremente peço mais escusas,
E nada do que tanto ainda acusas
Fará vida qualquer inda mais tensa.
31850
Na ausência de teus braços, minha amiga
Eu bem queria ao menos ter comigo
Que tanto vale o mesmo desabrigo
Conforme ainda a sorte se persiga.
A força inexorável ainda obriga
Quem tenta caminhar e sei perigo,
No fardo de viver já não consigo
E tento qualquer fonte mesmo antiga.
As vestes mais puídas, as que trago,
E enquanto estes problemas, teimo e drago
Residem dentro em mim são, pois colunas,
E delas só por elas resistindo,
O quanto imaginara agora eu findo
Jogado sob pedra, areias, dunas...
Anseio ser feliz embora veja
A sorte tão distante dos meus braços
E sigo a tempestade em torpes passos
Até quando a verdade me apedreja
E risco assim os céus tendo a alma andeja
E tanto quanto possa que assim seja
A morte trama agora os fortes laços
E deles cada dia em embaraços
Não posso sonegar o que se almeja,
Restituindo aos poucos cada não
E tramo a mais diversa direção
Rumando aos temporais mais costumeiros,
Assim ao renovar-me em morte e vida,
Presença muitas vezes garantida
Na emanação daninha nos canteiros.
31847
Daquela que desejo embora tenha
Certeza deste não que recebi
Voltando o meu olhar chegando a ti,
Não sei e não teria ainda a senha
E mesmo se tivesse não se empenha
Em transformar o quanto me embebi
Num sonho mais audaz, e desde aqui
Não tenho nem a luz que me convenha.
Resisto por viver e nada mais,
Angustiosamente busco o cais
E nele qualquer luz que ainda alente,
Mas nada do que tanto ou mais pudera
Não vale um só minuto desta espera
Porquanto ser feliz é mais urgente...
31848
Sem ter notícia ou traço de quem fora
Imagem de um momento e nada mais
A vida vai trazendo este jamais
Aonde esta mortalha é redentora,
O verso tendo a face aterradora
Esgota o que pudesse em anormais
Caminhos onde fiz mais naturais
E sei que quanto a verdade é promissora.
Cansado de falar sem ser ouvido,
O passo se perdendo, resolvido
A não permitir qualquer clausura
Escrevo pra mim mesmo e isto basta,
Palavra por palavra bem mais gasta
Não mais traduziriam tal procura...
31849
Não vivo um só momento e nem pudera
Viver a imensidade do não ser,
E tento quando muito, até poder
Vencer com calmaria qualquer fera,
Arrasto-me em tais solos, nada espera
Senão mesmo vazio que ao tecer
Extrai de mim o podre amanhecer
Enquanto o que inda resta degenera.
Assumo a invalidez de cada verso
E tento ser feliz neste universo
Aonde nada vale o que se pensa,
Mediocremente peço mais escusas,
E nada do que tanto ainda acusas
Fará vida qualquer inda mais tensa.
31850
Na ausência de teus braços, minha amiga
Eu bem queria ao menos ter comigo
Que tanto vale o mesmo desabrigo
Conforme ainda a sorte se persiga.
A força inexorável ainda obriga
Quem tenta caminhar e sei perigo,
No fardo de viver já não consigo
E tento qualquer fonte mesmo antiga.
As vestes mais puídas, as que trago,
E enquanto estes problemas, teimo e drago
Residem dentro em mim são, pois colunas,
E delas só por elas resistindo,
O quanto imaginara agora eu findo
Jogado sob pedra, areias, dunas...
31836 até 31840
31836
Quem dera se eu pudesse te dizer
Das noites solitárias, temerosas
Agora ao adentrar canteiro em rosas
O quanto do passado a se esquecer
A vida muita vez eu pude ver
Em noites tão sofridas, dolorosas
E quando vejo cenas majestosas
Encontro o que decerto quis saber,
Mas todo o meu caminho a se mostrar
Em ares tão diversos de um luar
Que nunca imaginei fosse tão meu,
O mundo que pensara simplesmente
Ser claro e poder ter na minha mente,
Há tanto sem ninguém escureceu...
31837
Que me faz satisfeito perceber
O quanto poderia ser diverso
Não fosse o mundo amargo e tão perverso
Ausente dos meus olhos o prazer
Pudesse novamente amanhecer
E ter no meu olhar todo o universo
Que vejo fatalmente mais disperso
E sem saber o rumo, a me perder,
Não pude acreditar num só instante
E vendo o dia a dia degradante
Do fascinante sonho nada resta,
A face desdenhosa se mostrando,
O mundo num momento desabando
Deixando no passado alguma festa...
31838
Amar é penitência e tenho dito,
Não pude ser feliz, bem o quisera
A solidão terrível dura fera
E o tempo de sonhar sendo finito
Não deixa que se creia num bonito
Momento mesmo quando se tempera
A vida com sorriso, nada espera
A sorte se perdendo em tom aflito,
Resumo o meu passado no presente
E nada do que tanto se apresente
Somente esta semente feita em nada
Colheita que pensara ser possível
Agora se ausentando em perecível
Caminho sonegando cada estrada...
31839
Cratera no meu peito aberta em dor
Não deixa que se creia em esperança
E quando a voz ao nada já se lança
Apenas outro sonho encantador,
E nele não se vê somente a flor
Espinho a cada ausência mais avança
E pude bendizer a temperança
Aonde agora vejo decompor
O tempo de sonhar já se negando
O quando pude crer hoje é nefando
A sorte não semeia mais alento,
E assim ao mergulhar neste vazio,
O todo que pensara e não desfio
Perdido sem caminho em tosco vento...
31840
O medo desta ausência toma a cena
E nada do que tanto imaginara,
Moldando uma esperança imensa e clara
A noite não será jamais serena,
E quando procurara mais amena
No fundo se fizera então amara,
A dor tomando toda esta seara
A própria vida aos poucos me envenena,
Restando ao sonhador, mera palavra
Que insanamente teima enquanto lavra
Ousando pelo menos crer no dia
Aonde poderia ser melhor,
Porém esta colheita eu se cor,
Jamais novo momento mostraria...
Quem dera se eu pudesse te dizer
Das noites solitárias, temerosas
Agora ao adentrar canteiro em rosas
O quanto do passado a se esquecer
A vida muita vez eu pude ver
Em noites tão sofridas, dolorosas
E quando vejo cenas majestosas
Encontro o que decerto quis saber,
Mas todo o meu caminho a se mostrar
Em ares tão diversos de um luar
Que nunca imaginei fosse tão meu,
O mundo que pensara simplesmente
Ser claro e poder ter na minha mente,
Há tanto sem ninguém escureceu...
31837
Que me faz satisfeito perceber
O quanto poderia ser diverso
Não fosse o mundo amargo e tão perverso
Ausente dos meus olhos o prazer
Pudesse novamente amanhecer
E ter no meu olhar todo o universo
Que vejo fatalmente mais disperso
E sem saber o rumo, a me perder,
Não pude acreditar num só instante
E vendo o dia a dia degradante
Do fascinante sonho nada resta,
A face desdenhosa se mostrando,
O mundo num momento desabando
Deixando no passado alguma festa...
31838
Amar é penitência e tenho dito,
Não pude ser feliz, bem o quisera
A solidão terrível dura fera
E o tempo de sonhar sendo finito
Não deixa que se creia num bonito
Momento mesmo quando se tempera
A vida com sorriso, nada espera
A sorte se perdendo em tom aflito,
Resumo o meu passado no presente
E nada do que tanto se apresente
Somente esta semente feita em nada
Colheita que pensara ser possível
Agora se ausentando em perecível
Caminho sonegando cada estrada...
31839
Cratera no meu peito aberta em dor
Não deixa que se creia em esperança
E quando a voz ao nada já se lança
Apenas outro sonho encantador,
E nele não se vê somente a flor
Espinho a cada ausência mais avança
E pude bendizer a temperança
Aonde agora vejo decompor
O tempo de sonhar já se negando
O quando pude crer hoje é nefando
A sorte não semeia mais alento,
E assim ao mergulhar neste vazio,
O todo que pensara e não desfio
Perdido sem caminho em tosco vento...
31840
O medo desta ausência toma a cena
E nada do que tanto imaginara,
Moldando uma esperança imensa e clara
A noite não será jamais serena,
E quando procurara mais amena
No fundo se fizera então amara,
A dor tomando toda esta seara
A própria vida aos poucos me envenena,
Restando ao sonhador, mera palavra
Que insanamente teima enquanto lavra
Ousando pelo menos crer no dia
Aonde poderia ser melhor,
Porém esta colheita eu se cor,
Jamais novo momento mostraria...
31831 até 31835
31831
Sem medo de sofrer, de repartir
A soma de fazendo muito além
E quando a tempestade ainda vem
Não tendo mais temores do porvir,
Vivendo tão somente o que sentir,
E sendo muitas vezes outro alguém
Quando em verdade somos mesmo bem,
Ao aprendermos nada repartir,
Compartilhando assim única estrada
E tendo sob os olhos a alvorada
Desvendando os mistérios de uma vida
Que embora tão diversa se fez una,
O amor que tanto amor já coaduna
Não deixa que se creia em despedida.
31832
Assim talvez pudéssemos seguir
Embora por diversos rumos, vejo
Este horizonte aonde o meu desejo
Encontra em teu desejo um elixir,
Resguardo algum direito, mas sentir
A mesma maravilha onde prevejo
O dia com ternura e num verdejo
Singrar sem distinção mesmo porvir.
Assim ao nos unirmos percebi
Que todo o meu futuro estava em ti
E tendo esta certeza, nada além
Do gozo incomparável de uma festa
Traçada pelos raios numa fresta
Dizendo da manhã que em paz já vem..
31833
Que tomam a minha alma já de assalto
As belas harmonias em que os tons
Refletem as belezas destes dons,
Sem ter nenhum percalço ou sobressalto,
E quando te percebo, logo eu salto
As pedras e os espinhos, ledos sons
E vejo estes momentos belos, bons,
Não tendo no final qualquer ressalto,
Ressalvas e senões eu desconheço
Contigo muito ausente de um tropeço
Percorro a imensidade deste encanto
E sendo assim deveras teu amigo
Em ti eu conheci o manso abrigo,
Deixando no passado algum quebranto.
31834
De todo o sentimento e do prazer
Apenas um feliz coadjuvante
A vida se mostrando neste instante
Permite que se creia e eu posso ver
Searas mais sobejas do querer,
E nada do que vivo doravante
Terá esta faceta degradante
Dos tempos onde nada pude ser,
Servindo como posso a quem se fez
Amante amada amiga, a sensatez
Deixando para trás qualquer resposta,
Apenas por viver e sem perguntas,
As almas companheiras andam juntas
Seara desejada agora exposta.
31835
Num canto, devagar, sem sobressalto,
Sentindo o teu perfume simplesmente
Porquanto tanto amor já se apresente
O mundo que caminho se diz lauto,
E vejo este cenário, outrora incauto,
Agora mergulhando plenamente,
Não tendo outra seara que ainda tente,
Amor a cada verso mais exalto.
Exemplo de uma vida em redenção
Momentos mais tranqüilos, diversão
Sem ter as divisões sempre funestas
E enquanto nós sabemos conviver
Conciliando o sonho com prazer
Amor que em pleno amor, mais amor gestas.
Sem medo de sofrer, de repartir
A soma de fazendo muito além
E quando a tempestade ainda vem
Não tendo mais temores do porvir,
Vivendo tão somente o que sentir,
E sendo muitas vezes outro alguém
Quando em verdade somos mesmo bem,
Ao aprendermos nada repartir,
Compartilhando assim única estrada
E tendo sob os olhos a alvorada
Desvendando os mistérios de uma vida
Que embora tão diversa se fez una,
O amor que tanto amor já coaduna
Não deixa que se creia em despedida.
31832
Assim talvez pudéssemos seguir
Embora por diversos rumos, vejo
Este horizonte aonde o meu desejo
Encontra em teu desejo um elixir,
Resguardo algum direito, mas sentir
A mesma maravilha onde prevejo
O dia com ternura e num verdejo
Singrar sem distinção mesmo porvir.
Assim ao nos unirmos percebi
Que todo o meu futuro estava em ti
E tendo esta certeza, nada além
Do gozo incomparável de uma festa
Traçada pelos raios numa fresta
Dizendo da manhã que em paz já vem..
31833
Que tomam a minha alma já de assalto
As belas harmonias em que os tons
Refletem as belezas destes dons,
Sem ter nenhum percalço ou sobressalto,
E quando te percebo, logo eu salto
As pedras e os espinhos, ledos sons
E vejo estes momentos belos, bons,
Não tendo no final qualquer ressalto,
Ressalvas e senões eu desconheço
Contigo muito ausente de um tropeço
Percorro a imensidade deste encanto
E sendo assim deveras teu amigo
Em ti eu conheci o manso abrigo,
Deixando no passado algum quebranto.
31834
De todo o sentimento e do prazer
Apenas um feliz coadjuvante
A vida se mostrando neste instante
Permite que se creia e eu posso ver
Searas mais sobejas do querer,
E nada do que vivo doravante
Terá esta faceta degradante
Dos tempos onde nada pude ser,
Servindo como posso a quem se fez
Amante amada amiga, a sensatez
Deixando para trás qualquer resposta,
Apenas por viver e sem perguntas,
As almas companheiras andam juntas
Seara desejada agora exposta.
31835
Num canto, devagar, sem sobressalto,
Sentindo o teu perfume simplesmente
Porquanto tanto amor já se apresente
O mundo que caminho se diz lauto,
E vejo este cenário, outrora incauto,
Agora mergulhando plenamente,
Não tendo outra seara que ainda tente,
Amor a cada verso mais exalto.
Exemplo de uma vida em redenção
Momentos mais tranqüilos, diversão
Sem ter as divisões sempre funestas
E enquanto nós sabemos conviver
Conciliando o sonho com prazer
Amor que em pleno amor, mais amor gestas.
31821 até 31830
31821
Eu juro meu amor, até tentei
Vencer os meus anseios mais atrozes
E sendo quase inúteis minhas vozes
No pantanal imenso mergulhei
E sendo da esperança o que bem sei
Os dias são terríveis, vãos algozes
E quanto mais expondo assim ferozes
Momentos onde tanto procurei
Ao menos discernir qualquer carinho,
Persisto a caminhada e vou sozinho
Buscando cada vez onde eu retrato
A imensa sordidez porquanto eu possa
Viver além da imensa e turva fossa
Rezando com a morte este contrato.
31822
Que eu faço se na lua eu vejo os sonhos
Perdidos desde quando eu me entregara
E sendo esta faceta bem mais clara,
Os dias não seriam mais risonhos.
Resisto aos desenganos e tristonhos
Caminhos onde a sorte desampara
Gerando a cada ausência nova escara
Tacanhas faces turvas em medonhos
Desníveis aprofundam tal cratera
E nela muito aquém do que se espera,
O fardo de viver se anunciando.
O vandalismo exposto dia a dia,
Transcende ao que fora uma heresia
Mortalha se mostrara em tom nefando.
31823
Meus erros são enormes, mas insisto
E tento perceber algum alento
Embora no vazio outro tormento,
Jamais imaginara e nem desisto,
O quanto de algum sonho fiz benquisto
E tanto quanto posso me atormento,
Mas vago pelos ermos de um momento
E quando vejo o fim até despisto.
Resulto do que ainda poderia
Ser mais do que esta noite em fantasia
Não fosse esta mortalha em que vê
Retrato de uma vida mais atroz,
E sendo impossível qualquer voz,
A vida continua sem por que.
31824
Tu sabes dos meus vícios e pecados,
E mesmo assim prossegues junto a mim,
O quanto do desejo chega ao fim,
Momentos dolorosos, desbotados,
E tanto se conhecem os enfados
E neles tu cevaste o teu jardim
De um perfumado sonho de jasmim,
Apenas são risíveis torpes prados,
E quando desvendaste tais segredos,
Os dias que em verdade foram ledos
Jamais renascerão em doce aroma,
Dos aprazíveis sonhos, nem sinal,
O fardo se carrega em usual
Desejo que a verdade nunca soma.
31825
Meu rumo nos teus passos se perdeu
E sendo assim a vida não podia
Trazer qualquer delírio em alegria
Se tanto quanto posso diz do breu,
E tudo o que pensara ainda meu
A poda do viver já não traria
Senão a mesma face em ironia,
Matando qualquer sonho em apogeu.
Legado de uma vida inconsistente
Ainda que outro encanto a gente tente
Mortalha se tecendo com os nãos,
E os beijos prometidos? Simples sonho,
E tudo o que ainda posso ou mais proponho
Deveras araria agrestes chãos...
31826
Não tema o amanhecer, pois sou só teu,
E assim a vida traça o amanhecer
E nele com certeza posso ver
O quanto deste instante converteu
Em plena claridade o antigo breu
No amor que ao atingir seu apogeu
Expressa muito além de algum prazer
A própria intensidade de um viver
Que a liberdade agora conheceu.
Surgindo com a força da alvorada
A sorte noutra sorte já traçada
Impede que se vejam temporais
Por mais ainda mesmo em tez brumosa
Seara se aproxima majestosa
Raiando sobre nós claros cristais...
31827
Do amor que nos transporta em calmo leito
Eu sei e reconheço sem fronteiras
As noites prazerosas, costumeiras
Fazendo da esperança divino pleito,
Não tendo mais temores quando deito
O amor que se mostrara em tais bandeiras
As horas do passado, traiçoeiras
Agora não traduzem o que aceito,
E sendo assim parceiros deste encanto,
No tanto que vivemos cada canto
Traduz felicidade e nada além,
Assim ao me saber completamente
Envolto neste todo se pressente
Imensa claridade que ora vem...
31828
Futuro bem melhor pra nós prevejo
Sabendo deste tanto que sou teu,
Meu mundo no teu mundo se verteu
Unindo num só fato este desejo
E quando a cada instante mais almejo
A sorte que deveras percebeu
Quem tanto conhecera e se prendeu
Na dura turbulência de um ensejo
Aonde a dor domara a consciência
E agora com doçura e com clemência
Adentra novos rumos e é feliz.
Cevando assim a sorte que se colhe,
O amor rara colheita, nos escolhe
E traça tudo aquilo que eu mais quis...
31829
Na mansidão discreta de meu peito,
Mineiramente tento algum sorriso,
E sei do quanto o sonho é tão preciso
E dele faço assim o meu direito,
Vivendo nosso amor, agora aceito
A senda que me leve ao Paraíso
Porquanto neste encanto perco o siso
E cismo sem temor e satisfeito
Restando ao sonhador a mera entrega.
Uma alma que deveras fora cega
Agora se encantando com tal fato,
Adentra os mais sublimes caminhares
E tendo nos teus braços meus altares,
No amor que tanto amor traz, me retrato.
31830
O gosto da maçã e do desejo,
Sabores variados, mas delícias
Os corpos envolvidos por carícias
E a cada novo instante mais prevejo
O tempo aonde a vida num lampejo
Trouxera do futuro tais notícias
E as noites entre corpos e malícias
Num fogaréu intenso, assim me vejo.
Desnudos corpos bebem desta fonte,
E quando amanhecer ao longe aponte,
O sol se enamorando vem inteiro,
E assim no dia a dia nós bebemos
Do encanto que deveras percebemos
No amor além de tudo, verdadeiro...
Eu juro meu amor, até tentei
Vencer os meus anseios mais atrozes
E sendo quase inúteis minhas vozes
No pantanal imenso mergulhei
E sendo da esperança o que bem sei
Os dias são terríveis, vãos algozes
E quanto mais expondo assim ferozes
Momentos onde tanto procurei
Ao menos discernir qualquer carinho,
Persisto a caminhada e vou sozinho
Buscando cada vez onde eu retrato
A imensa sordidez porquanto eu possa
Viver além da imensa e turva fossa
Rezando com a morte este contrato.
31822
Que eu faço se na lua eu vejo os sonhos
Perdidos desde quando eu me entregara
E sendo esta faceta bem mais clara,
Os dias não seriam mais risonhos.
Resisto aos desenganos e tristonhos
Caminhos onde a sorte desampara
Gerando a cada ausência nova escara
Tacanhas faces turvas em medonhos
Desníveis aprofundam tal cratera
E nela muito aquém do que se espera,
O fardo de viver se anunciando.
O vandalismo exposto dia a dia,
Transcende ao que fora uma heresia
Mortalha se mostrara em tom nefando.
31823
Meus erros são enormes, mas insisto
E tento perceber algum alento
Embora no vazio outro tormento,
Jamais imaginara e nem desisto,
O quanto de algum sonho fiz benquisto
E tanto quanto posso me atormento,
Mas vago pelos ermos de um momento
E quando vejo o fim até despisto.
Resulto do que ainda poderia
Ser mais do que esta noite em fantasia
Não fosse esta mortalha em que vê
Retrato de uma vida mais atroz,
E sendo impossível qualquer voz,
A vida continua sem por que.
31824
Tu sabes dos meus vícios e pecados,
E mesmo assim prossegues junto a mim,
O quanto do desejo chega ao fim,
Momentos dolorosos, desbotados,
E tanto se conhecem os enfados
E neles tu cevaste o teu jardim
De um perfumado sonho de jasmim,
Apenas são risíveis torpes prados,
E quando desvendaste tais segredos,
Os dias que em verdade foram ledos
Jamais renascerão em doce aroma,
Dos aprazíveis sonhos, nem sinal,
O fardo se carrega em usual
Desejo que a verdade nunca soma.
31825
Meu rumo nos teus passos se perdeu
E sendo assim a vida não podia
Trazer qualquer delírio em alegria
Se tanto quanto posso diz do breu,
E tudo o que pensara ainda meu
A poda do viver já não traria
Senão a mesma face em ironia,
Matando qualquer sonho em apogeu.
Legado de uma vida inconsistente
Ainda que outro encanto a gente tente
Mortalha se tecendo com os nãos,
E os beijos prometidos? Simples sonho,
E tudo o que ainda posso ou mais proponho
Deveras araria agrestes chãos...
31826
Não tema o amanhecer, pois sou só teu,
E assim a vida traça o amanhecer
E nele com certeza posso ver
O quanto deste instante converteu
Em plena claridade o antigo breu
No amor que ao atingir seu apogeu
Expressa muito além de algum prazer
A própria intensidade de um viver
Que a liberdade agora conheceu.
Surgindo com a força da alvorada
A sorte noutra sorte já traçada
Impede que se vejam temporais
Por mais ainda mesmo em tez brumosa
Seara se aproxima majestosa
Raiando sobre nós claros cristais...
31827
Do amor que nos transporta em calmo leito
Eu sei e reconheço sem fronteiras
As noites prazerosas, costumeiras
Fazendo da esperança divino pleito,
Não tendo mais temores quando deito
O amor que se mostrara em tais bandeiras
As horas do passado, traiçoeiras
Agora não traduzem o que aceito,
E sendo assim parceiros deste encanto,
No tanto que vivemos cada canto
Traduz felicidade e nada além,
Assim ao me saber completamente
Envolto neste todo se pressente
Imensa claridade que ora vem...
31828
Futuro bem melhor pra nós prevejo
Sabendo deste tanto que sou teu,
Meu mundo no teu mundo se verteu
Unindo num só fato este desejo
E quando a cada instante mais almejo
A sorte que deveras percebeu
Quem tanto conhecera e se prendeu
Na dura turbulência de um ensejo
Aonde a dor domara a consciência
E agora com doçura e com clemência
Adentra novos rumos e é feliz.
Cevando assim a sorte que se colhe,
O amor rara colheita, nos escolhe
E traça tudo aquilo que eu mais quis...
31829
Na mansidão discreta de meu peito,
Mineiramente tento algum sorriso,
E sei do quanto o sonho é tão preciso
E dele faço assim o meu direito,
Vivendo nosso amor, agora aceito
A senda que me leve ao Paraíso
Porquanto neste encanto perco o siso
E cismo sem temor e satisfeito
Restando ao sonhador a mera entrega.
Uma alma que deveras fora cega
Agora se encantando com tal fato,
Adentra os mais sublimes caminhares
E tendo nos teus braços meus altares,
No amor que tanto amor traz, me retrato.
31830
O gosto da maçã e do desejo,
Sabores variados, mas delícias
Os corpos envolvidos por carícias
E a cada novo instante mais prevejo
O tempo aonde a vida num lampejo
Trouxera do futuro tais notícias
E as noites entre corpos e malícias
Num fogaréu intenso, assim me vejo.
Desnudos corpos bebem desta fonte,
E quando amanhecer ao longe aponte,
O sol se enamorando vem inteiro,
E assim no dia a dia nós bebemos
Do encanto que deveras percebemos
No amor além de tudo, verdadeiro...
31815 até 31820
31816
Quem sabe, com o tempo, venha o prumo
Que possa permitir algum momento
De paz aonde tanto me atormento,
Ou mesmo às intempéries me acostumo.
Não vejo outra saída, tal o grumo
Que unindo nossas vidas, mesmo vento
Pudesse ainda ter pressentimento
De um novo amanhecer com outro sumo.
Reside esta certeza aonde outrora
A própria insanidade não decora
O rumo aonde pude acreditar
Possível disparate de quem sonha,
Mas quando a face exposta é mais risonha,
Percebo ser aí o meu lugar...
31817
Vagando entre as estrelas, nada tem
Quem tanto procurou ancoradouro
E se diversas vezes eu me estouro
No quarto de dormir, vejo ninguém
Acostumado mesmo a tal desdém
Amor já desde o tenro nascedouro
Morrendo de vagar, ledo tesouro,
E nele apenas frio inda contém,
Contara mil estrelas, mas o céu
Em nuvens tão espessas se perdeu,
O quanto deste nada se fez breu
Mal cumpre com ternura o seu papel,
Percorro a mesma estrada e vez em quando
O quadro que imagino, descorando...
31818
Na busca do infinito, vai sem rumo
Quem tanto vangloria de saber
O quanto se domina o bem querer
E tanto quanto posso, já me esfumo,
Reduzo a dimensão e me acostumo
Aos mais diversos tons do desprazer,
E pude mesmo até decerto ver
Do vale mais profundo o frágil prumo.
Primando por tentar em poesia
Vivenciar aquilo que não trago,
Invento em pensamento algum afago,
Mas logo que a manhã já se anuncia
Eu vejo simplesmente que este sonho,
Não trouxe nem sinal do que proponho.
31819
Perdendo-se sem ter além de enganos
O quanto poderia ser mais leve
Ao mesmo tempo ainda já se atreve
E molda com terror antigos panos
Escravizando uma alma, desumanos
Momentos onde a sorte já me leve,
Trazendo invés de sol, granizo e neve
Aumenta dia a dia velhos danos.
Ocasos entre ocasos, nada além
Do quanto ainda resta e não convém
Perigos são constantes e se eu busco
Apenas mera trégua ou mesmo a paz.
A sorte desairosa nunca traz
O tempo continua em lusco fusco...
31820
Minha alma segue errática e cigana
Vagando por estrelas, riscos, ritos,
E quando penetrando em infinitos
Momentos muitas vezes já se ufana
Do quanto por si mesma ora se engana
E bebe dos temores, velhos mitos,
Os dias podem ser e são aflitos
Acossa-me o terror em voz humana.
Rendido aos meus anseios, nada faço
Senão ao repetir o mesmo traço
Imagem caricata de um poeta.
Vencido pela angústia e pelo medo,
Se vez em quando um sonho até concedo,
Minha alam na tempesta se completa...
Quem sabe, com o tempo, venha o prumo
Que possa permitir algum momento
De paz aonde tanto me atormento,
Ou mesmo às intempéries me acostumo.
Não vejo outra saída, tal o grumo
Que unindo nossas vidas, mesmo vento
Pudesse ainda ter pressentimento
De um novo amanhecer com outro sumo.
Reside esta certeza aonde outrora
A própria insanidade não decora
O rumo aonde pude acreditar
Possível disparate de quem sonha,
Mas quando a face exposta é mais risonha,
Percebo ser aí o meu lugar...
31817
Vagando entre as estrelas, nada tem
Quem tanto procurou ancoradouro
E se diversas vezes eu me estouro
No quarto de dormir, vejo ninguém
Acostumado mesmo a tal desdém
Amor já desde o tenro nascedouro
Morrendo de vagar, ledo tesouro,
E nele apenas frio inda contém,
Contara mil estrelas, mas o céu
Em nuvens tão espessas se perdeu,
O quanto deste nada se fez breu
Mal cumpre com ternura o seu papel,
Percorro a mesma estrada e vez em quando
O quadro que imagino, descorando...
31818
Na busca do infinito, vai sem rumo
Quem tanto vangloria de saber
O quanto se domina o bem querer
E tanto quanto posso, já me esfumo,
Reduzo a dimensão e me acostumo
Aos mais diversos tons do desprazer,
E pude mesmo até decerto ver
Do vale mais profundo o frágil prumo.
Primando por tentar em poesia
Vivenciar aquilo que não trago,
Invento em pensamento algum afago,
Mas logo que a manhã já se anuncia
Eu vejo simplesmente que este sonho,
Não trouxe nem sinal do que proponho.
31819
Perdendo-se sem ter além de enganos
O quanto poderia ser mais leve
Ao mesmo tempo ainda já se atreve
E molda com terror antigos panos
Escravizando uma alma, desumanos
Momentos onde a sorte já me leve,
Trazendo invés de sol, granizo e neve
Aumenta dia a dia velhos danos.
Ocasos entre ocasos, nada além
Do quanto ainda resta e não convém
Perigos são constantes e se eu busco
Apenas mera trégua ou mesmo a paz.
A sorte desairosa nunca traz
O tempo continua em lusco fusco...
31820
Minha alma segue errática e cigana
Vagando por estrelas, riscos, ritos,
E quando penetrando em infinitos
Momentos muitas vezes já se ufana
Do quanto por si mesma ora se engana
E bebe dos temores, velhos mitos,
Os dias podem ser e são aflitos
Acossa-me o terror em voz humana.
Rendido aos meus anseios, nada faço
Senão ao repetir o mesmo traço
Imagem caricata de um poeta.
Vencido pela angústia e pelo medo,
Se vez em quando um sonho até concedo,
Minha alam na tempesta se completa...
31811 atpe 31815
31811
De todos os momentos que vivemos
Eu guardo alguns relances e percebo,
Por mais que amor pareça algum placebo
É nele com certeza que aprendemos
Liberta ou já renova velhos demos
E tudo deste encanto quando bebo
Universo diverso ora concebo,
E sei quanto que enfim necessitemos
Da frágil solidez em movediça
Face tantas vezes muito ingrata
Ao mesmo tempo alenta e nos maltrata
Retrata iridescente maravilha,
Porém brumosa senda descortina
E quando se transforma em nada, ausente
O amor se esvaecendo não se sente,
Opaca face etérea e cristalina.
31812
Saudades, meu amor, saudades tantas;
Apenas instantâneos de uma vida
Que há tanto se pensara mais perdida,
E quando vez por outra inda levantas
Transcorre deste jeito em dor ungida
Ou mesmo negação, torpe avenida
Em meio às novidades, rotas mantas
E quando desabriga e desobriga
Perdendo esta magia, rara liga,
Esvaecida imagem morre ao léu,
Enquanto aprisiona diz tortura,
E quando nos liberta se afigura
Caminho para o Inferno ou para o Céu.
31813
Na paz que precisamos e queremos
Figura distorcida de um anseio,
Porquanto se prepara em vário veio
Às vezes noutros rumos esquecemos
O quanto do passado já vivemos,
E ainda vez em quando até rodeio
Cadáver do que fora mero meio
E nele novos dias percebemos.
Atrocidades tantas, luzes foscas,
Depois de certo tempo mesmo às moscas
O sentimento volta a incomodar,
Risonho ou quando tétrico, temível,
Num olvidável sonho inesquecível
Qual fosse cada fase de um luar...
31814
“Assim enfim felizes, viveremos”
Num ledo engano vejo este himeneu
Após o que pensara em apogeu
Mergulha no vazio, e até queremos
Viver o que deveras já perdemos
Bebendo cada gota em perigeu,
Resisto ao que pensara teu e meu,
E penso quanto em paz nós merecemos.
Pudesse renovável, mas não é,
E assim qual fora a borra de um café
Coagem renovada é dissabor.
E sendo tão factível às tormentas
No quanto a face escusa me apresentas,
Depois de certo tempo: o decompor.
31815
E possa me entregar ao nosso bem
Após vencer comuns vicissitudes,
Na etérea sensação das juventudes
O tempo contra o tempo sempre vem,
Ao se mostrar assim percebo alguém
Atrás de quem deveras tanto mudes,
E enquanto eu te iludi também me iludes
A verdade absoluta não convém.
Matando pouco a pouco, dia a dia,
O quanto disso tudo se recria,
Em filhos, netos, genros, vida afora.
E a velha face exposta do que fomos,
Capítulo final resume os tomos,
A capa-dura apenas nos decora...
De todos os momentos que vivemos
Eu guardo alguns relances e percebo,
Por mais que amor pareça algum placebo
É nele com certeza que aprendemos
Liberta ou já renova velhos demos
E tudo deste encanto quando bebo
Universo diverso ora concebo,
E sei quanto que enfim necessitemos
Da frágil solidez em movediça
Face tantas vezes muito ingrata
Ao mesmo tempo alenta e nos maltrata
Retrata iridescente maravilha,
Porém brumosa senda descortina
E quando se transforma em nada, ausente
O amor se esvaecendo não se sente,
Opaca face etérea e cristalina.
31812
Saudades, meu amor, saudades tantas;
Apenas instantâneos de uma vida
Que há tanto se pensara mais perdida,
E quando vez por outra inda levantas
Transcorre deste jeito em dor ungida
Ou mesmo negação, torpe avenida
Em meio às novidades, rotas mantas
E quando desabriga e desobriga
Perdendo esta magia, rara liga,
Esvaecida imagem morre ao léu,
Enquanto aprisiona diz tortura,
E quando nos liberta se afigura
Caminho para o Inferno ou para o Céu.
31813
Na paz que precisamos e queremos
Figura distorcida de um anseio,
Porquanto se prepara em vário veio
Às vezes noutros rumos esquecemos
O quanto do passado já vivemos,
E ainda vez em quando até rodeio
Cadáver do que fora mero meio
E nele novos dias percebemos.
Atrocidades tantas, luzes foscas,
Depois de certo tempo mesmo às moscas
O sentimento volta a incomodar,
Risonho ou quando tétrico, temível,
Num olvidável sonho inesquecível
Qual fosse cada fase de um luar...
31814
“Assim enfim felizes, viveremos”
Num ledo engano vejo este himeneu
Após o que pensara em apogeu
Mergulha no vazio, e até queremos
Viver o que deveras já perdemos
Bebendo cada gota em perigeu,
Resisto ao que pensara teu e meu,
E penso quanto em paz nós merecemos.
Pudesse renovável, mas não é,
E assim qual fora a borra de um café
Coagem renovada é dissabor.
E sendo tão factível às tormentas
No quanto a face escusa me apresentas,
Depois de certo tempo: o decompor.
31815
E possa me entregar ao nosso bem
Após vencer comuns vicissitudes,
Na etérea sensação das juventudes
O tempo contra o tempo sempre vem,
Ao se mostrar assim percebo alguém
Atrás de quem deveras tanto mudes,
E enquanto eu te iludi também me iludes
A verdade absoluta não convém.
Matando pouco a pouco, dia a dia,
O quanto disso tudo se recria,
Em filhos, netos, genros, vida afora.
E a velha face exposta do que fomos,
Capítulo final resume os tomos,
A capa-dura apenas nos decora...
31805 até 31810
31806
Nossos beijos no banco da pracinha
Cidade pequenina, grande sonhos...
Os dias eram sempre mais risonhos
Até pensei que fosses toda minha.
O tempo noutro tempo já se aninha
E os dias em tempestas, são tristonhos
Cenários que ora vejo tão medonhos,
E ainda vejo a praça, está sozinha...
Não quero acreditar que a vida seja
Assim tão dolorida e o que se almeja
Perdendo toda a cor já se esvaece;
O corte na raiz impede a vida,
E quando a estrada eu vejo enfim perdida,
Nem mesmo da esperança uma benesse...
31807
Restando no meu peito as incertezas
De tempos que se foram, meras sombras
E quando como espectro tu me assombras
Olhando com terror as correntezas
Ainda se percebe em noite clara
A mesma lua, embora noutro tom,
Agora se mistura com neon
E o peso do viver já desampara.
Restando a quem sonhara; um mero vão
Da escada sem degraus, nada ascendendo
Aonde este futuro que estupendo
Restando esta mortalha em negação.
Mas vejo que o viver é sempre assim,
O início preconiza em si o fim.
31808
Prazeres, alegrias e tristezas,
Renovação da vida? Não devia,
O tempo quando em tempo se desfia
Prepara a cada ausência garras, presas,
E não mais caberiam tais surpresas,
Minha alma acostumada à fantasia
Não sabe com certeza de outro dia
Mas adivinha dores, sobremesas...
Capaz de até chover qualquer granizo,
Dos lucros que sonhara o prejuízo
Apenas refletindo a realidade,
Grisalhos os cabelos, rugas, face...
Final se aproximando e o sonho grasse,
Ao menos tal refúgio ainda agrade...
31809
Depois de tudo aquilo que tivemos
Em meio às festas risos e discórdias
A vida transcorrendo nas mixórdias
Diversas entre ritos, risos, demos,
E quando noutro tanto nada vê
Somente a dor invade o que pudera
Ao menos convencer qualquer quimera
Do rumo mais disperso sem por que.
O pântano criado desde quando
A fátua face expõe uma alma apenas,
Arrisco novas sendas me envenenas
Alheia ao que pudesse transformando
Cenário mais atroz em festa e gozo,
Mas como sendo o amor tão caprichoso?
31810
Mal sabes quanto ainda o amor encanta
E tenta discernir dor e beleza
Se tão comuns em mesma natureza
A voz que tanto ri também espanta,
E a força se mostrando agora tanta
Não deixa que se creia na surpresa
Atocaiada senda diz da presa
E nesta caça apenas sou o nada,
Uma armadilha sempre abençoada
E dela com ternura eu sorvo o todo
Embora no final se vendo o charco
Cada esperança mesmo quando abarco
Irremediavelmente dita o lodo...
Nossos beijos no banco da pracinha
Cidade pequenina, grande sonhos...
Os dias eram sempre mais risonhos
Até pensei que fosses toda minha.
O tempo noutro tempo já se aninha
E os dias em tempestas, são tristonhos
Cenários que ora vejo tão medonhos,
E ainda vejo a praça, está sozinha...
Não quero acreditar que a vida seja
Assim tão dolorida e o que se almeja
Perdendo toda a cor já se esvaece;
O corte na raiz impede a vida,
E quando a estrada eu vejo enfim perdida,
Nem mesmo da esperança uma benesse...
31807
Restando no meu peito as incertezas
De tempos que se foram, meras sombras
E quando como espectro tu me assombras
Olhando com terror as correntezas
Ainda se percebe em noite clara
A mesma lua, embora noutro tom,
Agora se mistura com neon
E o peso do viver já desampara.
Restando a quem sonhara; um mero vão
Da escada sem degraus, nada ascendendo
Aonde este futuro que estupendo
Restando esta mortalha em negação.
Mas vejo que o viver é sempre assim,
O início preconiza em si o fim.
31808
Prazeres, alegrias e tristezas,
Renovação da vida? Não devia,
O tempo quando em tempo se desfia
Prepara a cada ausência garras, presas,
E não mais caberiam tais surpresas,
Minha alma acostumada à fantasia
Não sabe com certeza de outro dia
Mas adivinha dores, sobremesas...
Capaz de até chover qualquer granizo,
Dos lucros que sonhara o prejuízo
Apenas refletindo a realidade,
Grisalhos os cabelos, rugas, face...
Final se aproximando e o sonho grasse,
Ao menos tal refúgio ainda agrade...
31809
Depois de tudo aquilo que tivemos
Em meio às festas risos e discórdias
A vida transcorrendo nas mixórdias
Diversas entre ritos, risos, demos,
E quando noutro tanto nada vê
Somente a dor invade o que pudera
Ao menos convencer qualquer quimera
Do rumo mais disperso sem por que.
O pântano criado desde quando
A fátua face expõe uma alma apenas,
Arrisco novas sendas me envenenas
Alheia ao que pudesse transformando
Cenário mais atroz em festa e gozo,
Mas como sendo o amor tão caprichoso?
31810
Mal sabes quanto ainda o amor encanta
E tenta discernir dor e beleza
Se tão comuns em mesma natureza
A voz que tanto ri também espanta,
E a força se mostrando agora tanta
Não deixa que se creia na surpresa
Atocaiada senda diz da presa
E nesta caça apenas sou o nada,
Uma armadilha sempre abençoada
E dela com ternura eu sorvo o todo
Embora no final se vendo o charco
Cada esperança mesmo quando abarco
Irremediavelmente dita o lodo...
31801 até 31806
31801
Matando, devagar, meu coração
Não pude discernir quem mais traria
Ao menos qualquer canto em alegria
Ou mesmo as tempestades de verão,
No quanto a vida mostra indecisão
E assim ao mesmo tempo a fantasia
Transcende ao que pudesse o dia a dia,
Marcando com terror e ingratidão,
Esboço a realidade em novas cores
Sabendo dos antúrios entre as flores
E nelas o canteiro se refaz,
Mas nada do que eu quis tempos atrás
Momentos muitas vezes sonhadores...
31802
Depois da dolorosa decisão
Aonde se tentara qualquer brilho,
E assim quando sozinho inda palmilho
Noturna e corriqueira procissão
Buscando novos dias desde então
E sendo tão cruel cada empecilho,
O quanto de ilusão teimo e polvilho
Traduz a mesma etérea negação.
Resisto e sei porquanto nada levo
Do tanto que pudesse ser longevo
O sentimento amargo que cultivo,
E tento ser feliz, mero fantoche
Enquanto a vida ri e assim deboche
Dos sonhos pelos quais eu fora altivo.
31803
A chuva nos molhando... O frio vento...
Repete o mesmo outono interminável,
E quando noutro inverno é decifrável
O que deveras sigo e mesmo invento,
Nos ermos deste vago tomo assento
E sei a vida ser mesmo intratável,
O solo que bendigo; nunca arável
Exposto às variáveis de um tormento,
Encarnam o que sei realidade,
E nada do que ainda desagrade
Porquanto brade insólito meu peito,
Dos tantos veranicos, nada resta,
A imagem que se vê torpe e funesta
Reflete o desespero quando deito.
31804
Da cama em que explodiam mil desejos.
Não restam nem estrados, nem sinais,
Os dias se repetem sendo iguais
E neles alegrias são lampejos,
Os sons de velhos tontos realejos,
As sombras de momentos divinais
E os ritos entre pedras terminais,
Os cortes entranhando em pés andejos.
Assim porquanto pude acreditar
Mesmo inconstantes raios do luar
Transcendem ao que pude ter no fim.
Ecléticos caminhos percorridos
E neles outros dias são sentidos,
Interminável ciclo dentro em mim.
31805
Depois as alianças, casamento,
Depois do casamento, desavenças
E assim se renovando velhas crenças
Preparam para o mesmo desalento,
E quando variáveis dias tento
As discrepâncias sendo mesmo imensas,
No fundo as mortes sejam recompensas
Embora com terrores, desalento.
Pudesse ter enfim qualquer partilha
Não fosse tão somente destes bens,
E quando minha parte tu conténs
Ao irmanarmos sonhos poderemos
Atravessar tempestas, calmarias,
No quanto espelhastes os meus dias,
Usando pelo menos mesmos remos...
Matando, devagar, meu coração
Não pude discernir quem mais traria
Ao menos qualquer canto em alegria
Ou mesmo as tempestades de verão,
No quanto a vida mostra indecisão
E assim ao mesmo tempo a fantasia
Transcende ao que pudesse o dia a dia,
Marcando com terror e ingratidão,
Esboço a realidade em novas cores
Sabendo dos antúrios entre as flores
E nelas o canteiro se refaz,
Mas nada do que eu quis tempos atrás
Momentos muitas vezes sonhadores...
31802
Depois da dolorosa decisão
Aonde se tentara qualquer brilho,
E assim quando sozinho inda palmilho
Noturna e corriqueira procissão
Buscando novos dias desde então
E sendo tão cruel cada empecilho,
O quanto de ilusão teimo e polvilho
Traduz a mesma etérea negação.
Resisto e sei porquanto nada levo
Do tanto que pudesse ser longevo
O sentimento amargo que cultivo,
E tento ser feliz, mero fantoche
Enquanto a vida ri e assim deboche
Dos sonhos pelos quais eu fora altivo.
31803
A chuva nos molhando... O frio vento...
Repete o mesmo outono interminável,
E quando noutro inverno é decifrável
O que deveras sigo e mesmo invento,
Nos ermos deste vago tomo assento
E sei a vida ser mesmo intratável,
O solo que bendigo; nunca arável
Exposto às variáveis de um tormento,
Encarnam o que sei realidade,
E nada do que ainda desagrade
Porquanto brade insólito meu peito,
Dos tantos veranicos, nada resta,
A imagem que se vê torpe e funesta
Reflete o desespero quando deito.
31804
Da cama em que explodiam mil desejos.
Não restam nem estrados, nem sinais,
Os dias se repetem sendo iguais
E neles alegrias são lampejos,
Os sons de velhos tontos realejos,
As sombras de momentos divinais
E os ritos entre pedras terminais,
Os cortes entranhando em pés andejos.
Assim porquanto pude acreditar
Mesmo inconstantes raios do luar
Transcendem ao que pude ter no fim.
Ecléticos caminhos percorridos
E neles outros dias são sentidos,
Interminável ciclo dentro em mim.
31805
Depois as alianças, casamento,
Depois do casamento, desavenças
E assim se renovando velhas crenças
Preparam para o mesmo desalento,
E quando variáveis dias tento
As discrepâncias sendo mesmo imensas,
No fundo as mortes sejam recompensas
Embora com terrores, desalento.
Pudesse ter enfim qualquer partilha
Não fosse tão somente destes bens,
E quando minha parte tu conténs
Ao irmanarmos sonhos poderemos
Atravessar tempestas, calmarias,
No quanto espelhastes os meus dias,
Usando pelo menos mesmos remos...
31796 ATÉ 31800
31796
Meu amor sempre dizia
Das angústias de quem tenta
Enfrentar a violenta
Tempestade em agonia,
E se o medo propicia
A defesa ou atormenta
No final, nada acrescenta
E repete o mesmo dia.
Verso novo ou mesmo velho,
Ao final o escaravelho
Ou quem sabe a carpideira,
Não resulto deste quando
Poderia transmudando
Mesma história, corriqueira...
31797
Isso tudo foi maldade
Nada disso pode ser
A vontade de vencer
Que deveras dita a grade,
E não canto o que te agrade
Na discórdia o meu prazer
Tanto pude conceber
O que ainda em paz invade
Cercanias mais risonhas
E se ainda vês e sonhas
Com momentos prazerosos,
Os caminhos se afunilam
Quando os corpos se perfilam
Em terrores, majestosos...
31798
Meu Deus o que faço agora?
Já não tendo nem respostas
Quando as mesas são dispostas
Própria sorte nos devora,
E se a fome não escora
Retalhando a vida em postas,
Outras vezes decompostas
Faces loucas, tudo ancora.
São prováveis descaminhos
E se tanto são sozinhos
Os que ainda eu poderia
Traduzir em versos frágeis,
Mas meus dedos não são ágeis
E nem mesmo a noite é fria...
31799
Quem deixou muita saudade
Com certeza não morreu,
Cada instante renasceu
Ao romper da morte a grade,
E se tanto ainda invade
Tendo eterno este apogeu,
Não conhece o perigeu
Rompe o tempo e a realidade.
Mas aos poucos, desalento
Nome perde-se no vento
E não resta nem sinais
Do que fora há poucos anos
Hoje meros desenganos,
Cenas tolas, pontuais...
31800
Minha sorte foi-se embora
Nos clarões e em várias trevas
Ao se crer em novas cevas
Outra cena não decora
O passado quando aflora
Resistindo às tantas levas
E se ainda são longevas
Porta aberta não ancora
O caminho mais audaz
Nem o tempo que é voraz,
Nem a sorte que é profana,
Resistindo bravamente
O passado sempre mente
E com névoas nos engana…
Meu amor sempre dizia
Das angústias de quem tenta
Enfrentar a violenta
Tempestade em agonia,
E se o medo propicia
A defesa ou atormenta
No final, nada acrescenta
E repete o mesmo dia.
Verso novo ou mesmo velho,
Ao final o escaravelho
Ou quem sabe a carpideira,
Não resulto deste quando
Poderia transmudando
Mesma história, corriqueira...
31797
Isso tudo foi maldade
Nada disso pode ser
A vontade de vencer
Que deveras dita a grade,
E não canto o que te agrade
Na discórdia o meu prazer
Tanto pude conceber
O que ainda em paz invade
Cercanias mais risonhas
E se ainda vês e sonhas
Com momentos prazerosos,
Os caminhos se afunilam
Quando os corpos se perfilam
Em terrores, majestosos...
31798
Meu Deus o que faço agora?
Já não tendo nem respostas
Quando as mesas são dispostas
Própria sorte nos devora,
E se a fome não escora
Retalhando a vida em postas,
Outras vezes decompostas
Faces loucas, tudo ancora.
São prováveis descaminhos
E se tanto são sozinhos
Os que ainda eu poderia
Traduzir em versos frágeis,
Mas meus dedos não são ágeis
E nem mesmo a noite é fria...
31799
Quem deixou muita saudade
Com certeza não morreu,
Cada instante renasceu
Ao romper da morte a grade,
E se tanto ainda invade
Tendo eterno este apogeu,
Não conhece o perigeu
Rompe o tempo e a realidade.
Mas aos poucos, desalento
Nome perde-se no vento
E não resta nem sinais
Do que fora há poucos anos
Hoje meros desenganos,
Cenas tolas, pontuais...
31800
Minha sorte foi-se embora
Nos clarões e em várias trevas
Ao se crer em novas cevas
Outra cena não decora
O passado quando aflora
Resistindo às tantas levas
E se ainda são longevas
Porta aberta não ancora
O caminho mais audaz
Nem o tempo que é voraz,
Nem a sorte que é profana,
Resistindo bravamente
O passado sempre mente
E com névoas nos engana…
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