quarta-feira, 10 de maio de 2017




Prossigo

Olhos buscam
Cores tantas que nada poderia
Prorrogar a imagem esquecida
Pelos cantos da casa,
Velha casa abandonada
Pelos erros de uma vida sem valia,
Vertendo em novos e fatais enganos.
Olhos procuram pelos ermos
Termos e sermos
Que não mais teríamos
Senão o mesmo fato
Envelhecido e torpe
Do pretérito tornado futuro.
O muro caído, o vento em fúria,
A incúria,
Lamúria?
Prossigo...

Paulo Mannarino




quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Natura se recria em minha vida
Esgotando a terrível mocidade
Enquanto bebo agora a insanidade
Percebo a minha força em despedida

A cada passo a sorte sendo urdida
Vencido pela incúria que me invade
Degrado-me em temível falsidade
Falências que carrego em voz perdida.

Agarro-me aos escombros, vãos destroços
E neles recompostas ilusões
Enquanto reproduzem aversões

Expondo apodrecidos, frágeis ossos
Na carcomida imagem me retrato
Um ser medonho e tênue quase abstrato...

MARCOS LOURES
Um feto que tão fátuo fui fugaz
Das fráguas freqüentara farsas fartas
Fuligem, farpa féretro e me enfartas
Com falsas e falazes, fútil paz

Feneço num falsete ou tanto faz
Se enfados ou fagulhas já descartas
Assisto à derrocada enquanto partas
E atento ao tempo tramo e entranho o antraz.

Noite aterrorizante antes do intento
E quando um brando andor ainda invento
Aceito teus conselhos velhos vãos

Espelho dentro da alma alça o vazio
E quando a vaga eu venço ou desafio
Desfio a fantasia em novos grãos...

MARCOS LOURES
A ÁRVORE DE NATAL DE CRISTO Adaptação de Marcos Coutinho Loures
Apresentamos hoje, uma compilação que fizemos de um belo conto de Dostoiewsky, intitulado “A árvore de Natal de Cristo”. Vamos a ele:

“Era véspera de Natal e uma criança de seis anos de idade acabara de acordar, naquele porão imundo de uma cidade imensa, onde o frio era tão intenso quanto a fome que sentia...

A mãe parecia dormir e a criança tocou-lhe o rosto gelado, duro como uma rocha, antes de sair para a rua. Ali na calçada, ficou surpreso com a quantidade de gente, de carros que passavam, de neve e de frio!

Um guarda passou por ele e o menino pôs-se a caminhar, até encontrar uma vidraça por onde viu uma árvore de Natal, cercada de crianças brincando, ao lado de uma mesa repleta de brinquedos, enfeites e doces.

O garotinho sorriu mas ao se lembrar da dor que sentia nos dedos da mão, começa a chorar e a correr. Mais à frente, avista novas vidraças através das quais vê outras árvores de Natal, com crianças em volta.

Belas e ricas senhoras abrem as portas de suas casas para que entrem os convidados para a ceia.

Lentamente, o menino se aproxima de uma das casas e entra também .

Mas, ao vê-lo ali, homens e mulheres começam a expulsá-lo para a rua.

Uma gorda senhora tenta oferecer-lhe uma moeda, mas o dinheiro rola pela escada pois os dedinhos endurecidos não conseguem segurá-la...

Ele volta a correr pela noite, até encontrar, diante de uma porta imensa, um grupo de pessoas que se divertem, vendo três enormes bonecos, vestidos de vermelho, com longas barbas, que pareciam vivos! Os bonecos riam, jogavam beijinhos e eram tão engraçados que fizeram o menino sorrir...

De repente, do meio da multidão, sai um garoto maior que puxa a criança pelos cabelos, dá-lhe socos e pontapés e a joga no chão! Sem nada entender, o menino corre, entra num porão escuro e vai se esconder atrás de um monte de lenha, tremendo de medo ... e de frio!

Daí a pouco, foi ele invadido por uma sensação de bem estar! Seus pezinhos e suas mãos não doíam mais e ele começou a sentir calor, muito calor, como se tivessem acendido o fogão de lenha. E foi assim que dormiu!

Foi despertado pela voz da mãe que lhe cantava uma cantiga de ninar e, logo a seguir, por alguém que lhe disse, com extrema doçura:

-“Vem comigo! Vamos ver a Árvore de Natal!”

Quem o estaria chamando , com tanta doçura?

Sem nada enxergar, o menino abriu os bracinhos e alguém o pegou no colo. Ao mesmo tempo, tudo em volta ficou luminoso, resplandecente! E assim, ele viu muitas árvores de Natal e, em volta delas, muitos bonecos.

Bonecos não! Eram crianças luminosas, meninos e meninas que o abraçavam, beijavam seu rostinho e que o levavam, voando, de um lado para o outro!

Mais além, ele vê sua mãe, que lhe sorri.

_ “Mamãe, mamãe! Como é bom estar aqui!”–exclama o garotinho.

E ele abraça seus novos companheiros, conta-lhes a história dos bonecos vermelhos de longas barbas e, finalmente, pergunta onde está.

-“Não sabes? – respondem os novos companheiros – “Esta é a Arvore de Natal de Cristo”. Todos os anos, há uma áravore que Jesus dá às criancinhas que não tiveram Natal, lá na Terra...”

E, lá na Terra, na manhã seguinte, os lixeiros encontraram o corpo congelado de um menino, num pátio vazio, perto de um monte de lenha.

Procuraram por sua mãe e descobriram que ela também havida morrido, um pouco antes dele.

-Com certeza, os dois foram se encontrar lá no Céu – todos disseram, com indizível ternura...
Sistematicamente a mente, mente
Ou omite emitindo falsos guizos
Em vandalismos cismo se imprecisos
Vários versos versando insanamente

E quando tanto ou mais sigo descrente
Atento aos violentos Paraísos
Em virulências feitas ânsias sisos
Conciso ou preciso se envolvente

Venéreas maravilhas vencem sismos
Em viscerais vitórias cataclismos
Abismos, precipícios ócios, vícios

E pendulares âncoras do tempo
Estampam no meu peito o contratempo
Volvendo aos versos frágeis: meus inícios...

marcos loures
Regalos de uma lúgubre bacante
Enlanguescidamente dita normas
E quanto mais voraz tu me deformas
E tomas minha vida a cada instante

Aonde se pensara deslumbrante
Demônio em que decerto te transformas
E quando do teu âmago me informas
És serpe disfarçada em diamante.

Imagem tão sutil, paradisíaca
Hedônica figura que é satânica
Paralisia causas, pois tetânica

Vulcânica explosão que, demoníaca
Vendendo uma emoção quase que orgástica,
Depois se gargalhando vil sarcástica...

marcos loures
Revéis já transmudando os meus anseios
Esgoto vãs audácias, passos firmes
E quanto mais deveras reafirmes
Rebeldes caminhares ditam veios

Diversos dos meus vagos vãos rodeios
E neles mesmo quando tu me afirmes
E traces novas bases em que firmes
Os passos se perdendo em devaneios

Revelo-me volúvel, mas velado
As vastidões vasculho e em meu passado
Ventanilhas abertas não mais vejo

Vogara entre naufrágios e procelas
Borrascas entre farsas me revelas
E as velas enfronhando tempestades

À custa do viver incêndio e rosas
Esvaio-me em volúpias vaporosas
Enquanto em tanto encanto tu me invades...

marcos loures
Delicado e suave sentimento
Já não comporta um peito que se deu
Ao mais terrível medo e bebe o breu
No qual com mui prazer eu me atormento.

E sendo tão volúvel quanto o vento
O mundo que deveras concebeu
Quem morto em plena vida sabe o seu
Caminho em tempestade e me arrebento.

Nas pedras e falésias, cais distante,
Aonde se entregara um navegante
Se tudo não passou de falso sol.

E tendo inebriado o timoneiro,
O encanto em podridão é derradeiro
E nega a quem veleja algum farol.

marcos loures
E a curta vida assim, fica longeva,
O que é pequeno torna-se infinito.
E de minha garganta já se eleva
No silêncio da noite, este meu grito!

E num momento só de lucidez,
Dos meus fantasmas vou logo à procura
E cada coisa tendo sua vez,
Descubro em mim, as marcas da loucura

Marcos Osilia

e sigo cada passo rumo ao todo
sabendo desta vida, imenso lodo
que tento e mal consigo, quando primo

por todos os meus sonhos mais audazes
ditar com a beleza que me trazes
a velha insegurança deste limo...

Marcos Loures

ALLENDES E BUARQUES

ALLENDE

Para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que congregar todos los odios
y ademas los aviones y los tanques
para batir al hombre de la paz
tuvieron que bombardearlo hacerlo llama

porque el hombre de la paz era una fortaleza
para matar al hombre de la paz
tuvieron que desatar la guerra turbia
para vencer al hombre de la paz
y acallar su voz modesta y taladrante
tuvieron que empujar el terror hasta el abismo
y matar más para seguir matando
para batir al hombre de la paz

tuvieron que asesinarlo muchas veces
porque el hombre de la paz era una fortaleza
para matar al hombre de la paz
tuvieron que imaginar que era una tropa
una armada una hueste una brigada
tuvieron que creer que era otro ejército
pero el hombre de la paz era tan sólo un pueblo
y tenía en sus manos un fusil y un mandato

y eran necesarios más tanques más rencores
más bombas más aviones más oprobios
porque el hombre del paz era una fortaleza
para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que afiliarse para siempre a la muerte
matar y matar más para seguir matando
y condenarse a la blindada soledad
para matar al hombre que era un pueblo
tuvieron que quedarse sin el pueblo


Mario Benedetti


As mãos que esfacelaram liberdade,
trazendo invés do encanto a vil tortura,
a multidão de acéfalos, que a agrura
aos poucos, dita a turva mortandade.

O vômito metralha e assim invade
quem tanto por amor ou por ternura
querendo amenizar esta amargura
que reina sobre o verme-humanidade.

Os cães que agridem sábios sonhadores,
pintando em tom grisalho nossas cores
Matando mil Allendes e Buarques

em nome da "moral" que não conhecem,
toda a nossa história ora apodrecem
soltando os toscos corvos sobre os parques...

Marcos Loures.
Iridescências, nega esta manhã
Que tanto desejara em outra face
Esgarço o meu caminho em tal impasse
E a vida preconiza a fria cã

Agrisalhado olhar, espúria e vã
Farsante que meu dia ainda embace
Estraçalhado sonho em que passe
A vida sempre atroz, cruel, malsã...

E vingo-me das hordas que me deste
E bebo mesmo pútrido ou agreste
Em fartos goles, todo o desatino,

E quando me percebes muito além
Sorrir com ironia é o que convém
E vendo o teu esgar, eu me alucino...

marcos loures
Análogos caminhos percorridos
Pelos viventes seres desta Terra
E quando a morte chega e o ciclo encerra
Distantes dias morrem nos olvidos.

E os sons que outrora em vozes já perdidos
A porta com firmeza agora cerra,
Sobrando algum sinal da torpe guerra
Travada contra os sonhos e as libidos.

Assim hereditárias ilusões
Idênticas às tantas que me expões
Mutantes emoções proferem vagas

E quando devorada pelos vermes
Os restos destroçados, pois inermes
Serão do que desejas, tuas pagas...

marcos loures
LOS SONETOS DE LA MUERTE

I

Del nicho helado en que los hombres te pusieron,
te bajaré a la tierra humilde y soleada.
Que he de dormirme en ella los hombres no supieron,
y que hemos de soñar sobre la misma almohada.

Te acostaré en la tierra soleada con una
dulcedumbre de madre para el hijo dormido,
y la tierra ha de hacerse suavidades de cuna
al recibir tu cuerpo de niño dolorido.

Luego iré espolvoreando tierra y polvo de rosas,
y en la azulada y leve polvareda de luna,
los despojos livianos irán quedando presos.

Me alejaré cantando mis venganzas hermosas,
¡porque a ese hondor recóndito la mano de ninguna
bajará a disputarme tu puñado de huesos!

Gabriela Mistral.

Na solidão do solo amigo que terei
eterno companheiro, herança de uma vida
que vejo sem sentido, há muito já perdida,
suave leito manso, a pacífica grei,

o quanto do passado, em glória esquecerei,
bebendo com prazer a chaga, uma ferida
imagem decomposta, a sorte presumida,
e neste mar em lama, ao fim, mergulharei.

envolto no silêncio, um mundo mais suave
sem dores sem temor e nada que inda agrave
da lida sem sentido, a eterna madrugada...

terei, pois, finalmente, a mais suprema sorte
de ter enfim a vida, aos olhos d'outros, morte
até já não restar sequer a minha ossada...

Marcos Loures​.
Noturno (Antero de Quental)

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!

ANTERO DE QUENTAL...


Imerso em noite imensa, vai brumosa
uma alma de quem tenta e em vão batalha,
o vento uivando a nuvem que se espalha
tornando a lua plena, melindrosa,

espinhos aflorando em cada rosa
o passo audaz e trôpego então falha
e resta a imensidão, sobeja malha
criada pela noite majestosa.

somente a solidão entende a voz
de quem se fez calado e, sei, feroz,
brindando com a luz bruxuleante,

o mocho que procura sua caça,
a vida turbilhões, silente passa
restando prosseguir, seguir adiante...


Marcos Loures.
Os captivos

por Antero de Quental

Encostados ás grades da prisão,
Olham o céo os palidos captivos.
Já com raios obliquos, fugitivos,
Despede o sol um ultimo clarão.

Entre sombras, no longe, vagamente,
Morrem as vozes na extensão saudosa.
Cae do espaço, pesada, silenciosa,
A tristeza das cousas, lentamente.

E os captivos suspiram. Bandos de aves
Passam velozes, passam apressados,
Como absortos em intimos cuidados,
Como absortos em pensamentos graves.

E dizem os captivos: Na amplidão
Jamais se extingue a eterna claridade...
A ave tem o vôo e a liberdade...
O homem tem os muros da prisão!

Aonde ides? qual é vossa jornada?
Á luz? á aurora? á immensidade? aonde?
— Porém o bando passa e mal responde:
Á noite, á escuridão, ao abysmo, ao nada! —

E os captivos suspiram. Surge o vento,
Surge e perpassa esquivo e inquieto,
Como quem traz algum pezar secreto,
Como quem soffre e cala algum tormento.

E dizem os captivos: Que tristezas,
Que segredos antigos, que desditas,
Caminheiro de estradas infinitas,
Te levam a gemer pelas devezas?

Tu que procuras? que visão sagrada
Te acena da soidão onde se esconde?
— Porém o vento passa e só responde:
A noite, a escuridão, o abysmo, o nada! —

E os captivos suspiram novamente.
Como antigos pezares mal extinctos,
Como vagos desejos indistinctos,
Surgem do escuro os astros, lentamente.

E fitam-se, em silencio indecifravel,
Contemplam-se de longe, mysteriosos,
Como quem tem segredos dolorosos,
Como quem ama e vive inconsolavel...

E dizem os captivos: Que problemas
Eternos, primitivos vos attrahem?
Que luz fitaes no centro d'onde saem
A flux, em jorro, as intuições supremas?

Por que esperaes? n'essa amplidão sagrada
Que soluções esplendidas se escondem?
— Porém os astros tristes só respondem:
A noite, a escuridão, o abysmo, o nada! —

Assim a noite passa. Rumorosos
Susurram os pinhaes meditativos,
Encostados ás grades, os captivos
Olham o céo e choram silenciosos.

Antero de Quental,


Eterno prisioneiro de mim mesmo,
vagando sem destino, em curto espaço,
o quanto poderia além, desfaço
e ao fim de cada dia eu me ensimesmo.

Lá fora a vida segue impunemente
e pago pelo quanto em tal loucura
avinagrada luz que me tortura
tomando sem defesas, minha mente...

Jamais esperaria outra saída,
as grades que criei, intransponíveis
apenas os gemidos inaudíveis
que exalo em tal ermida vã, perdida


e abismos que cultivo, a minha ceva
enquanto a paz sonhada, o tempo leva...

Marcos Loures.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Porquanto quis o Fado algum momento
aonde houvesse o Amor que tanto busco,
cenário tantas vezes visto fusco
gravasse dentro da alma algum tormento,

Navego neste mar e me alimento
do turvo navegar, atroz e brusco,
e, quando na verdade o sonho ofusco
a fúria da esperança é meu sustento.

no vórtice dos erros, navegante,
mergulho no vazio e se garante
a fúria desta vida em tempestade,

Em vós concebo o quanto eu poderia
traçar ao fim de tudo em poesia,
porém somente o mar atroz me invade...

Marcos Loures
Nascendo a primavera aonde outono
Vivera com terror e frialdade
Pensara tão somente na saudade
Que a cada amanhecer mais desabono,

Do tempo inacessível não me adono
Tampouco vejo em ti a liberdade
Que tanto procurara e não me invade,
Deixando para trás o sonho e o sono.

Explícitos momentos de alegria
Uma alma solitária fantasia
Aonde solidária quis a festa,

Mas quando nada vindo, desespero,
Nas ânsias deste encanto me tempero
E a sorte se esvaindo em cada fresta.

marcos loures
Um alquebrado sonho diz amor
E tudo se deriva deste vão
Aonde muitas dores mostrarão
Apenas esta angústia se compor,

Vencido pelos medos, meu andor
É feito de total ingratidão
Negando em gelidez todo o verão
Destroços do que outrora fosse flor,

Desembainho atroz e fria lança,
Mas quando a tempestade enfim avança
Recolhe-me ao vazio de onde vim,

Seguramente nada me sustenta,
Somente esta ilusão ainda alenta
Regando vez por outra o meu jardim.

marcos loures
Palpitas entre beijos, fogaréus
E tramas as venturas mais audazes
Enquanto novamente tu refazes
Dos erros cometidos, velhos léus

Antanho percebera falsos céus
E neles recriaras torpes fases
Aonde mal percebes incapazes
Delírios encobertos, mausoléus

Ocultas nas entranhas sortilégios
Vendendo as ilusões de privilégios
Ou régios caminhares entre luas,

Mas quando me aproximo e te desvendo,
O todo resta apenas como adendo,
E mesmo em falsos palcos inda atuas.

marcos loures
Amor que agora sei, somente meu,
Marcos Osilia
por ser Amor o Fado de quem possa
traçar neste horizonte o quanto é vossa
a sorte que se sinta em apogeu.

Vestindo de ilusões a treva, o breu
de todo o próprio ser, amor se apossa
e faz do quanto minha, a vida nossa,
indo além do encanto que viveu.

Pois Amor, quando vedes no horizonte
a rara e soberana luz de algum farol,
decerto refletindo o próprio Sol,

de tudo que viverdes, bela fonte,
é Fogo ditando a própria eternidade
por isso então, negá-lo,ao fim, quem há de?

Marcos Loures
Dichter

So gib mir auch die Zeiten wieder,
Da ich noch selbst im Werden war,
Da sich ein Quell gedrängter Lieder
Ununterbrochen neu gebar,
Da Nebel mir die Welt verhüllten,
Die Knospe Wunder noch versprach,
Da ich die tausend Blumen brach,
Die alle Täler reichlich füllten.
Ich hatte nichts und doch genug:
Den Drang nach Wahrheit und die Lust am Trug.
Gib ungebändigt jene Triebe,
Das tiefe, schmerzenvolle Glück,
Des Hasses Kraft, die Macht der Liebe,
Gib meine Jugend mir zurück!


- Johann Wolfgang von Goethe


Trazer a minha morta juventude
enquanto decomponho em meu outono,
o tempo me ditando este abandono,
porquanto tantas vezes nada pude.

o olhar que me procura, agora rude,
a boca quando beija em tosco abono
desnuda quem sou eu e vou sem dono,
um cão ladrando aquém, sem atitude...

olhando para trás, quintais e flores,
a vida se mostrando em seus albores,
por onde quer que eu siga, nada resta,

senão a gargalhada de quem passa,
o livro segue entregue ao tempo, à traça
e o que se fez tão forte, a morte gesta...

Marcos Loures
À rosa se recende a maravilha
Que tanto procurei e não sabia
Aonde talvez fosse fantasia
A poesia ainda vaga trilha

Enquanto um novo rumo se engatilha
Audácia mesmo às vezes sendo fria
Mergulha noutras sendas e porfia
Momentos de prazer; e a estrela brilha.

Alçar cometas tantos, vários céus
E neles me perder, sonhos ilhéus
Vencendo os mais complexos desalentos

Aonde não pudesse ver a luz
Imagem neste espelho reproduz
Além de meras cruzes e tormentos.

MARCOS LOURES
Enquanto dos fantasmas inda corres
Fugindo destas sombras mais estranhas
Vagando sem destino por montanhas
Ausente da ilusão onde socorres

Percebendo então São Martin de Porres
Que possa te ajudar nas várias sanhas
Ainda mesmo amiga se não ganhas
Ou mesmo quando em lágrimas escorres

Não creia na derrota, pois é fato
Na força insuperável me arrebato
E faço desta crença a minha luz,

Não deixe a dor tornar-se soberana
Nossa Senhora de Copacabana
A um bom caminho logo te conduz.

marcos loures
Aonde houvera pássaros e aurora
Eu poderia crer ser mais possível
Que a vida se mostrasse noutro nível
Aonde a luz que agora nos decora

A cada novo dia mais se aflora,
Mutável fantasia sendo crível
Felicidade então viva e plausível
Decerto voltará e não demora.

Mas vendo esta aridez feita em asfalto,
Em plena solidão fria me assalto
E vejo que a penumbra é uma constante,

E sendo sonhador por natureza
Talvez ainda saiba a correnteza
Na límpida beleza noutro instante.

marcos loures
Une Saison en enfer par
Arthur Rimbaud
« Jadis, si je me souviens bien, ma vie était un festin où s'ouvraient tous les cœurs,
où tous les vins coulaient.

Un soir, j'ai assis la Beauté sur mes genoux. -Et je l'ai trouvée amère. -Et je l'ai
injuriée.

Je me suis armé contre la justice.

Je me suis enfui. Ô sorcières, ô misère, ô haine, c'est à vous que mon trésor a été
confié!

Je parvins à faire s'évanouir dans mon esprit toute l'espérance humaine. Sur toute
joie pour l'étrangler j'ai fait le bond sourd de la bête féroce.

J'ai appelé les bourreaux pour, en périssant, mordre la crosse de leurs fusils. J'ai
appelé les fléaux, pour m'étouffer avec le sable, le sang. Le malheur a été mon dieu. Je me
suis allongé dans la boue. Je me suis séché à l'air du crime. Et j'ai joué de bons tours à la
folie.

Et le printemps m'a apporté l'affreux rire de l'idiot.

Or, tout dernièrement, m'étant trouvé sur le point de faire le dernier couac, j'ai
songé à rechercher la clef du festin ancien, où je reprendrais peut-être appétit.
La charité est cette clef. - Cette inspiration prouve que j'ai rêvé !

2

« Tu resteras hyène, etc... », se récrie le démon qui me couronna de si aimables
pavots. «Gagne la mort avec tous tes appétits, et ton égoïsme et tous les péchés capitaux. »

Ah ! j'en ai trop pris : -Mais, cher Satan, je vous en conjure, une prunelle moins
irritée! et en attendant les quelques petites lâchetés en retard, vous qui aimez dans
l'écrivain l'absence des facultés descriptives ou instructives, je vous détache ces quelques
hideux feuillets de mon carnet de damné.


ARTHUR RIMBAUD


Durante a minha espera, apenas vendo
satânico delírio que me açoda,
a vida sem sentido em louca roda,
sem medo e sem pudor, ora desvendo.

A falsa caridade, mero adendo,
enquanto uma alma pútrida já poda
orgástico banquete em fogo e soda
o gozo passa a ser seu dividendo...

E quando no Divino Inferno vejo
a boca mais sedenta do desejo
enfurno-me nas súcias mais imundas,

e ris dos meus delírios em fornalhas
que alimentando em missas e batalhas
a cada novo dia, este antro inundas...


Marcos Loures.
Alma desnuda.


Alma desnuda, Alfonsina Storni (1892-1932)

Soy un alma desnuda en estos versos,
Alma desnuda que angustiada y sola
Va dejando sus pétalos dispersos.

Alma que puede ser una amapola,
Que puede ser un lirio, una violeta,
Un peñasco, una selva y una ola.

Alma que como el viento vaga inquieta
Y ruge cuando está sobre los mares,
Y duerme dulcemente en una grieta.

Alma que adora sobre sus altares,
Dioses que no se bajan a cegarla;
Alma que no conoce valladares.

Alma que fuera fácil dominarla
Con sólo un corazón que se partiera
Para en su sangre cálida regarla.

Alma que cuando está en la primavera
Dice al invierno que demora: vuelve,
Caiga tu nieve sobre la pradera.

Alma que cuando nieva se disuelve
En tristezas, clamando por las rosas
Con que la primavera nos envuelve.

Alma que a ratos suelta mariposas
A campo abierto, sin fijar distancia,
Y les dice libad sobre las cosas.

Alma que ha de morir de una fragancia,
De un suspiro, de un verso en que se ruega,
Sin perder, a poderlo, su elegancia.

Alma que nada sabe y todo niega
Y negando lo bueno el bien propicia
Porque es negando como más se entrega,

Alma que suele haber como delicia
Palpar las almas, despreciar la huella,
Y sentir en la mano una caricia.

Alma que siempre disconforme de ella,
Como los vientos vaga, corre y gira;
Alma que sangra y sin cesar delira
Por ser el buque en marcha de la estrella.

Alfonsina Storni (1892-1932)


Uma alma que se mostra plenamente
bebendo desta angústia que, diária
eclode numa senda temerária
tomando sem sentido corpo e mente,

uma alma que procura e apenas sente
a sorte mais atroz, audaz e vária,
vagando sem sentido, uma alma pária
que morre pouco a pouco, inutilmente.

na fúria dos imensos oceanos
descanso para quem tanto buscasse
vencer a solidão em duro impasse,

tramando, toscamente novos planos,
uma alma e nada além deste vazio,
que, tolo, em meus anseios sempre crio...

Marcos Loures
Quem dera se pudesse ter ainda
O gosto desta boca junto à minha,
Suprema maravilha feita em vinha
Que a vida num segundo já deslinda

E traz esta emoção sobeja e linda
Numa insânia constante onde se alinha
O corpo seduzido que ora vinha
Beber da poesia rara e infinda.

Vencido pelas ânsias desde quando
Eu pude perceber já me tocando
Os lábios sensuais desta mulher,

E agora que sou dela e só por isto
Do sonho mais audaz nunca desisto,
E nele todo o bem que uma alma quer.

marcos loures
Com o desabrochar da flor que tanto
Desejei ver enfeitando o meu canteiro
Depois de ter cevado o tempo inteiro,
Alvissareira rosa à qual eu canto

E neste puro encanto sei o quanto
O amor se fez real e verdadeiro
Dos sonhos o mais nobre mensageiro
Deixando no passado a dor e o pranto,

Eu sinto ser possível novamente
Um dia mais feliz. Por isso bem
Conheço quando a sorte me contém

E nada mais sequer teima ou desmente
A glória insofismável de ser teu
Vivendo o que o amor nos concedeu.

marcos loures
Assenta-se em canteiros magistrais
A rosa que cevara com carinho
Deixando no passado o ser sozinho
Mostrando o que desejo e quero mais,

E quando em entrelinhas demonstrais
O vosso encanto e nele eis o caminho
Que tanto eu procurara e me avizinho
Bebendo em belas taças de cristais,

Diamantinas noites em vós tendo
Aos mais sublimes ápices, ascendo
E nada me impedindo posso ver

O dia em luzes fartas que ora vedes
E nele saciando antigas sedes
Dourando em vossas mãos, o amanhecer.

marcos loures
Outrora em vossas noites se adonando
Das minhas emoções, senhora e diva,
E quando a própria vida já nos priva
De um tempo mais suave, ou mesmo brando

As flores novamente ver brotando
Cevadas pelas mãos de uma alma altiva
Enquanto desta forma outra cativa
E o amor no pleno amor se eternizando.

Vestindo-vos de glória mais sobeja
O quanto meu desejo vos deseja
Permite-me sonhar com novos dias,

Aonde poderia ter nas mãos
Além do roseiral, diversos grãos
E deles vos servir em fantasias.

MARCOS LOURES
No seu alexandrino, um verso dadivoso,
Mostrar que ser mulher é o mais supremo gozo.
Anseio angelical que aos homens é negado.
Nunca me fez mais triste ou mesmo desolado,

Pois ser mulher é mais que ser simples humano!
Marcos Osilia
É ter sagacidade e nisso ser capaz
de transformar o mundo em guerra ou mansa paz
De Helena ou de Maria a salvação e o dano.

A força da mulher é fogo inextinguível
sem que ninguém perceba e tanto fere ou cura,
domando com astúcia a fúria da loucura
reinando em sedução, inda que imperceptível;

imagem que se mostra além da concebida,
pois GEROU E EDUCOU, O PAI DA PRÓPRIA VIDA...

MARCOS LOURES.
Desalento

Quando o meu pensamento se transporta
A’s praias de além-mar,
Sinto no peito uma tristeza imensa
Que manda-me chorar.

É que vejo morrerem, uma a uma,
Santas aspirações,
E voarem com os pássaros saudosos
As minhas ilusões...

Nunca julguei que a terra fosse um túmulo
De sonhos juvenis,
Sorrindo acreditei que aqui, no mundo,
Podia ser feliz...

Enganei-me: - a tristeza, que me oprime
O coração sem luz...
Como o Sol o derradeiro raio
Nos braços de uma cruz...

A trêmula saudade que entristece
E faz desfalecer;
Essa agonia lenta que me inspira
Desejos de morrer... –

Tudo me diz que a vida é o desengano,
A morte da Ilusão,
E o mundo um grande manto de tristezas
Que enluta o coração.
- Auta de Souza [Jardim, 1893], in “Horto”, 1900.

Meu mundo desabando a cada engodo
presume o que teria se assim fora
a vida mais audaz e sonhadora,
porém restando apenas sombra e lodo.

em cada instante sinto que no todo
a sombra tão brumosa e tentadora
fascina e me dardeja, encantadora,
até que sem saída ao fim me explodo

e gero entre meus erros, o maior,
caminho que percorro e sei de cor,
a imagem tantas vezes repetida.

reflito e sem temor algum repito,
Foi ter nalgum momento o dom aflito
que trago e me corrói. A PRÓPRIA VIDA...

Marcos Loures.
Ser-vos-ia deveras mais fiel
Não fossem vossas luzes tão dispersas
Enquanto ao perceber nossas conversas
Em laços discordantes, sigo incréu

E temo perceber que assim ao léu
Em novas maravilhas vão imersas
As ânsias pelas quais sendo perversas
As noites onde o amor procura o véu

E se amortalha em turvas nuvens foscas,
Tornando nossas vidas quase toscas
Invariavelmente dispersando

As raras maravilhas desfraldadas,
Agora com certeza malfadadas
Alegrias fugindo em turvo bando.

marcos loures
Ser Mulher ...

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

- Gilka Machado, in “Cristais Partidos” 1915.


A humanidade dita em normas pútridas
imagens que permitem me dizer
da farsa quando molda algum prazer
em cenas sem poesias, ditas lúdicas.

e quando vejo exposta as mais estúpidas
riquezas onde a vida possa ter
a nobre qualidade do saber
vendida em cenas torpes, toscas, múltiplas

não quero a mulher santa, nem tampouco
aquela que é vendida em estatísticas
desnuda em poses sórdidas e "artísticas",

o muito a se fazer parece pouco,
na troca entre prazeres, o segredo,
que faz do amor imenso o fácil enredo...

Marcos Loures.
O Quê ?


Em que cismas, poeta? Que saudades
Te adormecem na mágica fragrância
Das rosas do passado já pendidas?
Nos sonhos d’alma que te lembras?
- A infância!
Que sombra, que fantasma vem banhado
No doce aflúvio dessa quadra linda?
E a mente a folhar os dias idos
Que nome te recorda agora?
- Arinda!
Mas se passa essa quadra, fugitiva,
Qual no horizonte solitária vela,
Por que cismar na vida e no passado?
E de quem são essas saudades?
- Dela!
E se a virgem viesse agora mesmo
Surgindo bela qual visão de amores,
Tu, p’ra saudá-la bem do imo d’alma,
Diz-me, poeta - o que escolhias?
- Flores.
E se ela, farta dos aromas doces
Que tem achado nos jardins divinos,
Tão caprichosa machucasse as rosas...
Diz-me, meu louco, o que mais tinhas?
- Hinos!
E se, teimosa, rejeitando a lira,
a fronte virgem para ti pendida,
Dum beijo a paga te pedisse altiva...
O que lhe davas, meu poeta?
- A vida!

- Casimiro de Abreu (Rio, 1858), em “As primaveras”, 1859.

Ainda quando sinto esta fragrância
dos sonhos invadindo o velho quarto,
a mente atordoada, o corpo farto,
espera que algum verso um dia alcance-a;

ainda quando imerso em tal distância
o pouco que me sobra ao fim reparto
e faço da quimera um novo parto
um pária se traveste em elegância...

porquanto tantas vezes quis além,
e sei que no final o nada vem
o beijo no vazio estampa a sorte,

ao menos se viesse quem desejo,
num ato mais audaz, um doce beijo,
talvez já não quisesse a paz da morte...

Marcos Loures.
Livre

Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava.

Livre da humana, da terrestre bava
dos corações daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Infâmia bifronte que deprava.

Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justiças.

Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.

- Cruz e Sousa, do livro Últimos Sonetos, 1905.


Romper com os grilhões da hipocrisia,
algema que nos ata, humanidade,
o passo quando enfim da grade evade
encontra a paz que tanto almejaria,

do néctar soberano e da ambrosia
fartar-se e com certeza em liberdade
vivenciar a imensa claridade
da etérea noite imersa em tal magia,

não ser sequer machado, faca ou sândalo,
fugir da sociedade e deste vândalo
grilhão atado ao cérebro burguês

beijar na boca podre do leproso
e crer neste momento em raro gozo,
Naquele que proclamas e não crês...

Marcos Loures.
Ich, der ich nichts mehr liebe
Ich, der ich nichts mehr liebe
Als die Unzufriedenheit mit dem Änderbaren
Hasse auch nichts mehr als
Die tiefe Unzufriedenheit mit dem Unveränderlichen.


- Bertolt Brecht: Gesammelte Werke in 20 Bänden (8-10), Suhrkamp Verlag, Frankfurt am Main, 1967.

O quanto deve ser mudado a cada dia,
permite aos loucos sábios sonhadores
traçar entre desertos novas cores
e flores onde inverno outrora havia,

o quanto possa haver em fantasia
que grasse em mãos doridas, quando fores
tentar imaginar belos albores
vivendo a mais perfeita poesia.

o quanto existe e possa ser diverso
gerando do passado outro universo
diverso do que agora é intragável.

porém o que me cala e me maltrata
e ver a humanidade esta insensata,
a torpe criação, tola e imutável...

Marcos Loures.
O AMOR

Vladimir Vladimirovitch Mayakovsky (1923)


Um dia, quem sabe,
Ela que também gostava de bichos,
apareça numa alameda do zoo,
sorridente,
tal como agora está no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela, que por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo século ultrapassará o exame de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então, de todo amor não terminado
seremos pagos em enumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo cotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravos de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o universo;
a mãe,
pelo menos a terra.

não consegui encontrar quem fez a versão.

quem sabe um dia, numa rara sintonia
tenhamos mais que zoos ou cidades,
e nelas as sublimes variedades
de cães humanos, vã soberania...

e possamos sentir que o quanto havia
perdido nos espaços que ora invades
expressa o que em verdade tu degrades
gerando a fome, a sede a hipocrisia...

quem sabe poderemos neste instante
ter a noção real do quanto é vida,
e toda humanidade em luz unida,

cerzindo a clara teia irradiante,
aonde herdeiros dessa tal riqueza
possamos desfrutar da mesma mesa...

Marcos Loures.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Surcando a velha estrada, aonde eu possa
tramar outro momento e nada venha,
a vida lentamente, queima e a lenha
do quanto inda restasse, toma, apossa.

aguardo tão somente a imensa fossa
e nela toda a sorte que convenha,
a face da miséria desempenha
a peça que jamais seria nossa.

inválido cometa busca um rumo,
e todo engodo, honestamente assumo,
sabendo do que espera atrás da porta.

a imagem do que fui, mal refletida,
farsante dominando a podre vida
aplaude a minha história ausente e morta...

Marcos Loures.
Meu espírito vagando entre os caminhos
diversos que pudessem num vacante
cenário demonstrar o duro instante
distante do que fossem doces ninhos,

meus dias são deveras tão sozinhos
e bebo da aguardente delirante
poética figura massacrante
bebendo do meu sangue, podres vinhos.

inexoravelmente busco o acaso
e nisto a cada verso onde este ocaso
proclama a mais sincera realidade,

amortalhando aos poucos cada sonho,
reflexo de meu mundo vão, medonho
na solidão do quarto, em ironia, invade.,..

Marcos Loures.
Palavra quando acida traz em si
Potenciais diversos e complexos
E quando se procuram novos nexos
Respostas encontradas lá e aqui

Desnudam o que outrora já perdi,
E sei que mesmo quando estão anexos
Resíduos na verdade são reflexos
Do todo que deveras concebi.

Versões que o mesmo tema contrapõe
Enquanto várias vezes, traz e opõe
Diversidade é sempre necessária,

Assim ao perceber uma entrelinha
Desvenda o inaparente que continha
Numa faceta esparsa ou mesmo vária.

marcos loures
Em márcios brados; vejo este passado
Aonde com soturnas mãos pesadas
As forças poderosas mal amadas
Tornaram o país, sanguíneo prado,

E quando em podridão condecorado
Reinando sobre as massas desarmadas
Em faces muitas vezes torturadas,
O libertário sonho condenado,

O fogo autoritário contradiz
O sonho de igualdade e de respeito,
Na fúria e pela fúria, faz seu pleito

Deixando tatuada a cicatriz
Que gera outros fantasmas no futuro,
O mocho só se expõe em pleno escuro.

marcos loures
Fumo

Florbela Espanca


Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...


Estar longe e tão perto e nem percebes
do quanto existe em nós e nada vês
do amor que imenso sinto e nunca crês,
ainda que eu caminhe imensas sebes...

da fonte radiante que um dia bebes
nesta alameda plena em que os ipês
dominam o cenário, a cupidez
dos sonhos onde intensa sei que embebes

meus olhos te procuram, num relance
e quanto mais a ti, meu mundo avance
jamais me afastarei, pois eis-me aqui,

embora muitas vezes não aceites,
a vida se permite a tais deleites
onde estarei, amor, DENTRO DE TI...

Marcos Loures.
Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda ...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !

Amo-te tanto ! E nunca te beijei ...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

Florbela Espanca.

Poder falar da boca que ora sinto,
distante de meus lábios, viva em mim,
delírio feito em belo carmesim
vulcão que sei, jamais se veja extinto.

Sentir o teu perfume e em raro instinto
viver além do quanto e de onde eu vim,
a cada novo encanto, este estopim
inebriante boca o meu absinto,

e mesmo que jamais te toque. um dia,
vicejas na mais doce poesia
que o coração humano possa ver,

teu corpo que se dista, me enlouquece
o amor que me domina mais que prece,
um hino em clara luz, feito ao prazer...

Marcos Loures.
Ousada boca escarra nos meus lábios,
e penso na loucura que isto dita,
a sorte muitas vezes tão bendita
explica os olhos mortos, astrolábios...

milhares de dizeres, raros sábios,
a luta se desenha na desdita
e a cusparada expressa o que ora grita
ousando percorrer os alfarrábios

e ver que na verdade é merecida,
o cerne do senão grassando a vida
e a trava que me cravas com doçura...

viceja a primavera, manso inferno,
e nele com terror, quando me interno
minha alma,a tua essência em vão, procura...

Marcos Loures.
Assim vencendo todas as batalhas!
Marcos Osilia
imaginei, um dia, inútil fardo,
que crava em minha pele feito cardo
e traz a mansidão destas navalhas

um passo mais além, cedo retardo,
e quantas vezes ris, e velhas gralhas
invadem sem temor aonde espalhas
com risos de ironia, algum petardo...

Sou nada e disso sei, porém presumo
que o tanto imaginado num resumo
mal caberia sequer numa palavra,

a larva que me espera, companheira,
amada e desejada a vida inteira,
será minha perfeita e doce lavra...

Marcos Loures.
Helmintos dentro da alma e nada além,
carcomida carcaça deambula
e quanto mais o tempo tudo engula
apenas o vazio me contém...

seguir e perseguir um novo bem,
mal posso perceber a velha bula,
por vezes ilusão, sorrindo adula
e quero que se foda ela também.

não mais me restaria nada e disto
percebo e quando aquém, teimo e resisto
me disto do que sou, velho bufão.

a corda no pescoço, o tiro dado,
o beijo do demônio, enamorado,
retratos mais fiéis que surgirão...

Marcos Loures.
A velha prostituta, uma esperança,
rondando pelas ruas, madrugadas,
bebendo dos esgotos, nas calçadas
convida para alguma contradança.

e o tempo, sem pudor algum, avança
as garras rapineiras, afiadas
e vejo nessas loucas caminhadas
a boca desdentada, a faca e a lança;

e sigo, sem temer usar qualquer defesa,
sabendo e desejando ser a presa
desta infeliz, satânica figura,

e o beijo sem temor, malicioso,
traduz em gargalhada o raro gozo
enquanto me sorvendo, me depura...

Marcos Loures.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

FELIZ NATAL PRA TODOS

Um pária que procura na sarjeta
o descanso e o repouso merecidos,
os olhos perfurados e esquecidos
buscando dos natais algum cometa,

um velho alcoviteiro que prometa
momentos mais felizes e queridos
meus beijos nestes pés apodrecidos
na lúcida expressão quando acometa.

a cruz que pesa e beija em doces chagas
o riso quando em luzes sempre alagas
as ruas da cidade dos canalhas,

cangalhas que carregas e não vês
na tua mais temida estupidez
ao pobre sonhador, ditam navalhas...

Marcos Loures
Mesclando o doce mel com o ferrão,
apenas percebendo o que eu mereça
a vida noutra peça sempre teça
a farpa que penetra sem perdão,

o velho marinheiro, o seu arpão,
enferrujado, tocado na cabeça
presume que esta vida sempre o esqueça
e diga de outros dias que virão

distantes dos que apenas sobreviva
encontra a voz atroz, porém altiva
de quem esbofeteia com carinhos,

meus pés atados sempre por grilhões
pisando em mais sutis escorpiões
fazendo dos covis seus doces ninhos.

Marcos Loures.
Não quero ter além do nojo e do asco
que tanto se estampara no teu rosto,
o verme pelas ruas, sigo exposto,
a vida por si só é meu carrasco,

venenos, quero todos, cada frasco
apenas o sorriso amargo imposto,
transcende ao mais sutil e fino gosto,
não deixo que me veja além do casco,

respaldo de um momento aonde seja
a falsa imagem tola que poreja
enquanto me apedreja quem me beija.

um réptil caminhando sem destino,
o esgoto onde me escondo é nobre e fino,
perdendo sem lutar, qualquer peleja.

Marcos Loures.
-Pois ser feliz é anseio de minh' alma !
Marcos Osilia
Assim pensava outrora e agora vejo
que a morte paulatina do desejo,
aos poucos, me tortura, mas acalma,

conheço minha vida e sei que a calma
produz o quanto quero e mais almejo,
a fúria no silêncio ora dardejo
invés do beijo estampo a mão, a palma.

e corto cada parte, dilacero,
o doce coração do ser mais fero
presume a minha força mais sutil,

se todos conhecessem quem sou eu,
o mundo me daria o amargo breu,
me acorrentando então nalgum canil...

Marcos Loures.
Maldito este prazer que tanto ilude
das falsas teorias de um amor
que apodrecendo a vida sem pudor,
oculta a mão feroz, atroz e rude.

meu corpo em chagas vivas, sempre pude
tramar com ironia em turva cor
a marca que te entranha e com horror
percebes, quando só, a alma desnude.

Satânico? Um elogio que eu mereço
e sei do meu inferno este endereço
num adereço tosco que ora visto,

e mato lentamente quem me ouvindo
pensara ser o mundo um lugar lindo,
no fundo dominado por Mefisto....

Marcos Loures.
o poeta nascido em meio às trevas,
gerado pela fúria, fome e guerra
vagando sem descanso pela Terra,
expressa o teu anseio enquanto nevas

e bebes destas dores mais longevas,
e quando calas, tantas vezes berras
nos sonhos que revelas quando enterras
as lavras quando em vida, cego, cevas,

o poeta abrindo os turvos olhos
lambendo estas feridas, nos abrolhos
espalha estas sementes que cultivas,

e quando foges louco, da verdade,
ofusca-te sabendo a humanidade
nas carnes que devoras inda vivas,,,,

Marcos Loures.
Exóticas visões em contraluz
São fatos corriqueiros e banais,
Mas quando nestas farsas demonstrais
Caminho que deveras nos seduz

Espúrias emoções expondo a cruz
Que tanto, sem saberes desejais
E nela se anuncia o ledo cais
Marcado a ferro e a fogo, peste e pus.

Estéticas diversas vos dominam
E nelas vossos sonhos determinam
Arcaicas fantasias de beleza.

Após a podridão vos conhecer,
E nada do que vedes irei ver
Não há como enfrentar tal correnteza...

marcos loures
Hominais delírios, Paraísos,
Infestam os meus olhos e não creio
Que apenas tendo enfim qualquer receio
Os dias poderão ser mais precisos.

A sorte em morte trama seus avisos
E goza do final, cruel anseio,
Enquanto do vazio sigo alheio
Vou contabilizando os prejuízos.

Juízos se finais ou nada tendo,
O mundo se desnuda em estupendo
Momento quando estás e nada além.

Após a podridão deste teu cerne
Uma alma em negação, ao fim se hiberne
Enquanto novas levas sempre vêm.

marcos loures
Se lúgubres parecem paisagens
Os antros que freqüentas dentro em ti
Extraem o que há tanto apodreci
Eternizando assim em toscos gens.

E vândalos porfiam tais miragens
Escandalosamente eu percebi
O quão se faz do nada mesmo aqui
Distante das benditas vãs paragens.

E quando as engrenagens se emperrando
As águias e os demônios revoando
Percebem teu olor adocicado

E o fardo se tornando bem mais leve,
Tua alma em lama feita, já se atreve
Aos prazeres ausentes no passado...

marcos loures
Decorrem dos meus vários pesadelos
Metáforas que traçam morte e dor
E quando me percebo em vão andor
Momentos terminais eu posso vê-los

E bebo da ansiedade seus apelos
Sentindo a minha face a decompor,
E nela se adivinha este sol-pôr
Envolto pelos medos e desvelos.

Incréu vasculho restos do que fora
E a morte mesmo sendo sedutora
Propaga dentro em mim lamas diversas

E pantanoso dia se anuncia
Matizando em gris minha agonia
Inebriantes féis que em mim tu versas...

marcos loures
Revelas entre velas e velórios
Mordazes emoções em rito falso
E quando bebo em ti meu cadafalso
Momentos que vivera tão simplórios

Atando com denodo em tons mais vários
A cada caminhada outro percalço
E sigo em pregos, brasas, me descalço
Compartilhando tantos adversários.

Um execrável ar empesteando
Aonde se pensara bem mais brando
Fenecendo a ilusão que não sustento.

Ao deus-dará seguindo em prontidão
Vencido pelas trevas que verão
O derrotar de um sonho, violento...

marcos loures
Vetustos caminheiros fragilmente
Estendem seus cadáveres em sonho
E quando num conjunto decomponho
A sorte se tornando mais ausente

Em cândidos momentos que se tente
Viver além de um ar tosco e bisonho,
Reconstituo a senda e assim me oponho
Ao que seria inútil penitente.

Azedam-se as vontades e esperanças
Articulando em vão as fortalezas,
E quando em voz sonante tais defesas

Ainda que tão frágil vês e alcanças
Gerando pandemônios entre risos
Legando ao nada ser, cruéis avisos...

marcos loures
Qual fora um tempestade um porto além
Do que pensara outrora ancoradouro,
Nas ânsias mais vulgares, nascedouro
Do pântano que uma alma vil contém.

E sendo que deveras sou ninguém
E disto faço a glória de um tesouro,
O sonho que pensara imorredouro
Desnudo se transforma e nada vem.

Adentro a fantasia, vil senzala
E a voz que se inebria já se cala
E escalando paredes a alpinista

Vontade transcorrendo em vagas ondas
E mesmo quando fútil me respondas
Nenhum sinal de paz aqui se avista...

marcos loures
Horrivelmente imerso em trevas sigo
E tanto quanto posso ainda creio
Que enquanto houver um sonho ou mesmo um veio
Ainda se verá quem sabe, abrigo.

Empesteando a vida não consigo
Vencer a fantasia que rodeio
E dela muitas vezes mesmo alheio
Percebo bem sutil, medo e perigo.

Enveredando sendas mais profanas
Proféticos oráculos; predizes

E tentas discernir gozo de dor,
E quando vejo o encanto decompor
Chagásicas imagens: cicatrizes...

marcos loures
Nitido il cielo come in adamante
D'un lume del di là trasfuso fosse,
Scintillan le nevate alpi in sembiante
D'anime umane da l'amor percosse.
Sale da i casolari il fumo ondante
Bianco e turchino fra le piante mosse
Da lieve aura: il Madesimo cascante
Passa tra gli smeraldi. In vesti rosse
Traggono le alpigiane, Abbondio santo,
A la tua festa: ed è mite e giocondo
Di lor, del fiume e de gli abeti il canto.
Laggiù che ride de la valle in fondo?
Pace, mio cuor; pace, mio cuore. Oh tanto
Breve la vita ed è sì bello il mondo!

Giosuè Carducci.

Num fulguroso céu, estrelas tantas
cintilam e traduzem raras festas,
e quando à tal beleza tu emprestas
imagens sem igual, de fato encantas,

Esmeraldina sorte em doces mantas,
uma alma tão sublime e nisto gestas
em plena bruma raras, belas frestas
e mal percebes quanto agora imantas.

na aurora transbordando iridescência
aos poucos me turvando consciência
inebriado eu bebo e ao me inundo...

Embora concebendo, ao fim de tudo,
que após tal maravilha eu me trasmudo
e a brevidade dita um tão sublime mundo....

Marcos Loures.
HELENA

Filha de Zeus e Leda, a magistral
Irmã de Clitemnestra de Micenas
E de Castor e Pólux, noites amenas
Ao lado do marido, Menelau.

Porém, Páris, troiano enamorado
Seqüestra-a e deveras propicia
A guerra numa insânia em agonia,
Num tempo mais atroz e desolado,

Assim ao se mostrar em tais momentos
A fúria se espalhando sobre a Terra
Até que após dez anos já se encerra
E nisto se aproximam os alentos,

Porém Polixo mostra em falsidade
Matando-a atocaiada e a sorte evade.



PÁRIS

De Príamo deveras rei de Tróia
Ainda adolescente se abordara
Por Afrodite Atena e Hera em rara
Em soberana escolha; qual a jóia

Mais bela que haveria além no Olimpo
E quando em Afrodite a garantia
De ter dentre as mulheres primazia
Da mais bela traçando em prato limpo

O quanto se desenha e desde então,
Ousando em seqüestrar sublime Helena,
E nisto em guerra atroz, tanto condena
Os povos na feroz rebelião,

Com Helena tivera quatro filhos,
Até que a morte muda os velhos trilhos...

164

MENELAU

Irmão de Agamenon tivera a sorte
Ao ser dentre diversos escolhido
E assim no seu caminho divido
Com Helena a mulher que em raro aporte

Trazia esta beleza incomparável,
E ali se houvera luz e perdição,
Em Páris desenhando a tentação
Num ato mais feroz e deplorável,

Seqüestro que gerando logo após
A guerra tão terrível que em dez anos
Marcando com mortalhas, desenganos
Regendo o que pudesse mais atroz,

Depois de tantos anos, tem de volta
Aquela que causara tal revolta.



ODISSEU

O rei que convocado para a guerra,
Um guerreiro exemplar, astucioso
No porte mais audaz e majestoso
Soberania imensa em si encerra,

Usando de total sabedoria
Depois de longos anos de batalha,
Ousando num cavalo, assim detalha
A sorte noutro porte se veria.

Troianos se julgando vencedores,
Ao adentrarem além das fortalezas,
Tornando-se deveras frágeis presas
Na mortandade imensa, tantas dores.

Porém dez anos mais em dura senda
Na Ilíada o temor já se desvenda...

Marcos Loures
Das noites que brumosas eu enfrento
Após as tão sonhadas calmarias
Diversas das que em sonho fantasias
Tocadas pela mão de intenso vento.

E quando em luzes frágeis inda tento
Vencer os meus terrores tu me guias
E levas aos demônios que recrias
Tomando este arrebol medo e lamento.

Angústias tão comuns de quem procura
Um tempo aonde possa ser feliz,
E quando mais distante ou por um triz

No olhar ensimesmado, tal loucura
Abisma com seu vário ingrediente
Por mais que a solução audaz se tente...

marcos loures