domingo, 27 de maio de 2018


Pudesse de uma flor saber perfumes
E crer no amor que um dia me falaste
A vida sem ninguém leva ao desgaste
É noite eternamente sem seus lumes,

Não quero que deveras me acostumes
A crer numa existência do contraste
Do amor em plena dor, preferindo a haste
À fria insensatez que logo esfumes.

Se há tanto cultivara num canteiro
Verbenas entre rosas e jasmins,
O amor como um divino mensageiro

Mudara o meu destino se pudesse
Saber que os meios negam sempre os fins
No Amor a santidade feita em prece...


marcos loures

Qual fora do jardim alma e desejo,
Ao florescer os sonhos; vivo Amor
Trouxesse tão somente um beija flor
Imagem deste encanto em que me vejo.

Porém o coração, cruel andejo
Deveras um eterno sonhador,
Buscando a maravilha em cada cor
Traduz a imensa luta em que pelejo.

Vestindo uma esperança tão fugaz,
Aonde poderia crer na paz
A solidão se expõe inteira e nua.

Minha alma cadencia cada passo,
E quando outro caminho em vão eu traço,
A história se repete ou continua.


MARCOS LOURES

Por ti palpita etéreo coração
Corsário da ilusão, vago entre os mares,
Aonde tu prossegues; meus altares,
Encontram toda a minha devoção.

O Amor sendo cruel embarcação
Enquanto com carinho provocares
E contra as ondas todas tu remares
Jamais em paz terei a atracação.

Quem dera Capitão, mas timoneiro
Enfrenta com vigor tal nevoeiro
E sabe aonde aporte o seu navio.

Assim também no encanto que me trazes
Vivendo a poesia em firmes bases
As ondas e os fantasmas desafio...

MARCOS LOURES

Uma alma nívea e pura se desnuda
E mostra o quanto a vida se faz bela,
Desenha com ternura a rara tela,
Porém a sorte amarga cedo muda,

E quando vejo a dor, procuro a ajuda
Que em tuas mãos macias se revela,
A vida que seria toda dela
Aos poucos noutro rumo se transmuda.

esfuma-se dos olhos a presença
De quem o coração ainda pensa,
Mas sabe ser distante, um mero sonho.

E quando me aproximo; amor, de ti,
Percebo que deveras conheci
A perfeição à qual eu me proponho...


marcos loures

Perfume que encontrando; estonteante,
Nas sendas em que passas, deusa e diva.
Minha alma se mostrando ainda viva
Buscando este caminho deslumbrante

Permita-me querida que eu me encante
E molde em versos frágeis esta altiva
Imagem que de luzes fartas criva
O coração tão tolo de um amante.

No diamante exposto em teu olhar,
Viver tal fantasia sem pensar
Sequer se existirá um amanhã.

Assim permanecendo extasiado,
A poesia encontro do teu lado,
E faço da esperança o meu afã.

MARCOS LOURES

Quando o tempo chegar e neste espelho
Tu vires tantas rugas; lembrarás
Do amor que desprezaste anos atrás,
Por isso meu Amor, eu te aconselho

A crer que na existência somos frágeis
E a vida não traduz eternidade,
Escute no meu verso esta verdade
Por mais que te pareçam bem mais ágeis

Os dedos no futuro serão lentos
Os olhos embaçados, e o sorriso
Que outrora se mostrara mais preciso
Agora sem os dentes, busca alentos.

Não queres meu amor? Termina o embate.
Só peço, por favor, não me maltrate...

MARCOS LOURES

Relembre da paixão que um dia fora
A dona dos meus olhos e segredos,
Aonde desenvolvo meus enredos
E a sorte se mostrando sonhadora,

Enquanto a solidão dita os degredos
Uma alma dentre tantas sofredora,
Buscando alguma imagem redentora,
Percebe que se escapa entre seus dedos

A Sorte num momento mais atroz,
Calando da esperança qualquer voz,
Na foz desta emoção, um mar sombrio.

Aonde se mostrara uma alegria,
Agora tão somente se irradia
No olhar enamorado; um desafio...

MARCOS LOURES

Por mais que em águas turva a alma nade
Buscando a placidez que não se vê,
A sorte em que deveras amor não crê
Determinando sempre esta saudade.

E enquanto se desmancha a realidade
Procuro os teus sinais, porém cadê?
No livro da esperança ninguém lê
E sabe decifrar toda a verdade.

Outrora um sonhador. Hoje um farsante,
Enquanto me dizias deste instante
Pensava tão somente em meu prazer.

Agora que se finda a nossa história,
Resgato novamente da memória
O mundo que esperava em ti viver...


marcos loures
O amor nos aquecendo em brandas luzes
Deixando para trás medos e dores,
Colhendo nos teus olhos raras cores
Matando ervas daninhas, tantas urzes,

Vencendo os dissabores, já conduzes
Meus passos sempre etéreos, sonhadores
Por entre este canteiro, belas flores,
Que sei com tanto afeto tu produzes.

Mesclando esta alegria com a crença
Do amor que a cada dia nos convença
Ser ele tão somente a solução.

Vivenciando a glória de poder
Dizer que em ti somente o meu prazer,
Envolto nestas teias da paixão...


marcos loures

Olhando mansamente o teu olhar
Percebo quanto a vida se faz boa
E quando navegando a voz se entoa
No mar de teus prazeres; mergulhar,

Bebendo cada raio do luar,
Dos risos e dos gozos a canoa
Que vence as correntezas, logo aproa
No cais que imaginei sempre encontrar.

Vestindo esta emoção ser teu parceiro,
Vivenciando o gozo verdadeiro
De tantas ilusões, glorificado,

Agora não pergunto mais por que
Eu sei do amor imenso em que se vê
O mundo em pirilampos, estrelado...

marcos loures

Fugisse da tristeza que é fatal
Mudando logo o curso deste rio,
As horas solitárias desafio
E sinto da esperança o ritual

Mergulho neste mar e bebo o sal
Por vezes teias; teço ou já desfio
A fantasia acende o seu pavio,
E o fim se demonstrando sempre igual.

Vazio o coração de quem procura
Ao menos um momento de ternura
E não achando nada nem ninguém,

Durante a vida inteira, um sonhador,
Agora no final, o trovador
Somente uma ilusão inda contém...


marcos loures

Pudesse ainda ter no que sonhar
Em íntimos momentos, nada vindo,
Apenas o passado; inda deslindo
E nele não mais quero mergulhar.

Tivesse esta ventura, ter no mar
Um dia inesquecível; raro e lindo
Mas sinto esta tristeza me seguindo
E tento inutilmente disfarçar.

Usando da palavra, simples versos,
Enquanto no vazio vão imersos
Os sonhos de quem tanto quis e nada.

Encontro a solidão, fiel parceira,
E a dor imensa chaga corriqueira
Negando o amanhecer, uma alvorada...


marcos loures

Pensando no luar claro e bendito
Aonde poderia ter a sorte
De ter modificado o frio Norte
Um mundo inesperado, e mais aflito,

Enquanto no futuro eu acredito,
Propões a fina adaga que me corte,
Não tendo mais sequer algum suporte,
O canto se tornando um brado, um grito.

Alvissareiros dias que virão
Moldando com carinho esta emoção,
Somente uma ilusão de um sonhador,

Que tendo em suas mãos a dor e o riso,
Num passo tão audaz quanto impreciso,
Desbrava as duras sendas deste Amor...

marcos loures

À luz do teu olhar, doces carinhos
Envolto pelo amor que nos guiando
Permite que se molde um tempo brando
Vivendo com denodo nossos ninhos,

Enquanto dos encantos são vizinhos
Desejos que decifro desde quando
Podemos cada sonho se mostrando
Maior do que pensávamos sozinhos.

Não posso me furtar a crer que um dia
Além de tão somente poesia
Teremos o prazer de estarmos sós

Fazendo desta espera fonte e foz
Do amor que a cada tempo mais queria
Unindo nos dois corpos, mesmos nós.

marcos loures

No dia que agoniza o meu tormento
Espreito a sorte intensa que não veio,
E aonde se fizera algum anseio,
Apenas o vazio que lamento

Não deixo de pensar um só momento
No quanto te desejo, mas receio,
Que amor ao descobrir um novo veio
Desvie para além o pensamento.

Causando tal tristeza no meu peito,
Aonde quis a paz, soberbo pleito,
Apenas a distância e nada mais;

Canteiro em framboesas e verbenas
Diverso deste mundo que me acenas,
Certeza; não virás aqui jamais...

marcos loures

O amor que tanto eu quis cedo agoniza
Deixando para trás felicidade,
Agora tão somente uma saudade,
A dura tempestade nega a brisa.

E o quanto te desejo se matiza
Nas dores, na terrível crueldade,
Aonde a solidão agora invade
E a morte num momento se divisa.

Queria ter nas mãos quem se fez dona
E o barco lentamente ela abandona
Mudando este percurso, perco o cais.

Sorvendo a solidão venal herança
Restando deste amor só a lembrança
E o gosto de um eterno nunca mais...


marcos loures

E o gosto de um eterno nunca mais
Tomando o paladar, o que fazer?
A vida sem sequer algum prazer
Desfila os seus macabros rituais.

Pudesse ter nas mãos o porto e o cais,
Talvez não mergulhasse no querer
Que impede de sonhar e de viver
Ausente de meus olhos os cristais;

Enquanto houver a força que me impele
O amor nos transformando, toma a pele
E deixa a cicatriz que ora carrego,

Navego sem ter lastro, leme ou proa,
O pensamento às vezes, inda voa
Seguindo sem destino, em rumo cego...


marcos loures


Seguindo sem destino, em rumo cego
Apenas como guia uma esperança
Ao mar interminável já se lança
Quem tanto desejou e nunca nego,

Enquanto este vazio; inda carrego,
Buscando tão somente segurança
A solidão aos poucos, chega e avança
Nos braços deste encanto; eu já me apego.

Mas sei que nada disso mais importa,
Agora que trancaste a tua porta,
Aporto no vazio e sigo assim,

Voltando vez em quando ao meu passado,
Somente de tristezas decorado,
Jamais colherei flores no jardim...


marcos loures

Jamais colherei flores no jardim
Embora cuidadoso jardineiro,
O amor que outrora vira em meu canteiro
Agora se afastando assim de mim,

Vivendo por viver, tudo é ruim,
Apenas este canto, o derradeiro,
Dos males que devoram; mensageiro
Dizendo que esta história chega ao fim,

Mudando de estação, num duro inverno,
Quem dera se pudesse; não hiberno,
E volto aos mesmos erros, desenganos.

Ao menos trago em mim esta certeza
De ter lutado contra a correnteza
A vida transformando velhos planos...


marcos loures

A vida transformando velhos planos
Não deixa que se pense no futuro,
A sorte que deveras eu procuro,
Encontra tão somente os mesmos danos.

Momentos que pensara bons, profanos,
O céu permanecendo sempre escuro,
Encontro no caminho um alto muro
Formado pelos medos, desenganos.

Quimera que se fez em fera e gozo,
O dia se moldando caprichoso
Não deixa que se veja o amanhecer,

Quem dera se pudesse ser feliz,
A vida pela vida se desdiz
Trazendo ao sonhador, o desprazer...


marcos loures

Trazendo ao sonhador, o desprazer
De crer neste vazio que me deste,
O amor em solo frio, duro e agreste
Não deixa que se possa o bem colher,

Somente em poesia pude crer
No quanto claramente me quiseste,
A vida sem prazeres, fria peste,
Matando a cada dia o bem querer.

Sabia muito bem deste vazio
Porém não me acostumo à solidão,
E enquanto um novo tempo; eu fantasio,

A sorte se mostrando inconseqüente
Trazendo sempre a mesma negação,
Por mais que esta ilusão já se apresente...


marcos loures

Por mais que esta ilusão já se apresente,
Deveras não terei a mesma sorte,
Perdendo desde então meu rumo e Norte,
Amor que tanto quis; agora ausente.

O mundo se transforma de repente
E aonde quis apenas um suporte
A queda; eu prenuncio e nela o corte,
Mudando o meu destino, novamente.

Percorro este universo na procura
De quem pudesse ter tanta ternura
Encontro tão somente a fantasia.

Versando sobre sonhos, desenganos,
Apenas reparando rotos panos,
Distante ouço um lamento em melodia...


marcos loures

Distante ouço um lamento em melodia
Qual fora algum murmúrio agonizante,
E tendo em meu olhar um diamante
Que a sorte do meu lado não queria,

A senda se mostrando então vazia,
Aonde se quisera deslumbrante
Um mundo por princípio fascinante
Aos poucos sem amor, a vida esfria

E traz nos seus caminhos o granizo,
Vivendo sem calor, eu agonizo
E sinto que jamais serei feliz.

Se tudo o que trouxeste foi o nada,
Uma alma desde sempre abandonada,
A cada novo dia se desdiz...

marcos loures


A cada novo dia se desdiz
Quem tanto se entregou e nada além
Do medo e do vazio inda contém
Apenas do passado, a cicatriz.

A vida se transforma e por um triz
Ainda caminhando sem ninguém
E quando a noite chega e o frio vem
O olhar outrora claro queda gris.

Servindo a quem jamais me desejou,
O tempo sem prazeres se escoou,
Restando em mim somente uma ilusão.

Pudesse ter de novo quem queria
O mundo revestido em alegria,
Traria num encanto a solução...


marcos loures

Traria num encanto a solução
Quem tanto procurou amor imenso
E quando no passado ainda penso
Perdendo qualquer rumo e direção

A sorte se transforma em negação
Apenas no vazio sigo tenso,
O quanto me entreguei em fogo intenso
E o mundo disse sempre o mesmo não.

Agora um marinheiro teima em crer
No sol que há de brilhar no amanhecer
Trazendo iridescentes alvoradas.

Auroras que buscara no passado,
Um tempo onde viver trazia glória,
E agora tão somente na memória

Retrato na gaveta, amarelado...


marcos loures

Retrato na gaveta, amarelado
Dizendo deste tanto que te amei
E agora no passado mergulhei
Não tendo mais ninguém sempre ao meu lado,

O medo me tomando e abandonado,
Fazendo do vazio a minha grei,
Aonde imaginara ser um rei,
Apenas um vassalo desgraçado.

O rito se repete a cada verso,
E em plena solidão seguindo imerso
Ainda creio ter uma esperança

Que molde no futuro alguma luz,
Por mais que ainda pese a dura cruz,
O olhar no alvorecer em paz se lança...


marcos loures

O olhar no alvorecer em paz se lança
Carrego esta ilusão que me sustenta
A vida sendo qual grande tormenta
Sonega ao navegante a temperança.

E quando este futuro em dor me alcança
Nem mesmo a poesia me apascenta
O sonho que a verdade violenta
Talvez me prometesse uma mudança.

Mas como acreditar se sigo só,
Atado com a sorte em frágil nó,
O medo dominando o dia a dia.

Amar sem ser amado? Que me vale,
Pois antes que este brado vão se cale,
Mergulho o meu viver na fantasia...


marcos loures

Mergulho o meu viver na fantasia
E teimo como o velho marinheiro
Que sabe quando o vento é passageiro
Embora trague sempre uma agonia

Nas cores que minha alma se vestia
As sombras embotando o meu tinteiro,
O encanto que pensara verdadeiro,
Aos poucos sem resposta se esvazia

Deixando apenas mera tatuagem
Aonde imaginara uma paisagem
Que poderia a todos encantar.

Mas nada que me impeça de seguir
Acalentando um sonho no porvir,
Sem medos enfrentando o imenso mar...


marcos loures

Sem medos enfrentando o imenso mar
Por mais que as ondas sejam tão bravias
E quando as tempestades; desafias
Aprendes os segredos de um amar

Que mesmo transtornado, faz vibrar
Gerando muitas dores e alegrias,
Verão trazendo noites sempre frias
Vontade de sair e de ficar.

Mas quando as ilusões não são verdades,
Apenas restarão meras saudades
A sorte se desnuda tão concisa.

E o quanto desejei já não mais cabe,
O sonhador deveras disto sabe:
O amor que tanto eu quis cedo agoniza

marcos loures


Diviso com os medos que guardara
Durante a minha vida, simplesmente,
Volvendo ao meu passado de repete
A sorte num poema se declara.

Por mais que a tarde surja bela e clara,
Uma alma não se mostra transparente
E tendo quem deveras me acalente
Jamais esta amargura desampara.

Vivendo por saber quanto é possível
Vibrar num tempo novo e perecível
Aonde o meu caminho se Fez manso.

O quadro se define e num segundo,
Nas sendas deste encanto me aprofundo,
A paz de um grande amor; mais cedo alcanço...

marcos loures

A paz de um grande amor; mais cedo alcanço
Enquanto sonhador em mar tranqüilo,
Se a minha poesia aqui desfilo
Procuro após a guerra algum remanso.

Vibrando de emoção eu me esperanço
Mudando a cada verso meu estilo,
O mundo que imagino segue aquilo
Que em sonhos mais fecundo já me lanço.

Não posso conviver com tempestades
Tampouco mais suporto tais saudades,
Resíduos de um amor que não deu certo.

Viver para o futuro, simplesmente,
É tudo o que mais quero; o que apascente
O tempo dos temores eu deserto...


marcos loures

O tempo dos temores eu deserto
E enfrento os dissabores com sorrisos,
Já não comportaria os prejuízos
Mantendo para tanto o peito aberto,

O rumo de quem sonha sendo incerto
E os dias serão todos imprecisos,
Porém em versos claros e concisos,
O amor que desejara enfim desperto.

Viver a fantasia tão somente?
Sabendo que ela é falsa e o quanto mente
É como um suicídio em ilusão,

Por isso um caminheiro segue em paz,
Bebendo tão somente o que lhe traz
As cordas que comandam coração...


marcos loures

As cordas que comandam coração
Vão tesas entoando melodias,
E quando as esperanças; cedo, urgias
Tramando algum sentindo e direção.

Vivendo sob as cores da paixão
O quanto se desfila em alegrias
Fugindo das fatais melancolias
Dedilho com prazer o violão,

E faço deste sonho realidade,
O quanto de prazer agora invade
Mudando este amargor em doce sonho.

Vencer as tempestades, temporais,
Chegando mansamente ao porto e ao cais
No mundo que deveras te proponho.

marcos loures

No mundo que deveras te proponho,
A sorte se mostrando imaculada
Trazendo a nossa noite enluarada,
Moldando na existência um belo sonho.

No verso que deveras eu componho,
A vida sempre clara e iluminada,
Depois da vida inteira em quase nada,
O barco em mares calmos ora ponho,

Seguindo a direção do manso vento,
O gozo que nos ritos eu invento
Expõe um novo tempo: ser feliz,

Deixando para trás o que era dor,
Vibrando em alegrias e louvor,
Sequer deixando alguma cicatriz...


marcos loures


Sequer deixando alguma cicatriz
Supero os dissabores de uma vida,
Aonde uma esperança em despedida
Trouxera um sonho amargo, o que eu não quis.

E quando de ilusões a sorte diz,
Por mais que a realidade venha e acida
Não dando a caminhada por perdida,
Retorno à mesma estrada e peço bis.

Seria redentor este momento
Aonde em paz suprema já me alento
E volto a ser quem era no passado,

Amor ditando as ordens que obedeço
Não quero e nem percebo mais tropeço,
Trazendo a fantasia do meu lado...


marcos loures


Trazendo a fantasia do meu lado
Já não suportarei a solidão
Envolto com os braços da paixão
Seguindo um dia sempre abençoado,

Não deixo que me falem do passado,
As águas vão descendo o ribeirão
Até que em plena foz, numa explosão
Num oceano enorme, dita o Fado.

Assim uma esperança que me move,
E a cada novo dia se comprove
Permite que eu consiga prosseguir,

Olhando os descaminhos que passara,
A vida se tornando bem mais clara,
Tramando com beleza o meu porvir...

marcos loures

Tramando com beleza o meu porvir
Jamais esquecerei erros antigos,
Os dias que virão serão abrigos
Deixando em calmaria prosseguir,

Quem tanto desejou só conseguir
A paz entre diversos inimigos,
Vencendo com ternura estes perigos,
Já sabe os dissabores impedir.

Naufrágios? Não pretendo nem os quero,
O amor quando se molda amargo e fero
Transforma-se em terrível desamor.

Por isso é que pretendo esta esperança
Ao qual minha alma livre já se lança
Vivendo com ternura e sem rancor...


marcos loures

Vivendo com ternura e sem rancor
Expresso em esperanças o que sei
Virá depois de tudo o que passei
Lutando pelas cores de um amor,

Apenas um eterno beija flor
Vagando sem destino grei em grei,
Sem medo do sofrer eu me entreguei
Vencendo em alegria qualquer dor.

Agora um simples calmo jardineiro
Que cuida com carinho do canteiro
Aonde semeara a fantasia...

Depois de certo tempo eu conheci
Felicidade enorme que há em ti,
Razão que move toda a poesia...

marcos loures

Razão que move toda a poesia
Nas mãos desta esperança a mensageira
De um tempo em que a razão mais costumeira
Derrama-se em loucura e fantasia.

No quanto o coração com amor cria
A sorte não se mostra passageira,
Por mais que outro caminho ainda queira
Somente num amor vejo alegria.

E quando se dourando em sol imenso,
No encanto que me trazes sempre penso
E moldo este soneto nesta espera.

Viver o grande amor sem ter perguntas,
As almas se procuram e andam juntas,
Vencendo com ternura uma quimera.


MARCOS LOURES

Vencendo com ternura uma quimera
No olhar uma esperança interminável,
O quanto se pensara mais amável
A sorte superando qualquer fera,

O amor dizendo tudo o que se espera
Tornando a solidão abominável,
Além do que se fez imaginável
O sonho nos domina e já tempera

A vida de um poeta enamorado,
Um mero trovador que tendo ao lado
A bela criatura que deseja,

Fazendo da viola a companheira,
Ponteia à lua cheia a noite inteira
Enquanto a poesia cedo almeja...


MARCOS LOURES


Enquanto a poesia cedo almeja
O velho coração de quem se entrega
A vida noutros rumos já navega
Além do que ilusão tola preveja,

Mergulho no passado e assim lampeja
A glória que julgara amara e cega,
Enquanto à esperança amor se apega,
Minha alma sem parada segue andeja

E vasculhando ponto sobre ponto
Estrelas que encontrei deveras conto
E bebo desta luz inebriante.

Vivendo sem temores nem rancores
Desfilam-se no céu diversas cores,
No olhar de quem desejo um diamante...


MARCOS LOURES

No olhar de quem desejo um diamante
Prismática beleza iridescente
O amor quando se faz assim urgente
Tomando a nossa vida num rompante,

Por mais que se prossiga sempre avante
No fundo uma esperança se pressente
Dizendo deste encanto que envolvente
Permita que se creia a cada instante

Na luz que iluminando o amanhecer
Trará com toda a glória este prazer
Do qual eu não escapo e nem pretendo,

O amor sendo sincero e mais profundo,
Trazendo esta beleza em que me inundo,
Produz numa alegria, o dividendo...


marcos loures

Produz numa alegria, o dividendo
Uma esperança amena, calmos dias,
Além do que talvez o que querias
O amor nos conduzindo ou envolvendo

Permite amanhecer que ora desvendo
Por mais que as noites sejam sempre frias
No gozo destas belas fantasias,
O tempo mais feliz; prossigo vendo.

Fazendo do meu verso um simples canto
Abrindo o coração a tal encanto,
Sabendo ser a sorte muito clara,

Mas quando me encontrando em solidão,
Sentindo sob os pés abrindo o chão,
Diviso com os medos que guardara

marcos loures

Imerso na completa depressão
A morte é solução, mas inda teimo,
E enquanto neste inferno sei que queimo
O mundo se transforma em negação.

Imagem que me ronda vampiresca,
Sanguíneos os banquetes que tu queres,
E quando nos meus dias interferes
Perfilas as angústias mais dantescas.

Entregue aos teus domínios, vão demônio,
Eu bebo esta certeza que corrói,
A vida que outra vida em vão destrói
Transforma esta ilusão num pandemônio.

Sacrílega hematófaga me expõe
Espectro, a própria sombra a decompõe...


marcos loures

Desejo tanto insano que devora
Orgásticas loucuras me consomem,
E enquanto num momento vago somem,
A morte se aproxima sem demora.

Nesta fantasmagórica figura
Imagem refletida num espelho,
Nos ermos da neblina me aconselho,
Enquanto Satanás já me procura.

Sabendo desde sempre que eu insisto
Nos pórticos das sombras, meus altares,
Até que no final ao devorares
Meus restos, a alma sendo de Mefisto,

Demônios e bacantes, gargalhadas,
Adentram numa orgia, as madrugadas...


marcos loures

Satã em duras hostes se aproxima,
Nefasta criatura que profana,
Imagem dos infernos, soberana
Gargalha enquanto espalha farta estima.

Alvíssimas mulheres se entregando
Num festival de insânia e de prazeres,
Mostrando aos vãos mortais os seus poderes
O mundo em luzes foscas desabando.

Cadáver ressurreto de um canalha
Exangue criatura, um guardião
Na boca deste Demo, a podridão
Aos poucos entre tantos já se espalha,

Num átimo a penumbra toma a cena
Sombria madrugada se faz plena...


marcos loures

Entregue aos desvarios desta corja,
Bêbedo deste sangue em profusão,
Satânicas imagens, do porão
Um tempo em palidez e dor se forja.

Do cemitério faço o meu altar,
Dos mortos os caminhos que perfaço
Espectros entre túmulos abraço
Não quero e não suporto a luz solar,

Das sombras vou erguendo o meu castelo,
Das covas e masmorras, meus andores
Nefastas com certeza as vivas cores
Das sepulturas faço o meu rastelo

E morto, muito embora inda caminho;
Vagando pelas trevas, vou sozinho..


marcos loures

Encontro estes espectros, visionário
Volvendo às priscas eras onde a sorte
Trazia em seu olhar o medo e a morte,
Um mundo muitas vezes temerário

As sombras que me seguem hoje em dia
Fantasmas dos antigos ancestrais
Envoltos em penumbras, provocais
O sonho que dantesco ora se cria.

Entregue nas masmorras do passado
Abutres devorando o que inda resta,
À noite velhas bruxas, louca festa
Orgásticas figuras, céu nublado

Nos pântanos e charcos, decompostos
Os corpos entre os ossos sendo expostos...


marcos loures

Meus olhos entre seres mais diversos
Imaginarias formas tão complexas
Nas sádicas imagens, desconexas,
Expressam-se em penumbras universos.

Sanguíneas existências, mortos-vivos,
Esperam pelo fim, penam-se as almas
Que embora vos pareçam sempre calmas,
Mantém os seus perfis, torpes e altivos.

Mergulho nesta infame confraria,
Aonde os hematófagos se encontram,
Orgias entre insano sacrifício,
- Remetem ao passado, ao Santo Ofício,-
E as trevas tais cadáveres adentram;

Espasmos entre risos, gargalhares,
A podridão se exala em tais altares..


MARCOS LOURES

Já não resisto à torpe sedução
De corpos seminus, loucas bacantes.
Mergulho nestes corpos delirantes
E entrego-me em tosca devoção.

Na fúria demoníaca de insanos
Orgásticos incestos, ironias,
A súcia se inundando qual temias
Num hormonal delírio, rotos panos,

Assim entre fantásticas figuras
Satã com seu açoite; ri-se e orquestra
O festival profano em luz canhestra
Bailando em fogo fátuo as criaturas.

Exangues os infectos carniceiros,
Entregues aos demônios rapineiros...

marcos loures
A turba de dementes me envolvendo
Expressam em delírios os seus gozos,
Os pântanos de uma alma, desairosos
Minha alma pouco a pouco apodrecendo.

Encontro os meus espectros entre tantos
E volto-me deveras aos fantasmas
Apenas evanescem-se em miasmas
Sarcásticos demônios, risos, cantos.

Especular imagem do que sou,
Na pútrida esperança, um mero riso,
Fazendo deste Inferno um Paraíso,
Somente o que deveras me restou.

E bebo cada gota deste sangue
No imenso lamaçal, horrendo mangue...


marcos loures

Nas visões de outras eras me entranhando,
Esgoto minhas forças e me entrego,
Aonde desejara paz, não nego,
Aos poucos vou também enveredando

Caminhos que me levam aos martírios
Esgotos entre solos charqueados
Revejo no final; antepassados,
Vibrando em loucos gozos e delírios.

Convulsionados corpos em desdém,
Sarcasmos e ironias, beijos podres,
Bebendo deste vinho em toscos odres
Apenas podridão inda convém

Cadáver insepulto em tal cenário,
Somente um louco ou mero visionário?


marcos loures

Vislumbro em névoas densas este mundo
Aonde poderia ter vivido
Medonho este caráter percebido
No qual entre cadáveres me afundo.

E beijo cada boca apodrecida
Nefastas companheiras; súcia imensa
A morte sendo a nossa recompensa,
Pois nela se começa a própria vida.

Eflúvios destes pântanos, metano,
Bruxuleante imagem, fátuo fogo,
Já não basta sequer um brado ou rogo,
Em Lúcifer se vê o soberano,

Disformes criaturas; louca dança
Aonde se sepulta uma esperança...


marcos loures

Emanações diversas e sombrias
Espectros de um passado sob trevas
Disformes multidões, podres catervas
Tal qual antes do fim tu percebias.

Medonhas criaturas, noite eterna,
O látego explodindo nos costados
Demônios entre corpos destroçados,
luz se afasta da pálida caverna.

E vândalos destroem tal cenário,
Satânicas bacantes, loucos vermes
Ossadas espalhadas já inermes

Insano passageiro, visionário
Em meio às podridões, carnificinas
E louca entre fantasmas te alucinas...

MARCOS LOURES


Perdida no passado a mera lenda
Da sorte que talvez trague a esperança
Apenas um resíduo na lembrança
A morte cada farsa já desvenda.

Encontro após o túmulo a verdade
Em formas mais diversas, podridão,
Minha ama na fatal putrefação
Das dores e terrores tem saudades.

Efêmeros prazeres; aproveites
Que tudo se deforma totalmente,
Quem pensa eterna paz, não sabe e mente
Apenas nos vazios, os deleites;

O Céu inalcançável, mera imagem,
Caótica e terrível paisagem...

MARCOS LOURES

Entranho neste estranho labirinto
Aonde sem saída nada vejo
Senão este abortar de um vão desejo,
O quão inda sonhara agora extinto.

Farsantes e dementes criaturas,
Espasmos entre risos, palavrões,
O sangue se escorrendo aos borbotões
A sede insaciável nele curas,

Esperança esquecida nos portais,
As lavas consumindo o que inda resta
Sombrias garatujas, louca festa,
Numa expansão de ritos hormonais,

Satã com seus demônios, nada fala;
Observa este ir e vir na horrenda sala...


marcos loures

O olhar mortiço e frio desta fera
Que aguarda tão somente algum descuido,
Bebendo todo o sangue e qualquer fluido
Na insânia destemida se tempera.

Cadáveres se espalham pelos cantos
Desnudas podridões, saques diversos,
Demônios sobre os ossos vão dispersos,
Entoam ladainhas, velhos cantos.

E enquanto se preparam para o fim,
Nas mãos o frio açoite vergastando
As semi-vidas toscas molestando,
Estupros entre incestos no festim.

A turba se confunde em formas várias,
Eternidade em lavas temerárias...


marcos loures

Minha alma aniquilada encontra a morte
E nela a solução dos meus anseios
Aonde ainda houvera algum receio
O fim das esperanças mata a sorte.

E em meio às vãs neblinas, podridão,
Açoites explodindo em minhas mãos,
Os dias foram toscos, tolos vãos,
Encontro tão somente a escuridão.

Das cores e alegrias já me afasto,
Perpetuando o escárnio; intensa dor,
Incrível que pareça, este torpor
Tornando o mundo amargo e tão nefasto.

As trevas dominando o que restara
Da vida que pensara calma e clara.

marcos loures

Hirto ao perceber farsas inglórias
Escarro sobre os corpos; sigo a sina
Da mão que se mostrara uma assassina
Envolta nestes gáudios das vanglórias;

Envolto pelas névoas, vou soturno
Erguendo cada morto qual troféu
E sanguinário abutre em seu papel,
Revezam-se rapinas turno a turno,

E quando enfim retorno das profundas
Esbarro nestas farsas dos mortais,
Disfarces entranhando tais chacais
Mundo em podre eflúvio; logo inundas

Bebendo cada gota liquefeita
Da carne apodrecida, já desfeita...


MARCOS LOURES

As normas que criaste; agora vãs,
Numa esterilidade se desfazem
E quando esta verdade enfim te trazem
Desenhas falsos quadros e amanhãs.

Orquestras em mentiras o futuro,
Não sabes dos espectros que virão,
No sangue que espalhamos pelo chão,
Esterco produtivo que procuro,

Cadáveres que agora tu empilhas,
Mesclados com escusas esperanças,
Provocam nos demônios festas, danças,
A Terra se inundando em maravilha

Do esgoto se refaz a vida e a sorte,
Negando com firmeza a própria morte...



MARCOS LOURES

Etéreos sentimentos, vagos sonhos,
Fenômenos diversos, e o vazio,
Assim após a morte o desafio
Se molda em ritos trágicos, medonhos.

Pensara num momento em paz ou guerra,
Delícias ou martírios, treva ou luz,
Porém a morte à morte nos conduz
Na escuridão imersos, sob a terra.

Uma alma se sossega e volta ao zero,
Mergulhos em profundos precipícios,
Voltando para os nossos vãos inícios,
Sem riso ou dor intensa, assim espero.

E a morte num momento revelada
Trazendo simplesmente o eterno nada...


MARCOS LOURES
Uma engrenagem vil e sem proveito,
Mesquinhos os anseios deste ser
Que tendo em suas mãos algum poder
Pensando ter na morte, o seu direito,

Insânia que nos toma, não aceito,
E vejo todo dia apodrecer
Imagem que desvenda o anoitecer
Eterno em que deveras me deleito.

Desonra que polui esta Natura
A deusa se mostrara bela e pura,
Porém ao ter gerado a raça humana,

Mal percebia o quanto estava errada,
E agora a cada dia mutilada,
O verme sem pensar, tudo profana...


MARCOS LOURES

Qual fora um mensageiro destas flores
O gozo da esperança se perdendo,
A sorte não passando de um adendo,
Aonde poderia ver as cores

Embalde mergulhei em vãos amores,
E o dia pouco a pouco anoitecendo,
Mistério em desencanto; não desvendo,
Tampouco caminhando aonde fores

Sabendo que em teus rastros e pegadas,
Somente a imensidão que não aguardas
Negada a cada dia. É sempre assim.

Das doces violetas e verbenas
A morte se moldando enquanto acenas
Matando sem pensar o meu jardim...



MARCOS LOURES

Minha alma entregue aos gozos da peçonha
Que molda o meu futuro, e me incandesce,
A sorte não se crendo nunca tece
Além do que esperança ainda sonha.

Nos olhos a mortalha me envergonha
E o quadro feito em dor, ternura e prece,
Já não me ouvindo mais, agora esquece
E um tempo em desventura se componha.

Erguido sobre os restos, as carcaças
Dos homens que pensaram liberdade,
Ao fim da leda história, esta inverdade

Mostrada quando em risos esfumaças
E tramas num intenso gargalhar
A morte neste imenso lupanar...



MARCOS LOURES

Mansão aonde espíritos vagueiam,
Celebram em sanguíneos sacrifícios,
A morte enaltecendo tais ofícios
Os restos que ficaram se rastreiam

Num brinde feito em pútridos fluídos
Os rastros se espalhando pelos quartos,
Esquartejados corpos, novos partos,
Banquetes por demônios divididos.

Diviso em névoa densa os meus escombros,
Escórias do que outrora se fez gente
E tudo numa orgástica vertente
Os erros inda pesam sobre os ombros.

E as sombras me revelam o que fomos,
Da fruta proibida, simples gomos...


MARCOS LOURES

Espalhando-se ao vento a cabeleira
De um ébano; formada, em raro brilho
Ao ver tanta beleza, maravilho
Minha alma se entregando não se esgueira.

Tu tens em teu olhar a derradeira
Vontade de seguir em manso trilho,
Do amor não mais encontro um empecilho,
Augusta fantasia traz cegueira.

Não posso me furtar a tal desejo
Que enveredando os sonhos, dizem luzes,
Não tendo em meu caminho pedras, urzes,

A vida em plena paz ora prevejo,
E espalhas pela casa o teu perfume,
Falena entorpecida segue o lume...


MARCOS LOURES

Os vermes me devoram pouco a pouco,
Adentram o intestino e meus pulmões,
Vagando por diversas direções
Matando em própria vida um pobre louco.

A podridão se faz a cada instante,
Meus pés denotam cedo a turva cena,
Nos dedos avançando-se a gangrena
A amputação prevista e debridante.

O quinto pododáctilo direito
Mumificado expõe a realidade,
A morte se aproxima e quando invade,
Sobrevivência é um rumo bem estreito.

Acordo e mal percebo o odor intenso,
E, tosco, num futuro ainda penso...


MARCOS LOURES
Saudade descorada pela vida,
Na fátua sensação do nada ter,
Aonde pude após evanescer
Sentir a mão deveras já perdida.

Enquanto nos seduz, cruel acida,
E mata a cada instante o teu prazer,
Não vejo nela como amanhecer
Se traz toda a verdade destruída.

Destroços ambulantes; podre e inerme
Sensação que eterniza cada verme
Moldando eternidade do vazio.

Neblina amortalhada que nos segue,
Saudade tendo quem sempre a carregue
Eternizando o inverno amargo e frio...


MARCOS LOURES

Numa harpa desenhavas melodias
Aonde imaginara em cada acorde,
Um mundo aonde o gozo nos aborde
Diverso que em versos tu dizias.

Magérrima e dantesca criatura
Que em meio aos temporais, se fez profana,
Enlanguescida e tosca soberana
Mortalha te servindo de moldura.

Visões que demoníacas nos tomam,
Caminhos que procuras, espectrais
Na abóboda dos sonhos, seus vitrais,
Mosaicos e arabescos que se assomam.

Quasímodos estúpidos servis,
Reinando sobre a corja; mas gentis...

MARCOS LOURES
Vislumbro em teu olhar a castidade
Na alvíssima beleza em que se expõe
O mundo nos teus braços recompõe
O que perdera outrora em qualidade,

E tendo esta visão que tanto agrade
A sorte num segundo me propõe
O verso que esperança em paz compõe
Negando desde já qualquer saudade.

Ausentes deste olhar, os dissabores,
Espalhas nos canteiros, belas flores
Fulgores deste sol enamorado.

E em ti depois de tanto, eu pude ver
Que a vida guarda em si farto prazer,
Prossigo o meu caminho do teu lado...


MARCOS LOURES

Quisera em verdes prados, clara fonte
Apenas um pastor com seu rebanho,
O sol deitando luzes no horizonte
Pensando em minha diva desde antanho,

Após este arvoredo um belo monte
Aonde houvera Ninfas eu me banho,
E aguardo que entre as matas já desponte
A Musa à qual entrego amor tamanho.

Diana percebendo os meus anseios
Esvanecendo em paz tantos receios,
Trazendo esta pastora que em meus braços

Deitando tantos sonhos e carinhos,
Transborda em fartos beijos, raros vinhos,
E Zeus compadecido, estreita os laços...


MARCOS LOURES

Sentindo estremecer os pés cansados
Expostos aos diversos espinheiros,
Os dias que percebo derradeiros
Não sabem nem verão campos ou prados.

Apenas em demônios disfarçados
Os risos entre gozos corriqueiros,
Dos pântanos, meus leitos costumeiros
Os dias entre dias desgraçados.

Arfante e sem domínio a besta fera,
Expondo suas garras, mostra os dentes
No olhar avermelhado dos dementes

A sorte num escárnio já me espera,
Após emanações pútrido gozo,
Sarcástico demônio, prazeroso...


MARCOS LOURES

Somente por ditosa e bela dama
Suspira o coração deste poeta,
Que a sorte sendo rumo, sonho e meta
Ao mesmo tempo adoça e já reclama,

Presença que mantendo a mesma chama
Deveras cada dia me completa
Moldando a fantasia que repleta
Minha alma em melodias, mansa trama.

Bebendo desta fonte cristalina
Que enquanto me sacia e me domina
Permite que eu consiga ser feliz,

Eterno enamorado, nas paixões
Encontro os meus caminhos, direções,
Na glória insuperável que assim quis...


MARCOS LOURES

Amigo e companheiro de caçadas
Adentrando estas selvas, em Diana
A deusa protetora, a soberana
Que nos permite sempre as mais ousadas

E belas entre matas, caminhadas,
Jamais a minha seta em vão se engana,
Nos cervos e narcejas já se explana
Bem sucedidas horas; tanto agradas.

Adentrando estes campos verdejantes,
Aonde se buscara diamantes
As mãos de vários deuses e pastores

Cevando as esperanças lança e seta
Na glória de um cantor, simples poeta,
Prazeres muitas vezes redentores...



MARCOS LOURES


Numa ânsia delicada em formas tantas
Beleza que desfilas pelas ruas,
Mergulho nos teus braços; vejo em luas
As formas constelares com que encantas

O bardo sonhador; cedo agigantas
E enquanto tu levitas e flutuas
Marmórea fantasia que cultuas,
Delírios entre sonhos, logo plantas;

A vida em tua vida traz a sorte
Brindando ao teu prazer esqueço o corte
E vibro na fantástica alegria

Ao salpicares astro quando passas
Dourando com delírios, fartas graças
Desmanchas em teus passos, fantasia...


marcos loures

O verso que emolduro em tantas alegrias
Dizendo desta forma o quando necessito
Falar deste momento aonde mais que um grito
Expresso o que bem sei ainda em sonhos crias

Emoldurando em sonho o quanto fantasias
Trazendo para a terra o universo infinito
Estrelas que percebo expressam cada rito
Num êxtase supremo, aonde poderias

Dizer do teu demônio embora em cores frágeis
Os dedos no poema expressam versos ágeis
Mordazes ilusões, perpetuando assim

O quadro que deixaste em cima desta mesa,
Mesquinharia cega, aonde quis beleza,
Negando a correnteza esmaga o que há em mim...


marcos loures

Na decomposição dos seres vivos
A fome se matando em mortes tantas,
No eterno movimento, risos, mantas
Por quer sermos pernósticos e altivos?

A própria natureza traz seus crivos
E ao vê-los com certeza desencantas,
Da imensa podridão que tu decantas
Benéficos cadáveres. Nocivos?

Se deles somos feitos e refeitos,
Por que então teríamos direitos
De comandar a vida se é da morte

Que nós sobrevivemos, e deveras
A fera que se fez entre mil feras
Pensa ser diferente a sua sorte?


marcos loures

Deitado sob a lua eu te imagino
Desnuda maravilha a quem me entrego,
Por mares bem tranqüilos se navego,
Ribeiro delicado e cristalino,

E quando isto; percebo e me fascino,
Abandonando a dor que inda carrego,
Em rimas bem mais pobres eu me apego
Tomado pelo amor, santo destino

Quisera declarar-me em versos belos,
Tramando em fantasias os castelos
Aonde poderias ser rainha,

Porém um pobre e tolo sonhador,
Não tendo quase a nada a te propor
Deseja que tu sejas sempre minha...


marcos loures

O nada transformando-se no nada
Aonde poderia crer na luz,
Ascendo ao vão inferno; e a mão conduz
À negra solidão tão ansiada.

Especulares sombras dominando
A cena transtornando as ilusões
Demônios vão chegando aos borbotões
Porões escurecidos, me tomando.

À parte dos fantasmas vejo a imagem
De um soberano ser, cruel visão
Que tendo um cetro escuso em cada mão
Reinando na nefasta paisagem,

Em meio à névoa extensa, ri-se, audaz
Em lúbrico delírio; Satanás...


marcos loures


Gozando este prazer de ter comigo
A bela criatura que se fez
Expressão mais completa da altivez
Na qual encontro a paz do eterno abrigo,

Trazendo neste olhar o que persigo,
O Amor que em tanto amor mais do que vês
Permite que se veja o Deus que crês
Um Pai além de tudo, irmão e amigo

Acenas com sorrisos e convidas
Ao bem maior que existe em nossas vidas
No encanto deste amor inigualável.

A fonte dos desejos em teus lábios,
Momentos delicados, raros, sábios
Num mundo se tornando agora, amável...


marcos loures

Seguindo por estradas mais formosas
Adentrando caminhos e arvoredos,
Os dias me contando os seus segredos,
A cada novo encanto; cevo rosas,

E vejo entre estas árvores frondosas
A fonte cristalina e entre meus dedos
Cumprindo deste Fado, seus enredos,
Estradas entre flores, maviosas.

Ouvindo a flauta doce, penso em Pan
E bebo este ar tranqüilo da manhã
No amor é necessário que acredite

Quem sabe decifrar da natureza
Detalhes que ela expõe com sutileza,
Vislumbrando nos prados, Afrodite...


marcos loures

Netuno com sua ira em mar revolto
Procelas e borrascas, sem bonança,
Aonde imaginara uma esperança
O mundo sem destino; segue solto.

E quando a voz do vento; ao longe escuto
Preparo-me deveras para o ocaso,
A vida sobre a Terra tem seu prazo,
Porém inda resisto e até reluto,

Mudasse este destino, mas Netuno
Explode em maremotos fúria imensa,
A morte em paz seria a recompensa
Erguendo alguma prece a Zeus e a Juno

Descubro ser inútil, tal apelo,
E ao final só resta, em dor, sabê-lo...


marcos loures

Sentindo o fogo ardendo em cada veia
Bebendo destes goles prazerosos,
Adentro maravilhas, sonho gozos,
E a sorte num momento me incendeia,

O fogaréu que aos sonhos vida ateia
Momentos delicados, caprichosos,
Caminhos sem pudor, voluptuosos
Atado sem defesa à tua teia.

Penumbras entre beijos e mordidas,
As horas vão passando em fúria e riso,
Passamos dos limites e medidas,

Jamais alguém se deu com tanto fogo,
E assim ao perceber o Paraíso,
Orgasmo interminável nem um rogo...


marcos loures

Erótico senhor, deus das loucuras
Encontro em tuas flechas os delírios,
Vencendo com prazer velhos martírios,
As dores e os temores, cedo curas.

Expressa-se em prazeres transbordantes,
Delícias entre ritos sensuais
Nas festas e soberbos bacanais,
Em meio ao sortilégio das bacantes,

Um fauno se entregando, insaciável,
Sacrílegos festins, vinhos e sexo
Sem ter qualquer juízo, perco o nexo
Mergulho neste mundo incontrolável.

E bebo dos delitos e pecados,
Lúbricos caminhos desvendados...

marcos loures

Dionísicas loucuras, festas risos,
Entregas sem limites nem pudores
Enlanguescidas fêmeas, multicores
Em toques violentos e imprecisos,

Aonde se pudesse ter certeza
Os laços se rompendo por segundos,
Nos vinhos e nas carnes, vários mundos
Seguindo a mais diversa correnteza.

E lúbricas serpentes, gargalhares,
Obesos cavalheiros, podres damas,
Em sáficos prazeres, fartas chamas,
Na imensa profusão destes altares.

Impérios desabando e o gozo aflito
De um povo que pensara-se infinito...


marcos loures

Das gregas ilhas vejo no passado
Farta sabedoria em gozos vários,
Momento divinal, velhos fadários
À eternidade sempre condenado

A poesia, um dom abençoado,
Ao qual se devotaram visionários
Por mais que agora esteja nos armários
Há tempos o futuro revelado.

Em Lesbos maravilhas foram feitas,
E se hoje nos sonetos te deleitas
À lésbica e soberba poetisa

Tu deves o prazer que agora tens,
Num verso heróico dou meus parabéns
Àquela a quem em glória se eterniza...


marcos loures

Não sou vitoriano nem velhusco
Tampouco quero ter falsas morais,
Aonde são prazeres anormais
O mundo se tornando bem mais brusco,

Se orgasmos entre festas inda busco
Não sou somente hedônico; boçais.
Falsos conservadores são fatais,
Porém em toscas sombras não me ofusco,

O sexo com certeza é natural
E chego a te dizer: essencial,
Nasceste por acaso de outro jeito?

Não quero ser somente um tolo orgástico,
Mas posso te dizer sem ser sarcástico,
Quem sabe exercitando faz direito...


marcos loures

Já não suporto mais hipocrisia,
Vencer os desafios não é fácil,
Por mais que a moça seja bela e grácil
Ainda traz a velha fantasia.

Calão se for do baixo ou se é de cima,
Não mudando o sentido do que falo,
Se é falo ou se é pipoca; eu já me calo
Senão pode esquentar demais o clima.

Meu filho me mandou para a pariu
Aonde ele escutou esta bobagem,
Se o mundo se entregou à sacanagem
Nem por isso serei grosso ou gentil,

Meu verso não é feito com tesão,
Também não sou escravo da paixão...


marcos loures

Antes do entendimento da presença
De um Deus e de um Diabo malfazejo
Reinava sobre todos; o desejo
E nele tão somente a velha crença.

Abraão com sua irmã é natural,
E Lot com duas filhas de uma vez,
Jamais passou por ser insensatez
O incesto abençoado era normal.

Em nome de Javé a morte é santa,
Os saques são comuns, estupros idem,
Pra Jeová, decerto tudo bem,

Barbudo com mais nada já se espanta.
Até que veio alguém que de uma cruz
Mostrou toda a verdade e a clara luz...


marcos loures

Cadela em pleno cio faz a festa
Coitada da infeliz, estupradores
Diversos em matizes, várias cores
Até que de uns dois, três ou quatro gesta.

Depois em plena selva ou na floresta
Os lobos entre lobos caçadores,
Devoram os mais fracos, perdedores
Canibalismo é tudo o que inda resta.

O roubo da comida, simples sorte,
Cabendo ao mais esperto uma atenção
Leão come filhote de leão,
A lei que sempre impera: a do mais forte.

Humanidade dela já dá cabo
O que nos freia um pouco é o Diabo...


marcos loures

Pecado é ganha pão de meio mundo,
Não fosse Satanás pobre pastor,
O padre sem ter nada o que propor
Seria tão somente um vagabundo?

E quando me confesso mais imundo
Pedindo algum perdão mesmo um louvor
O dízimo cobrado é um favor
Pedágio sem o qual não me aprofundo.

Batismo com certeza tem seu preço,
Assim no casamento um adereço
A mais custa aos nubentes e o aluguel?

É tanto azeite para esta engrenagem
Que até me parecendo sacanagem
Viagem muito cara: Igreja ao Céu...

marcos loures

Não é difícil crer neste Jesus
Tampouco compreender o que dizia,
No amor e no perdão, tanta alegria,
Assim é bem mais fácil nossa cruz,

Porém quando um pastor qualquer conduz
Rebanho vai entrando numa fria,
É tanta confusão que então se cria
Deixando bem mais longe a clara luz.

Pecado é garantia de salário,
Metade deste povo é salafrário
Do otário que esta turba podre engana

Não é a salvação que agora importa,
É muito estreita eu sei, do Céu a porta,
Cuidado que o seu lobo quer é grana...


marcos loures

Já o Loures não sou.... Que palhaçada
Bocage merecia outro final,
Escrito com certeza por boçal
História muitas vezes mal contada.

No fim da minha vida é minha alçada
Falar deste canalha ritual
Que mostra na maior cara de pau
O Cristo sendo exposto na calçada.

De tantos pecadores eu garanto,
Deus deu o seu perdão; mas, entretanto
Ao vendilhão o açoite; mas contemplo

Que a corja nesses dias continua,
Só que vendiam tralha em cada rua
Agora vendem Cristo no Seu templo...


marcos loures

A lira silencia enquanto o bardo cala-se
Deixando como herança apenas poesia
Que expressa ao mesmo tempo o mundo que queria
Distante do fulgor expresso em algum Palace,

Do muito que dissera em versos tristes; fala-se
Somente do que outrora em expressão diria
Sorvendo de uma estrela a imensa fantasia
E o corpo em cremação, ainda teima. Estala-se.

Não poderia ter sequer a sorte plena
Da mansidão divina aonde a morte encena
Algum festivo ocaso, envolto em negritude.

Porém ao se perder dos tantos que gostara
A morte na verdade, em bálsamos declara
O que tão frágil vida espera quem a mude...

marcos loures

Na festa que em si trágica dizia
Dos gozos entre rastros esquecidos,
Mergulho sem pensar os meus sentidos,
Expresso na ilusão, a fantasia

Que embora tantas vezes me traria
Os dias entre pedras repartidos,
Aonde se estendera em vãos gemidos,
A morte da sincera poesia.

Não posso me furtar ao ver a escória
Legada para todos pela história
Sutil e deformante caricata,

A mão que te acalenta, a que destrói,
Prazer que te apascenta, o que corrói
A sorte à qual te entregas, a que mata...


MARCOS LOURES

Numa ânsia que se torna mais freqüente
A fúria de um passado me condena,
E quando a podridão tomando a cena,
O olhar quase mendigo, se apresente.

No quanto quis e nada se fez gente,
Tampouco a boca amarga ainda acena
Se a lua em despedida se fez plena
A morte encontrarei em seu poente.

Mesclando poesia e realidade,
Vivendo por saber que a claridade
Por mais que seja errônea, um dia vem.

Mumificados sonhos, abandono,
Quisera algum momento a mais de sono,
Mas sei que no final, virá ninguém...

MARCOS LOURES

Mas sei que no final, virá ninguém,
Por isso me despeço num soneto
E quando nos teus braços me arremeto
Bebendo cada gota que contém

Enquanto a madrugada inda não vem,
Medonhas ilusões; já não prometo
E tomo do veneno, adentro o gueto
Aonde a poesia dita o bem.

Nefastos tais espectros do passado,
O beijo que me deste, amortalhado,
O gozo de um prazer é quase um risco.

Dos pélagos de uma alma entorpecida,
Procuro reviver o que, perdida,
Nesta sorte intragável, eu me arrisco...


MARCOS LOURES

Nesta sorte intragável, eu me arrisco,
Cadáver em total putrefação
Buscando tão somente algum perdão,
O gozo que tivera; eu já confisco.

O mundo se tornando mais arisco,
No fundo o que me resta, a negação
Depois de tanto tempo sempre em vão
A morte se apresenta qual petisco.

Das sombras que me deram como herança
Amortalhada luz de uma esperança
Vulgarizada e estúpida quimera.

Não posso me calar frente à verdade
E mesmo que a palavra desagrade,
Eu vejo nos teus olhos, fria fera...


MARCOS LOURES

Eu vejo nos teus olhos, fria fera
A sanguinária deusa que me bebe
E quando se demonstra e se concebe
Nas garras afiadas da pantera

Aonde imaginara mansa espera
O fogo feito em lágrimas recebe
Aquele que esperança inda percebe
E nela tão somente se tempera.

Aguardo o meu final, em cena atroz
Das criptas e masmorras solto a voz,
Mas nada se compara ao desatino,

Voraz no qual adentro em frialdade,
Aonde imaginara liberdade,
Na morte que virá cedo, alucino..


MARCOS LOURES

Na morte que virá cedo, alucino
E a cada novo dia nova dor,
Aonde imaginara campo e cor,
Apenas o vazio e o desatino.

Acordo o que restara do menino
Que um dia se fez manso e sonhador,
Porém sem ter mais nada pra propor
Nas mãos da morte vejo o vão destino.

Argutas maravilhas se disfarçam,
Os olhos entre as trevas já se esgarçam
E deixam que se veja tão somente

A negra escuridão que se aproxima,
Amortalhado sonho, dita a rima,
Abortando deveras a semente...


MARCOS LOURES

Abortando deveras a semente,
De nada me valeu o sacrifício,
À beira do terrível precipício
A morte se tornando então premente,

O fim da leda história se pressente
Aguardo tão somente o velho ofício
Da bala que penetra, este orifício
Marcando o que deveras, a alma sente.

No infausto de viver, apenas resto
Deitando este vazio que ora empresto
Ao medo feito insânia que me entranha.

A boca que me beija e agora escarra
O sol já se escondendo, escura barra,
A lua morre atrás desta montanha...

MARCOS LOURES

A lua morre atrás desta montanha
Deixando putrefeita esta ilusão,
Matando o que restara da emoção,
A sorte desvairada já me entranha

E quando imaginara noutra sanha
A vida muda logo a direção,
Entregue aos desacordos, sempre o não
Resposta que minha alma não estranha.

Morresse então seria imensa glória,
Não tendo nem as sombras da vitória
Medonhas criaturas; perco a paz.

Aonde esperaria um riso franco,
Encontro o dissabor e não estanco
O intenso gargalhar de Satanás...



MARCOS LOURES

O intenso gargalhar de Satanás
Vestindo-se de lavas, fogaréus,
Mergulha deste inferno, adentra os Céus
E bebe dos arcanjos toda a paz.

Num passo mais terrível e mordaz,
Arranca dos fiéis os alvos véus
E explode num momento os bons ilhéus
E um pandemônio então logo se faz.

As criaturas sacras e benditas
Eternas lamparinas e infinitas
Percebem que o holocausto se anuncia.

Verdade apocalíptica se espalha,
Nas mãos deste demônio uma navalha
Cumprindo a mais amarga profecia...

MARCOS LOURES

Cumprindo a mais amarga profecia
Fantasmas entre espectros mortos-vivos
E os ritos mais macabros, são altivos
As trevas sonegando uma ardentia.


A morte do planeta se anuncia
Entre fogueiras tantas, finos crivos, 
Pastores se tornando mais nocivos, 

PODENDO QUE TALVEZ NÃO MAIS TERIA

Soberbos demoníacos audazes
A lua se perdendo, nega as fases
E a escuridão se espalha sobre nós, 


Trombetas disparadas pelos cantos, 
Aonde houvera paz, os desencantos, 
Apenas de Satã se escuta a voz...



MARCOS LOURES

Apenas de Satã se escuta a voz
E a legião de lúbricas bacantes
Tomando toda a Terra em vãos instantes
Mergulham-se e devoram todos nós.

Aonde se pensara mais atroz
Os risos das quimeras triunfantes,
Feridas entre cortes terebrantes
Certeza do vazio logo após,

E tudo num momento se transforma,
A pele decomposta se deforma,
E o gozo se espalhando, e muito mais.

Dos poucos que sobraram, negra sina,
Explode na fatal carnificina
Imensa multidão de canibais...


MARCOS LOURES


Imensa multidão de canibais
Vagando sobre corpos decompostos,
Os ossos entre os vermes vão expostos,
Orgásticos e loucos bacanais,

Momentos entre tantos rituais
Demônios entre os mortos sempre à postos
Revezam-se e deveras recompostos
Etéreos e sombrios carnavais,

Medonhas criaturas, ritos trágicos,
Os olhos dentre as sendas quase mágicos
Risonhos caricatos, bestas feras,

Entoam as canções e ladainhas,
Os vermes sobrevivem entre as vinhas
Gerando outros fantasmas, novas eras...

MARCOS LOURES

Gerando outros fantasmas, novas eras
E a Vida sobrevive à própria vida,
Da carne agora exposta e apodrecida,
No salivar intenso destas feras,

Estraçalhados homens são quimeras
A humanidade enfim em despedida,
A Terra num momento agradecida,
Aos pouco toda a glória regenera.

Depois desta nefasta mortandade,
Sem ter quem a destrua nem degrade
Natura se entregando sem temores.

Aonde a podridão sempre reinara,
A luz já se tornando bem mais clara,
O sol refaz aos poucos seus fulgores...


MARCOS LOURES

O sol refaz aos poucos seus fulgores
E o ser humano morto e sem morada,
Apenas o cadáver deste nada,
Que um dia transbordou medos e horrores,

E quando sobre os corpos nascem flores,
A vida se mostrando renovada,
Da podre criatura desgraçada
Nem sombra, Deus escuta então louvores.

Demônios se destroem; vão ao Céu,
Cumpriram desde agora o seu papel,
E o arcanjo que era fogo se faz paz.

Redime-me deveras a serpente,
E o Pai sendo em verdade onisciente
Permite, no Seu Reino, Satanás...


MARCOS LOURES

Permite, no Seu Reino, Satanás
Depois de perdoar os seus enganos
Do arcanjo decaído em novos planos,
A Terra conhecendo enfim a paz

Imagem; semelhança se desfaz
E Deus que é o maior dos soberanos
Ao ver a derrocada dos humanos,
Um claro amanhecer agora traz.

Edênicos prazeres rebrotando,
O amor que era total, se demonstrando
A dor da morte, enfim, agora ausente.

E sente-se o perfume da esperança
Que renovada força já se lança
Numa ânsia que se torna mais freqüente

MARCOS LOURES

O mundo em tantas voltas volta atrás
E mostra em mil revoltas, liberdade
O sangue que se escorre sempre traz
Depois de certo tempo, a claridade,

E quando o verso encanta e satisfaz
Demonstra do cantor a qualidade,
Porém sendo em verdade um incapaz
Prefiro retratar a realidade.

Embora muitas vezes traiçoeira
Bandeira que demonstra várias cores;
Nos lábaros mais belos, os louvores

Da sorte que virá já não inteira.
Verás que um filho teu esquece a luta
E sabe muito bem porque reluta...


MARCOS LOURES

Descrevo como vejo a realidade
E nada me censura nem se atreve,
Se trago em minhas mãos calor ou neve
A vida me pertence, eis a verdade.

Não quero que meu verso sempre agrade
Senão eu não seria assim tão breve
Inspiração entrando em franca greve
Já não suportaria qualquer grade.

Matando os desafetos com palavras,
Usando para tal as minhas lavras
São larvas que virão à ser crisálidas.

As armas são trabucos e facões
Não quero ter senhores, soluções,
Se as minhas poesias são esquálidas...


MARCOS LOURES

Salvando num arquivo os meus poemas,
Eu sei que no final não valem nada,
Jogados pelas ruas na calada,
Apenas romperão minhas algemas,

Não quero ter nas mãos jóias e gemas,
Apenas o que outrora em madrugada
Uma alma tão distante quão cansada
Pensara ter nos olhos, meros temas.

Selando a minha sorte, odor mais acre,
Rompendo da esperança qualquer lacre
Eu acredito e até mesmo acrescento

Não faço e nem farei sequer um préstimo,
Nem mesmo por acréscimo este empréstimo
Somente por alento sigo atento...


MARCOS LOURES


Leão mostrando a força em sua juba,
A sorte tem diversas variáveis
Por vezes em caminhos intragáveis
É como ouvir o solo de uma tuba.

Que faço se não como mais jujuba
E o diabetes mostra inalterável
O pé se demonstrou ora amputável
Procuro um tratamento e vou pra Cuba,

Ao menos o charuto é de primeira,
Na escola te encontrei porta bandeira
Nesta estação primeira, quis verão,

Metade do que faço é por engano,
O resto, meu amor, me causa dano
Apenas neste verso a diversão...


MARCOS LOURES

Não quero navegar, bastando então
Que possa em liberdade caminhar
Por entre as maravilhas do criar
Tramando sempre ao fim a criação.

Se a vida inda pudesse agigantar
Tornar mais evidente uma emoção
Tocando mansamente a sensação
E dela conseguir já decifrar

A essência que transborda-se em meu sangue
Por mais que seja anêmico meu verso
Poder ao atingir todo o universo

Até que no final um corpo exangue
Ajude a evolução da humanidade
Na mística da Raça que me invade...

parafraseando Fernando Pessoa


MARCOS LOURES

Tudo quanto penso

Tudo quanto penso,
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.
Extensão parada
Sem nada a estar ali,
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.

Fernando Pessoa

Deveras no que penso sou inteiro
E nada impedirá tal pensamento,
Vivendo imensamente este momento,
Jamais eu mudaria este tinteiro

Deserto em que mergulho, verdadeiro,
É o que decerto sou, e sem alento,
Tampouco no não ser eu me atormento,
Onde jamais estou, nisto me inteiro.

Sem nada a estar nem ter prossigo ali,
Da vida que por certo eu já vivi
Areia muitas vezes peneirada.

Numa extensão parada, vagos sigo
Na imensidão do nada, se prossigo,
Apenas adivinho a ferroada...


MARCOS LOURES


Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!

Vendaval

Fernando Pessoa

Encontrando vazio o coração
Que outrora se fizera mais feliz,
Aprofundando a dor, tudo desdiz,
A própria sorte traz a negação,

Agora tão somente a solidão,
Aonde no passado amor eu quis,
A sorte me abandona, vaga atriz
Mostrando a cada dia o mesmo não...

Penhascos e desérticos caminhos,
Os dias que enfrentando são sozinhos
O vento traz o frio e rouba o Norte

Aonde houvera um verso, simples trova,
Agora imensa dor e negra cova,
Aguarda finalmente a minha morte...

marcos loures

As moças têm nos olhos romantismos
Que os homens muitas vezes nem percebem,
E quando as ilusões ainda bebem,
No amor encontram cedo seus batismos,

Estigmas diferentes, cataclismos,
No fundo em poesia elas concebem
Além do que em verdade já recebem,
Mas sabem como usar seus magnetismos.

As moças são deveras sonhadoras,
Mas vivem com os pés por sobre o chão,
É delas o poder da sedução.

E quando em santos vários, redentoras
Imagens disfarçando a realidade,
Transformam todo adeus numa saudade...


marcos loures

Trazias Santo Antonio no teu quarto
Pensando num provável casamento,
Até que depois disso num momento,
O santo se mostrando mesmo farto,

Causando em teu amante um forte infarto
Invés de fantasia este tormento,
Deveras tais crendices, não agüento,
Nem mesmo compartilho ou já reparto,

Só sei que no final a moça veio
Sem medos, sem rancores nem receio,
Audaz com seu vestido decotado,

O Santo adormecido não sabia
Que a moça abandonando a fantasia
Entregou-se deveras ao pecado.


marcos loures


Pensara ser um grande pregador
Falando para as moças, com cuidado,
À sombra do fantasma do pecado,
Ao espalhar decerto algum louvor,

Ao confundir desejos com amor,
O pobre não sabia; desgraçado,
O quanto foi por Deus também amado,
E ao profanar assim o redentor

Mesclando sacanagem com vontade,
Deixando para trás a realidade
Até com o decote ele implicou.

E para completar sua bravata
Somente com o terno e a gravata,
Roupas que Jesus Cristo nunca usou...

marcos loures

Tal qual se foram tolos outros dias
Os tempos em mudança, itinerantes,
O que fora verdade, por instantes,
Somente são agora velharias.

Assim também as minhas poesias,
Que na verdade são quais debutantes
Usando vez em quando alguns turbantes
Carregam dentro da alma estas estrias.

Metamorfoses; tento vez em quando,
O teto desta casa desabando,
Matando o que restou de velho em mim.

Dedetizar o verso eu te garanto
Que mesmo não trazendo mais encanto,
Impede que se crie então cupim...

marcos loures


O verso que é reverso da medalha
Inversas emoções, frio e calor,
No quanto a poesia trama a dor,
Ao mesmo tempo em paz, ela batalha.

E sei que quando afio esta navalha
Olhando para o tal retrovisor,
No quadro tenho muito o que compor,
A métrica por vezes me atrapalha.

Sossego que procuro no teu colo,
E quando em tempestades eu assolo
Talvez seja querendo a perfeição.

Sem ter algemas faço o meu poema,
Não vejo no rimar qualquer problema,
Apenas obedeço ao coração...


marcos loures

Uns dias que se gozam alegrias
Enquanto noutros dias tempestades,
Mesquinharias ditam as verdades
Aonde com certeza interferias.

Bebendo cada gota que darias
Não fossem tão cruéis felicidades,
Nem mesmo quando em mares largos nades
As águas se demonstram bem mais frias.

Peçonha em cada beijo; tua marca
E quando a poesia em ti se embarca
Vagando por naufrágios e tormentas,

Não vês que tudo aquilo se fez vago,
E vejo dos demônios que hoje trago
Aqueles em que tocas quando alentas...


marcos loures


Fogueiras e folias nesta festa
Aonde comemoras o vazio
Que deste de presente e que desfio,
Deixando para trás o que não presta.

A vida me garante e sempre atesta
Não vale mais o tolo desafio,
Restando ao navegante o mar mais frio,
Sonhando com calores da floresta.

Meiguice mentirosa? Que se dane.
No amor que tanto quis, eterna pane,
O verso traduzindo o sentimento.

Aguço meus ouvidos e nada ouço,
Apenas esperando o calabouço
Sequer fugir, querida, agora tento...


marcos loures

Desceste com sorrisos esta escada
Depois de ter me dito o não final,
Aonde se mostrara sensual,
Agora não me diz mais quase nada.

E quando percebi nesta alvorada
O sol quarando a vida no quintal,
Bebendo deste corpo todo o sal,
Minha alma já deveras tão cansada

Não pode prosseguir e se calando,
As aves vão fugindo em louco bando,
Apenas a saudade inda me leva,

Mas tudo não passou de uma ilusão,
O verso se mostrando outra versão
De simples aversão imensa treva...


marcos loures

Apressas a subida, pois bem sabes
Que a queda na verdade não terás,
Aonde se imagina plena paz
Bem antes que com tudo ainda acabes;

Deveras neste quadro já não cabes
Tampouco outro caminho a vida traz
O mesmo que este pouco ainda faz
Permite então versões onde desabes.

Apenas no final mera centelha
A luz que na verdade se avermelha
Não diz da claridade que procuro,

Mas bem melhor alguma chama
Do que toda a verdade em que se trama
Deixando a minha vida neste escuro...



marcos loures

Não digas a mentir o que pretendes
Não creio nas falácias e façanhas
Jamais suportarei as velhas manhas
Nem acredito mais nestes duendes.

Da luz que na verdade nunca acendes
Não poderia ver as tais montanhas,
E quando a cada dia bem mais ganhas
O quanto te desejo não entendes.

E dane-se portanto ou por tão pouco
Não quero nem pretendo ficar louco
Apenas no sufoco levo a vida.

Se tens ou se não vens problema teu,
O mundo noutro rumo me escolheu
A história deste amor, já vai, perdida...


marcos loures

Pudesse ter apenas um sorriso
E nada mais seria tão ruim,
O mundo desabando traz pra mim
Um gosto mais amargo, mas preciso

Além do que talvez tomando o siso
Permita que se creia ainda assim
Que tudo mudaria, pois no fim
Quem sabe ainda reste algum aviso

Mostrando uma saída e, de repente
Um novo amanhecer já se apresente
Trazendo a paz bendita, a mensageira

De um tempo aonde possa ver a luz,
Ao sonhador então fazendo jus,
Conforme uma alma livre ainda queira.


marcos loures


Uma alma que se mostre assim, inquieta
Em plena liberdade, impertinaz
Buscando a cada verso a velha paz
Na qual a fantasia se completa,

Traduz a voz intensa de um poeta,
Somente o desconsolo satisfaz
Podendo a cada dia mais audaz,
Tendo só fantasia como meta.

Vencer os meus eternos dissabores,
Lutando por caminhos onde flores
Não sejam utopia, mas reais.

Meu canto se esbarrando na verdade,
Enquanto uma ilusão já se degrade
Não deixa de sonhar. Isso, jamais!


marcos loures


Percebo-te sombria, amargurada
E as trevas de tua alma já se apossam,
Por mais que os novos dias inda possam
Dizer da claridade da alvorada

A sorte, tantas vezes desprezada,
Enquanto as nossas lágrimas se empoçam
E as fantasias tolas sempre adoçam
Realidade tosca não diz nada.

A cada tempo a mesma ingratidão
E nisso se resume a nossa vida,
Encontro a solidão da despedida,

O amor nunca passou de uma visão,
E assim seguimos sós; nada contém
Uma alma eternamente sem ninguém...


marcos loures

Jamais uma verdade se completa
E mostra inteiramente o que sentimos,
Por mais que muitas vezes permitimos
Visão que se demonstra, a razão veta.

Assim é como fosse este poeta
Nos versos que deveras iludimos
Diverso de nós mesmos, o destino
Assim quão variável nossa meta.

Sentir o arfar suave ou dor imensa,
Não tendo nem talvez a recompensa
De um riso ou de uma lágrima, teimamos,

E mesmo quando tentam nos calar
Salgando de alegria cada mar
Invés de nos calarmos, mais cantamos...


marcos loures

A vida não permite que a verdade
Se mostre inteiramente, pois é nela
Que uma alma se desnuda e se revela,
Reflexo da total obscuridade.

Enquanto a fantasia nos invade
O barco da esperança abrindo a vela,
Corcel das ilusões, palavra sela
E volta num galope à imensidade.

Mas quando nos olhamos num espelho,
A farsa se mostrando por inteiro,
Não adianta mais qualquer conselho

Envelhecemos sim, e isto me basta
E o que eu pensara, um nobre cavaleiro;
Figura maltrapilha, amarga e gasta...


marcos loures

Jamais diria alguma coisa, amiga
Do todo que me move; envolto em luzes
Das sortes e dos medos, minhas cruzes
A vida na verdade desabriga.

E enquanto a realidade se persiga
Nos olhos da verdade tais obuses
Ainda que bem pouco inda reluzes
Enquanto no vazio se consiga

A eterna proteção que nós quisemos,
Se temos sacros ritos, loucos demos,
No fundo somos partes deste todo

Que espalha-se nas sombras que deixamos
Enquanto do arvoredo, finos ramos,
Deveras chafurdamos neste lodo...


marcos loures


Por mais que tanta coisa a gente diga
Apenas são fumaças, nada além,
O muito do vazio se contém
Na face que deveras desabriga.

Da sorte traiçoeira desobriga
Nossa alma que deveras nada tem
Além do que resguarda de outro alguém
Por mais que esta pessoa seja amiga.

No quase e no talvez nos protegendo,
Do todo somos partes; mero adendo
E disso é se faz nossa defesa.

O rio se espalhando pelas margens
Lambendo com vigor as paisagens
Enfrenta vez em quando a correnteza...


marcos loures

Minha alma muitas vezes se protege
E quando se percebe, em fria algema.
O amor velho parceiro, antigo tema
A vida de quem sonha sempre rege.

Em tons mais claros creio; branco ou bege
Enquanto o dia a dia inda se tema
Não vejo e nem procuro mais problema
E quando a realidade enfim lateje

Eu tenho nos poemas, a vingança,
E a voz muito mais forte, o peito lança
Buscando até quem sabe ser feliz.

Não posso sonegar esta verdade,
Atrás da poesia, imensa grade
O mundo a cada instante me desdiz...


marcos loures

Deixaste que esta máscara caísse,
Depois de tantas vezes se esconder
Nas horas mais difíceis pude ver
O que doce ilusão já me desdisse.

No quanto se permite esta tolice
Eu vejo no reflexo do meu ser
O que não poderia mesmo ser
Fugindo vez em quando da mesmice.

Se vejo atrás da máscara o retrato
De quem por tantas vezes eu retrato
Em versos lisonjeiros ou audazes

Percebo que também assim sou eu,
Minha alma noutra escala se escondeu
E faço do meu mundo o que tu fazes...

marcos loures

Um pêndulo matreiro, o coração,
Por vezes traz sorriso e mesmo gozo,
Depois este menino caprichoso
Em si já nos demonstra a negação.

Versando sobre as chuvas de verão
Verás o que talvez vá tenebroso,
E embora muitas vezes generoso,
Naufraga qualquer sonho, solidão.

Nas horas mais felizes, riso franco
Depois eu mesmo vejo e já desbanco
Num bando de ternuras e mentiras.

É como fosse festas num velório,
O pensamento expressa este ilusório
Caminho que deveras vão, retiras...


marcos loures

Saudades que trazemos só desmentem
As dores que sentimos; nada mais.
O barco não voltando ao mesmo cais,
As velas do passado ainda mentem.

E quando dos momentos que se sentem
Assenta-se a poeira, são demais
Os ritos que deveras provocais
Usando das lembranças que inda alentem.

Saudade diz mentira e falsidade,
Retrato bem distante da verdade
Memória seletiva traz o bom,

Matando o que de fato acontecera
Como se fosse assim feito de cera
Neste museu que muda a cor e o tom...

marcos loures

Dos brincos que tu trazes, teus disfarces
Esboças os desejos e as libidos,
Aonde se pudessem esquecidos
Demonstram na verdade tuas faces,

E quando em tais belezas sempre embaces
Os olhos que teimaram, percebidos,
Mordazes os delírios permitidos
Aonde fantasias; inda traces.

Seriam nestes lóbulos somente
Adendos se não fossem sedução
E tenho com total satisfação

O gozo do que em brincos se pressente,
Meus lábios procurando em tais enfeites
Caminhos para enfim, raros deleites...

marcos loures

Não tires o que outrora se fez festa
E deixe que eu perceba o que propões
E enquanto não vislumbre soluções
Apenas o delírio, o que me resta,

Se nada do que teimo já se empresta
Aos medos que não trazem ilusões,
Vestígios do que foram corações
Na noite sem luar, rota e funesta.

Mas peço, por favor, já não retires
O brilho que em teus olhos percebia,
O encanto se mostrando em fantasia

Deixando a proteção de velhos pires,
Impede que eu mergulhe no vazio
Dos versos que reversos, ora crio.


MARCOS LOURES

Puseste dentro da alma um barco e um cais,
Mas nada do que pude salvaria
Quem sabe navegar, faz da alegria
Além do que queria e muito mais.

Por onde poderia, não notais
Se tudo o que pudesse em agonia
No mar de imensas dores nadaria
São sonhos mais comuns entre mortais.

E o verso se perdendo em águas turvas,
Sabendo decifrar o que nas curvas
Transforma em descaminho um bem tranqüilo,

Aonde não pusesse algum espinho,
Vergando sob o peso, vou sozinho
E as mágoas que inda restam, eu destilo...


MARCOS LOURES


Buscara algum caminho em que pudesse
Ao menos vislumbrar a liberdade,
Sem nada que em verdade ainda agrade
Vazio versejar meu tempo tece.

E o quanto se fizera o bem que esquece
O medo que persigo ora me invade,
Enquanto em mar tranqüilo quer que nade
Uma alma transparente que tivesse

Percorro em descaminhos outras sendas
Que embora muitas vezes tu repreendas
No fundo não divergem desta foz,

Ainda que se mostre mais escura
A estrada que em desníveis me tortura
Às vezes mais suave ou mesmo atroz...


MARCOS LOURES


Coloco dentro da alma esta mantilha
Que escurecendo o dia nada traz
Seguindo o meu destino; se mordaz,
Apenas no final uma armadilha,

Não faço e nem farei desta matilha
Que o tempo se moldando diz audaz,
O quadro sem rabiscos satisfaz
Enquanto o mar em luas claras brilha.

Enegrecido sonho, faz do tempo
Além do que pudera contratempo
Atemporais momentos; não conheço,

Converto estas palavras em verdades
E quando em mares turvos inda nades,
Vejo a sorte ignorando este endereço.


MARCOS LOURES


Palavra não bastando para ser
Aspectos mais diversos que traria
O quadro feito em luz, melancolia
Moldando o meu enorme desprazer.

Assim sem poder ver e sequer crer
Apenas o passado bastaria
Invés de se perder em agonia
O beijo sonegado; pude ter.

No pôr do sol, a sombra do passado,
Somente do que tive algum recado
Mostrado em multicores expressões.

O verso se desnuda por inteiro
E o gozo que pensara verdadeiro
Transmite tão somente estes senões...


MARCOS LOURES


Verdade é como manta multicor
Deveras nos descobre enquanto aquece
E nestas ilusões o mundo tece
Variações do tema, como o amor.

E quase se perdendo a decompor
Na pura invalidez desta quermesse
Sem nada além do quanto se obedece
O peito, num naufrágio teima em dor.

Houvesse pelo menos um instante
Aonde se pudesse triunfante
Adentrando a real felicidade.

Verdade em mil matizes se desnuda,
A sorte que se dá, forte ou miúda
Tentando quem deveras já te agrade...


MARCOS LOURES


O vento assobiava melodias
Dos tempos onde quis alguma luz,
Severas ilusões traçando a cruz
Que a cada novo instante me trarias

Não fossem os meus versos fantasias
Compondo o que a verdade não produz,
Na profusão de cores, corpos nus,
Versões que em aversões tu não darias.

Mesquinhos os meandros da paixão
E neles sem saber se sim ou não,
Mergulho os meus poemas e me faço

apenas a carcaça do que outrora
O vento assobiando se demora
E o beijo não passou de simples traço...


Sentando o coração no velho paço
Por onde não passaram mais os trens
Por vezes imagino que inda vens,
Mas logo este fantasma; já desfaço.

E quando mergulhando passo a passo,
Escarifico o resto dos meus bens,
As ordens que recebes dos aléns
Traçando da ilusão velho compasso

Escrevo o verso frágil e mesquinho,
Seguindo devagar o meu caminho,
E sinto que talvez reste uma chance

Aonde ver a sorte se não creio,
Não posso ter em mente este receio,
Por mais que a dor em mim ainda avance...


MARCOS LOURES

Eu sei que não virá quem disse adeus
E nada acrescentando sigo assim,
Mortalhas vão tomando o meu jardim,
Não quero mais pensar sequer em Deus,

Os dias que passaram, todos meus
Das vozes que escutasse chego ao fim
Metáforas; criara e se estopim
A bomba destrançando luz e breus.

Arquétipo de sonhos que não pude,
O meu pensar deveras tosco e rude
Medonhos os versáteis sentimentos.

E quando não couberam soluções
Não pude decifrar as ilusões
Nos olhos dos engodos, meus ungüentos...

Infância que perdeu-se há tanto e agora
Refaço nos meus olhos qual pudera
Ainda ser a viva e vã pantera
Que aos poucos, novamente me devora.

Abarco cada sonho que inda ancora
Atracações diversas, quem me dera;
Se o fogo do passado me tempera
A morte da esperança já decora.

Os versos que procurem pelo alento,
Metáfora da vida que eu invento
Adentro este vazio como fosse

Um último tormento, ou manso alívio.
Cadáver do meu sonho está ali. Vi-o
Tal qual uma criança espreita um doce.

A morte dos meus sonhos deu-se enquanto
Roubaste as minhas últimas verdades,
E quando os meus espaços tu invades
Demonstras que não valho sequer pranto.

Não quero prosseguir, mas entretanto
Já não conseguirás as velhas grades,
Retorno aos meus anseios, pois que brades
O verso não se dobra, nem meu canto.

Que dane-se quem tanto se fez santa
E quase a cada instante se levanta
Mordendo com sorrisos imbecis,

Mortalha se me cabe é meu problema,
Não tendo quase nada que ainda tema,
Não quero e nem serei bom ou feliz...

Não posso me furtar a ser assim,
Um tempo após a morte dos meus ritos,
O cardo que cevaste em meu jardim,
Permite os versos toscos; velhos gritos.

Havia dentro em mim o querubim
Que agora se perdendo em infinitos
Navega por distâncias sem ter fim,
Ferindo com antigos, tolos mitos.

Aprendo a ser cruel naturalmente
E tudo o que minha alma ainda sente
É feito deste sangue que tu bebes,

Aonde poderia ter a paz,
Agora amortalhado tanto faz,
Além deste cadáver que concebes...

Não pude disfarçar a solidão
Que tanto se fizera assim presente,
O quase ser feliz minha alma sente
Trazendo no final a negação;

Ao velho caminhante, a solução
Na morte que deveras se pressente
Por mais que uma razão se mostre ausente
Inverna dentro da alma este verão.

Apraz-me tão somente o ledo fim,
E a morte me rondando, diz do quanto
Perdera-se na força deste encanto

Moldando cedo o riso, sendo assim
Não deixo de tentar sobreviver,
Mas quero ainda algum parco prazer...

sábado, 26 de maio de 2018

Plantasse uma esperança, porém na horta
A sorte se perdeu faltando o adubo,
Se às vezes noutro espaço ainda subo
A fantasia agora segue morta,

E quando em vários ritos sonho aporta
Mergulho no passado, um velho tubo,
Mudando cada aspecto, prisma ou cubo,
A boca que me beija não me importa,

Serpentes entre farpas e fagulhas
No entanto sem defesas tu te orgulhas
Da faca que entranhaste no meu peito.

E as fontes variáveis do prazer
Podendo a cada instante me perder,
Por sobre finas lanças eu me deito...

MARCOS LOURES


As bocas entre as carnes, lacerantes,
Sentindo cada dente que se entranha,
O verso se moldura na montanha
Aonde me perdera por instantes,
Os velhos predadores são gigantes
E a sorte que sonhei e que me estranha
Deixaram a mortalha como sanha
De quem não poderia ser feliz,
Acerca da mentira que me diz
Quem fosse destroçando o que inda resta,
Nos velhos arvoredos frias caças,
E quando sorridente; ainda passas,
Invés do meu velório; queres festa...


MARCOS LOURES