sexta-feira, 21 de junho de 2013

NA BOCA DA NOITE

 NA BOCA DA NOITE

Beijo, da noite, a boca sensual,
Percorrendo nos olhos desse dia,
Recordando meu velho carnaval,
Onde sangrava em cada fantasia

Confundindo nas pernas, meu lual,
Nesse sedento corte, na poesia
A vingança sem culpa, n’embornal
Que trago no meu peito, nem devia...

Beijo as pernas sangrentas dessa vida,
Que foge, percorrendo minhas matas,
Que segue, fosse louca despedida,

Nesse braço da morte que arrebatas,
Quedando sem lutas da partida,
Restando, solitária me arrematas...

MARCOS LOURES

MINHA POESIA

MINHA POESIA

Falar da noite e do dia, do açoite e de Maria
do acoitado sonho perdido, despedaçado
falar de nada mais que tudo, nada inundo
vaga imundo, cora coração vadio, vai meu fio
vagabundo rolando entre astros, entre tantos
entretantos e espreitando por trás das portas.
Falar do sonho e da fantasia, do medo e da poesia
do meu último regalo, meu regato, meu prato e ato
insensatamente, a mente remete-me a ti, tímida
lânguida e cruel poesia.
Nos nossos concertos e conselhos, consertavas os velhos
resquícios do início precipício e me lançavas a esmo
nesse penhasco íngreme e inerente Prometeu, escuridão.
Vi meus olhos nos olhos de outros olhos, infinito espelho
num prisma de oculta chama, de verbo e Bramas, de lamas
de lhamas e de teus sentidos mais confusos, embriaguez.
A lucidez devora, a hora de ir embora nunca se aproxima
e, por cima de tudo, com ciúmes me observas, me cevas ,
e conservas tuas mãos postas em mim.
Tua boca sussurra meu nome, urra meu erro, trama
meus males e minhas angústias.
Mina de tantas riquezas falsas, farsas e falhas.
Minha mina mais cara, rara e companheira
te quero poesia amada, necessito-te tanto
esquivo e altivo, mas vivo, mais vivo em ti,
sobrevivente.

MARCOS LOURES

A CERTEZA NOS OLHOS



A CERTEZA NOS OLHOS 


Tenho a certeza nos olhos, horizonte e esperança, tenho a força nas mãos, calejadas e na alma esperançosa.
Tenho a vida na luta e a memória de meus mortos, num espaço de tempo que mais parece uma eternidade, tenho o porto e o barco, o campo e a cidade.
Cidade de tantos guetos e favelas, de gritos e aflitos, nos morros e nas ruas.
Tenho o sangue dos meus pais, avós e camaradas, correndo nas minhas veias, pelas artérias do meu corpo e continente.
Tenho a angústia do que não vi, do que não vivi e, na verdade anseio.
O seio da morena forte, os dentes cravados na carne macia, o amor louco e voraz das manhãs de preguiça.
Tenho o gosto que atiça os ventos das mudanças, nas mãos o tempo que nunca veio, mas estás se aproximando.
Tanto tempo perdido, mas a vida se vinga e traz novo sabor, um cheiro de terra molhada, de fruta levemente apodrecida, derretendo na boca.
Meu canto de amor a essa Terra, diversa e una, única e plural; do gado no curral, na infância sofrida entre enxada e ancinho.
Tento meu canto insolente e insone, por meio de um resto de luz atravessando a porta. Inundando o quarto
Acordando meus desejos e sensibilidade.
Mergulho no brilho da luminosidade calma e constante, recebo o beijo da manhã sedutor e obscenamente lúdica.
Me banho na cachoeira do final do arco-íris, na cútis da moça bonita, cabocla voraz, audaz e desnuda.
Minhas palmeiras se foram, deixaram o eucalipto, mas o grito de libertas ainda ecoa, forte ressoa e invade a manhã.
Meninos, eu vi; no canto dos passarinhos, o canto dos aflitos que, ecoava oco, mas hoje é respondido, de forma ainda tímida, mas tenaz;
Nas senzalas restantes, nos quilombos e aldeias, nas mãos dos sofridos e discriminados.
No berro dos sem-terra, sem-teto, mas com esperanças, ouço o grito dos açoitados, massacrados, prostituídos, exilados na própria terra, cultivada e cultuada, com suor e dignidade.
Mas também ouço o alarde, o alarme soando.
Maioria faminta das merendeiras, faxineiras, engraxates, domésticas, que invadem as escolas, os sonhos, a esperança.
Mártires se foram, hoje não são mais tão necessários, por serem muitos;
pelo furor dessa mudança na dança do poder, pela mulher que cresce e ocupa os espaços, pela sensibilidade do amor, da fragilidade da paz e da solidariedade dos pobres.
Meu amor se banha no rio, atravessado; em busca do refúgio do futuro
Como estou aprendendo a amar esse país! A entender meu povo, minha gente, meus irmãos;
Aos Dom Hélder Câmara, aos Pedros Tierra, aos homens de bem.
A Frei Betto, a Betinho, a todos os que foram e estão e virão.
Muito obrigado, o sonho se aproxima da realidade e nessa estaremos em corpo e alma, com a calma dos sábios, do povo sábio que se sabia sabiá; feito pra cantar livre, sem medo de ser feliz.

MARCOS LOURES

LAS VARIAS ILUSIONES

LAS VARIAS ILUSIONES



Las varias ilusiones que mantengo
Después de los errores de costumbre,
Arcando con penumbras no vislumbre
Fortuna que distante no más tengo,
Y cuando se presume y mismo siento
Distante de mis manos la esperanza
El paso en desafecto al nada lanza
Tocado corazón se exponga al viento,
Restando casi nada, sigo solo,
La paz se haciendo lejas, nadie escucha,
En todo desenlace, vieja lucha,
Astuta sensación de rudo dolo,
Mezclase en cada verso otro diseño
Tornando sin sentido algún empeño…


MARCOS LOURES

BUCHA DE CANHÃO



BUCHA DE CANHÃO

Crianças espalhadas pelas ruas,
Qual bucha de canhão para a canalha,
A fúria quando louca além se espalha
Expressando verdades nuas, cruas,

Os donos do poder, a mesma corja
Apodrecida face rapineira,
Escarra sem piedade na bandeira
E a mesma sensação espúria forja.

Enquanto a mídia escolhe outro refém
Fazendo o que bem quer e lhe convém
O povo estrebuchando não acorda,

É hora de mudar esse cenário,
Não quero que me façam mais de otário,
Rompamos do Congresso a podre corda...

MARCOS LOURES

PANTERA

PANTERA

Bicho preguiça, quero só teu colo,
Deitado no remanso, curva do rio...
Conhecer teu amor, de pólo a pólo...
Deixar meu coração bater vadio...

Quando estirada estás, no mesmo solo,
Vagabundo procuro, quero o fio
Que me possa prender, dentes amolo
Pronto para morder, quero teu cio...

A pantera cruel, de firmes garras,
Cravando no meu peito, as suas presas.
Nas suas serenatas, as guitarras

Deliciosamente dissonantes,
Refletem teu gemido. Vão acesas
As luzes que refletes, ofuscantes...

MARCOS LOURES

QUEBRANTOS



 QUEBRANTOS

Quebrantos diseñados en sencillos
Marcando en tempestades sin temblores,
La suerte se prepara en sus colores,
Trasciendo en direcciones varias, trillos,
Los sueños más sublimes en sus brillos,
Haciendo contumaces los dolores,
La busca suplantando mis errores,
Remordimientos traman estribillos
La fuente se agotando poco a poco,
Cambiando de sentido fuese un loco,
Sin nada que frenase voluntades,
Imagen femenina, espejando
Un día que quisiera siempre blando,
Rompiendo sin temores, viejas grades…

MARCOS LOURES

ESPERANZAS SUTILES



ESPERANZAS SUTILES

Esperanzas sutiles, mundo en guerra,
Los ojos en miradas más diversas,
Depositando luces ya dispersas,
Lo cuanto se pudiera e nada cierra,
El campo en otro encanto se destierra,
Palabras que perdidas, van inmersas
En farsas elocuentes, tan perversas,
Destrozan sin defesas, propia Tierra,
Lagunas entre valles y montañas,
Las deudas se mostrasen cuando dañas
Extrañas ilusiones que he perdido,
Un mundo más sutil, mismo exquisito,
Escucho más lejano algún sonido,
Y mismo sin respuestas, loco, grito…

MARCOS LOURES