segunda-feira, 15 de março de 2010

ESPIRAL DE SONETO - VANDALISMO - HOMENAGEANDO AUGUSTO DOS ANJOS

Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Augusto dos Anjos


2


“Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos”
Ao perceber inúteis as luzernas
Adentrando terríveis vãos, cavernas
Retratos de momentos tão medonhos.

Expondo à minha face tais paragens
Cenário distorcido em vagas luzes,
Arrebatando em mim diversas cruzes,
Soturnas e temíveis paisagens.

Das ânsias cintilantes fluorescências
E impávidas figuras caricatas
Em meio às gargalhadas e bravatas
Convites para os ermos das demências.

Afetam meu olhar e inebriantes,
Fulguram quais bisonhos diamantes.


3

Fulguram quais bisonhos diamantes.
Olhares que me espreitam desta fera,
A solidão enquanto destempera,
Tranqüilizando ao menos por instantes.

Verdugos de nós mesmos, muita vez,
Alheios ao que possa ressurgir,
Ouvindo uma esperança além bramir,
Em novo dia, ainda, mesmo crês.

Adentro nos mistérios de minha alma
Masmorras, catedrais e ancoradouros,
Diversos caminhares, ritos mouros
Do quanto já vivera, medo e trauma

E quando me percebes arrebatas
“Templos de priscas e longínquas datas.”


4


“Templos de priscas e longínquas datas”
Encontram no meu peito o esconderijo
E quanto aos meus anseios me dirijo
As dores se revoltam em cascatas.

E nesta turbulência mal convivo
Com todos os espectros que se hospedam
Caminhos usuais quebram, depredam,
E assim em meio ao caos eu sobrevivo.

Mortalhas entre pútridas carcaças
Somente me rondando pesadelos,
A cada nova noite revivê-los
Enquanto ao largo sei que ainda passas

E mesmo se presente; não me internas
Ao perceber inúteis as luzernas


5

Ao perceber inúteis as luzernas
Estranho quando a luz em lusco fusco
Entranha muito além do que ora busco,
Traçando procissões raras, supernas.

Heréticos demônios coexistem
Com anjos muitas vezes mais profanos,
E os erros cometidos, meus enganos,
Ainda mesmo após, vivem, persistem.

Esboço reações, mas não prossigo
Etéreas maravilhas e abissais,
Nefastas hedonistas magistrais,
Ambígua sensação de caos e abrigo.

Insólito momento; desbaratas
“Onde um nume de amor, em serenatas.”

6

“Onde um nume de amor, em serenatas.”
Ouvia-se deveras percebi
Esdrúxulos caminhos vêm a ti
Presenças tantas vezes mais ingratas.

Ascendo aos mais diversos elementos,
Na fúria deste vento, águas profundas
Incêndios invadindo quando inundas
Gerando paz em forma de tormentos.

Antíteses comuns de um sonho tosco,
A par destes incríveis contra-sensos
Os medos e os prazeres são imensos,
Luar mesmo que pleno, segue fosco;

E quando necessárias noites ternas
Adentrando terríveis vãos, cavernas

7


Adentrando terríveis vãos, cavernas
Não pude perceber saídas, fugas
E quando ao enfrentar também refugas
Diverso da loucura que ora externas,

Incríveis vendavais, tormentas várias,
Estúpidas quimeras ancestrais
E nelas os diversos rituais
Mostrando faces torpes, temerárias.

Assiduamente entranham suas garras
E deixam cicatrizes tatuadas
Nas almas que circundam, destroçadas,
Enquanto as minhas pernas tu agarras

E incrível carpideira em vozes tensas
“Canta a aleluia virginal das crenças”.


8


“Canta a aleluia virginal das crenças”
Espantosa quimera incendiando
Num panorama outrora bem mais brando
Gerando mais terríveis desavenças.

Assassinos, ladrões, répteis humanos
Arrastam-se entre fogos e demônios,
Explode emanação de seus hormônios
Alastram-se terrores, desenganos.

Fomentam temporais em vento forte,
Um bêbado funâmbulo caminha
E podre sensação que se avizinha
Prenunciando assim tortura e morte

No meio dos espectros mais bisonhos
Retratos de momentos tão medonhos.


9

Retratos de momentos tão medonhos.
Asquerosas figuras, gargalhares,
Na cúpida ilusão, podres altares,
Arfantes emoções, terríveis sonhos.

E em meio às trevas surge esta satânica
Beleza que seduz e tentadora,
Dos males e dos gozos, genitora,
Em convulsão feroz, quase tetânica.

Esbarram-me cadáveres do anseio
Negado há tanto tempo, desde a infância,
Caminham com soberba e elegância
Não tendo dos espectros mais receio.

E o Demo fabuloso em tais bravatas
“Na ogiva fúlgida e nas colunatas”.

10

“Na ogiva fúlgida e nas colunatas”.
Nefastos, gigantescos corvos vêm
Num crocitar constante, como alguém
Que risse destas cenas insensatas.

Vergastas soltas cortam todo este ar
E algozes em masmorras, cadafalsos,
Os pés em carne viva estão descalços
Ao longe sobre as trevas o luar

Num lusco fusco entranha este cenário,
Insanos os espectros de minha alma,
Que incrivelmente sinto bem mais calma,
Além do que pensara necessário

Especulares ritos quais miragens
Expondo à minha face tais paragens.

11


Expondo à minha face tais paragens
Uma fantasmagórica impressão
Demarca a minha pele em abrasão
Fomenta o desespero; falsos pajens

Adentram o salão aonde a festa
Explode em cores fátuas e vulgares,
Diversas meretrizes, lupanares
Resultam tentações árduas, funestas.

Eclodem de crisálidas gigantes
Falenas que medonhas bebem luzes,
Os crânios entre adagas, ferros, cruzes
Em tons bem mais profícuos, radiantes

E sobre estas cabeças, vãs e imensas
“Vertem lustrais irradiações intensas”.


12

“Vertem lustrais irradiações intensas”
E entranha nos meus olhos tal fascínio
Perdendo das vontades, o domínio
As horas em tempestas, festas, tensas...

Estrídulos distantes, chibatadas
Açoites entre carnes laceradas,
Dos restos do que fui sequer pegadas,
Jamais imaginara as alvoradas.

Brumosa madrugada em pesadelos,
A turba, imunda súcia, velhos párias
Deitando sob as várias luminárias,
Assim posso melhor, decerto, vê-los

E emaranhando ao longe ledas cruzes
Cenário distorcido em vagas, luzes...

13

Cenário distorcido em vagas luzes
Novelos de cadáveres, zumbis,
E incrível que pareça estou feliz,
Bebendo cada fonte em que reluzes

Apátridas bastardos, desdentados
Profanas criaturas fartos risos,
Sensações de infernos, Paraísos,
Demônios com arcanjos misturados.

E o gozo prazeroso da tortura
Esvai em sangue intenso sacrifício,
E como fosse outrora o Santo Ofício,
Percebo que o terror ajuda e cura.

Disformes fantasias em que pensas:
“Cintilações de lâmpadas suspensas”


14

“Cintilações de lâmpadas suspensas”
Espalham-se nos antros mais imundos,
E os olhos demoníacos, profundos,
Sanguíneas emoções são recompensas.

Hedônicos fantoches histriônicos
Gerando abortos fetos e embriões,
E nesta orgia, louca, tu te expões,
Em danças, atos bruscos desarmônicos.

Fétida e sulfurosa madrugada,
As ânsias estampadas neste rosto,
Melífero terror amansa o gosto
Da imagem ora pútrida e encarnada

E como fossem pedras, foices, urzes
Arrebatando em mim diversas cruzes.

15


Arrebatando em mim diversas cruzes
Esdrúxulos demônios me rondando,
E o mundo num instante desabando
Terrível profusão de grises luzes.

Vertiginosa imagem quando eu abro
Os olhos tudo gira, corpo e mente,
Qual fosse um festival torpe e demente
Num ar empesteado em tom macabro

Fulgura entre os espectros áureo brilho
Argênteas, brônzeas flores, rubros olhos,
Pisando sobre brasas, sobre abrolhos
Vagando sem destino, teimo e trilho

Incêndios devorando céus e matas
“E as ametistas e os florões e as pratas.”..


16


“E as ametistas e os florões e as pratas”
Entranham ardentias, fogaréus,
Satânicas imagens douram céus,
A lava se derrama em vis cascatas

Vulcânicos eflúvios em clarões
Expondo esta volúpia incontrolável,
Delírio se tornando inevitável
Enquanto tuas carnes; decompões.

E gêiseres explodem vêm à tona,
Histriônicos ritos, corpo nu,
Gargalha-se deveras Belzebu,
Uma esperança tola me abandona

Na vívida impressão, várias imagens
Soturnas e temíveis paisagens.


17


Soturnas e temíveis paisagens
Tornando este cenário deslumbrante
Envolto pelos brados lancinantes
Confusas e diversas as mensagens

Entranho cada vez mais pela furna
Figuras demoníacas, dantescas,
Catedrais gigantes, nababescas
Numa ânsia tresloucada em tez noturna

Adentram num instante em seus corcéis
Grotescos cavaleiros esqueléticos,
Com seus esgares lúgubres e herméticos
Girando nestes toscos carrosséis

Montando em seus soberbos animais
“Como os velhos Templários medievais.”


18

“Como os velhos Templários medievais.”
Estranhas criaturas uniformes,
Nas fácies caricatas e disformes,
Perfazem seus diversos rituais

Brumosa madrugada em tons sombrios,
Espectros em hedônicas orgias,
E tu entre os cadáveres sorrias
Deitando sem pudor, lúbricos cios

Em holocausto vejo uma criança
As garras dos demônios no seu rosto,
O solo putrefato, decomposto
Uma ninfa desnuda ao longe, dança

Voluptuosa luz nas excrescências
Das ânsias cintilantes fluorescências


19

Das ânsias cintilantes fluorescências
Eclodem quais falenas constelares,
Misturam aos sanguíneos lupanares
Corpos desnudados, penitências.

Clamor de vozes dúbias e insensatas
Demônios, querubins, anjos mordazes,
E em meio a tal loucura inda trazes
Nas mãos terríveis fogos e chibatas

Explodem vez em quando os artifícios
Em multicores tantas, maviosas,
Azulejando o solo, várias rosas
Dos céus entre os infernos, precipícios

Lembrar que há tempos entre vendavais
“Entrei um dia nessas catedrais”.

20

“Entrei um dia nessas catedrais”
Aonde se expressando cadavéricas
Imagens quase lúbricas e histéricas
Toando sons edênicos, venais.

Assisto ao vandalismo que em meus mitos
Transforma com diverso tom, matizes
Sombrias entre as luzes que desdizes,
Sonoras emoções, diversos gritos.

Adagas e chicotes, orações,
Mesquinhas ilusões, medos diversos,
E quando transfiguro para os versos,
Demonstras com sarcasmo outras versões

Descendo entre satânicas cascatas
E impávidas figuras caricatas.


21


E impávidas figuras caricatas
Dançando nesta imensa catedral
Gemido sem sentido gutural
Partícipe das loucas serenatas.

Esgueiro-me entre corpos lacerados,
Bebendo desta insânia me transmudo,
E quando me percebo quase mudo
Também entranho em ritos tresloucados.

Medonhos magos, loucos ancestrais,
Alquímicos cadinhos, carpideiras,
Tremulam entre tantos as bandeiras
Momentos de terror são magistrais

Adentro por confusos, ledos sonhos
“E nesses templos claros e risonhos ...”

22



“E nesses templos claros e risonhos
Demoníaca figura angelical,
Misturam-se deveras, bem e mal,
Ao mesmo tempo belos e medonhos.

Esqueço-me de tudo que aprendi,
Visão de um Paraíso deturpado
Inferno, limbo, céu quase nublando,
E neste pandemônio estás aqui.

As roupas já puídas pelo tempo,
A carne decomposta, olhos sombrios,
E enfrento meus temores, desafios,
A cada passo, medo ou contratempo

E ris enquanto o senso desacatas
Em meio às gargalhadas e bravatas.


23


Em meio às gargalhadas e bravatas
Encontro minha face estropiada,
Refletindo esta espúria madrugada
Marcada por açoites e chibatas.

Satânicas imagens pululando
Açoites entre fúrias e risadas,
As costas já sanguíneas, laceradas,
Abutres me rondando em tosco bando.

Em meio às preces, velas e serpentes,
Vagando sem destino pelas sendas,
Qual fossem multidões de ritos, lendas,
Hedônicas lascivas e dementes

Satã com seu comboio; traz vergastas
“E erguendo os gládios e brandindo as hastas.”

24


“E erguendo os gládios e brandindo as hastas”
Em vândalos e párias transformados,
Momentos tão brumosos e nublados
Vagando pelos ares, tu te afastas

E trançam sobre nós alados seres
Diversas garatujas, gargalhares,
Altares entre fogos, lupanares,
Mostrando os seus anseios e poderes.

Bisonhas caricatas, demoníacas,
Deidades desfilando uma nudez
E quando sobre a cena tu me vês
Imagens tão sutis e afrodisíacas

Assim entre terríveis penitências
Convites para os ermos das demências.


25

Convites para os ermos das demências
Fatídicos tormentos entranhados,
Revivem mitos mortos, vãos passados,
Esgotam os limites das decências.

Ecléticos fulgores luz fugaz
Caleidoscópios vários em mosaico,
Hermética volúpia em ar arcaico
E nisto tu te ris, te satisfaz

Energúmenos seres, débeis faces
Escravizando cortes em taperas,
Aonde imaginasse primaveras
Com nuvens invernais, tu logo embaces

Quebrando imagens toscas com vergastas
“No desespero dos iconoclastas.”

26


“No desespero dos iconoclastas”
Cultuam-se imagéticas figuras,
Em meio às claras luzes, vãs e escuras
Satânicos arcanjos, cruas pastas.

Decomposição mostra destroços
Carcaças eclodindo das masmorras
Por mais ainda tentes e socorras
Só restam dos demônios, frios ossos.

Cadáver insepulto ri-se irônico
E cadafalsos vejo entre estes tronos,
Representando assim os abandonos
Num ato genial, porquanto hedônico

Danças sensuais por instantes
Afetam meu olhar e inebriantes.


27

Afetam meu olhar e inebriantes
Momentos entre fúrias e prazeres,
Diversas profusões de vagos seres,
Enquanto em tal cenário te agigantes.

Mesquinhas e rasteiras serpes vêm
E lambem minhas pernas, mordiscando,
Aos poucos cada parte devorando
Depois de certo tempo, mais alguém

Explode em gargalhadas, dança nua
Orgásticos demônios, anjos nus
E em meio ao festival, vejo urubus
Vagando sobre nós, tampando a lua

Reconhecendo em ares tão medonhos
“Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!”


28

“Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos”
Qual fosse algum espelho que mostrasse
A verdadeira e imunda, turva face
Num misto de terrores enfadonhos

Astutos querubins, seres satânicos
Vestindo uma alva e rota maravilha
Enquanto ao longe imagem tosca brilha
Disseminando risos entre pânicos

E neste vandalismo entre promessas
Divinas emoções num temor farto,
Falenas adentrando então meu quarto
Nos sonhos, pesadelos recomeças

Estrelas invadindo deslumbrantes
Fulguram quais bisonhos diamantes.

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Afetam meu olhar e inebriantes
Momentos entre fúrias e prazeres,
Diversas profusões de vagos seres,
Enquanto em tal cenário te agigantes.

Mesquinhas e rasteiras serpes vêm
E lambem minhas pernas, mordiscando,
Aos poucos cada parte devorando
Depois de certo tempo, mais alguém

Explode em gargalhadas, dança nua
Orgásticos demônios, anjos nus
E em meio ao festival, vejo urubus
Vagando sobre nós, tampando a lua

Reconhecendo em ares tão medonhos
“Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!”


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“Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos”
Qual fosse algum espelho que mostrasse
A verdadeira e imunda, turva face
Num misto de terrores enfadonhos

Astutos querubins, seres satânicos
Vestindo uma alva e rota maravilha
Enquanto ao longe imagem tosca brilha
Disseminando risos entre pânicos

E neste vandalismo entre promessas
Divinas emoções num temor farto,
Falenas adentrando então meu quarto
Nos sonhos, pesadelos recomeças

Estrelas invadindo deslumbrantes
Fulguram quais bisonhos diamantes.

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Em meio às gargalhadas e bravatas
Encontro minha face estropiada,
Refletindo esta espúria madrugada
Marcada por açoites e chibatas.

Satânicas imagens pululando
Açoites entre fúrias e risadas,
As costas já sanguíneas, laceradas,
Abutres me rondando em tosco bando.

Em meio às preces, velas e serpentes,
Vagando sem destino pelas sendas,
Qual fossem multidões de ritos, lendas,
Hedônicas lascivas e dementes

Satã com seu comboio; traz vergastas
“E erguendo os gládios e brandindo as hastas.”


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“E erguendo os gládios e brandindo as hastas”
Em vândalos e párias transformados,
Momentos tão brumosos e nublados
Vagando pelos ares, tu te afastas

E trançam sobre nós alados seres
Diversas garatujas, gargalhares,
Altares entre fogos, lupanares,
Mostrando os seus anseios e poderes.

Bisonhas caricatas, demoníacas,
Deidades desfilando uma nudez
E quando sobre a cena tu me vês
Imagens tão sutis e afrodisíacas

Assim entre terríveis penitências
Convites para os ermos das demências.


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Convites para os ermos das demências
Fatídicos tormentos entranhados,
Revivem mitos mortos, vãos passados,
Esgotam os limites das decências.

Ecléticos fulgores luz fugaz
Caleidoscópios vários em mosaico,
Hermética volúpia em ar arcaico
E nisto tu te ris, te satisfaz

Energúmenos seres, débeis faces
Escravizando cortes em taperas,
Aonde imaginasse primaveras
Com nuvens invernais, tu logo embaces

Quebrando imagens toscas com vergastas
“No desespero dos iconoclastas.”

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“No desespero dos iconoclastas”
Cultuam-se imagéticas figuras,
Em meio às claras luzes, vãs e escuras
Satânicos arcanjos, cruas pastas.

Decomposição mostra destroços
Carcaças eclodindo das masmorras
Por mais ainda tentes e socorras
Só restam dos demônios, frios ossos.

Cadáver insepulto ri-se irônico
E cadafalsos vejo entre estes tronos,
Representando assim os abandonos
Num ato genial, porquanto hedônico

Danças sensuais por instantes
Afetam meu olhar e inebriantes.

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E impávidas figuras caricatas
Dançando nesta imensa catedral
Gemido sem sentido gutural
Partícipe das loucas serenatas.

Esgueiro-me entre corpos lacerados,
Bebendo desta insânia me transmudo,
E quando me percebo quase mudo
Também entranho em ritos tresloucados.

Medonhos magos, loucos ancestrais,
Alquímicos cadinhos, carpideiras,
Tremulam entre tantos as bandeiras
Momentos de terror são magistrais

Adentro por confusos, ledos sonhos
“E nesses templos claros e risonhos ...”

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“E nesses templos claros e risonhos
Demoníaca figura angelical,
Misturam-se deveras, bem e mal,
Ao mesmo tempo belos e medonhos.

Esqueço-me de tudo que aprendi,
Visão de um Paraíso deturpado
Inferno, limbo, céu quase nublando,
E neste pandemônio estás aqui.

As roupas já puídas pelo tempo,
A carne decomposta, olhos sombrios,
E enfrento meus temores, desafios,
A cada passo, medo ou contratempo

E ris enquanto o senso desacatas
Em meio às gargalhadas e bravatas.

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Das ânsias cintilantes fluorescências
Eclodem quais falenas constelares,
Misturam aos sanguíneos lupanares
Corpos desnudados, penitências.

Clamor de vozes dúbias e insensatas
Demônios, querubins, anjos mordazes,
E em meio a tal loucura inda trazes
Nas mãos terríveis fogos e chibatas

Explodem vez em quando os artifícios
Em multicores tantas, maviosas,
Azulejando o solo, várias rosas
Dos céus entre os infernos, precipícios

Lembrar que há tempos entre vendavais
“Entrei um dia nessas catedrais”.


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“Entrei um dia nessas catedrais”
Aonde se expressando cadavéricas
Imagens quase lúbricas e histéricas
Toando sons edênicos, venais.

Assisto ao vandalismo que em meus mitos
Transforma com diverso tom, matizes
Sombrias entre as luzes que desdizes,
Sonoras emoções, diversos gritos.

Adagas e chicotes, orações,
Mesquinhas ilusões, medos diversos,
E quando transfiguro para os versos,
Demonstras com sarcasmo outras versões

Descendo entre satânicas cascatas
E impávidas figuras caricatas.

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“Como os velhos Templários medievais.”
Estranhas criaturas uniformes,
Nas fácies caricatas e disformes,
Perfazem seus diversos rituais

Brumosa madrugada em tons sombrios,
Espectros em hedônicas orgias,
E tu entre os cadáveres sorrias
Deitando sem pudor, lúbricos cios

Em holocausto vejo uma criança
As garras dos demônios no seu rosto,
O solo putrefato, decomposto
Uma ninfa desnuda ao longe, dança

Voluptuosa luz nas excrescências
Das ânsias cintilantes fluorescências

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Soturnas e temíveis paisagens
Tornando este cenário deslumbrante
Envolto pelos brados lancinantes
Confusas e diversas as mensagens

Entranho cada vez mais pela furna
Figuras demoníacas, dantescas,
Catedrais gigantes, nababescas
Numa ânsia tresloucada em tez noturna

Adentram num instante em seus corcéis
Grotescos cavaleiros esqueléticos,
Com seus esgares lúgubres e herméticos
Girando nestes toscos carrosséis

Montando em seus soberbos animais
“Como os velhos Templários medievais.”

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“E as ametistas e os florões e as pratas”
Entranham ardentias, fogaréus,
Satânicas imagens douram céus,
A lava se derrama em vis cascatas

Vulcânicos eflúvios em clarões
Expondo esta volúpia incontrolável,
Delírio se tornando inevitável
Enquanto tuas carnes; decompões.

E gêiseres explodem vêm à tona,
Histriônicos ritos, corpo nu,
Gargalha-se deveras Belzebu,
Uma esperança tola me abandona

Na vívida impressão, várias imagens
Soturnas e temíveis paisagens.

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Arrebatando em mim diversas cruzes
Esdrúxulos demônios me rondando,
E o mundo num instante desabando
Terrível profusão de grises luzes.

Vertiginosa imagem quando eu abro
Os olhos tudo gira, corpo e mente,
Qual fosse um festival torpe e demente
Num ar empesteado em tom macabro

Fulgura entre os espectros áureo brilho
Argênteas, brônzeas flores, rubros olhos,
Pisando sobre brasas, sobre abrolhos
Vagando sem destino, teimo e trilho

Incêndios devorando céus e matas
“E as ametistas e os florões e as pratas.”..

domingo, 14 de março de 2010

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Adentrando terríveis vãos, cavernas
Não pude perceber saídas, fugas
E quando ao enfrentar também refugas
Diverso da loucura que ora externas,

Incríveis vendavais, tormentas várias,
Estúpidas quimeras ancestrais
E nelas os diversos rituais
Mostrando faces torpes, temerárias.

Assiduamente entranham suas garras
E deixam cicatrizes tatuadas
Nas almas que circundam, destroçadas,
Enquanto as minhas pernas tu agarras

E incrível carpideira em vozes tensas
“Canta a aleluia virginal das crenças”.


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“Canta a aleluia virginal das crenças”
Espantosa quimera incendiando
Num panorama outrora bem mais brando
Gerando mais terríveis desavenças.

Assassinos, ladrões, répteis humanos
Arrastam-se entre fogos e demônios,
Explode emanação de seus hormônios
Alastram-se terrores, desenganos.

Fomentam temporais em vento forte,
Um bêbado funâmbulo caminha
E podre sensação que se avizinha
Prenunciando assim tortura e morte

No meio dos espectros mais bisonhos
Retratos de momentos tão medonhos.


26923

Retratos de momentos tão medonhos.
Asquerosas figuras, gargalhares,
Na cúpida ilusão, podres altares,
Arfantes emoções, terríveis sonhos.

E em meio às trevas surge esta satânica
Beleza que seduz e tentadora,
Dos males e dos gozos, genitora,
Em convulsão feroz, quase tetânica.

Esbarram-me cadáveres do anseio
Negado há tanto tempo, desde a infância,
Caminham com soberba e elegância
Não tendo dos espectros mais receio.

E o Demo fabuloso em tais bravatas
“Na ogiva fúlgida e nas colunatas”.

26924

“Na ogiva fúlgida e nas colunatas”.
Nefastos, gigantescos corvos vêm
Num crocitar constante, como alguém
Que risse destas cenas insensatas.

Vergastas soltas cortam todo este ar
E algozes em masmorras, cadafalsos,
Os pés em carne viva estão descalços
Ao longe sobre as trevas o luar

Num lusco fusco entranha este cenário,
Insanos os espectros de minha alma,
Que incrivelmente sinto bem mais calma,
Além do que pensara necessário

Especulares ritos quais miragens
Expondo à minha face tais paragens.

26925


Expondo à minha face tais paragens
Uma fantasmagórica impressão
Demarca a minha pele em abrasão
Fomenta o desespero; falsos pajens

Adentram o salão aonde a festa
Explode em cores fátuas e vulgares,
Diversas meretrizes, lupanares
Resultam tentações árduas, funestas.

Eclodem de crisálidas gigantes
Falenas que medonhas bebem luzes,
Os crânios entre adagas, ferros, cruzes
Em tons bem mais profícuos, radiantes

E sobre estas cabeças, vãs e imensas
“Vertem lustrais irradiações intensas”.

26916/17/18/19/20

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“Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos”
Ao perceber inúteis as luzernas
Adentrando terríveis vãos, cavernas
Retratos de momentos tão medonhos.

Expondo à minha face tais paragens
Cenário distorcido em vagas luzes,
Arrebatando em mim diversas cruzes,
Soturnas e temíveis paisagens.

Das ânsias cintilantes fluorescências
E impávidas figuras caricatas
Em meio às gargalhadas e bravatas
Convites para os ermos das demências.

Afetam meu olhar e inebriantes,
Fulguram quais bisonhos diamantes.


26917

Fulguram quais bisonhos diamantes.
Olhares que me espreitam desta fera,
A solidão enquanto destempera,
Tranqüilizando ao menos por instantes.

Verdugos de nós mesmos, muita vez,
Alheios ao que possa ressurgir,
Ouvindo uma esperança além bramir,
Em novo dia, ainda, mesmo crês.

Adentro nos mistérios de minha alma
Masmorras, catedrais e ancoradouros,
Diversos caminhares, ritos mouros
Do quanto já vivera, medo e trauma

E quando me percebes arrebatas
“Templos de priscas e longínquas datas.”


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“Templos de priscas e longínquas datas”
Encontram no meu peito o esconderijo
E quanto aos meus anseios me dirijo
As dores se revoltam em cascatas.

E nesta turbulência mal convivo
Com todos os espectros que se hospedam
Caminhos usuais quebram, depredam,
E assim em meio ao caos eu sobrevivo.

Mortalhas entre pútridas carcaças
Somente me rondando pesadelos,
A cada nova noite revivê-los
Enquanto ao largo sei que ainda passas

E mesmo se presente; não me internas
Ao perceber inúteis as luzernas


26919

Ao perceber inúteis as luzernas
Estranho quando a luz em lusco fusco
Entranha muito além do que ora busco,
Traçando procissões raras, supernas.

Heréticos demônios coexistem
Com anjos muitas vezes mais profanos,
E os erros cometidos, meus enganos,
Ainda mesmo após, vivem, persistem.

Esboço reações, mas não prossigo
Etéreas maravilhas e abissais,
Nefastas hedonistas magistrais,
Ambígua sensação de caos e abrigo.

Insólito momento; desbaratas
“Onde um nume de amor, em serenatas.”

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“Onde um nume de amor, em serenatas.”
Ouvia-se deveras percebi
Esdrúxulos caminhos vêm a ti
Presenças tantas vezes mais ingratas.

Ascendo aos mais diversos elementos,
Na fúria deste vento, águas profundas
Incêndios invadindo quando inundas
Gerando paz em forma de tormentos.

Antíteses comuns de um sonho tosco,
A par destes incríveis contra-sensos
Os medos e os prazeres são imensos,
Luar mesmo que pleno, segue fosco;

E quando necessárias noites ternas
Adentrando terríveis vãos, cavernas

ESPIRAL DE SONETOS SOBRE 4 SONETOS POESIA

Porquanto fosse exótico o caminho
Ainda mesmo assim eu não teria
Lembranças do que outrora em agonia
Vencera sem demora pedra e espinho.

Arcar com meus enganos de poder
Sentir o doce alento da manhã,
Realidade é tosca, torpe e vã
Por mais que a fantasia diz prazer.

Mediocridade grassa sobre a Terra
Matando o que já fora uma arte nobre
Agonizando aos poucos se descobre
A podre realidade em que se encerra.

Dos píncaros às fossas abissais
Literatura, amigo? Nunca mais!

2


Literatura, amigo; nunca mais
Sobreviveu durante tempestades
Durante a Idade Média, duras grades
Tornando-se a refém de vãos boçais.

Usando da palavra sem pensar
Inexistente; eu vejo, algum talento,
Jogada sem destino em raro vento,
A morte se percebe, devagar.

Espúrias criaturas dizem versos
Tentando com seus vômitos dizer
O que jamais conseguem entender
Descaminhos deveras tão diversos

Na pútrida manhã que sinto vir,
Uma arte totalmente sem provir...


3

Uma arte totalmente sem provir
Aonde brados, liras, trovadores
Agora se expressando em novas cores,
As bênçãos de uma Musa vêm pedir.

Porém a divindade se perdeu,
Nos bailes, besteiróis, asnices tantas
Estúpido fantasma tu levantas
Morrendo neste imenso e tosco breu.

Apedrejada; vejo a poesia.
Fatídica expressão tomando a cena.
Causando a quem se deu; imensa pena
O encanto no final putrefazia.

Num mar de incompetência, raros brilhos
Farol em negra noite traça trilhos.

4

Farol em negra noite traça trilhos,
Os quais sem ter ninguém que inda os perceba,
Por mais que a fantasia inda se beba,
Desconhecendo as armas e os gatilhos.

Não creio necessário ter cadência,
Tampouco a rima é base para tal,
Já não suporto a fala sempre igual
De quem não tem noção e competência.

A morte do poema se percebe
Nas vastas redes livres da internet
Aonde um energúmeno se mete,
Universalizando a mente plebe.

Matizes tão diversos, tanta asneira
Uma alma libertária é garimpeira.


5

Uma alma libertária é garimpeira
E traça seu destino com vigor,
Mas vendo a poesia decompor,
Aos poucos, se em juízo, já se esgueira.

A face desdenhosa da mentira
Ardendo nos meus olhos, vil quimera,
Aonde se encontrar a primavera
Se ao abissal caminho enfim se atira.

Verdugos de nós mesmo, imbecis,
Bebendo como fosse mel o esgoto
Percebo o paletó agora roto
E o que fosse banquete se desdiz.

Prazer se renovasse a alegoria?
Ainda mesmo assim eu não teria.


6

Ainda mesmo assim eu não teria
Uma esperança. O tempo não retorna,
E quando a realidade se faz morna,
Jamais se percebendo uma ardentia.

O verso se perdeu no nada ser,
Envergonhando a Musa e transformando
Em ar mais furioso o bardo brando,
No túmulo, decerto a revolver.

Espreita de tocaia, uma ignorância
Sagacidade é coisa de panaca,
E quando nesta merda, já se atraca
Lirismo se transforma em arrogância

Matando quem vencendo “liberdades”
Sobreviveu durante tempestades


7

Sobreviveu durante tempestades
A velha poesia em força tanta,
Mas quando um tumular vento agiganta
Deveras tu percebas que degrades

A sacrossanta e bela maravilha
Exposta aos mais terríveis vendavais
Servindo de repastos pra chacais,
Já não superaria esta armadilha.

A face em podridão se apresentando,
Desnuda-se o cadáver deste sonho
Reforma salvadora inda proponho,
Mas rapineiras voam, ledo bando

Agora proliferam estupores
Aonde brados, liras, trovadores...


8

Aonde brados, liras, trovadores
Cantavam e traziam seu talento,
Perdendo a direção do manso vento,
Agora do vazio, adoradores.

Palavras; expressões que vêm de uma alma
Traduzem realidade e fantasia,
Mas quando o simples nada já se cria
É necessário ter alguma calma.

Boçalidade avança soberana,
A farsa se fazendo mais freqüente,
E enquanto uma cultura já se ausente
Qualquer torpe canalha tenta e engana

Venenos tão sutis ora se beba,
Os quais sem ter ninguém que inda os perceba.

9

Os quais sem ter ninguém que inda os perceba
Navios destroçados pela vida,
A podre sensação enaltecida,
É tudo o que deveras se conceba.

Esgarçam-se os sonetos, morrem trovas
Qualquer boçalidade vira verso,
E assim ao percorrer este universo
Da imensa hipocrisia tenho as provas.

A par do quanto inútil prosseguir,
Matando este poeta que existiu
Agora uma alma insólita e sutil
Bebendo solitária, este elixir.

Reluto e tento vivas; na alma fria,
Lembranças do que outrora em agonia.

10


Lembranças do que outrora em agonia
E agora falecidos os poemas,
Antigamente vivas as algemas,
Agora por venal melancolia

A farsa se transforma no sucesso,
Medíocres imbecis matam sem dó,
Reduzem o talento ao simples pó
Em nome do que fora algum progresso.

Não posso mais lutar contra a maré,
Desisto e me isolando, sou feliz,
Fazer da poesia a meretriz
Dizendo estar rompendo uma galé

Refazem ao dizerem “liberdades”,
Durante a Idade Média, duras grades.


11


Durante a Idade Média, duras grades
Atando com correntes a verdade,
Negando totalmente a liberdade
Reflete o que deveras já degrades.

O fato de ser livre não permite
Qualquer besteira em nome da beleza,
Se poluída vejo a correnteza,
Ultrapassou há tanto meu limite.

Versar sobre o vazio e a estupidez
Negando ao próprio estilo uma existência
Traduz a mais completa incompetência
E nela a maravilha se desfez.

Aonde houvera brilhos em fulgores
Agora se expressando em novas cores.


12

Agora se expressando em novas cores
A poesia morta não tem jeito.
A falta de caráter e o despeito
Impede que se nasçam belas flores.

Mentecaptos vestidos de poetas,
Inúteis versos soltos sem sentido.
Condenam-se ao terror do ledo olvido,
Pior é que envenenam suas setas.

Cansado desta imensa babaquice,
Quem sabe faz agora ou dá no pé,
Prefiro me calar seguir na fé,
Não posso conviver com tal tolice


Ainda que eu procure e não perceba
Por mais que a fantasia inda se beba.


13


Por mais que a fantasia inda se beba
Cansado de um pileque vagabundo,
Procuro inutilmente pelo mundo,
Quem tente adivinhar e até perceba

O quão se fez herética esta história,
Em nome de um provável modernismo,
Criaram no poema um cataclismo
E ainda vêm com ares de vanglória.

Boçalidade em nome, mas de que?
Da fúria desregrada dos boçais?
Não piso neste solo nunca mais.
É tanta idiotice o que se lê.

Quem sabe caminhar, mesmo sozinho,
Vencera sem demora pedra e espinho.

14

Vencera sem demora pedra e espinho
Quem tenta descobrir toda a verdade,
Enquanto a idiotice já degrade,
Ainda restará, quem sabe um ninho.

Por mais que enfim tentasse paciência,
Ultrapassei deveras meus limites,
Não quero de imbecis torpes palpites
Já não terei deveras mais clemência.

Retiro-me dos grupos onde vejo
Somente os assassinos do poema,
E quando se versando sobre o tema,
Com mãos mais afiadas apedrejo.

A pobre poesia? Nunca mais...
Tornando-se a refém de vãos boçais.


15


Tornando-se a refém de vãos boçais
Cultura se tornou quase piada,
Caminha pela rua apedrejada
Mordida por terríveis animais.

Qualquer estúpido promete um verso
E faz desta ignomínia uma verdade,
Já não comento mais nem qualidade
Não quero ser deveras mais perverso.

Fadando-se a morrer de inanição,
Espúrias carpideiras mentirosas,
Espinhos no lugar de belas rosas,
Secando desde sempre a plantação,

Deixando a poesia sem porvir
As bênçãos de uma Musa vêm pedir?


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As bênçãos de uma Musa vêm pedir
Quem mal conhece as tramas do poema,
Gargalha-se a infeliz ao ter na algema
Do verme que pretende algum porvir.

A liberdade existe e não condeno,
E dela faço o verso que eu quiser,
Mas quando me proponho ao que vier
Já sei que enfrentarei qualquer veneno.

E sendo melancólica esta sanha,
Não deixará sequer que ainda possa
Além da imensa e turva, podre fossa,
Poder se vislumbrar uma montanha

Caminhas entre falsos risos, brilhos
Desconhecendo as armas e os gatilhos.


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Desconhecendo as armas e os gatilhos
Percorrem a sombria madrugada,
Nas mãos não cabem sequer enxada
Ainda vão buscar nas letras, brilhos.

Já não escapam desta vilania
Milhões e mais milhões de tolos cantos,
Vestindo os mais puídos, rotos mantos
Preparam em velório, a poesia.

Abortos de uma tal inteligência,
Esboços de figuras tão abjetas,
Se auto denominando então poetas
Não têm da maestria uma ciência

Eu pago muito caro por saber
Arcar com meus enganos de poder.


18


Arcar com meus enganos de poder
Tentar ainda ver se ela respira
Envolta por falácias, na mentira
A pobre não irá sobreviver.

Facínoras e estúpidos se vestem
E sonham com os bardos que não são,
Propagam a total escuridão
E nelas, pobres seres, sempre investem.

Non sense, liberdade, modernismo...
É tudo uma mentira deslavada,
Em nome desta imagem depravada
Gerando na cultura um cataclismo

A corja se propaga sem parar,
Usando da palavra sem pensar.

19


Usando da palavra sem pensar
Não vejo poesia em nada disso,
Se às vezes piso em solo movediço,
Pretendo vez em quando flutuar;

Barbárie se espalhando na cultura,
Nefastos caminheiros do vazio.
Secando toda fonte, matam rio,
Assim perto do fim, literatura.

Os erros cometidos tão absurdos,
E ainda vejo esta horda a proferir
Qual fosse uma verdade, um elixir,
Besteiras que nos tornam quase surdos.

Talvez o que ande errado aqui sou eu
Porém a divindade se perdeu.


20


Porém a divindade se perdeu
Deixando no lugar o primitivo,
Pior é quando vejo em ar altivo
Boçal querer entrar num Ateneu.

O joio destruindo todo o trigo,
Contagiosa eu sei tanta burrice,
O quanto de poesia se desdisse,
Eu tento compreender, mas não consigo.

Ao vento se jogando qualquer merda,
Cobrança com certeza o tempo traz.
Confundem heresia com audaz
E arrancam da pantera toda cerda.

Ainda tenho enfim uma clemência:
Não creio necessário ter cadência.



21


Não creio necessário ter cadência,
Porém algum talento: imprescindível
Mantendo pelo menos qualquer nível
Diverso da terrível decadência.

Somando o que não é com o jamais
Assim se faz qualquer vaga besteira,
Depois vou desfraldar uma bandeira
Em defesa dos lobos e chacais.

O resto do que resto já se fez
Mergulha nos grupelhos mais audazes,
E neles percebendo mesmas fazes,
Em fezes se propaga estupidez

A poesia permite em manso afã
Sentir o doce alento da manhã.


22


Sentir o doce alento da manhã
E crer ser tão sensível que inda possa,
Usando um linguajar que cheira à fossa
Declamar “poesia” é coisa vã.

As editoras gostam dos palhaços,
E vivem nestas tais antologias
Vendendo quaisquer merdas, porcarias
Abrindo ao imbecil enormes braços.

E o tolo endinheirado, vendo as cenas
Empolga-se com tal facilidade,
Querendo com soberba eternidade
Seu bolso com certeza é seu mecenas

Por mais que na vida eu siga atento
Inexistente; eu vejo algum talento.


23

Inexistente; eu vejo algum talento
Apenas a total hipocrisia
Anunciada em cada livraria,
Para um público estúpido e sedento.

Os erros se acumulam no presente,
Quem faz sucesso é mago ou prostituta,
Indústria da leitura é muito astuta
Sabendo que a beleza estando ausente

Só pensa no dinheiro arrecadado,
No meio desta amarga realidade
Eu sei, repito sempre esta verdade
Sou eu, e não duvido, este culpado

As putas poesias bancam santas
Nos bailes, besteiróis, asnices tantas.

24

Nos bailes, besteiróis, asnices tantas
Repetem cataclismos do passado,
Ao fogo deveria ser lançado
A turba de terríveis sacripantas.

Macabra realidade ora se expõe
No quadro desairoso da cultura,
Lanterna de Diógenes procura,
Os olhos no vazio; ainda põe.

Brincando de poeta, qualquer ser
Parece um arremedo de palhaço.
E quanto mais buscando, o meu cansaço
Traduz esta verdade em desprazer.

Não falo do escrever tradicional
Tampouco a rima é base para tal.


25


Tampouco a rima é base para tal,
Apenas qualidade e nada mais,
No meio destes textos infernais,
Ao menos um talvez me traga o sal.

Insossa poesia se agoniza
A culpa é de quem acha que é poeta,
Não sabe sem sequer nem alfa ou beta
E do vazio ou nada nos avisa.

Não quero rimas ricas nem tampouco
Escrevo com a verve de um maestro,

Sem ter sequer à vista um amanhã
Porém se pouco a pouco assim me adestro,
Não vou ficar aqui berrando louco
Realidade é tosca, torpe e vã.


26


Realidade é tosca, torpe e vã,
Mas quando a fantasia se empobrece
Nem mesmo que se faça alguma prece,
Imagem que se forma, então, malsã.

Cadáver do que fora poesia
Esboça-se nos sites, nas conversas,
E quando mais estúpido tu versas
Maior o teu sucesso, uma alegria.

Eu tenho mesmo é pena dos antigos
Que tanto em vão lutaram por beleza,
Após o cataclismo uma incerteza
Aos sonhadores restam desabrigos

E a pobre poesia sem alento
Jogada sem destino em raro vento.


27


Jogada sem destino em raro vento
Nem brisa movimenta este marasmo,
Não falo com temor nem com sarcasmo,
Apenas libertando o pensamento.

Às traças versos morrem exauridos
Cansados de lutar contra a maré,
No cérebro de muitos o chulé
Qual fosse bons franceses bem urdidos

Bastando saber mal e porcamente
Ler e juntar palavras em anelos
Mesmo que díspares e nunca belos
Poesia nasceu “naturalmente”

Tirando da beleza suas mantas
Estúpido fantasma tu levantas.


28

Estúpido fantasma tu levantas
Em nome de ser livre, o passarinho,
Cantando igual pardal, segue sozinho
Ou mesmo não seduzes; só me espantas.

Bacana a liberdade do escrever,
Julgar com parcimônia este momento,
Às vezes entender eu juto, tento,
Tem hora que é melhor nem saber ler.

Vicissitudes são tão corriqueiras,
Engodos qualquer um, eu sei comete,
Mas quando a mesma asneira se repete
É hora de baixar minhas bandeiras.

Perdoe se não sou tosco e boçal:
Já não suporto a fala sempre igual.


29



Já não suporto a fala sempre igual.
Por mais que a fantasia diz prazer
Percebo com terror o apodrecer
Gerado pela incúria que é geral.

Sombria realidade me apavora,
Não falo do soneto, nem da trova.
O verso quando livre se comprova
Beleza que também já nos decora.

Eu falo é da total boçalidade
Sem nexo, sem vigor, merdice pura.
Não tendo quem tal joça ainda atura
Depois elogiar! Isso é maldade...

“Percebo com terror o apodrecer
Por mais que a fantasia diz prazer.”


30

Por mais que a fantasia diz prazer
Não vale quando uma alma se apequena,
A falta de talento que envenena
Permite tão somente o nada ser.

E vem depois alguém falar de versos?
Defunto que fedendo não merece,
Sequer pra quem restou alguma prece,
Se em merda tão somente vão imersos.

Lavando com terrível creolina
A mente de um menino, de um petiz,
Depois que bela cena se prediz,
“Quem sabe faz, se não: somente ensina”;

E nesta procissão já tumular
A morte se percebe, devagar.


31

A morte se percebe, devagar
Uma arte moribunda e mesmo chata,
Qualquer palhaço agora se arrebata
E tenta a poesia violentar.

Escuto a mesma velha ladainha:
É tudo permitido, sim senhor.
Então, meu companheiro, faz favor
E vê se noutra cova já se aninha.

Num beco sem saída, é fim de papo,
Não tendo palacete nem castelo,
Qualquer mancebo torto fica belo,
Palácio sendo feito de sopapo.

E a pobre poesia se escondeu
Morrendo neste imenso e tosco breu.

32

Morrendo neste imenso e tosco breu
A verve com vergonha veste luto
Sujeito sem juízo ou mesmo astuto,
Vendendo o que deveras já comeu.

Assim num ciclo parco, o mundo segue,
Regando o seu jardim com água suja,
Desenha com “talento” a garatuja
Gravando algum disquinho, voz de jegue.

Cansado de jogar jóia a suíno,
Eu tiro o time inteiro deste campo,
E noutra freguesia então me acampo,
Se for preciso calo e me domino.

Só não vou suportar a convivência
De quem não tem noção e competência.

33


De quem não tem noção e competência
Porém com uma cara assim de pau,
O verso se fazendo tão banal,
Não merece sequer nem mais clemência.

A porta da esperança está trancada
A chave? Capetão já escondeu
Se até o Belzebu não era ateu
Melhor caminho, amigo, a debandada.

Quem fala desta bosta e ainda goza
Prazer de se dizer um menestrel,
A conta pra ser paga é lá no Céu
Mentira com soberba é perigosa.

Enquanto uma cultura já se enterra
Mediocridade grassa sobre a Terra.


34


Mediocridade grassa sobre a Terra
Jamais eu poderia imaginar,
Quem tanto se perdeu com o luar
Beber do besteirol que a vida encerra.

Eu sinto pelos bardos, podres seres,
Que antanho imaginaram belos dias,
E agora em funerais, as poesias
Perderam seus encantos e poderes.

Jogada pelos cantos, sem descanso,
O rumo da infeliz, uma sarjeta,
E sei que talvez haja algum comenta,
Porém, eis a verdade: não alcanço.

Pululam tantos vermes, mas diversos,
Espúrias criaturas dizem versos

35


Espúrias criaturas dizem versos
Qualquer analfabeto sem talento
Soltando alguma merda pelo vento
Tentando poluir os universos.

Mesquinharia pura ou arrogância,
No fundo sem saber o que inda dizem,
Nas ondas e nos grupos já deslizem
Causando pra quem sabe uma forte ânsia.

O vômito bem sei já não demora,
Comida requentada não faz bem,
Se ainda algum tempero ela contém,
Uma alma tão sedenta inda devora

Pior do que uma Bíblica Maria.
Apedrejada; vejo a poesia.

36


Apedrejada; vejo a poesia
Qual fora uma vadia pelas ruas,
E quando em desvario tu flutuas
Provocas com palavras heresia.

Na fúnebre paisagem que ora vejo,
Um fato me chamou toda a atenção
Qualquer ser se venal ou brincalhão
Matando com vontade o seu desejo,

Entrando num grupelho de outros tantos
Iguais formando até academias
E nelas tais tolices que ora urdias
Derramam nos boçais “doces encantos”.

Enquanto do vazio ele se embebe
A morte do poema se percebe.

37

A morte do poema se percebe
Enquanto tão vorazes rapineiras
Estendem suas garras mais certeiras
E invadem destruindo qualquer sebe.

Outrora havia ao menos o pudor
De crer que nada vale sem talento,
Agora a qualquer verso me atormento,
E vejo repetido este estupor.

Estupram uma Musa em virulência
E matam a suprema inspiração,
Depois se não houver mais floração,
Só restará então a flatulência.

Enquanto uma editora venda e cobre
Matando o que já fora uma arte nobre

38

Matando o que já fora uma arte nobre
Canalha se disfarça em gente boa,
E quando a poesia em vão arpoa
Destroça só pra ver se inda descobre

As tramas pelas quais ele se enreda,
E mesmo quando expondo sua tripa,
A corja não sossega e tudo estripa
Fumaça se demais, o olhar já veda.

Cadenciando a vida desse jeito,
Pensara ser possível um convívio
Morrer vai prometendo algum alívio
Melhor do que lutar, inútil pleito,

Não vou ficar aqui para entender
Tentando com seus vômitos dizer.

39


Tentando com seus vômitos dizer
Alguma coisa mesmo inteligível,
A letra com certeza intraduzível,
Em tanto descaminho se perder...

Jogando esta palavra sempre ao vento,
Alguém escuta e pensa ser bacana
A cara do babaca que te engana
Explode num total contentamento.

Camões ressuscitando nestes dias,
Jamais faria aqui qualquer sucesso,
Segredo para ter algum progresso
É descrever sem fé mil porcarias.

Invés da lua bela, rara e plena
Fatídica expressão tomando a cena.


40


Fatídica expressão tomando a cena
Não deixa qualquer sombra da verdade,
Enquanto o dia a dia nos degrade,
Rasgando este papel, a bruta pena.

Vivemos num momento mesmo incrível
Tecnologia dita o dia a dia,
E assim também destroça a poesia
Gerando cada monstro mais terrível.

Comprou computador, além do Orkut
Fuçando noutros sites o imbecil,
Depressa sem demora logo viu
Local onde o medíocre já se embute

E o débil a poeta então se mete
Nas vastas redes livres da internet.



41


Nas vastas redes livres da internet.
Qualquer bobagem ganha outro sentido,
Defesa do imbecil é “ter sentido”
Aquilo que rabisca e que comete.

Jargões tão costumeiros. Preconceito?
Não posso me furtar aos comentários
Se vejo tão somente estes corsários
Achando que o tesouro é seu direito.

Bancando algum santinho, vez em quando
Eu elogio até papel imundo,
Mas quando na verdade me aprofundo,
Eu creio fielmente, estou pecando.

Agora o que se fez deveras pobre
Agonizando aos poucos se descobre.


42

Agonizando aos poucos se descobre
A face caricata do farsante,
Por mais que venda como um diamante
A poesia é feita em merda ou cobre.

Chacota de quem sabe ou mesmo entende,
A sórdida figura se apresenta,
E tendo em suas mãos tosca pimenta
Qual fora um raro doce logo vende.

Bebendo esta cachaça de terceira,
Uísque paraguaio, com certeza,
Assim ao se mostrar em tal grandeza
Disseminando sempre uma besteira.

Última vez que tento enfim dizer
O que jamais conseguem entender.

43


O que jamais conseguem entender
Não vou ficar aqui me repetindo,
Por mais que o saco seja sempre infindo,
Deveras começando ora a se encher.

Falando em causa própria? Nada disso.
Não sou poeta e nunca hoje seria,
É como entrar deveras numa fria,
Uma coisa que sei e não cobiço.

Nem vou bancar o crítico tampouco,
Somente sou leitor e o que me dói
É ver que cada traça mais corrói
O que já percebi ser muito pouco

A dita poesia se envenena
Causando a quem se deu; imensa pena


44

Causando a quem se deu; imensa pena
A Poesia, uma arte milenar
Percebe o seu castelo se acabar
Enquanto uma ignorância vem e acena.

Um bico na canela é o que merece
Quem tem cara de pau para escrever
Em nome desta deusa que ao morrer
Ao Zeus fez derradeira e triste prece.

Do Olimpo mergulhou num ledo inferno,
Capeta sacudindo a sua ossada,
Da bela já não sobra quase nada,
Entrando num eterno e duro inverno

História no final já se complete:
Aonde um energúmeno se mete.

45

Aonde um energúmeno se mete
Não pode nascer coisa diferente,
Não tendo mais quem isso, amigo agüente
Não enfrento fuzil com canivete.

A porta escancarada qual boceta
Da pobre da Pandora no Passado,
Nem mesmo uma esperança dita o Fado,
Quebrando com “ternura” uma caneta.

Parece que um mamute anda escrevendo
São tantas heresias que ora leio,
O saco na verdade estando cheio,
Não acrescento mais sequer adendo.

E assim do abismo ao ver distante a serra
A podre realidade em que se encerra.

46


A podre realidade em que se encerra
Cultura mundial em fim de Império,
Ao ver que sem juízo e nem critério
Poema moribundo já se enterra.

O quadro se aproxima em tempestade,
E aonde encontrarei qualquer abrigo
Se eu mesmo me livrar nunca consigo
De boçalidade que me invade.

Outrora com soberba e tanta gala,
A poesia em festas e saraus,
Subia mais enfática os degraus
Tomando com beleza toda sala,

Agora na privada vejo os versos:
Descaminhos deveras tão diversos.

47

Descaminhos deveras tão diversos
Levando ao triste fim de uma arte bela
E quando esta verdade se revela,
Culpados pelo mundo estão dispersos.

Aqui ou lá surgia algum panaca
Que sem saber pegar uvas maduras,
Amadurecem verdes e as procuras
Encerra e desta forma o mundo empaca.

Visceralmente contra a idiotice
Metida a sabichona, velha grife
Trazendo à poesia algum esquife
Patifaria é tudo o que se disse.

Bebendo esta impossível fantasia
O encanto no final putrefazia.

48


O encanto no final putrefazia
Deixando na carcaça a fedentina,
A Musa se transforma em cafetina
E a pobre poesia em putaria.

Jogada pelos cantos do bordel,
Vendida pra qualquer sujeito otário
Com paladar escroto e mesmo vário,
Aluga um pedacinho lá no céu.

Depois vem com a cara de imbecil,
Dizendo babaquices como fosse
Momento especial, sonoro e doce,
Na Academia é tudo o que se viu.

Diploma de escritor, besta recebe
Universalizando a mente plebe.

49


Universalizando a mente plebe
Depois de ter um auge esplendoroso,
Motivo de piada este jocoso
Caminho que a verdade hoje concebe.

Se sabe ou mal conhece uma palavra,
Na enxada feita em tinta ou no teclado,
Um imbecil urbano um aloprado,
Na roça sem saber de nada, lavra.

Colheita? Com certeza é maravilha,
Pensando numa pérola marinha,
São poucas Coralinas gente minha,
O resto por buracos toscos trilha.

E a leda poesia neste cais
Dos píncaros às fossas abissais.


50


Dos píncaros às fossas abissais
História do que fora outrora belo,
Sem ter sequer palhoça quer castelo
As trovas entre trevas? É demais...

Meu cérebro não é assim miúdo
Se eu falo não defendo alguma métrica,
Porém a coisa andando assim tão tétrica,
O que falta deveras: conteúdo...

Juntando tudo nesta mesma cesta,
A fedentina é sempre de amargar,
Por isso, meu amigo vou parar,
Não vou ficar aqui bancando o besta

Não bebo desta bosta de elixir
Na pútrida manhã que sinto vir.

51

Na pútrida manhã que sinto vir
Não vou deixar a bunda sempre exposta,
Tem gente que em verdade disto gosta,
Mas paga muito caro no porvir.

Cansei de tentar ser um menestrel,
Cantar as minhas mágoas, dores, sonhos,
Agora que percebo quão bisonhos
Os passos que sonegam claro céu,

Mergulho no ostracismo e me garanto
Bem mais tranqüilo; é bom pro coração,
Ainda bem jamais fiz profissão
Da pobre fantasia do meu canto.

Porém diviso ao longe, poucos trilhos
Num mar de incompetência, raros brilhos.

52

Num mar de incompetência, raros brilhos
Assim já se perfaz a poesia,
Outrora tão sublime e hoje vadia
Enfrenta com certeza os empecilhos.

Mas quando se mostrasse mais audaz,
Talvez ainda houvesse alguma chance,
Distante do que ainda em vida alcance
Só quero é que ao morrer encontre a paz.

Vivi lutando muito pela dita
E bela liberdade de expressão,
Porém do que eu queria, tudo em vão,
Apenas percebendo esta desdita

Puindo com terror minha bandeira,
Matizes tão diversos, tanta asneira.


53

Matizes tão diversos, tanta asneira
Já não consigo ver sem ter enjôos
Os pássaros dos sonhos, seus revôos
Jogados pelo chão, triste lixeira.

Apaziguando assim o velho peito
Que tanto imaginara ser melhor
O mundo e discursava até de cor
Fazendo com vigor supremo pleito

Ao ver a derrocada do seu sonho,
Bancando algum babaca ou mesmo chato,
A porra do escrever ora arremato
Com estes meus sonetos que componho

Berrando das janelas, meu umbrais
Literatura, amigo? Nunca mais!


54

Literatura, amigo? Nunca mais!
Cansei de ficar dando milho aos pombos
Depois de tantas quedas, cortes, tombos,
Servindo de repastos pra chacais

Tomei vergonha nesta minha fuça,
Melhor ficar jogando carteado,
Aí quando não roubo, sou roubado
Malícia desta forma já se aguça.

Pacato cidadão, envelhecido,
Chegando nos cinqüenta. É bom parar,
Melhor do que ficar exposto ao ar
E ser legado mesmo ao nada, olvido.

Só posso lamentar por existir
Uma arte totalmente sem provir...


55


Uma arte totalmente sem provir
A poesia morre e se desmancha,
Melhor surfar amigo, dê-me a prancha
Assim encontro um bálsamo, elixir

Que possa me manter bem mais ativo,
A bunda na cadeira deu escara,
Verdade mais venal já se escancara,
E nessa confusão não sobrevivo.

Espero que inda surja alguém no meio
Da imensa escuridão que agora vejo,
Sinceramente é todo o meu desejo,
Mas dessa luta, agora estou alheio.

Lunático cantor em fortes brilhos
Farol em negra noite traça trilhos.

56


Farol em negra noite traça trilhos,
E espero que isto surja em algum dia,
Salvado a moribunda poesia,
Cansado destes mesmos estribilhos.

Encerro com um pouco de esperança
A minha desventura no soneto,
Enquanto no vazio me arremeto,
O olhar de algum lunático se lança

E trace desta merda que hoje, esterco
A flor que possa dar razão à vida,
Já não tenho saúde, pois perdida,
Então só de fantasmas eu me cerco

Deixando esta mensagem derradeira:
Uma alma libertária é garimpeira.
ES

26910/11//2/13/14/15

26910

Na pútrida manhã que sinto vir
Não vou deixar a bunda sempre exposta,
Tem gente que em verdade disto gosta,
Mas paga muito caro no porvir.

Cansei de tentar ser um menestrel,
Cantar as minhas mágoas, dores, sonhos,
Agora que percebo quão bisonhos
Os passos que sonegam claro céu,

Mergulho no ostracismo e me garanto
Bem mais tranqüilo; é bom pro coração,
Ainda bem jamais fiz profissão
Da pobre fantasia do meu canto.

Porém diviso ao longe, poucos trilhos
Num mar de incompetência, raros brilhos.

26911

Num mar de incompetência, raros brilhos
Assim já se perfaz a poesia,
Outrora tão sublime e hoje vadia
Enfrenta com certeza os empecilhos.

Mas quando se mostrasse mais audaz,
Talvez ainda houvesse alguma chance,
Distante do que ainda em vida alcance
Só quero é que ao morrer encontre a paz.

Vivi lutando muito pela dita
E bela liberdade de expressão,
Porém do que eu queria, tudo em vão,
Apenas percebendo esta desdita

Puindo com terror minha bandeira,
Matizes tão diversos, tanta asneira.


26912

Matizes tão diversos, tanta asneira
Já não consigo ver sem ter enjôos
Os pássaros dos sonhos, seus revôos
Jogados pelo chão, triste lixeira.

Apaziguando assim o velho peito
Que tanto imaginara ser melhor
O mundo e discursava até de cor
Fazendo com vigor supremo pleito

Ao ver a derrocada do seu sonho,
Bancando algum babaca ou mesmo chato,
A porra do escrever ora arremato
Com estes meus sonetos que componho

Berrando das janelas, meu umbrais
Literatura, amigo? Nunca mais!


26913

Literatura, amigo? Nunca mais!
Cansei de ficar dando milho aos pombos
Depois de tantas quedas, cortes, tombos,
Servindo de repastos pra chacais

Tomei vergonha nesta minha fuça,
Melhor ficar jogando carteado,
Aí quando não roubo, sou roubado
Malícia desta forma já se aguça.

Pacato cidadão, envelhecido,
Chegando nos cinqüenta. É bom parar,
Melhor do que ficar exposto ao ar
E ser legado mesmo ao nada, olvido.

Só posso lamentar por existir
Uma arte totalmente sem provir...


29614


Uma arte totalmente sem provir
A poesia morre e se desmancha,
Melhor surfar amigo, dê-me a prancha
Assim encontro um bálsamo, elixir

Que possa me manter bem mais ativo,
A bunda na cadeira deu escara,
Verdade mais venal já se escancara,
E nessa confusão não sobrevivo.

Espero que inda surja alguém no meio
Da imensa escuridão que agora vejo,
Sinceramente é todo o meu desejo,
Mas dessa luta, agora estou alheio.

Lunático cantor em fortes brilhos
Farol em negra noite traça trilhos.

26915


Farol em negra noite traça trilhos,
E espero que isto surja em algum dia,
Salvado a moribunda poesia,
Cansado destes mesmos estribilhos.

Encerro com um pouco de esperança
A minha desventura no soneto,
Enquanto no vazio me arremeto,
O olhar de algum lunático se lança

E trace desta merda que hoje, esterco
A flor que possa dar razão à vida,
Já não tenho saúde, pois perdida,
Então só de fantasmas eu me cerco

Deixando esta mensagem derradeira:
Uma alma libertária é garimpeira.

26905/06/07/08/09

26905

A podre realidade em que se encerra
Cultura mundial em fim de Império,
Ao ver que sem juízo e nem critério
Poema moribundo já se enterra.

O quadro se aproxima em tempestade,
E aonde encontrarei qualquer abrigo
Se eu mesmo me livrar nunca consigo
De boçalidade que me invade.

Outrora com soberba e tanta gala,
A poesia em festas e saraus,
Subia mais enfática os degraus
Tomando com beleza toda sala,

Agora na privada vejo os versos:
Descaminhos deveras tão diversos.

26906

Descaminhos deveras tão diversos
Levando ao triste fim de uma arte bela
E quando esta verdade se revela,
Culpados pelo mundo estão dispersos.

Aqui ou lá surgia algum panaca
Que sem saber pegar uvas maduras,
Amadurecem verdes e as procuras
Encerra e desta forma o mundo empaca.

Visceralmente contra a idiotice
Metida a sabichona, velha grife
Trazendo à poesia algum esquife
Patifaria é tudo o que se disse.

Bebendo esta impossível fantasia
O encanto no final putrefazia.

26907


O encanto no final putrefazia
Deixando na carcaça a fedentina,
A Musa se transforma em cafetina
E a pobre poesia em putaria.

Jogada pelos cantos do bordel,
Vendida pra qualquer sujeito otário
Com paladar escroto e mesmo vário,
Aluga um pedacinho lá no céu.

Depois vem com a cara de imbecil,
Dizendo babaquices como fosse
Momento especial, sonoro e doce,
Na Academia é tudo o que se viu.

Diploma de escritor, besta recebe
Universalizando a mente plebe.

26908


Universalizando a mente plebe
Depois de ter um auge esplendoroso,
Motivo de piada este jocoso
Caminho que a verdade hoje concebe.

Se sabe ou mal conhece uma palavra,
Na enxada feita em tinta ou no teclado,
Um imbecil urbano um aloprado,
Na roça sem saber de nada, lavra.

Colheita? Com certeza é maravilha,
Pensando numa pérola marinha,
São poucas Coralinas gente minha,
O resto por buracos toscos trilha.

E a leda poesia neste cais
Dos píncaros às fossas abissais.


26909


Dos píncaros às fossas abissais
História do que fora outrora belo,
Sem ter sequer palhoça quer castelo
As trovas entre trevas? É demais...

Meu cérebro não é assim miúdo
Se eu falo não defendo alguma métrica,
Porém a coisa andando assim tão tétrica,
O que falta deveras: conteúdo...

Juntando tudo nesta mesma cesta,
A fedentina é sempre de amargar,
Por isso, meu amigo vou parar,
Não vou ficar aqui bancando o besta

Não bebo desta bosta de elixir
Na pútrida manhã que sinto vir.

26900/01/02/03/04

26900


Nas vastas redes livres da internet.
Qualquer bobagem ganha outro sentido,
Defesa do imbecil é “ter sentido”
Aquilo que rabisca e que comete.

Jargões tão costumeiros. Preconceito?
Não posso me furtar aos comentários
Se vejo tão somente estes corsários
Achando que o tesouro é seu direito.

Bancando algum santinho, vez em quando
Eu elogio até papel imundo,
Mas quando na verdade me aprofundo,
Eu creio fielmente, estou pecando.

Agora o que se fez deveras pobre
Agonizando aos poucos se descobre.


26901

Agonizando aos poucos se descobre
A face caricata do farsante,
Por mais que venda como um diamante
A poesia é feita em merda ou cobre.

Chacota de quem sabe ou mesmo entende,
A sórdida figura se apresenta,
E tendo em suas mãos tosca pimenta
Qual fora um raro doce logo vende.

Bebendo esta cachaça de terceira,
Uísque paraguaio, com certeza,
Assim ao se mostrar em tal grandeza
Disseminando sempre uma besteira.

Última vez que tento enfim dizer
O que jamais conseguem entender.

26902


O que jamais conseguem entender
Não vou ficar aqui me repetindo,
Por mais que o saco seja sempre infindo,
Deveras começando ora a se encher.

Falando em causa própria? Nada disso.
Não sou poeta e nunca hoje seria,
É como entrar deveras numa fria,
Uma coisa que sei e não cobiço.

Nem vou bancar o crítico tampouco,
Somente sou leitor e o que me dói
É ver que cada traça mais corrói
O que já percebi ser muito pouco

A dita poesia se envenena
Causando a quem se deu; imensa pena


26903

Causando a quem se deu; imensa pena
A Poesia, uma arte milenar
Percebe o seu castelo se acabar
Enquanto uma ignorância vem e acena.

Um bico na canela é o que merece
Quem tem cara de pau para escrever
Em nome desta deusa que ao morrer
Ao Zeus fez derradeira e triste prece.

Do Olimpo mergulhou num ledo inferno,
Capeta sacudindo a sua ossada,
Da bela já não sobra quase nada,
Entrando num eterno e duro inverno

História no final já se complete:
Aonde um energúmeno se mete.

26904

Aonde um energúmeno se mete
Não pode nascer coisa diferente,
Não tendo mais quem isso, amigo agüente
Não enfrento fuzil com canivete.

A porta escancarada qual boceta
Da pobre da Pandora no Passado,
Nem mesmo uma esperança dita o Fado,
Quebrando com “ternura” uma caneta.

Parece que um mamute anda escrevendo
São tantas heresias que ora leio,
O saco na verdade estando cheio,
Não acrescento mais sequer adendo.

E assim do abismo ao ver distante a serra
A podre realidade em que se encerra.

26895/96/97/98/99

26895


Apedrejada; vejo a poesia
Qual fora uma vadia pelas ruas,
E quando em desvario tu flutuas
Provocas com palavras heresia.

Na fúnebre paisagem que ora vejo,
Um fato me chamou toda a atenção
Qualquer ser se venal ou brincalhão
Matando com vontade o seu desejo,

Entrando num grupelho de outros tantos
Iguais formando até academias
E nelas tais tolices que ora urdias
Derramam nos boçais “doces encantos”.

Enquanto do vazio ele se embebe
A morte do poema se percebe.

26896

A morte do poema se percebe
Enquanto tão vorazes rapineiras
Estendem suas garras mais certeiras
E invadem destruindo qualquer sebe.

Outrora havia ao menos o pudor
De crer que nada vale sem talento,
Agora a qualquer verso me atormento,
E vejo repetido este estupor.

Estupram uma Musa em virulência
E matam a suprema inspiração,
Depois se não houver mais floração,
Só restará então a flatulência.

Enquanto uma editora venda e cobre
Matando o que já fora uma arte nobre

26897

Matando o que já fora uma arte nobre
Canalha se disfarça em gente boa,
E quando a poesia em vão arpoa
Destroça só pra ver se inda descobre

As tramas pelas quais ele se enreda,
E mesmo quando expondo sua tripa,
A corja não sossega e tudo estripa
Fumaça se demais, o olhar já veda.

Cadenciando a vida desse jeito,
Pensara ser possível um convívio
Morrer vai prometendo algum alívio
Melhor do que lutar, inútil pleito,

Não vou ficar aqui para entender
Tentando com seus vômitos dizer.

26898


Tentando com seus vômitos dizer
Alguma coisa mesmo inteligível,
A letra com certeza intraduzível,
Em tanto descaminho se perder...

Jogando esta palavra sempre ao vento,
Alguém escuta e pensa ser bacana
A cara do babaca que te engana
Explode num total contentamento.

Camões ressuscitando nestes dias,
Jamais faria aqui qualquer sucesso,
Segredo para ter algum progresso
É descrever sem fé mil porcarias.

Invés da lua bela, rara e plena
Fatídica expressão tomando a cena.


26899


Fatídica expressão tomando a cena
Não deixa qualquer sombra da verdade,
Enquanto o dia a dia nos degrade,
Rasgando este papel, a bruta pena.

Vivemos num momento mesmo incrível
Tecnologia dita o dia a dia,
E assim também destroça a poesia
Gerando cada monstro mais terrível.

Comprou computador, além do Orkut
Fuçando noutros sites o imbecil,
Depressa sem demora logo viu
Local onde o medíocre já se embute

E o débil a poeta então se mete
Nas vastas redes livres da internet.

26890/91/92/93/94

26890

A morte se percebe, devagar
Uma arte moribunda e mesmo chata,
Qualquer palhaço agora se arrebata
E tenta a poesia violentar.

Escuto a mesma velha ladainha:
É tudo permitido, sim senhor.
Então, meu companheiro, faz favor
E vê se noutra cova já se aninha.

Num beco sem saída, é fim de papo,
Não tendo palacete nem castelo,
Qualquer mancebo torto fica belo,
Palácio sendo feito de sopapo.

E a pobre poesia se escondeu
Morrendo neste imenso e tosco breu.

26891

Morrendo neste imenso e tosco breu
A verve com vergonha veste luto
Sujeito sem juízo ou mesmo astuto,
Vendendo o que deveras já comeu.

Assim num ciclo parco, o mundo segue,
Regando o seu jardim com água suja,
Desenha com “talento” a garatuja
Gravando algum disquinho, voz de jegue.

Cansado de jogar jóia a suíno,
Eu tiro o time inteiro deste campo,
E noutra freguesia então me acampo,
Se for preciso calo e me domino.

Só não vou suportar a convivência
De quem não tem noção e competência.

26892


De quem não tem noção e competência
Porém com uma cara assim de pau,
O verso se fazendo tão banal,
Não merece sequer nem mais clemência.

A porta da esperança está trancada
A chave? Capetão já escondeu
Se até o Belzebu não era ateu
Melhor caminho, amigo, a debandada.

Quem fala desta bosta e ainda goza
Prazer de se dizer um menestrel,
A conta pra ser paga é lá no Céu
Mentira com soberba é perigosa.

Enquanto uma cultura já se enterra
Mediocridade grassa sobre a Terra.


26893


Mediocridade grassa sobre a Terra
Jamais eu poderia imaginar,
Quem tanto se perdeu com o luar
Beber do besteirol que a vida encerra.

Eu sinto pelos bardos, podres seres,
Que antanho imaginaram belos dias,
E agora em funerais, as poesias
Perderam seus encantos e poderes.

Jogada pelos cantos, sem descanso,
O rumo da infeliz, uma sarjeta,
E sei que talvez haja algum comenta,
Porém, eis a verdade: não alcanço.

Pululam tantos vermes, mas diversos,
Espúrias criaturas dizem versos

26894


Espúrias criaturas dizem versos
Qualquer analfabeto sem talento
Soltando alguma merda pelo vento
Tentando poluir os universos.

Mesquinharia pura ou arrogância,
No fundo sem saber o que inda dizem,
Nas ondas e nos grupos já deslizem
Causando pra quem sabe uma forte ânsia.

O vômito bem sei já não demora,
Comida requentada não faz bem,
Se ainda algum tempero ela contém,
Uma alma tão sedenta inda devora

Pior do que uma Bíblica Maria.
Apedrejada; vejo a poesia.

26885/86/87/88/89

26885


Realidade é tosca, torpe e vã,
Mas quando a fantasia se empobrece
Nem mesmo que se faça alguma prece,
Imagem que se forma, então, malsã.

Cadáver do que fora poesia
Esboça-se nos sites, nas conversas,
E quando mais estúpido tu versas
Maior o teu sucesso, uma alegria.

Eu tenho mesmo é pena dos antigos
Que tanto em vão lutaram por beleza,
Após o cataclismo uma incerteza
Aos sonhadores restam desabrigos

E a pobre poesia sem alento
Jogada sem destino em raro vento.


26886


Jogada sem destino em raro vento
Nem brisa movimenta este marasmo,
Não falo com temor nem com sarcasmo,
Apenas libertando o pensamento.

Às traças versos morrem exauridos
Cansados de lutar contra a maré,
No cérebro de muitos o chulé
Qual fosse bons franceses bem urdidos

Bastando saber mal e porcamente
Ler e juntar palavras em anelos
Mesmo que díspares e nunca belos
Poesia nasceu “naturalmente”

Tirando da beleza suas mantas
Estúpido fantasma tu levantas.


26887

Estúpido fantasma tu levantas
Em nome de ser livre, o passarinho,
Cantando igual pardal, segue sozinho
Ou mesmo não seduzes; só me espantas.

Bacana a liberdade do escrever,
Julgar com parcimônia este momento,
Às vezes entender eu juto, tento,
Tem hora que é melhor nem saber ler.

Vicissitudes são tão corriqueiras,
Engodos qualquer um, eu sei comete,
Mas quando a mesma asneira se repete
É hora de baixar minhas bandeiras.

Perdoe se não sou tosco e boçal:
Já não suporto a fala sempre igual.


26888



Já não suporto a fala sempre igual.
Por mais que a fantasia diz prazer
Percebo com terror o apodrecer
Gerado pela incúria que é geral.

Sombria realidade me apavora,
Não falo do soneto, nem da trova.
O verso quando livre se comprova
Beleza que também já nos decora.

Eu falo é da total boçalidade
Sem nexo, sem vigor, merdice pura.
Não tendo quem tal joça ainda atura
Depois elogiar! Isso é maldade...

“Percebo com terror o apodrecer
Por mais que a fantasia diz prazer.”


26889

Por mais que a fantasia diz prazer
Não vale quando uma alma se apequena,
A falta de talento que envenena
Permite tão somente o nada ser.

E vem depois alguém falar de versos?
Defunto que fedendo não merece,
Sequer pra quem restou alguma prece,
Se em merda tão somente vão imersos.

Lavando com terrível creolina
A mente de um menino, de um petiz,
Depois que bela cena se prediz,
“Quem sabe faz, se não: somente ensina”;

E nesta procissão já tumular
A morte se percebe, devagar.

26680/81/82/83/84

26680

Não creio necessário ter cadência,
Porém algum talento: imprescindível
Mantendo pelo menos qualquer nível
Diverso da terrível decadência.

Somando o que não é com o jamais
Assim se faz qualquer vaga besteira,
Depois vou desfraldar uma bandeira
Em defesa dos lobos e chacais.

O resto do que resto já se fez
Mergulha nos grupelhos mais audazes,
E neles percebendo mesmas fazes,
Em fezes se propaga estupidez

A poesia permite em manso afã
Sentir o doce alento da manhã.


26881


Sentir o doce alento da manhã
E crer ser tão sensível que inda possa,
Usando um linguajar que cheira à fossa
Declamar “poesia” é coisa vã.

As editoras gostam dos palhaços,
E vivem nestas tais antologias
Vendendo quaisquer merdas, porcarias
Abrindo ao imbecil enormes braços.

E o tolo endinheirado, vendo as cenas
Empolga-se com tal facilidade,
Querendo com soberba eternidade
Seu bolso com certeza é seu mecenas

Por mais que na vida eu siga atento
Inexistente; eu vejo algum talento.


26882

Inexistente; eu vejo algum talento
Apenas a total hipocrisia
Anunciada em cada livraria,
Para um público estúpido e sedento.

Os erros se acumulam no presente,
Quem faz sucesso é mago ou prostituta,
Indústria da leitura é muito astuta
Sabendo que a beleza estando ausente

Só pensa no dinheiro arrecadado,
No meio desta amarga realidade
Eu sei, repito sempre esta verdade
Sou eu, e não duvido, este culpado

As putas poesias bancam santas
Nos bailes, besteiróis, asnices tantas.

26883

Nos bailes, besteiróis, asnices tantas
Repetem cataclismos do passado,
Ao fogo deveria ser lançado
A turba de terríveis sacripantas.

Macabra realidade ora se expõe
No quadro desairoso da cultura,
Lanterna de Diógenes procura,
Os olhos no vazio; ainda põe.

Brincando de poeta, qualquer ser
Parece um arremedo de palhaço.
E quanto mais buscando, o meu cansaço
Traduz esta verdade em desprazer.

Não falo do escrever tradicional
Tampouco a rima é base para tal.


26884


Tampouco a rima é base para tal,
Apenas qualidade e nada mais,
No meio destes textos infernais,
Ao menos um talvez me traga o sal.

Insossa poesia se agoniza
A culpa é de quem acha que é poeta,
Não sabe sem sequer nem alfa ou beta
E do vazio ou nada nos avisa.

Não quero rimas ricas nem tampouco
Escrevo com a verve de um maestro,
Porém se pouco a pouco assim me adestro,
Não vou ficar aqui berrando louco

Sem ter sequer à vista um amanhã
Realidade é tosca, torpe e vã.

26675/676/677/678/679

26675

As bênçãos de uma Musa vêm pedir
Quem mal conhece as tramas do poema,
Gargalha-se a infeliz ao ter na algema
Do verme que pretende algum porvir.

A liberdade existe e não condeno,
E dela faço o verso que eu quiser,
Mas quando me proponho ao que vier
Já sei que enfrentarei qualquer veneno.

E sendo melancólica esta sanha,
Não deixará sequer que ainda possa
Além da imensa e turva, podre fossa,
Poder se vislumbrar uma montanha

Caminhas entre falsos risos, brilhos
Desconhecendo as armas e os gatilhos.


26676


Desconhecendo as armas e os gatilhos
Percorrem a sombria madrugada,
Nas mãos não cabem sequer enxada
Ainda vão buscar nas letras, brilhos.

Já não escapam desta vilania
Milhões e mais milhões de tolos cantos,
Vestindo os mais puídos, rotos mantos
Preparam em velório, a poesia.

Abortos de uma tal inteligência,
Esboços de figuras tão abjetas,
Se auto denominando então poetas
Não têm da maestria uma ciência

Eu pago muito caro por saber
Arcar com meus enganos de poder.


26677


Arcar com meus enganos de poder
Tentar ainda ver se ela respira
Envolta por falácias, na mentira
A pobre não irá sobreviver.

Facínoras e estúpidos se vestem
E sonham com os bardos que não são,
Propagam a total escuridão
E nelas, pobres seres, sempre investem.

Non sense, liberdade, modernismo...
É tudo uma mentira deslavada,
Em nome desta imagem depravada
Gerando na cultura um cataclismo

A corja se propaga sem parar,
Usando da palavra sem pensar.

26778


Usando da palavra sem pensar
Não vejo poesia em nada disso,
Se às vezes piso em solo movediço,
Pretendo vez em quando flutuar;

Barbárie se espalhando na cultura,
Nefastos caminheiros do vazio.
Secando toda fonte, matam rio,
Assim perto do fim, literatura.

Os erros cometidos tão absurdos,
E ainda vejo esta horda a proferir
Qual fosse uma verdade, um elixir,
Besteiras que nos tornam quase surdos.

Talvez o que ande errado aqui sou eu
Porém a divindade se perdeu.


26779


Porém a divindade se perdeu
Deixando no lugar o primitivo,
Pior é quando vejo em ar altivo
Boçal querer entrar num Ateneu.

O joio destruindo todo o trigo,
Contagiosa eu sei tanta burrice,
O quanto de poesia se desdisse,
Eu tento compreender, mas não consigo.

Ao vento se jogando qualquer merda,
Cobrança com certeza o tempo traz.
Confundem heresia com audaz
E arrancam da pantera toda cerda.

Ainda tenho enfim uma clemência:
Não creio necessário ter cadência.

26670/71/72/73/74

26670


Durante a Idade Média, duras grades
Atando com correntes a verdade,
Negando totalmente a liberdade
Reflete o que deveras já degrades.

O fato de ser livre não permite
Qualquer besteira em nome da beleza,
Se poluída vejo a correnteza,
Ultrapassou há tanto meu limite.

Versar sobre o vazio e a estupidez
Negando ao próprio estilo uma existência
Traduz a mais completa incompetência
E nela a maravilha se desfez.

Aonde houvera brilhos em fulgores
Agora se expressando em novas cores.


26671

Agora se expressando em novas cores
A poesia morta não tem jeito.
A falta de caráter e o despeito
Impede que se nasçam belas flores.

Mentecaptos vestidos de poetas,
Inúteis versos soltos sem sentido.
Condenam-se ao terror do ledo olvido,
Pior é que envenenam suas setas.

Cansado desta imensa babaquice,
Quem sabe faz agora ou dá no pé,
Prefiro me calar seguir na fé,
Não posso conviver com tal tolice


Ainda que eu procure e não perceba
Por mais que a fantasia inda se beba.


26672


Por mais que a fantasia inda se beba
Cansado de um pileque vagabundo,
Procuro inutilmente pelo mundo,
Quem tente adivinhar e até perceba

O quão se fez herética esta história,
Em nome de um provável modernismo,
Criaram no poema um cataclismo
E ainda vêm com ares de vanglória.

Boçalidade em nome, mas de que?
Da fúria desregrada dos boçais?
Não piso neste solo nunca mais.
É tanta idiotice o que se lê.

Quem sabe caminhar, mesmo sozinho,
Vencera sem demora pedra e espinho.

26673

Vencera sem demora pedra e espinho
Quem tenta descobrir toda a verdade,
Enquanto a idiotice já degrade,
Ainda restará, quem sabe um ninho.

Por mais que enfim tentasse paciência,
Ultrapassei deveras meus limites,
Não quero de imbecis torpes palpites
Já não terei deveras mais clemência.

Retiro-me dos grupos onde vejo
Somente os assassinos do poema,
E quando se versando sobre o tema,
Com mãos mais afiadas apedrejo.

A pobre poesia? Nunca mais...
Tornando-se a refém de vãos boçais.


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Tornando-se a refém de vãos boçais
Cultura se tornou quase piada,
Caminha pela rua apedrejada
Mordida por terríveis animais.

Qualquer estúpido promete um verso
E faz desta ignomínia uma verdade,
Já não comento mais nem qualidade
Não quero ser deveras mais perverso.

Fadando-se a morrer de inanição,
Espúrias carpideiras mentirosas,
Espinhos no lugar de belas rosas,
Secando desde sempre a plantação,

Deixando a poesia sem porvir
As bênçãos de uma Musa vêm pedir?

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26665

Ainda mesmo assim eu não teria
Uma esperança. O tempo não retorna,
E quando a realidade se faz morna,
Jamais se percebendo uma ardentia.

O verso se perdeu no nada ser,
Envergonhando a Musa e transformando
Em ar mais furioso o bardo brando,
No túmulo, decerto a revolver.

Espreita de tocaia, uma ignorância
Sagacidade é coisa de panaca,
E quando nesta merda, já se atraca
Lirismo se transforma em arrogância

Matando quem vencendo “liberdades”
Sobreviveu durante tempestades


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Sobreviveu durante tempestades
A velha poesia em força tanta,
Mas quando um tumular vento agiganta
Deveras tu percebas que degrades

A sacrossanta e bela maravilha
Exposta aos mais terríveis vendavais
Servindo de repastos pra chacais,
Já não superaria esta armadilha.

A face em podridão se apresentando,
Desnuda-se o cadáver deste sonho
Reforma salvadora inda proponho,
Mas rapineiras voam, ledo bando

Agora proliferam estupores
Aonde brados, liras, trovadores...


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Aonde brados, liras, trovadores
Cantavam e traziam seu talento,
Perdendo a direção do manso vento,
Agora do vazio, adoradores.

Palavras; expressões que vêm de uma alma
Traduzem realidade e fantasia,
Mas quando o simples nada já se cria
É necessário ter alguma calma.

Boçalidade avança soberana,
A farsa se fazendo mais freqüente,
E enquanto uma cultura já se ausente
Qualquer torpe canalha tenta e engana

Venenos tão sutis ora se beba,
Os quais sem ter ninguém que inda os perceba.

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Os quais sem ter ninguém que inda os perceba
Navios destroçados pela vida,
A podre sensação enaltecida,
É tudo o que deveras se conceba.

Esgarçam-se os sonetos, morrem trovas
Qualquer boçalidade vira verso,
E assim ao percorrer este universo
Da imensa hipocrisia tenho as provas.

A par do quanto inútil prosseguir,
Matando este poeta que existiu
Agora uma alma insólita e sutil
Bebendo solitária, este elixir.

Reluto e tento vivas; na alma fria,
Lembranças do que outrora em agonia.

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Lembranças do que outrora em agonia
E agora falecidos os poemas,
Antigamente vivas as algemas,
Agora por venal melancolia

A farsa se transforma no sucesso,
Medíocres imbecis matam sem dó,
Reduzem o talento ao simples pó
Em nome do que fora algum progresso.

Não posso mais lutar contra a maré,
Desisto e me isolando, sou feliz,
Fazer da poesia a meretriz
Dizendo estar rompendo uma galé

Refazem ao dizerem “liberdades”,
Durante a Idade Média, duras grades.

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Porquanto fosse exótico o caminho
Ainda mesmo assim eu não teria
Lembranças do que outrora em agonia
Vencera sem demora pedra e espinho.

Arcar com meus enganos de poder
Sentir o doce alento da manhã,
Realidade é tosca, torpe e vã
Por mais que a fantasia diz prazer.

Mediocridade grassa sobre a Terra
Matando o que já fora uma arte nobre,
Agonizando aos poucos se descobre
A podre realidade em que se encerra.

Dos píncaros às fossas abissais
Literatura, amigo? Nunca mais!

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Literatura, amigo; nunca mais
Sobreviveu durante tempestades
Durante a Idade Média, duras grades
Tornando-se a refém de vãos boçais.

Usando da palavra sem pensar
Inexistente; eu vejo, algum talento,
Jogada sem destino em raro vento,
A morte se percebe, devagar.

Espúrias criaturas dizem versos
Tentando com seus vômitos dizer
O que jamais conseguem entender
Descaminhos deveras tão diversos

Na pútrida manhã que sinto vir,
Uma arte totalmente sem provir...


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Uma arte totalmente sem provir
Aonde brados, liras, trovadores
Agora se expressando em novas cores,
As bênçãos de uma Musa vêm pedir.

Porém a divindade se perdeu,
Nos bailes, besteiróis, asnices tantas
Estúpido fantasma tu levantas
Morrendo neste imenso e tosco breu.

Apedrejada; vejo a poesia.
Fatídica expressão tomando a cena.
Causando a quem se deu; imensa pena
O encanto no final putrefazia.

Num mar de incompetência, raros brilhos
Farol em negra noite traça trilhos.

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Farol em negra noite traça trilhos,
Os quais sem ter ninguém que inda os perceba,
Por mais que a fantasia inda se beba,
Desconhecendo as armas e os gatilhos.

Não creio necessário ter cadência,
Tampouco a rima é base para tal,
Já não suporto a fala sempre igual
De quem não tem noção e competência.

A morte do poema se percebe
Nas vastas redes livres da internet
Aonde um energúmeno se mete,
Universalizando a mente plebe.

Matizes tão diversos, tanta asneira
Uma alma libertária é garimpeira.


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Uma alma libertária é garimpeira
E traça seu destino com vigor,
Mas vendo a poesia decompor,
Aos poucos, se em juízo, já se esgueira.

A face desdenhosa da mentira
Ardendo nos meus olhos, vil quimera,
Aonde se encontrar a primavera
Se ao abissal caminho enfim se atira.

Verdugos de nós mesmo, imbecis,
Bebendo como fosse mel o esgoto
Percebo o paletó agora roto
E o que fosse banquete se desdiz.

Prazer se renovasse a alegoria?
Ainda mesmo assim eu não teria.

01004

Mil Pedras costumeiras e visagens
Tornando o que seria mais tranqüilo
Em cárcere ferrenho eu já destilo
Palavras traduzindo tais voragens

Não posso suportar tal ignorância
Que assola e que equaliza assim por baixo
Por vezes para ouvir até me abaixo,
Mas sei que no final a discrepância

Tornando-se deveras mais cruel,
Não deixa que o caminho seja manso,
E quando algum pensante ainda alcanço,
Consigo realizar o meu papel,

Pregando no deserto, estou cansado
O mundo em ignorância causa enfado.

01003

Não posso caminhar entre espinheiros
A porta se porá sempre fechada
E dela sonegando alguma estrada
Os versos são apenas mensageiros.

Escuto a voz de quem se fez venal
Em nome desta tal moralidade,
Aonde impera assim boçalidade
O que fazer senão, mudar degrau?

Eu tento vez em quando um libertário
Canto, mas a podre burguesia
Vestindo de sarcasmo e de ironia,
Impede o canto livre do canário.

Matar a poesia ou cerceá-la
É como estupro feito à faca e bala...

01002

Cansado de atirar pérolas a quem
Jamais conseguiria perceber
Beleza que talvez fosse saber,
Mas vive da verdade muito aquém

O verso quando feito em perfeição
Trazendo este banquete para a mesa,
Mas quando em vilania ou em torpeza
Espelha uma arrogante condição.

Cansado de tentar mudar o rumo
Minha mediocridade, agora assumo
E deixo aos novos bardos do vazio

Conselho, se quiserem me escutar,
Qualquer bobagem feita pra agradar
Transformará um lodo em belo estio.

sábado, 13 de março de 2010

01001

E sigo cada passo, cada rastro.
Daquele que me fez enamorada,
Depois de tanto tempo resta o nada,
E o sonho mais audaz, aos poucos castro.

Vivesse pelo menos a alegria
De um tempo tão feliz, mera ilusão
Ao ver-me neste espelho: solidão
No descaminho imenso em que se urdia

A estrada feita em pedra e temporal,
Ainda que pudesse imaginar
O brilho suave e manso de um luar,
O dia se repete sempre igual.

A morte talvez seja o melhor jeito
De poder descansar em calmo leito...

01000

Completa-se este ciclo em minha vida,
Audácia se transforma em solidão,
E quando renovar esta estação
Não deixe a caminhada em vão, perdida.

O custo que se paga, o de uma ermida
Causando muitas vezes confusão
Ditando com ternura e compaixão,
Por mais distante luz, ainda agrida.

Resquícios de um passado se perdendo,
O mundo noutra senda se envolvendo
A poesia é morta, disso eu sei.

Aquém dos descaminhos de hoje em dia,
Quem tanto necessita da utopia
Não deveria andar na mesma grei.

00999

Mulher que tanto teve e não sabia
Das duras armadilhas que encontrara
Durante a sua vida tão amara
Distando sempre e tanto da alegria,

Vestindo a solidão jamais podia
Saber da solução que ora se aclara
Nos olhos de quem tanto quis e ampara
O passo que ao futuro ela daria.

Eu teimo contra tantas ilusões,
E vivo tão somente o que me expões
Num ato de insolência e nada mais.

Apago os rastros todos e as pegadas,
As horas noutras luzes desvendadas
Matando os meus desejos mais venais...