sábado, 25 de junho de 2011

Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!

Augusto dos Anjos

Apenas a palavra, vaga sombra,
Resistindo ao demônio que nos leva
Além do quanto surja em plena treva,
E neste desenhar, nada me alfombra.
O quanto na verdade dita e assombra
A lúdica impressão de doce ceva
No fundo traz a angústia tão longeva
O solo apodrecido, nossa alfombra.
E sem sequer qualquer discernimento
Ser decomposto e informe, nome ao vento,
Há tanto transformado em verme e inseto,
Do quanto fui e sou; nada mais resta,
Somente esta palavra mera fresta,
Metamorfoseado: analfabeto.
Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

Augusto dos Anjos


Enquanto esta iguaria majestosa
Em farsa irracional se desvendando,
Imagem de um planeta degradando
Espinho dilacera qualquer rosa.
A fúria em tal partilha caprichosa,
O mundo noutro tom mordaz e infando,
Cratera pouco a pouco se formando
Nesta alma sem pudor, rude e lodosa.
A queda deste império a cada dia
Expressa na verdade movediça
E o quanto em tal poder tudo cobiça
O micromundo então devoraria,
Desvendando-se então a eternidade
Supernidade então já se degrade...
A incógnita alma, avoenga e elementar
Dos teus antepassados vemiformes.

Augusto dos Anjos

Desfilas tua empáfia pelas ruas
Não volves nem sequer o tosco olhar,
Na majestosa forma a desfilar
Imagens deformadas, rudes, nuas.
Na pútrida vereda quando afluas
E na superna forma a se moldar,
O templo que decerto a se arruinar
Demonstrará tais cernes, carnes cruas,
E ao fim retornarás- disforme diva-
Do solo esta asquerosa alma cativa
Nem vestígios vermiformes, nem o caos,
E quando tão soberba foste em vida
Em rudes elementos, construída,
Expressarás teus últimos degraus.
Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!

Augusto dos Anjos


Esgoto em pleno incenso, a farsa trama,
A velha sensação do natimorto
Anseio que pudera ser o porto,
Ou mesmo o quanto a vida em vão reclama,
E decompondo cada senso em drama
Diverso do que eu possa. O desconforto
Produz noutra faceta o mesmo aborto
Enquanto a sordidez avança e clama.
Inexistência traça o dia a dia
Do que pensara além e mal sabia
Dos ratos invadindo cada canto,
E tudo o quanto resta em vil carniça
Expressa a realidade movediça
E cubro o seu cadáver com tal manto.
Caminhando assim, ao léu
Sem paragem nem destino
Onde quer e me domino
Vejo imenso e raro céu,
A esperança traz o véu
E recobre o que fascino
Bebo o sonho cristalino
Explodindo em gozo e mel,
Nada mais pudesse ter
Se não fosse o bem querer
Que transforma o dia a dia,
Noutro instante mergulhando
Num momento bem mais brando
Quando a sorte em mim queria.
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!

Augusto dos Anjos


Morrendo a cada dia na esperança
Da vida após a vida noutro plano,
Somente em torpe passo, ora me engano,
E ao fim sem perceber, o dia avança.
Do nada ao nada volto sem lembrança
Germinando em bactérias, no metano,
A fátua natureza, o soberano,
Expressa na carniça o quanto alcança.
Um brinde aos meus engodos, meus reinados,
Os ventos não desviam velhos fados
E quando enfim naufrago, se percebe,
A rústica matéria destroçada
E a carne pela vida devorada
O “rei”, nobre iguaria para a plebe.
E o Lázaro caminha em seu destino
Para um fim que ele mesmo desconhece!

Augusto dos Anjos

Caminho para hostil e ledo espaço
Ausente do que possa em esperança
E quanto mais além o passo avança,
A vida se desfaz, corte e cansaço.
No sórdido cenário que ora traço,
Engodos são fiéis desta balança
Enquanto eu me disfarço com pujança,
Sou pútrida expressão de um corpo lasso.
O fim se aproximando, será mesmo?
E quando solitário, eu ensimesmo,
Apreensões divagando sobre o nada,
E desconheço o fim da torpe escada
Que leve ao infinito ou mero grão,
Só tenho uma certeza: a podridão.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O vento que tão manso me tocava
Tramando muitas vezes doces brisas
Em tantas tempestades, não me avisas
Derramas teu olhar, intensa lava,
A sorte se desenha e anunciava
Enquanto com certeza ora divisas
Com todas as mortalhas que, imprecisas
Traduzem o que a vida nos moldava.
Vestindo esta verdade em ironia,
A luta começava e se faria
Diversa da que tanto desejasse
Assim num tão diverso delirar
O todo se perdera devagar,
Ainda que na noite, o desenlace...

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Meu amigo, como é bom,
O saber que vens agora,
Quando a fúria desancora
Meu saveiro noutro tom,
A verdade, raro dom,
Que em teu peito sempre aflora
Gera o tempo que decora
Fantasia em alto som,
Nada ou tanto que se faça
Esvaindo na trapaça
De uma sórdida lembrança,
Mas ao ter uma amizade,
Que se mostra em claridade,
Nossa vida em paz, avança.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Amor em pura essência, na verdade
Traduz o quanto quero ou poderia
Vagando sem sentido em noite fria
Apenas a lembrança em vão me invade,
Vivendo pelos ermos da saudade
A sorte com certeza moldaria
O todo que pudera e em alegria
Vislumbro no teu corpo a liberdade,
De um tempo mais assíduo e sonhador
Ao quanto se tentara em teu louvor
Ousando acreditar por mais um tempo,
Na vida sem saber do imenso tédio
Vestindo o que tentara em vão remédio
Sem medo do cenário ou contratempo.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Num momento mais sublime
Qualquer sorte poderia
Tentações em agonia
Ou momento onde se estime
O que possa além do crime
Noutro tom, mera utopia
Gerações onde teria
O que nada mais oprime,
Versejando sobre o tanto
Quanto pude imaginar
Sem saber o que garanto
Nem tentando algum lugar
Onde esconda o velho pranto,
Que não canso de enxugar.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

domingo, 19 de junho de 2011

Refazendo o que compus
Entre trevas e temores
Onde queres tantas cores
Vejo apenas frágil luz,
O que outrora me conduz
Ao caminho e se tu fores
Cada passo reproduz
O que em sonho desejara
Nesta noite bem mais clara,
Plenilúnio da esperança.
Mas pressinto o fim do jogo
Quando apenas este fogo
Numa treva mal se lança.