34201
Jamais vou reviver a nossa história
Perdida pelos ermos da lembrança
O quanto deste vento ainda alcança
Recende simplesmente à vã e inglória
Estada pela qual, escombro e escória
Jogados pelos chãos, turva aliança
Aonde no passado fora dança
Desarmonia resta do passado,
Vencidos pelo tempo e por cansaço
Do quanto ainda teimo e já repasso
Os olhos sobre tudo e nada vem,
Do quanto imaginara simplesmente
Não resta nem sinal e o quanto ausente
Traduz esta vontade de ninguém.
34202
Fechei a tua casa, tranquei porta,
As chaves esquecidas nalgum canto
O preço do viver, o desencanto
Aonde tão distante barco aporta,
O quanto deste vão inda comporta
Apenas um tormento e dele o pranto
Regando o dia a dia, ao fim me espanto
O vento que alivia também corta.
Saudades? Finjo mesmo que não vêm
Vivendo simplesmente muito aquém
De toda esta verdade que se ausenta,
E sei quanto feroz o sentimento
E agora sem saber de algum provento
Aos poucos se esvaindo em vã tormenta.
34203
Carpi teu corpo, morto na lembrança,
Velórios do que fora algum segundo
E nesta cerimônia eu me aprofundo
Nos ermos mais atrozes da mudança
Que sei ser necessária e quando avança
A vida transformando noutro mundo
Aquilo que pensara mais fecundo
Aos poucos sem valia nem pujança.
Restando muito menos que eu pensara
Sombria e tênue luz aonde a clara
Manhã já desbotada anunciava
Um tempo que entre brumas se perdeu,
E agora tão somente o quanto é meu
Traduz realidade em farpa e trava;
34204
Não sei mais o teu nome, nem teu rosto,
Apenas um retrato abandonado
Nos ermos da lembrança, num passado
Já tanto pela vida, decomposto.
O quanto fora audaz noutro proposto
Agora resta ledo e lado a lado
Com todos os demônios, já cansado,
A faca penetrando o corpo exposto.
As cartas sobre a mesa, a vida passa
Do intenso fogaréu sequer fumaça
E o vento leva além o que inda resta,
Assim ao se fazer com verso aquilo
Que aos poucos dia a dia em vão destilo,
A fúnebre paisagem toma a festa.
34205
As velhas, costumeiras, vãs, intrigas
Auroras que esquecera em face escusa,
A vida quando toma a cena e abusa
Não deixa nem sequer que inda prossigas,
Palavras entre tantas vis e antigas
Acossa-me a verdade quando obtusa
A construção demonstra quão confusa
A base feita sobre vagas vigas.
Restando a quem pudesse acreditar
Apenas um segundo e sem lugar
Algum aonde ainda tenha em mãos
Momentos mais felizes ou possíveis,
Os dias entre tantos implausíveis
Transformam os mais críveis noutros nãos.
34206
Na porta da senzala que me deste
Qual fora a torpe herança deste tanto
Esvaído na senda do quebranto
Puindo o que seria ainda veste,
O tempo se mostrando mais agreste
E assim ainda aquém por vezes canto
E busco aonde houvesse sem espanto
Cenário pelo qual antes vieste
A fonte se esvaíra com o tempo,
E o quanto fora imenso passatempo
Agora em contratempos se pintava,
Uma alma libertária; eu não consigo
E entregue sem defesas ao perigo
Tornando-se deveras vã e escrava.
34207
Pois são mais convulsivas, violentas
As noites entre sombras e saudades
E quando pouco a pouco ainda invades
Os dias com terrores me sustentas
Adentro noites pálidas e inventas
Caminhos entre pedras e inverdades
Vencendo as minhas várias tempestades
Singrando noites vagas que incrementas
Com fúria incontestável, sim limites
Porquanto neste intento inda acredites
Matando o que restara em paz ou luz,
A vida se perdendo e desta forma
O quanto inda restando me transforma
E ao próprio temporal eu faço jus.
34207
Por ter a minha face lacerada
Nas ânsias e nos medos tão freqüentes
No quanto do vazio me apresentes
Restando simplesmente o mesmo nada,
A fonte que julgara iluminada
A força sem medidas, penitentes
Caminhos entre mortos e indigentes
Traçando o dia a dia desta estrada,
Resoluta batalha em que me perco
As ânsias pouco a pouco fecham cerco
Não deixam nem sequer escapatória,
Perdido entre as diversas ilusões
Nas tramas das fatais ingratidões
A noite será sempre tão inglória.
34208
Jamais se aplacaria um ódio insano
Durante tanto tempo nos meus dias,
E quando se percebem heresias
O dia cumulando perda e dano,
O quanto do desejo desengano
E morro entre temores, agonias
Ainda quando em mim luzes dizias
Num ato que pudesse soberano.
Ressalvas entre falhas momentâneas
Das dores cumuladas, coletâneas
Resisto o quanto eu posso e ainda creio
Na falsa sensação de um novo mundo,
E quando de ilusões inda me inundo
O olhar seguindo ao longe, morto e alheio.
34209
Buscando entre os escombros do que tanto
Ainda poderia ser em mim
O farto amanhecer, mas chega ao fim
Deixando cada marca em dor e pranto,
Meu verso se mostrara noutro encanto
E o peso do viver tramando assim
A fúria desdenhosa e o ausente sim
Cevando minha morte sem espanto,
Cansado de lutar noites afora
Apenas solidão inda demora
Enquanto me devora o medo e tento
Vencer com calmaria os furacões,
Porém os dias bebem solidões
Por mais que o meu olhar esteja atento.
34210
A vida se aborrece a cada instante
Na ausência do que possa traduzir
A luz ora distante do porvir
Por mais que novo dia se adiante,
A face da ilusão tola farsante
Deixando-se deveras de servir
A quem mais pretendera dividir
Do que esta soma inútil e inconstante.
Acrescentado ao nada que deveras
Ainda poderia em meio às feras
Espreito a minha morte e me aproximo,
Do vale em abissais que ora freqüento
Quem dera pelo menos um momento
Aonde vislumbrasse além o cimo...
34211
Estriduloso anseio domando a alma
Intrépido e terrível gládio em mim
Do quanto mais soubera insano fim,
Nem mesmo a negação do ser me acalma,
A morte semeando palma a palma
O vento se moldando e sinto enfim
O mundo em sideral anseio e vim
Rever o que pudesse ainda em calma
Traçar outro momento após o nada
E tendo a voz deveras já cansada
Dos brados incessantes e tenazes
Encontro após as vagas tal abismo
E quando nos beirais ainda cismo,
Um último tormento tu me trazes.
34212
O quanto poderia ser solene
Momento entre as diversas heresias
E nele com ternura me trarias
A sorte que jamais tome e envenene
Porquanto nem o sonho me serene
Nem mesmo a morte insana onde tu guias
Geradas pelas vãs desarmonias
Num ato inconseqüente, mas perene,
Assumo os meus enganos e isto basta,
A face da verdade já tão gasta
Não sobrepõe-se à fúria que pudera
Ainda apascentar o que procuro,
Olhando de soslaio em céu escuro
Atocaiada e dura, tensa fera.
34213
Reacendendo as luzes tropicais
Verões entre momentos, sóis e luas,
E quando sobre as praias tu flutuas
Caminho entre os diversos temporais,
Os dias que sonhara magistrais
E neles belas divas seminuas
Aprofundados cortes, continuas
Roubando dos meus olhos tais cristais,
E sei o quanto custa ao sonhador
Um dia insustentável de calor
Na ausência de qualquer abraço ou riso,
O passo rumo ao nada se perfaz
E deixa no passado qualquer paz
Nas brumas deste inverno em mim, matizo.
34214
Colunas entre tantas não sustentam
Quem tenta novo templo em luz suave,
Porquanto cada dia mais agrave
As lutas que deveras violentam
Os sonhos e jamais podem, apascentam,
Vencer esta loucura, imensa e grave,
E quando a cada passo um novo entrave
Os dias entre sonhos atormentam,
Negando a redenção de quem fizera
Do sonho um madrigal em primavera
Nevascas costumeiras desabando,
E o todo se transforma em quase nada,
A morte há tanto tempo anunciada
Trazendo este momento atroz, nefando...
34215
Conquistas entre tantas que eu sonhara
Depois dos anos duros solitários,
Os passos em caminhos bem mais vários
E a noite não seria nunca clara,
O medo de viver já se declara
E os sonhos são deveras temerários,
Erráticos astrais, itinerários
Diversos do que a vida ainda ampara,
Riscando os mesmos céus aonde um dia
A estrela mais perfeita não mais guia
Deixando para trás a paz e o senso,
Resido no que fora uma esperança
E a voz deste vazio agora alcança
Diversa de um caminho mais intenso.
34216
Pudesse em amplidões seguir o rumo
Das constelares luzes, mas ausente
Do quanto ainda uma alma quer e sente
Eu perco a direção e não me aprumo,
Os ermos de minha alma cedo assumo
E sinto o que deveras se apresente
Matando qualquer sonho imprevidente
E esvaio simplesmente, logo esfumo,
Resisto o quanto eu posso, mas sei bem
Quando do vazio me convém
E o corte se aproxima da medula,
A fonte se esgotara e sem a paz
Meu mundo não seria mais capaz
Teimando até que a morte enfim me engula.
34217
Seguira sem destino em pleno espaço
Vagando por estrelas, mares sonhos,
E sei os dias turvos e enfadonhos
Vencido tão somente por cansaço,
Ainda procurando algum abraço
Em ritos mais tranqüilos ou risonhos,
Porém meus dias morrem mais tristonhos
E apenas o vazio ao longe eu traço,
Resquícios de uma vida nada são
Senão a mesma angústia em tom cruel,
Do quanto poderia alçar em céu
O dia se mostrando sempre vão,
E a morte se aproxima calmamente
E a cada nova ausência se apresente...
34218
Pudesse pelo menos te seguir
Em meio aos mais diversos lumes, quando
A face da verdade se mostrando
Negando da esperança este elixir,
Cansado de somente prosseguir
Sem rumo, sem destino, desabando
O mundo em minhas costas demonstrando
O quanto do vazio a pressentir
A ausência do que fora algum instante
Momento mais sublime e fascinante
E agora nada traz senão a morte,
Sem ter qualquer alento sigo assim,
Ao quanto poderia ter no fim,
Afeto desconheço o que conforte.
34219
Andando entre as estrelas, embuçado
Sonhando com momentos mais felizes
O quanto dos meus sonhos não desdizes
Estando vez em quando lado a lado,
O tempo noutro tempo emoldurado
As noites ditam velhas cicatrizes
E embora costumeiras, tolas crises,
O mundo permanece desenhado
Com cores mais suaves, sem o gris
E assim ao me sentir tendo o que eu quis
Eu posso acreditar noutro conforto
Aonde a sorte seja mais humana,
Mas quando a noite trama e desengana
Amanhecendo só, calado e morto.
34220
Um dia simplesmente divinal
Marcado pelas cores da alegria,
Gerando noutra face a fantasia
Que tanto procura, sem igual,
O mundo se mostrando em ritual
Diverso do passado ema agonia
A cada novo tempo percebia
A vida com constância magistral,
Risonho caminhar por entre trevas,
Enquanto ao paraíso tu me levas
Em sonhos simplesmente, sou feliz,
Mas quando amanhecendo em solidão
Percebo quanto sonho fora em vão,
O amor que eu tanto quero não se quis.
34221
Dos sonhos que acumulo eis este arcano
Felicidade apenas, nada mais
Em dias temerosos, desiguais
A vida acumulando dor e dano,
Pudesse quando muito, mas me engano
E sei que entre momentos magistrais
Vivesse pelo menos entre os quais
Diversos do que tento e onde me dano,
Eu sei quão dolorido o dia sem ninguém
E quando a noite chega e nada vem
Nem mesmo alguma luz em céu brumoso,
O tempo traduzindo a realidade,
Apenas a saudade toca e invade,
Gerando um ar atroz, tempestuoso.
34222
Pudesse em ar sereno às vezes nobre
Seguir o passo ao rumo onde pudesse
Viver esta alegria em tal benesse
Aonde toda a glória se recobre,
O mundo noutro instante me descobre
E traz a tempestade que se tece
Na fúria onde o vazio se obedece
E o vento noutro tanto já desdobre
O rumo mais suave e mais tranqüilo,
Por entre temporais vários desfilo
E bebo cada gota do veneno
Urdido nos teus olhos desde agora,
E assim a tempestade já se aflora
E nem um passo a mais eu concateno.
34223
O mundo quando em mundos se reparte
Deixando qualquer sombra, algum sinal
Que ainda se pudesse em tal degrau
Erguer o quanto sonhe plenamente,
Mas sei quando a verdade nega e mente,
O rito muitas vezes triunfal,
A sorte desdenhosa e desigual,
Negando da esperança uma semente,
Sorvendo cada gota do que um dia
Pensara tão somente em alegria
E agora se pressente em fim e rogo,
Há tanto nesta frágua em ilusões
Os cantos entre perdas e emoções
Não vivem sem a chama, imenso fogo.
34224
A voz de um tempo aonde eu quis sentir
A sorte noutro encanto, mas não vinha
E o quanto se pensara ainda minha
A noite que hoje sei sem ter porvir,
Pudesse cada dia repartir
E nele perceber o quanto tinha
Da luz que na verdade eu sei daninha
E mata quem pudesse persistir
Nas sendas desta imensa sensação
Ouvindo por resposta o mesmo não
E dele se fazendo um dependente,
Perceba a voz do vento nos traçando
Um tempo onde se pense ser mais brando,
Porém em tempestade se apresente.
34225
Levando a minha vida sem saber
Do quando ou como posso acreditar
Num dia mavioso de luar
Sem nada nem saudade a se tecer,
Resisto o quanto posso e tento ser
Além do quando ou mesmo devagar
Vencendo as tempestades, navegar
Na busca inconseqüente por prazer,
O verso se perdendo em tons sombrios,
Os olhos que buscara, agora frios
Não beijam horizontes, perdem sol,
E o fato de sonhar não alivia
Quem tanto sorve cada fantasia
Morrendo a cada instante sem farol.
34226
Erguendo o meu olhar procuro a fonte
Que possa saciar o dia a dia,
E quando novamente não se via
Sequer o menor brilho no horizonte
Ainda que deveras desaponte
Eu creio no que possa a melodia
Trazendo no meu passo esta harmonia
E nela com certeza a bela ponte
Ligando o que passara ao meu futuro,
Realça sem defesa o que procuro
Tornando a poesia mais possível,
Mas sei que não passando de mentiras
Enquanto noutro mundo tu me atiras,
O vento mostra apenas o implausível.
34227
Resumo de outras vidas nesta quando
O todo se percebe em frenesi,
O mundo que sonhara e já perdi
No quanto poderia, disfarçando
O passo noutro rumo se tomando
E o medo traduzindo o que há em ti,
Vivera esta ilusão e pressenti
O dia novamente se nublando,
Resisto o quando posso, mas percebo
Que quanto mais ainda dele bebo
Maior esta distância que separa,
A vida onde eu tivera a realidade
Da doce maravilha, eternidade
Jóia profusa e bela, porém rara.
34228
Não deixe que se cale a voz de quem
Sonhando com momentos mais felizes
Diversos dos que ainda trazes, dizes,
Vagando pela vida sem ninguém,
E quanta poesia já contém
Depois de tantos anos em deslizes,
Vencendo as mais diversas, duras crises
O amor não merecia tal desdém,
Ouvindo a voz do quanto invés do não
O tempo se mostrando em dimensão
Maior e bem melhor que imaginava
A sorte se bendiz a cada instante
Por quanto em cada verso se agigante
Minha alma nesta angústia segue escrava.
34229
Ouvir em sintonia vozes tantas
E nelas discernir maravilhado
O quanto poderia ser traçado
Não fossem as torturas onde espantas
Os sonhos e deveras agigantas
O traço noutro rumo destroçado,
O vento novamente sonegado
A ausência de calor matando as plantas,
A par do quanto pude ou mesmo quis,
O amor não me fizera mais feliz
Tampouco me trouxera alguma paz,
O risco de sonhar não vale à pena
E quando a morte chega e assim me acena
No fundo, com certeza, tanto faz.
34230
Levado pelas ânsias de quem tenta
Vencer com calmaria as mais diversas
E amargas heresias, vãs perversas
Numa alma desvalida e tão sedenta,
A sorte noutro rumo segue atenta
E quando sobre os sonhos teimas, versas
Mudando novamente de conversas
Nem mesmo esta emoção ora alimenta
O quanto pude crer e não sabia
Quem sabe noutra face, novo dia,
Quem sabe noutro enredo, nova senda,
Eu possa acreditar e ter nas mãos
Além dos dias vagos, tolos vãos
Alguém que na verdade em paz me atenda.
34231
Da noite vencida
Eu vejo a manhã
Néscia e malsã
Luz percorrida
Dizendo da vida
Que tanto sei vã
Cevar noutro afã
A terra sortida,
Sentir outra face
E quando se embace
Beber deste sol,
Que mesmo em brumoso
Cenário teimoso
Domina o arrebol.
34232
Beber deste alento
Porquanto pudesse
Ainda em tal messe
Tocar sentimento
E quando sustento
E o sonho obedece
Momento se tece
Além deste vento,
Vencer os meus erros
Vencer meus desterros
Sinceros começos
Depois do que tanto
Gerado em espanto
Criara em tropeços.
34233
Sentido diverso
Da vida em que entranho
Por vezes estranho
Em tantas disperso
Mergulho meu verso
Nas dores de antanho
E quando não ganho
E perco universo
O mundo desaba
O quanto se acaba
Na queda ou no fim,
Sentindo o que vem
Ausência de alguém
Distante de mim...
34234
Diversas platéias
Mesquinhas conversas
As horas reversas
As falsas idéias
Nas vãs assembléias
Por onde dispersas
Palavras imersas
Em sanhas atéias,
Servir quando posso
Calar o que é nosso
Endossa meu erro,
Mas quando me calo,
Meu sonho vassalo
Revela o desterro.
34235
Enquanto prossegue
O dia sem nexo
Olhando perplexo
O nada se segue
Sem quem me sossegue
Vivendo este anexo
Apenas reflexo
Do quanto navegue
Em mar revoltoso
Assim prazeroso
O tempo se faz
E o quanto desejo
Além do que vejo
Renegando a paz.
34236
A sorte altaneira
O medo da morte
O quanto conforte
Palavra se esgueira
E toma a bandeira
Negando algum norte
E assim sem a sorte
A morte me inteira
E risco outro fato
No qual me retrato
Ou mesmo pudera
Saber da sangria
Que nada seria
Não fosse tal fera.
34237
O quanto reparte
O medo redime
E a fonte do crime
Negando este aparte
Ao ver e tomar-te
No passo se exprime
O quando se estime
Ou mesmo descarte
Não posso ou não pude
Saber atitude
Aonde não veja
Senão mesmo olhar
Cansado a mirar
A noite sobeja.
34238
O tempo do sol
A noite não via
Nem mesmo sabia
Quanto no arrebol
Do intenso farol
Gerado no dia
Fatal fantasia
Ausência de atol,
O solo aridez
A vida não crês
O tempo se cale
Da vã cordilheira
A face rasteira
Promessa de vale.
34239
O tempo não pára
Também não sossego
E quando renego
O quanto me ampara
O medo escancara
A face que entrego
E sendo assim cego
Vida nunca é clara,
O tanto pudesse
Ou mesmo se esquece
Nas curvas do rio,
Morrer e tramar
Ausente luar
Acende o pavio.
34240
Ainda no curso
Do tempo que segue
O quanto navegue
Sem ter mais recurso
Do velho discurso
Que tanto se negue
O quando renegue
Tempos em decurso,
O corte ou alento
O quando não tento
E o verso se esvai,
Assim natureza
Enquanto sou presa
Surpresa não trai.
34241
O quanto quis bem
Quem nunca soubera
Viver primavera
Ou nada contém
Resisto e se vem
Ainda tempera
Ou mesmo na espera
No quanto não tem,
Reparo e persigo
O tempo este abrigo
No qual me conduzo,
Ainda se faz
Ausente da paz,
Ou tanto confuso
34242
Pudesse admirar
A noite ou o dia
Quem sabe alegria
Distante luar
Pudesse tocar
Mudando a harmonia
E assim geraria
Um raio solar
Aonde não pude
Audaz juventude
Mortalhas tecidas,
E vendo o caminho
Sem rumo, sozinho,
As sortes perdidas...
34243
Num mundo tão grande
No tempo que afasta
Palavra já gasta
Que nunca demande
Ou quando se expande
Diversa repasta
A sorte nefasta
Aonde se mande
Olhar horizonte
Bebendo da fonte
Que nunca pudesse
Traçar outra senda
Além do que venda
O amor rara messe.
34244
O quanto que assisto
Do tempo sem par
Até se tocar
O sonho que é misto
Enquanto persisto
No velho lutar
Até me cansar
Ou mesmo desisto,
Resido no vago
E quando me alago
Do farto segredo
Às vezes carinhos
Em outras daninhos
O mesmo degredo.
34245
A sorte que espelha
A fonte do nada
Aonde alvorada
Agora tão velha
No quanto me engelha
Palavra cansada
Ao tempo jogada
De mim se assemelha,
Relido este tomo
O quanto não domo
Reparo ou porfio,
Perdendo algum rumo,
O nada consumo
Gerando outro estio
34246
Vital natureza
Aonde se vê
O quanto e por que
Seguir correnteza
Sabendo destreza
Selando o que crê
No quanto do quê
Pudesse a certeza
Viver com fartura
Além do que cura
Também alivia,
O medo não pára
A sorte se amara
Atrapalha o dia.
34247
O tempo se escreve
Com dor e sorriso
No quanto impreciso
Ao nada me leve,
E assim sol e neve
A chuva e o granizo
O dito o juízo
O quanto não ceve
E serve de encanto
A quem busca o quanto
E quando não vira,
O sangue nas mãos
Ausência de grãos
Na falta de mira.
34248
Olhando esta estrela
Desnuda em meu céu
O amor toma o véu
E não posso vê-la
Quisera tecê-la
Gerada no mel
Ainda cruel
De quem sabe crê-la
Resumo do nada
A vida negada
Palavra sortida,
O manto acoberta
A sorte se incerta
Não vale esta vida...
34249
Mirrando este arbusto
Meu sonho de paz,
O quanto se faz
Aquém do ser justo
E quando me incrusto
Nas tramas, audaz
O tempo é voraz
Aumenta este custo
O curso da vida
Porquanto dorida
Não me deixa ver
Além do que um dia
Gerasse alegria
Ou mesmo prazer.
34250
A parte diz toda
Vontade de ser
O quanto em poder
A vida se enloda,
E assim cada roda
Traduz o querer
E nele o saber
Por vezes engoda
O corte se trama
Além deste drama
Da fome e da sede,
O olhar vaga o mundo
E tenta um segundo
Descansos e rede.
PARA TANTOS, PRINCIPALMENTE MARCOS GABRIEL, MARCOS DIMITRI E MARCOS VINÍCIUS. MINHA ESPERANÇA. RITA PACIÊNCIA PELA LUTA.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
quarta-feira, 26 de maio de 2010
34151 até 34200
34151
Partindo para as sanhas mais diversas
Entranho prados vários e procuro
Vencer esta emoção em árduo e duro
Caminho pelo qual jamais tu versas
As sortes quando amargas e perversas
Na essência do que tanto inda perduro
Vagando pela ausência a cada muro
Mudando todo o rumo das conversas
Esboço um passo e enceto outros cenários
E neles dias mesmo imaginários
São meras fantasias, nada mais
O quanto pude crer no meu anseio
Ainda que distante qualquer veio
Expressa os dias fartos e venais.
34152
Deixando a velha casa mesmo grata
Recebo em minha face o vento aonde
A própria liberdade já se esconde
Por vezes a verdade até maltrata,
Mas quando do passado se desata
O passo noutro tanto que responde
Com dor ou alegria gera a fronde
Deste arvoredo imenso em densa mata,
Assim ao renovar-me perco enquanto
O dia noutro tanto me agiganto
E sei da necessária provisão
Moldada a cada instante em minha vida
E quando se percebe construída
A história denotando outra visão.
34153
Mortal certeza rege cada passo
Por onde inda caminho em tez suave
E o vento do futuro sempre agrave
O quanto poderia, mas desfaço,
O canto se perdendo sem espaço
A vida sonegando qualquer nave
Não tendo mais pousada morre grave
Atando ou desatando qualquer laço.
Na minha vinda apenas por passagem
Terreno mais propício para onde se trajem
Os sonhos com ternuras e terrores,
Jamais eu viverei o quanto quis,
Mas mesmo neste instante sou feliz
Do corpo apodrecido penso em flores.
34154
Os ócios entre dias mais soturnos
Os olhos no vazio, a noite é vã
O quanto poderia na manhã
Rever os meus demônios noutros turnos,
Os passos muitas vezes são noturnos
E os cortes se preparam na malsã
Realidade atroz sem amanhã
Embora redentores bens diurnos
Aplacam pesadelos e renegam
Enquanto noutros tantos não sossegam
Os pensamentos vários que inda trago,
A morte se prepara na tocaia
E a cada novo dia que se esvaia
Recebo do final nefasto afago.
34155
Não posso envergonhar-me do que ainda
Se vendo nos momentos terminais
Esboça o que pensara ser a mais,
Mas toda a realidade em vão se brinda
E quando a vida atroz ora deslinda
Deixando noutros ritos germinais
Momentos que pudessem eternais
O etéreo caminhar já não se finda,
Esgoto esta nascente e por ventura
A morte quando em paz ceva e emoldura
Meu passo rumo ao farto desvario
Eu tento acreditar no que não creio
E sei quanto mais longe e mais alheio
Meu mundo noutro tanto em vão recrio.
34156
Separo-me do lar aonde um dia
A sorte quis benditas emoções
E quando novos tempos tu me expões
Realizado encanto já se adia,
O pouso noutra face mostraria
As sendas em diversas divisões
E nelas outros dias são senões
Gestados pela farta hipocrisia.
O medo de seguir ou ter nas mãos
O quanto inda pudessem ser os grãos
Dos quais a vida tece eterna senda
Assim cada mortalha que desvenda
O passo rumo ao farto se traduz
Na essência delicada aonde vejo
A sombra desdenhosa do desejo
Gerando no final angústia e pus.
34157
Dos poucos meses que inda restam vejo
As sombras de momentos mais cruéis
E sorvo delicados fartos féis
E beijo as velhas sombras do desejo,
O monte que pensara mais sobejo
Agora entre terríveis carrosséis
Mergulha nos anseios e em vãos papéis
Revertem os momentos num lampejo
Percebo quantas vezes fora atroz
O canto sem saber de alguma voz
Nem mesmo a foz dos sonhos poderia
Singrar com mansidão a turbulência
Gerada pela angústia ou inclemência
Tocando com terror nefasto dia.
34158
Ignoro o que virá em meus caminhos
E sei dos versos frágeis, a mesmice
Do quanto se pudera e já desdisse
Os ritos costumeiros e sozinhos,
Bebera avinagrados, fartos vinhos
E sei que cada verso uma tolice
E nessa condição o que se disse
Perdendo-se nos ventos, desalinhos,
Não quero os vãos aplausos no cenário
Aonde o dia mostro temerário
Meu honorário é feito num velório,
O corpo decomposto sobre a mesa
Apodrecida carne é sobremesa
Num ato mais feliz e merencório.
34159
Oculto entre os cadáveres do sonho
Resisto o quanto posso, mas bem creio
Saber do passo atroz ou mesmo alheio
Aonde o meu futuro recomponho,
Bebera cada gota e me proponho
Vencendo todo dia o mesmo veio
E nele se percebe este recreio
Por onde o tempo vejo mais bisonho,
Eclode-se em verdade o meu delírio
E bebo com prazer farto delírio
E sei do quanto posso em voz sombria,
Brumosa realidade dita a noite
Sem ter uma esperança que me acoite
Jamais verei nascer um claro dia.
34160
Buscando nos meus ermos a resposta
E nela se refaz o velho engodo,
O mundo que pensara como um todo
A vida repartindo em crua posta
Do quanto do viver ainda gosta
O medo de morrer refaz o lodo,
E o pendular caminho como um rodo
Varrendo uma esperança decomposta,
Não pude ter nos olhos outra cena
Uma alma quando a vida já apequena
Não tem outra saída senão esta
E o fato de perder cada momento
Aonde na verdade ainda tento
Rever cada palavra que me resta...
34161
Satisfazes decerto meus temores
Enquanto adentras fúrias onde outrora
A sorte noutra face sem demora
Pudesse transformar sorrisos, flores,
E ainda por diversos rumos fores
Gerando dentro em mim o que se aflora
Tomando desde sempre ou quanto agora
Em cenas mais doridas, velhas cores,
Esqueço dos pudores mais vorazes
E beijo tempestades onde trazes
Momentos mais felizes ou ferozes,
Escuto do passado velhas vozes
E beijo os meus espectros quando atento
E perco a cada dia o quanto invento.
34162
Correndo tantos mares entre as ondas
E delas aprofundo meus anseios
E sei dos velhos dias em receios
E neles outros tantos que inda escondas,
Não posso mergulhar porquanto rondas
Momentos entre tantos mais alheios
E sigo sem saber dispersos veios
Enquanto novas horas inda sondas,
Vestida pelo infausto de um alento
E nele com ternura este tormento
Adentra sem defesas coração
Corrijo os meus enganos com sinais
E tento ainda além ou muito mais
Vencer as tempestades que virão.
34163
Cortando mares versos ondas medos
E sei que não pudesse além do cais
Sentir outros momentos magistrais
Diversos os caminhos mortos, ledos,
E tento desvendar velhos segredos
Resíduos de um passado em tons venais
No quanto mesmo em fúria derramais
Os vossos caminhares ou degredos,
Reparo cada engano com novatos
E tanto refazendo em tolos atos
Os dias mais atrozes; acostumo
E creio ter benesse bem aonde
A fonte do prazer jamais se esconde,
Perdendo uma noção, estrada e rumo.
34164
Seguira meu caminho em novas margens
E deles não pudesse adivinhar
Segredos onde pude mergulhar
Depois de imaginar outras paragens,
Os tempos entre dores e viagens
O risco de perder e de sonhar
Seguindo cada trilha devagar
Procura pelas fozes e ancoragens,
Restando tão somente alguma luz
E nela cada fato reproduz
O mesmo e vago não por onde venho,
A vida não permite outro caminho
E quando neste pouco enfim me aninho
Percebo quão inútil meu empenho.
34165
Meus mortos carregando no meu peito
Andando de soslaio vejo apenas
As horas onde tanto me apequenas
E beijas com terror o quanto aceito,
O mundo noutro instante já desfeito
Não deixa que se vejam meras cenas
E quantas vezes penso em mais amenas
Palavras onde o tempo nega o leito,
Resisto a cada farpa ou pedregulho
E quando nos anseios eu mergulho
Retiro cada peça deste sonho,
Pudesse acreditar noutro momento
Enquanto um novo tempo ainda invento
Sorvendo deste vento mais medonho.
34166
Perder-se uma ilusão por entre as sanhas
Diversas de uma vida sem destino,
O quanto na verdade me fascino
Enquanto novos dias sempre ganhas
Eu vejo mergulhadas em montanhas
As luas em que tanto me alucino
Pudesse novamente ser menino,
Porém em atitudes tão estranhas
Seguir o meu caminho entrincheirado
Bebendo barricadas pela vida,
A fonte consagrada à despedida
O manto há tanto tempo destroçado,
Não deixo que se veja em meu olhar
Nem mesmo alguma luz inda a brilhar.
34167
Ultrapassando a vida como quem
Não deixará um rastro sobre a terra,
Aos poucos o caminho já se encerra
Enquanto a morte chega, doma e vem,
Não pude acreditar, pois em ninguém
A solidão enquanto assim se descerra
Permite que se veja paz e guerra
E nelas a esperança não convém,
Porquanto cada face se desvenda
Mudando com terror rompendo a venda
Eu vejo claramente o que me sobra,
O sino que distante ainda dobra
Traduz algum alento a quem se esvai
No quanto a vida doma, marca e trai.
34168
Dos sonhos tão somente a dura queda
Permite que se creia na verdade,
O medo quando muito nos degrade
Realidade eu sinto não mais veda,
Pagar com o reverso da moeda
Mordendo quem deveras já te agrade
Não passa de sutil diversidade
Da face em que a certeza ora se enreda,
Relendo cada frase do que dito,
O passo procurado no infinito
Intimando meus olhos ao vazio
Não creio na esperança e num eterno,
Assim matei meu Céu negando o inferno
Futuro que me resta é vão, sombrio.
34169
Fundada na esperança a crença e a fé
Permite algum alento e longe disto
Apenas existir porque eu insisto
Atado a cada dia em tal galé,
O quanto se buscara e sei até
Pudesse imaginar se inda persisto,
Apenas no vazio me consisto
E o vento me levando aquém da Sé;
Resido no talvez e neste fato
Incréu ou mesmo ateu se me retrato
Não posso ser culpado da descrença
Minha alma se inda existe e segue alheia
Nas ânsias do sombrio se recheia
E disto a cada ausência se convença.
34170
Riscando velhos climas onde um dia
Pensara primavera em pleno inverno,
E não acreditando num eterno,
A morte não promete mais sangria,
Esbarro no que possa ou mais queria,
E sei que sendo assim jamais hiberno,
No verso que inda faço em tom interno
Redundo num cenário, hipocrisia
Alego entre promessas mais venais
Momentos entre os tantos desiguais
Aonde a paz reinasse finalmente,
Mas quando me aprofundo na verdade,
Percebo no total a falsidade,
Porquanto mesmo em sonho uma alma mente.
34171
Descubro dentro em mim velhos litígios
E deles porfiando o tempo inteiro
No quanto sinto o vento derradeiro
Deixando pelo menos tais vestígios
Aonde no passado pude crer
Nas tantas emoções que ora desfazes
A vida se refaz em novas fazes
Deixando para trás o bem querer,
Nefasta e néscia luz aonde eu posso
Rever cada momento mesmo atroz,
E quando ainda penso em nossos nós
Eu vejo o quanto nunca fora nosso
O passo rumo à farta lua cheia
E o vento nega a sorte que rodeia.
34172
Vivendo a plena ausência de esperança
Pereço enquanto ainda vejo além
A luz que na verdade já não vem
Nem mesmo ao longe acende ou tanto alcança
Quem fora no passado uma lembrança
Regalos encontrara no desdém
E sabe do que tanto não contém
A vida sonegando esta aliança
Esgarçam-se os diversos nós aonde
O medo na verdade não se esconde
E trama alguma luz, mesmo distante
Porquanto cada face tem seu modo
E nele quando muito ainda açodo
O fato que resiste degradante.
34173
Misteriosamente a vida trama
As ondas entre vários temporais
E sei do quanto pude ou muito mais
Mantendo desairosa a intensa chama,
E o quando cada passo se reclama
Do medo entre os meus ermos vendavais
Vagasse por espaços siderais
E tantas vezes beijo apenas lama,
Carpindo cada ausência da esperança
Ainda tendo olhar em fria lança
Aguardo sorrateiro qualquer erro
E sei do quanto posso traiçoeiro,
E quando nas entranhas eu me esgueiro
Espreito a cada instante o teu desterro.
34174
Tremera por momentos entre tantos
E neles não se vira senão isto,
O fato aonde às vezes eu persisto
Progride em turvas luas, desencantos,
E bebo dos meus ermos, vários prantos
E na verdade enquanto em vão desisto
Resido no final, e se inda existo
As sortes descerrando velhos mantos.
Acordo entre os chacais e disto orgulho
Sabendo do meu passo em pedregulho
Resisto ao que pudesse ser maior,
Porém a solidão se esvai no fato
Aonde se deveras me maltrato
Percebo o desalento e o sei de cor.
34175
Procuro inutilmente novos dias
Entrando nos meus ermos mais profundos,
E sei das variáveis destes mundos
Por onde na verdade não mais guias
E teimas com terríveis heresias
Mordazes caminhares vagabundos
E quando olhares turvos, moribundos
Gestando mais distantes fantasias
Escavo dentro em mim alguma forma
E quando a realidade me deforma
Engodos são comuns a quem se dera,
E sei o peso amargo que sonega
E a vida continua atroz e cega
E dela se refaz viva quimera.
34176
Pudera em heroísmo acreditar
Nas ansiosas noites solitárias,
Palavras muitas vezes solidárias
Escondem o punhal, não vou negar,
E quantas vezes vi deste luar
As faces mais terríveis, temerárias
As sortes de quem ama, procelárias
Enganam em brumoso caminhar
Percalços entre tantos sobressaltos
E os dias são deveras mais incautos
A quem se procurara em liberdade;
Amordaçado canto nada trama
Senão a mesma ausência em torpe chama
Na qual cada caminho se degrade.
34177
Respeito minha dor e muito além
Não suporto sequer algum sorriso
Que venha com terrível prejuízo
Por pena, por carinho ou por desdém,
A ponte derrubada em si contém
O passo mais atroz e mais preciso,
Não posso e nem concebo outro juízo
Diverso do que a vida em si já tem,
Reparo nas estrelas imortais
E bebo dos meus erros terminais
Voltando aos germinais engodos quando
O mundo noutra face se fizera
E sei da solidão, vaga pantera,
Aos poucos meu caminho já traçando.
34178
Dos erros juvenis que ora repito
Não quero mais sinais e nem o afeto
No qual por tantas vezes me completo
Gerado pelo encanto, infausto mito,
E quando de mim mesmo até omito
O fardo que carrego, velho inseto,
O medo de viver sendo incompleto
Além do que pudesse inda permito,
Mas quando a negação se faz presente,
Ausente dos meus olhos o que sente
Uma alma em tão tenaz voracidade,
Arrisco-me a sonhar? Ledos enganos,
Os dias entre tantos geram danos,
E nisto vejo a face da verdade.
34179
Não quero mais estorvos nem pretendo
Vencer os meus acordes em sonância
O quanto a vida trama em tolerância
Pudesse transmitir algum adendo,
E quando os meus enganos eu desvendo
Gerados pela intensa discrepância
O corte se anuncia e na vacância
Do sonho novo enredo vira adendo
De um tempo em que bisonho mergulhara
A sorte noutra face mais amara
E o vandalismo explode sem sentido,
O peso do sonhar vergando tanto
E quando incontestável sonho canto,
O todo que buscara vai perdido.
34180
Não quero esta inconstância em luz sombria
Tampouco beber água que não seja
Aquela aonde a vida se poreja
E traz ao menos paz, clara alegria,
O resto se perdendo em sintonia
Diversa da que outrora mais sobeja
Pudesse e mesmo quando já não seja
Real o meu retrato em fantasia
No tumular anseio que inda resta
Não vejo mais sequer a menor fresta
Por onde a luz pudesse ainda ver,
E assim ao me mostrar inteiramente
Minha alma tão somente se apresente
Nas ânsias mais audazes do morrer.
34181
O mundo que é rival das esperanças
E traça com enganos passos onde
Pudesse cada luz em mesma fronde
Gerar ao fim dos tempos alianças
E quando no vazio tu me lanças
No quadro sem fronteiras já se esconde
O corpo quando a vida não responde
Ao quanto mais querias e inda avanças
Apraz-me perceber quanto vazio
O tom em que decerto ora desfio
Realidade atroz que me legaste,
Dos charcos mais comuns aonde adentro
A força inutilmente e em vão concentro
Sabendo a cada dia outro desgaste.
34182
Não temo a tempestade e me acostumo
Nas várias e terríveis vagas quando
Ao mesmo tempo entranho e penetrando
Perdendo o que pudesse ainda em rumo,
No todo que perfaço não aprumo
O passo em verso e mesmo desabando
O engodo noutro tanto realçando
O peso do caminho quando espumo
Numa alva areia a força da procela
O barco da ilusão sem saber vela
Acossa simplesmente o caos imenso,
E quando noutra senda mergulhara
A sorte ao mesmo tempo desampara
Do vago que restara me convenço.
34183
Cumprindo o meu dever a cada dia
Escrevo com palavras o que sinto,
Embora eu saiba há muito estar extinto
O sentimento aonde poderia
Singrar sem ter limites fantasia
E nela beber cada gota, eu minto
Porquanto noutra face onde me pinto
Percebo a velha e amarga melodia
Dos ermos entre tantas dores, farto,
E quando me entranhando assim eu parto
Por ledos descaminhos desconexos
Eu sinto quanto possa acreditar
No verso sem progresso e mergulhar
Distante dos retratos, vis reflexos.
34184
Buscando dentro em mim qualquer alento
Aonde nada houvera senão isto
A face desdenhosa em que resisto
E mesmo bebo em goles o tormento,
No quanto vez em quando me apascento,
Ou mesmo incontestável já me desisto,
O passo rumo ao nada se eu despisto
Não tendo nem mais força eu bebo o vento,
E lego-me ao vazio e me comprazo
Da vida sem ter luz sequer, no ocaso
Do peso aonde um dia pude crer
Reparo cada engano noutra face
E quando mais além meu mundo trace
Distanciado estou de algum querer...
34185
Jamais eu pude ousar um novo passo
Por entre as mais complexas ventanias
E quando noutra face tu trarias
O quanto na verdade me desfaço
Realço cada engano noutro traço
E bebo as mais complexas fantasias
Sabendo do que tanto pude outrora
A rede preterida me devora
E o corte se profana quando exposto
Tomando com furor inteiro o rosto
Jogado nestas jaulas da esperança
O medo não pudesse ser diverso
E quando sobre o tempo ainda verso
Apenas o vazio inda me alcança.
34186
Não posso mais temer o ver além
Da ausência de horizonte onde o jazigo
Que há tanto em provisão rara persigo
E agora com ternura sinto, vem,
Apenas não concebo mais desdém
Aonde poderia algum perigo
E tendo como apenas meu castigo
A furiosa ausência aonde tem
O olhar mais desdenhoso da verdade
E quando se refaz necessidade
Eu bebo desta amarga provisão,
Ameaçando a vida com a adaga
A cada ausência vejo imensa chaga
E nela se aproxima a podridão.
34187
Revendo a velha casa aonde um dia
Pudera acreditar felicidade
Eu tento mesmo quando a morte invade
Sorrir embora viva esta ironia
Da vida em tão tenaz dicotomia
No quanto a cada ausência se degrade
O fato de sonhar diversidade
E nela beber farta e vã sangria,
Resumo o versejar noutra falseta
E assim a corte mostra a mais completa
Realidade ainda quando atroz,
Retrocedendo o passo rumo ao nada
Escondo dentro em mim a paliçada
Aonde o meu caminho esconde os nós.
34188
Anteponho meus olhos sobre a cena
Final do que se fez outrora em vida,
E sei da falsa imagem pervertida
Aonde cada ausência se apequena,
O porte do que fora e me envenena
Atrocidade dita a despedida
Na morte noutra vida sendo urdida
Ou mesmo no vazio em voz mais plena,
Resumo-me no vão e nada disso
Do quanto ainda possa movediço
Cobiço senão ter este cenário
E nele sorvo a porta sem saber
Do quanto ainda pude recolher
Além do que já fora imaginário.
34189
Cadáver da esperança se insepulto
Não deixa que se veja muito além
E sei do quanto ausente me contém
Restando tão somente amargo vulto
E sinto quanto muito num tumulto
O porte desdenhoso aonde vem
A morte discernir de um novo bem
Ainda que se faça reza ou culto,
Eu teimo contra a fúria do vazio
E bebo cada fato em desafio
Não tendo mais escolha, brindo ao fim,
E sei que na verdade o que inda possa
Além da imensidão da escura fossa
Regar com sangue e pus o teu jardim.
34190
Expulso do que fora uma esperança
Navego pelos antros mais cruéis
E bebo dos vadios carrosséis
Ainda quando morta a temperança
Lembrança do vazio já se lança
Ao fato destes fardos vagos féis
E neles entre os dias infiéis
Apenas a certeza toma mansa
Manhã dos olhos turvos de quem sonha
E sei quanto a verdade mais medonha
Assanha os pensamentos tão pequenos
De quem não saberia discernir
Sequer a ausência plena de um porvir
Bebendo dos engodos, seus venenos...
34191
Um tempo mais feliz já não assiste
Ao quanto poderia e não mais creio
E quando a cada passo sigo alheio
O velho coração ainda em riste
Porquanto sem saber teima e resiste
Seguindo os meus tormentos, ledo veio
Não posso mergulhar no quanto anseio
E sei que no final, resumo triste,
Eu bebo o meu veneno costumeiro
Aporto noutro cais e vou ligeiro
Perpetuando assim a luz sombria
Na qual e pela qual nada resume
Enquanto a velha dor já de costume
A sorte caprichosa, a morte adia.
34192
A face muda a cena quando vês
O resto do que sobra de minha alma
O peso transbordando nega a calma
Gerando a cada passo a estupidez
E sei que na verdade não mais crês
Nem mesmo na incerteza que me acalma
A vida gera assim o imenso trauma
E sigo sem saber noutros porquês
Ocaso do que fora fantasia
Mergulho no passado e nada havia
Senão mesmo cenário em dores feito
E logo do que tanto perseguira
Ainda mais distante desta mira
E nela o meu caminho não aceito.
34193
Pudesse acreditar nos vários céus
E neles ter ainda algum alento,
Mas quando se percebe sem provento
Os dias entre toscos fogaréus
Os olhos bebem fartos dos incréus
Caminhos em que tanto teimo e tento
Seguir cada momento que alimento
Servido noutros tantos sem tais véus
E risco cada nome do passado
Deixando o meu cenário abandonado
Bebendo sempre à farta e se inebrio
Minha alma deste amargo e tão vazio
Cenário feito em treva e nada mais,
E agora sorvo apenas vendavais.
34194
Ainda adentro turvas meras águas
E nelas coaduno com meus medos
Palavras tão cruéis meros degredos
Aonde as fantasia tu deságuas
E sei das profusões de intensas mágoas
Nefastas madrugadas, vãos enredos,
E tanto poderiam senão ledos
Arcar com os terrores feitos fráguas
Incendiando as almas mais atrozes
E sei dos meus caminhos mais ferozes
E neles alimento a imensidão
Na sórdida presença do vazio
E quando sob os olhos tanto estio
Aguardo as chuvas mansas que virão.
34195
Jamais felicidade ainda apraz
Quem sabe discernir medo e tempesta
Ainda vejo aberta qualquer fresta
Por onde a solidão seja tenaz
Pudesse retornar tempos atrás
E o mundo não teria a menor festa,
A boca se emprestado ao que não presta
E a face mostraria em tom mordaz
O quanto da verdade se fez vã
Na falta de esperança e de manhã
A porta se cerrando e não socorra
Sobrando ao caminheiro tão somente
O fardo que deveras se apresente
Moldando a cada dia esta masmorra.
34196
A vida esta madrasta não pudera
Traçar outra alegria em tom suave
E a cada passo a vida bem mais grave
Gestando com terror farta quimera,
O quanto apenas toma e agora espera
No dia em tenebrosa voz se crave
A morte como fosse doce nave
Deixando para trás temível fera
O porto desejado não havia
Somente a face amarga e tão vazia
De quem se fez outrora em mansidão,
E sei o quanto vale cada ausência
O corte profanando esta clemência
E o medo reina em toda esta amplidão.
34197
O quando poderia ser apenas
Momento mais tranqüilo agora trama
A fúria que deveras traz da lama
O fardo aonde agora me envenenas
E beijo do passado mansas cenas,
Deixando mais distante qualquer drama,
O corte se aprofunda e já reclama
Enquanto no presente concatenas
Mortalhas entre tantas heresias,
E quando prometias alegrias
Mentiras tão somente e nada mais,
Os olhos no passado, no horizonte
A morte com terror somente aponte
O fato terminal em tons venais.
34198
Inválido caminho para o qual
Tentara ainda ver algum alento,
E quando do vazio me alimento
O mundo se mostrando sempre igual,
O fardo que carrego em ritual
E nele a dor deveras meu provento
E quando inutilmente me apascento
A vez de uma esperança é gutural,
O carma não se mostra em tom diverso
E assim cada alegria eu já disperso
Vivendo apenas isto, o fim temido,
O cândido momento em alegria
Apenas de mortalha serviria
Qual fosse um derradeiro e vão gemido.
34199
Desterro-me nos vãos de uma esperança
E nela nada tenho senão isto
Ainda a cada passo mais insisto
Enquanto este vazio agora alcança
Uma alma feita apenas de lembrança
E sei que no final cedo e desisto,
O dia onde sonhara ser benquisto
Ao fogo deste inferno já me lança
A porta se cerrara para o eterno
E nada do que posso ainda externo
Senão esta sombria realidade,
A morte se assemelha à redenção
Bebendo com total sofreguidão
Apenas este horror que me degrade.
34200
Odioso caminhar entre espinheiros
Deixando lacerada a minha pele
Ao quanto do vazio em compele
O dia entre os mortais e derradeiros
Caminhos mais atrozes, costumeiros
E neles cada ausência já se atrele
Enquanto à dor fatal a vida sele
Meus olhos para além dos corriqueiros
Cenários entre tantos, pois bem sei
O quanto desta morte eu entranhei
Negando alguma chance a quem se fez
Além desta mortalha que tecera
A sorte mais venal e embrutecera
Meu passo com temor e insensatez.
Partindo para as sanhas mais diversas
Entranho prados vários e procuro
Vencer esta emoção em árduo e duro
Caminho pelo qual jamais tu versas
As sortes quando amargas e perversas
Na essência do que tanto inda perduro
Vagando pela ausência a cada muro
Mudando todo o rumo das conversas
Esboço um passo e enceto outros cenários
E neles dias mesmo imaginários
São meras fantasias, nada mais
O quanto pude crer no meu anseio
Ainda que distante qualquer veio
Expressa os dias fartos e venais.
34152
Deixando a velha casa mesmo grata
Recebo em minha face o vento aonde
A própria liberdade já se esconde
Por vezes a verdade até maltrata,
Mas quando do passado se desata
O passo noutro tanto que responde
Com dor ou alegria gera a fronde
Deste arvoredo imenso em densa mata,
Assim ao renovar-me perco enquanto
O dia noutro tanto me agiganto
E sei da necessária provisão
Moldada a cada instante em minha vida
E quando se percebe construída
A história denotando outra visão.
34153
Mortal certeza rege cada passo
Por onde inda caminho em tez suave
E o vento do futuro sempre agrave
O quanto poderia, mas desfaço,
O canto se perdendo sem espaço
A vida sonegando qualquer nave
Não tendo mais pousada morre grave
Atando ou desatando qualquer laço.
Na minha vinda apenas por passagem
Terreno mais propício para onde se trajem
Os sonhos com ternuras e terrores,
Jamais eu viverei o quanto quis,
Mas mesmo neste instante sou feliz
Do corpo apodrecido penso em flores.
34154
Os ócios entre dias mais soturnos
Os olhos no vazio, a noite é vã
O quanto poderia na manhã
Rever os meus demônios noutros turnos,
Os passos muitas vezes são noturnos
E os cortes se preparam na malsã
Realidade atroz sem amanhã
Embora redentores bens diurnos
Aplacam pesadelos e renegam
Enquanto noutros tantos não sossegam
Os pensamentos vários que inda trago,
A morte se prepara na tocaia
E a cada novo dia que se esvaia
Recebo do final nefasto afago.
34155
Não posso envergonhar-me do que ainda
Se vendo nos momentos terminais
Esboça o que pensara ser a mais,
Mas toda a realidade em vão se brinda
E quando a vida atroz ora deslinda
Deixando noutros ritos germinais
Momentos que pudessem eternais
O etéreo caminhar já não se finda,
Esgoto esta nascente e por ventura
A morte quando em paz ceva e emoldura
Meu passo rumo ao farto desvario
Eu tento acreditar no que não creio
E sei quanto mais longe e mais alheio
Meu mundo noutro tanto em vão recrio.
34156
Separo-me do lar aonde um dia
A sorte quis benditas emoções
E quando novos tempos tu me expões
Realizado encanto já se adia,
O pouso noutra face mostraria
As sendas em diversas divisões
E nelas outros dias são senões
Gestados pela farta hipocrisia.
O medo de seguir ou ter nas mãos
O quanto inda pudessem ser os grãos
Dos quais a vida tece eterna senda
Assim cada mortalha que desvenda
O passo rumo ao farto se traduz
Na essência delicada aonde vejo
A sombra desdenhosa do desejo
Gerando no final angústia e pus.
34157
Dos poucos meses que inda restam vejo
As sombras de momentos mais cruéis
E sorvo delicados fartos féis
E beijo as velhas sombras do desejo,
O monte que pensara mais sobejo
Agora entre terríveis carrosséis
Mergulha nos anseios e em vãos papéis
Revertem os momentos num lampejo
Percebo quantas vezes fora atroz
O canto sem saber de alguma voz
Nem mesmo a foz dos sonhos poderia
Singrar com mansidão a turbulência
Gerada pela angústia ou inclemência
Tocando com terror nefasto dia.
34158
Ignoro o que virá em meus caminhos
E sei dos versos frágeis, a mesmice
Do quanto se pudera e já desdisse
Os ritos costumeiros e sozinhos,
Bebera avinagrados, fartos vinhos
E sei que cada verso uma tolice
E nessa condição o que se disse
Perdendo-se nos ventos, desalinhos,
Não quero os vãos aplausos no cenário
Aonde o dia mostro temerário
Meu honorário é feito num velório,
O corpo decomposto sobre a mesa
Apodrecida carne é sobremesa
Num ato mais feliz e merencório.
34159
Oculto entre os cadáveres do sonho
Resisto o quanto posso, mas bem creio
Saber do passo atroz ou mesmo alheio
Aonde o meu futuro recomponho,
Bebera cada gota e me proponho
Vencendo todo dia o mesmo veio
E nele se percebe este recreio
Por onde o tempo vejo mais bisonho,
Eclode-se em verdade o meu delírio
E bebo com prazer farto delírio
E sei do quanto posso em voz sombria,
Brumosa realidade dita a noite
Sem ter uma esperança que me acoite
Jamais verei nascer um claro dia.
34160
Buscando nos meus ermos a resposta
E nela se refaz o velho engodo,
O mundo que pensara como um todo
A vida repartindo em crua posta
Do quanto do viver ainda gosta
O medo de morrer refaz o lodo,
E o pendular caminho como um rodo
Varrendo uma esperança decomposta,
Não pude ter nos olhos outra cena
Uma alma quando a vida já apequena
Não tem outra saída senão esta
E o fato de perder cada momento
Aonde na verdade ainda tento
Rever cada palavra que me resta...
34161
Satisfazes decerto meus temores
Enquanto adentras fúrias onde outrora
A sorte noutra face sem demora
Pudesse transformar sorrisos, flores,
E ainda por diversos rumos fores
Gerando dentro em mim o que se aflora
Tomando desde sempre ou quanto agora
Em cenas mais doridas, velhas cores,
Esqueço dos pudores mais vorazes
E beijo tempestades onde trazes
Momentos mais felizes ou ferozes,
Escuto do passado velhas vozes
E beijo os meus espectros quando atento
E perco a cada dia o quanto invento.
34162
Correndo tantos mares entre as ondas
E delas aprofundo meus anseios
E sei dos velhos dias em receios
E neles outros tantos que inda escondas,
Não posso mergulhar porquanto rondas
Momentos entre tantos mais alheios
E sigo sem saber dispersos veios
Enquanto novas horas inda sondas,
Vestida pelo infausto de um alento
E nele com ternura este tormento
Adentra sem defesas coração
Corrijo os meus enganos com sinais
E tento ainda além ou muito mais
Vencer as tempestades que virão.
34163
Cortando mares versos ondas medos
E sei que não pudesse além do cais
Sentir outros momentos magistrais
Diversos os caminhos mortos, ledos,
E tento desvendar velhos segredos
Resíduos de um passado em tons venais
No quanto mesmo em fúria derramais
Os vossos caminhares ou degredos,
Reparo cada engano com novatos
E tanto refazendo em tolos atos
Os dias mais atrozes; acostumo
E creio ter benesse bem aonde
A fonte do prazer jamais se esconde,
Perdendo uma noção, estrada e rumo.
34164
Seguira meu caminho em novas margens
E deles não pudesse adivinhar
Segredos onde pude mergulhar
Depois de imaginar outras paragens,
Os tempos entre dores e viagens
O risco de perder e de sonhar
Seguindo cada trilha devagar
Procura pelas fozes e ancoragens,
Restando tão somente alguma luz
E nela cada fato reproduz
O mesmo e vago não por onde venho,
A vida não permite outro caminho
E quando neste pouco enfim me aninho
Percebo quão inútil meu empenho.
34165
Meus mortos carregando no meu peito
Andando de soslaio vejo apenas
As horas onde tanto me apequenas
E beijas com terror o quanto aceito,
O mundo noutro instante já desfeito
Não deixa que se vejam meras cenas
E quantas vezes penso em mais amenas
Palavras onde o tempo nega o leito,
Resisto a cada farpa ou pedregulho
E quando nos anseios eu mergulho
Retiro cada peça deste sonho,
Pudesse acreditar noutro momento
Enquanto um novo tempo ainda invento
Sorvendo deste vento mais medonho.
34166
Perder-se uma ilusão por entre as sanhas
Diversas de uma vida sem destino,
O quanto na verdade me fascino
Enquanto novos dias sempre ganhas
Eu vejo mergulhadas em montanhas
As luas em que tanto me alucino
Pudesse novamente ser menino,
Porém em atitudes tão estranhas
Seguir o meu caminho entrincheirado
Bebendo barricadas pela vida,
A fonte consagrada à despedida
O manto há tanto tempo destroçado,
Não deixo que se veja em meu olhar
Nem mesmo alguma luz inda a brilhar.
34167
Ultrapassando a vida como quem
Não deixará um rastro sobre a terra,
Aos poucos o caminho já se encerra
Enquanto a morte chega, doma e vem,
Não pude acreditar, pois em ninguém
A solidão enquanto assim se descerra
Permite que se veja paz e guerra
E nelas a esperança não convém,
Porquanto cada face se desvenda
Mudando com terror rompendo a venda
Eu vejo claramente o que me sobra,
O sino que distante ainda dobra
Traduz algum alento a quem se esvai
No quanto a vida doma, marca e trai.
34168
Dos sonhos tão somente a dura queda
Permite que se creia na verdade,
O medo quando muito nos degrade
Realidade eu sinto não mais veda,
Pagar com o reverso da moeda
Mordendo quem deveras já te agrade
Não passa de sutil diversidade
Da face em que a certeza ora se enreda,
Relendo cada frase do que dito,
O passo procurado no infinito
Intimando meus olhos ao vazio
Não creio na esperança e num eterno,
Assim matei meu Céu negando o inferno
Futuro que me resta é vão, sombrio.
34169
Fundada na esperança a crença e a fé
Permite algum alento e longe disto
Apenas existir porque eu insisto
Atado a cada dia em tal galé,
O quanto se buscara e sei até
Pudesse imaginar se inda persisto,
Apenas no vazio me consisto
E o vento me levando aquém da Sé;
Resido no talvez e neste fato
Incréu ou mesmo ateu se me retrato
Não posso ser culpado da descrença
Minha alma se inda existe e segue alheia
Nas ânsias do sombrio se recheia
E disto a cada ausência se convença.
34170
Riscando velhos climas onde um dia
Pensara primavera em pleno inverno,
E não acreditando num eterno,
A morte não promete mais sangria,
Esbarro no que possa ou mais queria,
E sei que sendo assim jamais hiberno,
No verso que inda faço em tom interno
Redundo num cenário, hipocrisia
Alego entre promessas mais venais
Momentos entre os tantos desiguais
Aonde a paz reinasse finalmente,
Mas quando me aprofundo na verdade,
Percebo no total a falsidade,
Porquanto mesmo em sonho uma alma mente.
34171
Descubro dentro em mim velhos litígios
E deles porfiando o tempo inteiro
No quanto sinto o vento derradeiro
Deixando pelo menos tais vestígios
Aonde no passado pude crer
Nas tantas emoções que ora desfazes
A vida se refaz em novas fazes
Deixando para trás o bem querer,
Nefasta e néscia luz aonde eu posso
Rever cada momento mesmo atroz,
E quando ainda penso em nossos nós
Eu vejo o quanto nunca fora nosso
O passo rumo à farta lua cheia
E o vento nega a sorte que rodeia.
34172
Vivendo a plena ausência de esperança
Pereço enquanto ainda vejo além
A luz que na verdade já não vem
Nem mesmo ao longe acende ou tanto alcança
Quem fora no passado uma lembrança
Regalos encontrara no desdém
E sabe do que tanto não contém
A vida sonegando esta aliança
Esgarçam-se os diversos nós aonde
O medo na verdade não se esconde
E trama alguma luz, mesmo distante
Porquanto cada face tem seu modo
E nele quando muito ainda açodo
O fato que resiste degradante.
34173
Misteriosamente a vida trama
As ondas entre vários temporais
E sei do quanto pude ou muito mais
Mantendo desairosa a intensa chama,
E o quando cada passo se reclama
Do medo entre os meus ermos vendavais
Vagasse por espaços siderais
E tantas vezes beijo apenas lama,
Carpindo cada ausência da esperança
Ainda tendo olhar em fria lança
Aguardo sorrateiro qualquer erro
E sei do quanto posso traiçoeiro,
E quando nas entranhas eu me esgueiro
Espreito a cada instante o teu desterro.
34174
Tremera por momentos entre tantos
E neles não se vira senão isto,
O fato aonde às vezes eu persisto
Progride em turvas luas, desencantos,
E bebo dos meus ermos, vários prantos
E na verdade enquanto em vão desisto
Resido no final, e se inda existo
As sortes descerrando velhos mantos.
Acordo entre os chacais e disto orgulho
Sabendo do meu passo em pedregulho
Resisto ao que pudesse ser maior,
Porém a solidão se esvai no fato
Aonde se deveras me maltrato
Percebo o desalento e o sei de cor.
34175
Procuro inutilmente novos dias
Entrando nos meus ermos mais profundos,
E sei das variáveis destes mundos
Por onde na verdade não mais guias
E teimas com terríveis heresias
Mordazes caminhares vagabundos
E quando olhares turvos, moribundos
Gestando mais distantes fantasias
Escavo dentro em mim alguma forma
E quando a realidade me deforma
Engodos são comuns a quem se dera,
E sei o peso amargo que sonega
E a vida continua atroz e cega
E dela se refaz viva quimera.
34176
Pudera em heroísmo acreditar
Nas ansiosas noites solitárias,
Palavras muitas vezes solidárias
Escondem o punhal, não vou negar,
E quantas vezes vi deste luar
As faces mais terríveis, temerárias
As sortes de quem ama, procelárias
Enganam em brumoso caminhar
Percalços entre tantos sobressaltos
E os dias são deveras mais incautos
A quem se procurara em liberdade;
Amordaçado canto nada trama
Senão a mesma ausência em torpe chama
Na qual cada caminho se degrade.
34177
Respeito minha dor e muito além
Não suporto sequer algum sorriso
Que venha com terrível prejuízo
Por pena, por carinho ou por desdém,
A ponte derrubada em si contém
O passo mais atroz e mais preciso,
Não posso e nem concebo outro juízo
Diverso do que a vida em si já tem,
Reparo nas estrelas imortais
E bebo dos meus erros terminais
Voltando aos germinais engodos quando
O mundo noutra face se fizera
E sei da solidão, vaga pantera,
Aos poucos meu caminho já traçando.
34178
Dos erros juvenis que ora repito
Não quero mais sinais e nem o afeto
No qual por tantas vezes me completo
Gerado pelo encanto, infausto mito,
E quando de mim mesmo até omito
O fardo que carrego, velho inseto,
O medo de viver sendo incompleto
Além do que pudesse inda permito,
Mas quando a negação se faz presente,
Ausente dos meus olhos o que sente
Uma alma em tão tenaz voracidade,
Arrisco-me a sonhar? Ledos enganos,
Os dias entre tantos geram danos,
E nisto vejo a face da verdade.
34179
Não quero mais estorvos nem pretendo
Vencer os meus acordes em sonância
O quanto a vida trama em tolerância
Pudesse transmitir algum adendo,
E quando os meus enganos eu desvendo
Gerados pela intensa discrepância
O corte se anuncia e na vacância
Do sonho novo enredo vira adendo
De um tempo em que bisonho mergulhara
A sorte noutra face mais amara
E o vandalismo explode sem sentido,
O peso do sonhar vergando tanto
E quando incontestável sonho canto,
O todo que buscara vai perdido.
34180
Não quero esta inconstância em luz sombria
Tampouco beber água que não seja
Aquela aonde a vida se poreja
E traz ao menos paz, clara alegria,
O resto se perdendo em sintonia
Diversa da que outrora mais sobeja
Pudesse e mesmo quando já não seja
Real o meu retrato em fantasia
No tumular anseio que inda resta
Não vejo mais sequer a menor fresta
Por onde a luz pudesse ainda ver,
E assim ao me mostrar inteiramente
Minha alma tão somente se apresente
Nas ânsias mais audazes do morrer.
34181
O mundo que é rival das esperanças
E traça com enganos passos onde
Pudesse cada luz em mesma fronde
Gerar ao fim dos tempos alianças
E quando no vazio tu me lanças
No quadro sem fronteiras já se esconde
O corpo quando a vida não responde
Ao quanto mais querias e inda avanças
Apraz-me perceber quanto vazio
O tom em que decerto ora desfio
Realidade atroz que me legaste,
Dos charcos mais comuns aonde adentro
A força inutilmente e em vão concentro
Sabendo a cada dia outro desgaste.
34182
Não temo a tempestade e me acostumo
Nas várias e terríveis vagas quando
Ao mesmo tempo entranho e penetrando
Perdendo o que pudesse ainda em rumo,
No todo que perfaço não aprumo
O passo em verso e mesmo desabando
O engodo noutro tanto realçando
O peso do caminho quando espumo
Numa alva areia a força da procela
O barco da ilusão sem saber vela
Acossa simplesmente o caos imenso,
E quando noutra senda mergulhara
A sorte ao mesmo tempo desampara
Do vago que restara me convenço.
34183
Cumprindo o meu dever a cada dia
Escrevo com palavras o que sinto,
Embora eu saiba há muito estar extinto
O sentimento aonde poderia
Singrar sem ter limites fantasia
E nela beber cada gota, eu minto
Porquanto noutra face onde me pinto
Percebo a velha e amarga melodia
Dos ermos entre tantas dores, farto,
E quando me entranhando assim eu parto
Por ledos descaminhos desconexos
Eu sinto quanto possa acreditar
No verso sem progresso e mergulhar
Distante dos retratos, vis reflexos.
34184
Buscando dentro em mim qualquer alento
Aonde nada houvera senão isto
A face desdenhosa em que resisto
E mesmo bebo em goles o tormento,
No quanto vez em quando me apascento,
Ou mesmo incontestável já me desisto,
O passo rumo ao nada se eu despisto
Não tendo nem mais força eu bebo o vento,
E lego-me ao vazio e me comprazo
Da vida sem ter luz sequer, no ocaso
Do peso aonde um dia pude crer
Reparo cada engano noutra face
E quando mais além meu mundo trace
Distanciado estou de algum querer...
34185
Jamais eu pude ousar um novo passo
Por entre as mais complexas ventanias
E quando noutra face tu trarias
O quanto na verdade me desfaço
Realço cada engano noutro traço
E bebo as mais complexas fantasias
Sabendo do que tanto pude outrora
A rede preterida me devora
E o corte se profana quando exposto
Tomando com furor inteiro o rosto
Jogado nestas jaulas da esperança
O medo não pudesse ser diverso
E quando sobre o tempo ainda verso
Apenas o vazio inda me alcança.
34186
Não posso mais temer o ver além
Da ausência de horizonte onde o jazigo
Que há tanto em provisão rara persigo
E agora com ternura sinto, vem,
Apenas não concebo mais desdém
Aonde poderia algum perigo
E tendo como apenas meu castigo
A furiosa ausência aonde tem
O olhar mais desdenhoso da verdade
E quando se refaz necessidade
Eu bebo desta amarga provisão,
Ameaçando a vida com a adaga
A cada ausência vejo imensa chaga
E nela se aproxima a podridão.
34187
Revendo a velha casa aonde um dia
Pudera acreditar felicidade
Eu tento mesmo quando a morte invade
Sorrir embora viva esta ironia
Da vida em tão tenaz dicotomia
No quanto a cada ausência se degrade
O fato de sonhar diversidade
E nela beber farta e vã sangria,
Resumo o versejar noutra falseta
E assim a corte mostra a mais completa
Realidade ainda quando atroz,
Retrocedendo o passo rumo ao nada
Escondo dentro em mim a paliçada
Aonde o meu caminho esconde os nós.
34188
Anteponho meus olhos sobre a cena
Final do que se fez outrora em vida,
E sei da falsa imagem pervertida
Aonde cada ausência se apequena,
O porte do que fora e me envenena
Atrocidade dita a despedida
Na morte noutra vida sendo urdida
Ou mesmo no vazio em voz mais plena,
Resumo-me no vão e nada disso
Do quanto ainda possa movediço
Cobiço senão ter este cenário
E nele sorvo a porta sem saber
Do quanto ainda pude recolher
Além do que já fora imaginário.
34189
Cadáver da esperança se insepulto
Não deixa que se veja muito além
E sei do quanto ausente me contém
Restando tão somente amargo vulto
E sinto quanto muito num tumulto
O porte desdenhoso aonde vem
A morte discernir de um novo bem
Ainda que se faça reza ou culto,
Eu teimo contra a fúria do vazio
E bebo cada fato em desafio
Não tendo mais escolha, brindo ao fim,
E sei que na verdade o que inda possa
Além da imensidão da escura fossa
Regar com sangue e pus o teu jardim.
34190
Expulso do que fora uma esperança
Navego pelos antros mais cruéis
E bebo dos vadios carrosséis
Ainda quando morta a temperança
Lembrança do vazio já se lança
Ao fato destes fardos vagos féis
E neles entre os dias infiéis
Apenas a certeza toma mansa
Manhã dos olhos turvos de quem sonha
E sei quanto a verdade mais medonha
Assanha os pensamentos tão pequenos
De quem não saberia discernir
Sequer a ausência plena de um porvir
Bebendo dos engodos, seus venenos...
34191
Um tempo mais feliz já não assiste
Ao quanto poderia e não mais creio
E quando a cada passo sigo alheio
O velho coração ainda em riste
Porquanto sem saber teima e resiste
Seguindo os meus tormentos, ledo veio
Não posso mergulhar no quanto anseio
E sei que no final, resumo triste,
Eu bebo o meu veneno costumeiro
Aporto noutro cais e vou ligeiro
Perpetuando assim a luz sombria
Na qual e pela qual nada resume
Enquanto a velha dor já de costume
A sorte caprichosa, a morte adia.
34192
A face muda a cena quando vês
O resto do que sobra de minha alma
O peso transbordando nega a calma
Gerando a cada passo a estupidez
E sei que na verdade não mais crês
Nem mesmo na incerteza que me acalma
A vida gera assim o imenso trauma
E sigo sem saber noutros porquês
Ocaso do que fora fantasia
Mergulho no passado e nada havia
Senão mesmo cenário em dores feito
E logo do que tanto perseguira
Ainda mais distante desta mira
E nela o meu caminho não aceito.
34193
Pudesse acreditar nos vários céus
E neles ter ainda algum alento,
Mas quando se percebe sem provento
Os dias entre toscos fogaréus
Os olhos bebem fartos dos incréus
Caminhos em que tanto teimo e tento
Seguir cada momento que alimento
Servido noutros tantos sem tais véus
E risco cada nome do passado
Deixando o meu cenário abandonado
Bebendo sempre à farta e se inebrio
Minha alma deste amargo e tão vazio
Cenário feito em treva e nada mais,
E agora sorvo apenas vendavais.
34194
Ainda adentro turvas meras águas
E nelas coaduno com meus medos
Palavras tão cruéis meros degredos
Aonde as fantasia tu deságuas
E sei das profusões de intensas mágoas
Nefastas madrugadas, vãos enredos,
E tanto poderiam senão ledos
Arcar com os terrores feitos fráguas
Incendiando as almas mais atrozes
E sei dos meus caminhos mais ferozes
E neles alimento a imensidão
Na sórdida presença do vazio
E quando sob os olhos tanto estio
Aguardo as chuvas mansas que virão.
34195
Jamais felicidade ainda apraz
Quem sabe discernir medo e tempesta
Ainda vejo aberta qualquer fresta
Por onde a solidão seja tenaz
Pudesse retornar tempos atrás
E o mundo não teria a menor festa,
A boca se emprestado ao que não presta
E a face mostraria em tom mordaz
O quanto da verdade se fez vã
Na falta de esperança e de manhã
A porta se cerrando e não socorra
Sobrando ao caminheiro tão somente
O fardo que deveras se apresente
Moldando a cada dia esta masmorra.
34196
A vida esta madrasta não pudera
Traçar outra alegria em tom suave
E a cada passo a vida bem mais grave
Gestando com terror farta quimera,
O quanto apenas toma e agora espera
No dia em tenebrosa voz se crave
A morte como fosse doce nave
Deixando para trás temível fera
O porto desejado não havia
Somente a face amarga e tão vazia
De quem se fez outrora em mansidão,
E sei o quanto vale cada ausência
O corte profanando esta clemência
E o medo reina em toda esta amplidão.
34197
O quando poderia ser apenas
Momento mais tranqüilo agora trama
A fúria que deveras traz da lama
O fardo aonde agora me envenenas
E beijo do passado mansas cenas,
Deixando mais distante qualquer drama,
O corte se aprofunda e já reclama
Enquanto no presente concatenas
Mortalhas entre tantas heresias,
E quando prometias alegrias
Mentiras tão somente e nada mais,
Os olhos no passado, no horizonte
A morte com terror somente aponte
O fato terminal em tons venais.
34198
Inválido caminho para o qual
Tentara ainda ver algum alento,
E quando do vazio me alimento
O mundo se mostrando sempre igual,
O fardo que carrego em ritual
E nele a dor deveras meu provento
E quando inutilmente me apascento
A vez de uma esperança é gutural,
O carma não se mostra em tom diverso
E assim cada alegria eu já disperso
Vivendo apenas isto, o fim temido,
O cândido momento em alegria
Apenas de mortalha serviria
Qual fosse um derradeiro e vão gemido.
34199
Desterro-me nos vãos de uma esperança
E nela nada tenho senão isto
Ainda a cada passo mais insisto
Enquanto este vazio agora alcança
Uma alma feita apenas de lembrança
E sei que no final cedo e desisto,
O dia onde sonhara ser benquisto
Ao fogo deste inferno já me lança
A porta se cerrara para o eterno
E nada do que posso ainda externo
Senão esta sombria realidade,
A morte se assemelha à redenção
Bebendo com total sofreguidão
Apenas este horror que me degrade.
34200
Odioso caminhar entre espinheiros
Deixando lacerada a minha pele
Ao quanto do vazio em compele
O dia entre os mortais e derradeiros
Caminhos mais atrozes, costumeiros
E neles cada ausência já se atrele
Enquanto à dor fatal a vida sele
Meus olhos para além dos corriqueiros
Cenários entre tantos, pois bem sei
O quanto desta morte eu entranhei
Negando alguma chance a quem se fez
Além desta mortalha que tecera
A sorte mais venal e embrutecera
Meu passo com temor e insensatez.
34101 até 34150
34101
Um gole de café o sol nascendo
A vida se refaz e permanece
Enquanto em outra face já se esquece
E um pouco a cada dia se perdendo,
Os elos do passado vão mantendo
A teia que este tempo aos poucos tece
Cabelo como uma alma se embranquece
Este tempo avançando e me envolvendo
Teares de emoções mesmo tecido
O dia que ficou segue em olvido
E o novo como um sol refeito brilha,
Assim até que o fim se aproximando
A tela do viver se completando
Magnífica e fugaz, diversa trilha...
34102
Perdendo algum instante com o sonho
Por vezes na batalha engrandecera
O passo que por vezes se perdera
Em meio ao descaminho mais bisonho,
O tempo diz pavio e diz da cera
E neste reviver duro ou risonho,
O quanto se percebe e não componho
Traduz cada momento que eu vivera,
Assisto ao espetáculo da vida
E vejo vez em quando uma saída
Aonde se pensara em labirinto,
E quando mergulhando dentro em mim
Começo prenuncia o mesmo fim
E o todo noutro instante vejo extinto.
34103
Pelejo contra a sorte desdenhosa
E sigo coletando riso e dor
Materiais dos quais busco compor
A vida em tom diverso e caprichosa
A mão que ceva espinho e colhe a rosa
Dicotomias vejo até na flor
E sendo temerário e sedutor
O mundo noutra face majestosa,
Resume cada fato em variantes
O que se agora faz noutros instantes
Completamente inútil poderia
E enquanto o tempo roda, gira eu sigo
O todo que inda busco e até consigo
No renovar constante dia a dia...
34104
O medo de sentir a punhalada
Expõe a cada instante outro cenário
E sei o quanto fora imaginário
Restando deste todo o quase nada,
O vento em calmaria ou em lufada
O gesto muitas vezes solidário
O passo que se perde solitário
E o quanto se fugindo desta alçada,
Não tendo mais remédio e lenitivo
Apenas lasso corpo sobrevivo
E tento vislumbrar alguma luz
Após a noite fria e tão brumosa
Manhã se soerguendo majestosa
A vida noutra face se produz.
34105
O mel das esperanças primavera
Há tanto se perdera dos meus dias,
Restando em companhia as poesias
Aonde a morte dita a longa espera,
A sorte muitas vezes degenera
E o quanto prometias e não vias
Cenários entre trevas e ardentias
Propício ao renascer desta quimera
Que atocaiada espreita o fim da tarde
Mortalha por enquanto inda se guarde,
Mas sei que em pouco tempo me trará
Na lápide epitáfios ou vazios
E assim imerso em rumos mais sombrios
A doce eternidade se fará.
34106
A vida insiste à toa enquanto toa
Ao longe melodias que me falem
Dos dias que deveras não se calem
Enquanto a voz de uma esperança não ecoa
E o tempo mansamente enfim se escoa
Nas alas e nos sonhos que resvalem
Nos passos onde os dias nada valem
Tocando a minha sorte numa boa
A morte que entranhara cada dia
Vestida de terror teima heresia
E beija a ingrata face da verdade
Brotando deste solo em aridez
A flor de uma esperança se desfez
E apenas solidão ainda invade.
34107
Vadias noites bares temporadas
E as ânsias entre risos e perdões
A vida entre diversas dimensões
E quando se perguntam mesmos nadas
As ânsias entre as ânsias demonstradas
Ganâncias quando em frondes tu me expões
Restando-me somente os violões
E neles outras tantas madrugadas
Riscando os meus caminhos as ousadas
Noturnas emoções entregue ao quanto
Pudesse novamente em vago encanto
Tramar outros desejos, rotas rumos,
E quando me entregara sem defesa
Ao menos não consigo ser a presa
Expondo as ilusões dispersos fumos...
34108
Minha vida acesa
Nas tramas e ventos
Sutis sofrimentos
A sorte em leveza
Negando e surpresa
Os cortes e alentos
Os dias proventos
De tanta beleza
Aonde enfadonho
Adentro e até sonho
Riscando do mapa
Aporto ao não ser
Enquanto em prazer
A vida me escapa.
34109
Quem tanto acendera
O mundo sem ritos
E os dias finitos
Ao menos vencera
A fonte perdera
Ou cantos e gritos
As sombras e ritos
O corte a quimera
O jeito se esgueira
Nascente e ribeira
No olhar onde o canto
Pudesse ser mais
Que alguns vãos cristais
Expondo o recanto.
34110
Beleza que entranha
A força do nada
E sinto a alvorada
No quanto esta sanha
Pudesse já ganha
Tramar outra estada
Riscando a alvejada
Partida onde estranha
O passo rumando
Ao dia mais brando
E abrando meu verso,
No parto ou no aborto
Encontro meu porto
Em rito diverso.
34111
O chão sendo meu
O resto eu me viro
E quando prefiro
O quanto perdeu
Assanha-se em breu
O beijo outro tiro
Momento desfiro
O tanto rendeu
Redimo o que fora
A porta se escora
Na fonte ou no caos
E teimo em promessa
Aonde tropeça
Nos tantos degraus.
34112
Meu mundo deserto
E quando em afeto
Riscara incompleto
Cenário que aberto
Pudesse decerto
Sentir mais completo
O quanto repleto
Em beijo e me alerto
Do peso da vida
Na força sentida
No conto sem tréguas
E sei dos enganos
Rompendo meus planos
E deles mil léguas.
34113
O gesto o sinal
O feno a fornalha
A morte amealha
Momento final
Risonho ou fatal
A porta se encalha
O peso atrapalha
Quem luta e afinal
Já sabe distante
O quanto adiante
Em passos resido
E tento o sorriso
No quanto preciso
O roto tecido.
34114
Salvando o que possa
No tanto que vejo
O mundo em desejo
Ainda não roça
A pele destroça
Num canto o lampejo
O verso sem pejo
A vida sem roça
O rosto se expondo
O corte tocando
O mundo que escondo
Na farsa onde crio
Cenário negando
Ou mesmo sombrio.
34115
O chão que refiz
Em tréguas e guerra
Aonde se encerra
O peso aprendiz
Do tanto sem bis
A vida descerra
Resumo outra terra
Por onde fui gris
E agora não vejo
Além do desejo
A sombra do fato
E tento seguir
Sem mesmo porvir
O quanto retrato.
34116
Resumo a minha vida
Nos tempos onde outrora
A boca não devora
Nem mesmo se progrida
Resisto a já perdida
O quanto sei de agora
O tempo me devora
E vejo outra saída
E enquanto fosse assim
O mundo tendo um fim
Encontro soluções
Aonde não pudera
Vencer a sorte e a fera
Enfrento furacões.
34117
Circulo quanto ondeio
O tempo que virá
Porquanto desde já
Procuro qualquer veio
Do qual serei alheio
E sei que tocará
Meu canto e formará
O farto em seu esteio.
O peso da esperança
A vida na lembrança
E o gozo redentor,
Traslada do passado
O dia onde moldado
O bem do imenso amor.
34118
A morte desde cedo
Rondando a minha vida
No quanto em despedida
Promete algum degredo
E quando me concedo
Na ausente voz urdida
No tempo ou na saída
Esquece o quanto ledo
Caminho vago em paz
E tanto se refaz
O que pensei perdido
Assim ao me entranhar
Nas ânsias do lutar
Sou desde já rendido.
34119
A vida sendo breve
O passo rumo ao nada
Esquiva punhalada
No quanto ainda atreve
Revela a fúria e a greve
Ou penso nesta estada
Porquanto desmembrada
E dela resta a neve
Alpendres, riscos, ritos
Momentos inauditos
Entranham mais promessas
E delas vejo apenas
Revigoradas cenas
No quanto recomeças.
34120
Dos tantos arremedos
Que a vida poderia
Traçar em poesia
Marcando dias ledos
E sei dos meus segredos
Outrora em heresia
Agora quando guia
Por mundos seus enredos
A sorte não de tramara
Além da fonte amara
E nela o meu caminho,
Refeito do meu erro
Bebendo o vão desterro
Prefiro andar sozinho.
34121
Caminho perdido
Em tantas promessas
E quando começas
Diverso sentido
O quanto em olvido
E neles avessas
Palavras confessas
No sonho investido
O rito frugal
Por vezes fatal
Ou mesmo fugaz
Anseio destino
E quando domino
Encharco o bornal.
34122
Procuro o que tanto
Ainda em reais
Palavras sinais
Pudessem espanto
Estampo no encanto
E sei muito mais
Dos versos iguais
Ou peso do quanto
Traçasse outro nexo
Aonde perplexo
Viria o meu ledo
Resisto ao que possa
Resido em palhoça
Diversa do enredo.
34123
Cambio o meu passo
Na busca do quase
E quanto defase
Enquanto me traço
No beijo o cansaço
O vento se atrase
A vida sem base
Ainda tão lasso
Arcando com erros
Além dos aterros
Comuns de quem sonha
Eu tento a saída
Há tanto fugida
Ou tanto me exponha.
34124
O quanto alcançara
Do todo final
Degrau por degrau
Ao corte levara
A mão desampara
Ou mesmo no igual
Caminho fatal
Aonde esta apara
Pudesse trazer
O tanto do ser
Que ainda resiste
Poeta se mente
Ou vira semente
De um tempo ora em riste.
34125
Riscando outra linha
Depois do que há tanto
Venera e agiganto
Ou mesmo continha
Palavra só minha
Que invento onde canto
E busco no pranto
Conter o que vinha,
Resido no fato
Do quanto resgato
O todo passado
O jeito se trama
Na luz, rua e lama
No tanto traçado.
34126
Cadernos e medos
Anseios e ritos
Momentos aflitos
Dispersos segredos
Os quadros já ledos
Falando dos gritos
Ou mesmo finitos
Perpétuos enredos,
As somas que escoram
Os dias afloram
Sem ter alforria,
Eu tento e desvendo
A vida outro adendo
Que em vida recria.
34127
Aberto caminho
Que possa trazer
Aonde há querer
Ao menos carinho
E tanto sozinho
Imenso poder
No tanto saber
Do verso em que alinho
O mundo sem fala
Ausente senzala
Na porta se abrindo
Depois do meu vão
Desejo de então
À sorte hoje eu brindo.
34128
Das léguas que andara
Em sombras e medo
Palavra eu concedo
No quanto se ampara
A morte outro ledo
Caminho do enredo
Que tudo escancara,
Resisto porquanto
O mundo que canto
Talvez se completa,
Mas nada se leia
Se a lua anda cheia
Repleta o poeta.
34129
O meu pensamento
Engomando a vida
Roubando a ferida
Tentando o que invento
Diverso provento
Há tanto esquecida
A ronda, esta lida
Esparsa no vento,
Eclode outro verso
E quando converso
Procuro esta sorte
Deitando no vago
E nele me alago
Porquanto conforte.
34130
A vida floresce
Nas luzes e fatos
E quando em maus tratos
O todo se tece
A farsa tropece
Nos dias retratos
De mansos regatos
Em fardos, fenece.
O peso que ainda
Servindo de amparo,
Diverso do faro
Aonde se brinda
Verdade sutil,
Por vezes gentil.
34131
Em meio aos meus desejos eu concebo
Um vale feito em trevas, medos luzes
E ao quanto do vazio tu conduzes
O dia quando em muito ou pouco bebo,
O resto da esperança onde recebo
Ao menos os sinais de velhas cruzes
Expondo a realidade não produzes
Senão cada momento, um vão placebo
Resisto o quanto possa e mesmo assim
Percebo a derrocada e quando o fim
Anunciado há tempos se aproxima
O vento do passado volve em fúria
Não resta mais senão medo e lamúria
Mudando a cada verso o velho clima.
34132
Ao ver o padecer em erros feito
Não pude conceber as soluções
E sei que novos dias e versões
Diversas dos que tanto ainda aceito
Sabendo quanto amar se fez direito
E tendo sob os olhos tais vulcões
E neles as prováveis dimensões
Mudando este cenário já desfeito,
Relembro os meus anseios de menino
E quantas vezes tolo me alucino
Bebendo desta mina em tais quintais
A fonte há tanto seca diz da morte
Que aos poucos aumentando o seu aporte
Não deixa qualquer sombras nem sinais.
34133
Amante do que fora uma esperança
Jogada sobre as pedras deste cais
Pisadas pelos velhos temporais
Aonde a morte em vida já descansa
Quem tanto se fizera em temperança
E agora não concebe nunca mais
Momentos que pensara magistrais
E o peso pende ao nada na balança
Defenestrando a sorte noutra senda,
O quanto do que possa ainda atenda
Levando cada verso ao que pudesse
Trazer das perspectivas outra cena
Porquanto a vida molda em ares vários
Além dos mais prováveis temporários
Desejos onde o sonho se apequena.
34134
Navego o pensamento em busca deste
Momento aonde pude ser feliz,
E quando a realidade me desdiz
O tempo se mostrara mais agreste
E o quanto do passado me reveste
E nele eternamente um aprendiz
Vivendo e cultivando a cicatriz
Tragando cada dia em que vieste
Erguendo um raro brinde à quem um dia
Servira como fosse companhia
E agora te abandona plenamente,
O tempo não refaz a velha história
E a lua ao longe morre merencória
E dela nem o dia se pressente.
34135
Já não suporto mais qualquer suspiro
Em tons de falsidade e hipocrisia
O tempo noutro tempo não havia
Sequer qualquer alento em que conspiro
E quando no vazio ainda atiro
O mundo se refaz e poderia
Mostrar ao menos riso e hipocrisia
E em volta da esperança ainda giro,
Escapo dos meus ermos quando posso
Vencer o que talvez ainda endosso
Usando dos meus versos mais gentis.
Mas deixo ao deus dará tal caminhada
A morte há tanto tempo preparada
Demonstra seus sinais, mesmo sutis.
34136
O quanto deste vento se formara
Nas ânsias mais audazes de quem tenta
Vencer em calmaria uma tormenta
Que tantas vezes dita a sorte amara,
Tomando com terror cada seara
E nela a solidão não apascenta
Morrera no vazio quando atenta
A vida noutra face preparara
Diverso sortilégio ou mesmo cenas
Por onde na verdade não serenas
E todas as manhãs são sonegadas.
O desespero dita cada ausência
Pudesse pelo menos a clemência
Vagando por caminhos, vãs estradas...
34137
Aonde na verdade me apeteço
Recebo com desdém as falsas luzes
E sei que quanto além tu me conduzes
O sonho não passara de adereço
E quando novo rumo até me esqueço
Deixando para trás antigas cruzes
Por vezes noutros tantos reproduzes
Além do que talvez quero e obedeço.
O farto caminhar em noite fria
Permite outra verdade em que se via
Retrato mais fiel de minha vida,
Sorrisos costumeiros esquecidos
E assim os dias morrem percebidos
Numa ânsia que denota esta partida.
34138
Minha alma assim calada vez em quando
Ouvindo a voz do vento na janela
Ao mesmo tempo dita rumo e vela
O pensamento em mares se entregando
Por vezes noutra face se formando
O quanto a própria vida não revela
Tecendo com ternura a antiga tela
O peso do viver me transtornando,
Resido no futuro mesmo ou quase
O tempo com certeza não atrase,
Mas deixa em entrelinha que se veja
A sorte delicada, mas atroz
E quando a realidade dita a voz
Qualquer palavra mansa é mais sobeja.
34139
Parti meu coração rumo ao começo
Dos sonhos onde tanto pude ver
Retrato de outro enorme e belo ser
Diverso do que tanto me apeteço
Revolvo o meu passado e sempre esqueço
Das velhas discordâncias do prazer
E tento novamente poder crer
O quanto o tempo vira-nos do avesso,
Amortalhado agora não me resta
Senão a fonte amarga e até funesta
Apodrecido corpo em rugas, marcas
E quando do passado ainda tento
Vagando sem destino o pensamento
Ausentes dos meus olhos, cais e barcas.
34140
Aonde poderia haver amor
Em idos tempos mortos, nada vem
E quantas vezes busco por alguém
Sem nada nem caminho a se propor,
Faltando no meu céu a imensa cor,
Vivendo da esperança muito aquém
A morte se tornando um grande bem
Cenário tumular, o redentor,
E adentro em tubos vários e mesquinhos
Resisto o que pudesse em tais caminhos
E sinto a provisão já se esgotando,
Não deixo qualquer traço de um adeus,
Os ritos se funéreos são só meus,
A paz beija o cadáver em tom brando.
34141
Apesar da distância em que se vê
O tempo em desairosa confusão
Encontro quem pudera outra versão
Daquela que procuro e quem há de
Dizer das manhãs fartas de verão
Aonde poderia algum por que
Tramar outros momentos que virão
Bebendo da total sofreguidão
Na qual emaranhara o meu prazer.
Esgarço-me deveras no vazio
E quando novo tempo até desfio
Usando da palavra até malsã
O fardo se acumula em minhas costas
E sei destas verdades recompostas
Geradas pela ausência de amanhã.
34142
Não vejo mais perdido qualquer rumo
Aonde poderia crer num fato
E se deveras tento e me retrato
Nos erros costumeiros eu assumo
O gosto mais atroz de quem aprumo
E bebo com ternura este regato
Regresso aos descaminhos e num ato
Diverso do que outrora até consumo
Esgueiro-me entre pedras e tormentas
E sei que no final tu me apascentas
Usando da palavra mais suave,
E sendo costumeira a derrocada
Aonde poderia uma alvorada
Apenas o vazio que me entrave.
34143
Pudesse concernir em resistência
O passo rumo ao fato de poder
Acreditar nas tramas do querer
Embora no final haja inclemência
O vento se mostrando em penitência
Gerando novo tempo a se perder
Na ausência do que possa amanhecer
O amor gerando apenas a excrescência
Arrasto-me deveras entre as feras
E beijo cada dia em que temperas
Com fúria ou mais completa insanidade
Porquanto possa ver outro retrato
No espelho aonde enfim eu me resgato
Vencido pelo tempo que degrade.
34144
Pudesse sem rigor seguir a vida
E crer noutro momento mais tranqüilo
E quando brindo à sorte e assim desfilo
A morte novamente sendo urdida,
Palavra que sagrando a despedida
Esconde novamente o que ora grilo
Vagando pelos mares noutro estilo
Sem ilha que permita uma saída,
Percebo quanto é fútil o meu dia
E nele nova senda se faria
Amordaçando a voz de quem pudera
Sentir outro caminho mais diverso
E quando nos meus ermos me disperso
Alimentando a angústia, esta quimera.
34145
A dor quando supero em ritos falsos
E sei dos meus momentos mais felizes
Apesar de viver intensas crises
O crescimento é feito nos percalços
Os pés abençoados são descalços
E assim ao renegar o que me dizes
Por vezes entre quedas e deslizes
Aumentam os possíveis cadafalsos,
Escassas alegrias inda sinto
Embora este tormento outrora extinto
Renasce com furor e não sossega,
Minha alma se perfaz em doce tédio,
E o quanto do querer domando o assédio
Tornando a minha vida dura e cega.
34146
Jamais pude exceder aos descaminhos
E neles encontrara a solução
Do tempo que se vai em tal verão
Deixando ao desalento velhos ninhos.
Resisto aos meus anseios e carinhos
Meus olhos na verdade não verão
Voltando novamente ao velho grão
E neles entre pedras sei espinhos
Percebo cada ausência como fosse
Momento mesmo audaz ou agridoce
Resíduo de outro canto ainda vivo,
Porém em liberdade nada escuto,
O mundo contra o qual por vezes luto
Não verá nunca o sonho enfim cativo.
34147
Não quero e nem pretendo nova sina
Desfalecido olhar sem horizonte,
Ao menos noutro tanto ainda aponte
A fúria que deveras me domina,
O corte quando muito me fascina
E toma com certeza toda a fonte,
Pudesse acreditar sem que confronte
Nas ânsias de minha alma tão menina,
Esquinas entre ruas e calçadas
As horas entre angústias desenhadas
Resistem ao que possa haver em mim,
Eu sirvo de alimária e até consigo
Saber da causa imensa em desabrigo
Tragando gole a gole rum e gim.
34148
Os dias que seriam mais adversos
Eu tento desvendar em novo rito
E quando inutilmente ainda grito
Usando a profusão de tantos versos
Nos passos entre passos tão dispersos
Os quadros desenvolvem cada mito
E tanto poderia mais bonito
Meu sonho entre sonhos quando imersos,
Mas ando em noite escusa sem paragem,
Apenas o vazio outra paisagem
Restando sob os olhos mais felizes,
E quando busco apenas solução
Meu tempo se mostrando em divisão
Refém das velhas ânsias que me dizes.
34149
Saudades não consigo conceber
Depois de tantos anos entre trevas
E quando as fantasias, ledas levas
Galgando novos rumos posso ver,
Olhando sem sentir ou nem sofrer
Porquanto novos dias também levas
E deixas para trás vazias cevas
Mortalha da esperança a se tecer,
No ocaso de uma vida nada mude
E sei do quanto pode em juventude
Sonhar quem já não sonha e nem anseia
A morte ronda a cena e me sossega,
Porquanto neste etéreo alma navega
À própria dita a vida segue alheia.
34150
Não posso nem pretendo algum socorro
De quem se fez mordaz ou mesmo sonsa
No olhar da inútil fera, fosse uma onça
Apenas o vazio em alto morro,
Não sou apenas restos, mergulhando
No quanto pude crer em redenção
Momentos mais sobejos poderão
Deixar o canto amargo, ameno e brando,
Mas tudo não passando de cenário
E nele redimindo outro momento
Porquanto bebo a sorte noutro vento
O amor jamais seria este corsário
Nem mesmo a imensidão pudesse ver
Quem tanto se desfez em desprazer.
Um gole de café o sol nascendo
A vida se refaz e permanece
Enquanto em outra face já se esquece
E um pouco a cada dia se perdendo,
Os elos do passado vão mantendo
A teia que este tempo aos poucos tece
Cabelo como uma alma se embranquece
Este tempo avançando e me envolvendo
Teares de emoções mesmo tecido
O dia que ficou segue em olvido
E o novo como um sol refeito brilha,
Assim até que o fim se aproximando
A tela do viver se completando
Magnífica e fugaz, diversa trilha...
34102
Perdendo algum instante com o sonho
Por vezes na batalha engrandecera
O passo que por vezes se perdera
Em meio ao descaminho mais bisonho,
O tempo diz pavio e diz da cera
E neste reviver duro ou risonho,
O quanto se percebe e não componho
Traduz cada momento que eu vivera,
Assisto ao espetáculo da vida
E vejo vez em quando uma saída
Aonde se pensara em labirinto,
E quando mergulhando dentro em mim
Começo prenuncia o mesmo fim
E o todo noutro instante vejo extinto.
34103
Pelejo contra a sorte desdenhosa
E sigo coletando riso e dor
Materiais dos quais busco compor
A vida em tom diverso e caprichosa
A mão que ceva espinho e colhe a rosa
Dicotomias vejo até na flor
E sendo temerário e sedutor
O mundo noutra face majestosa,
Resume cada fato em variantes
O que se agora faz noutros instantes
Completamente inútil poderia
E enquanto o tempo roda, gira eu sigo
O todo que inda busco e até consigo
No renovar constante dia a dia...
34104
O medo de sentir a punhalada
Expõe a cada instante outro cenário
E sei o quanto fora imaginário
Restando deste todo o quase nada,
O vento em calmaria ou em lufada
O gesto muitas vezes solidário
O passo que se perde solitário
E o quanto se fugindo desta alçada,
Não tendo mais remédio e lenitivo
Apenas lasso corpo sobrevivo
E tento vislumbrar alguma luz
Após a noite fria e tão brumosa
Manhã se soerguendo majestosa
A vida noutra face se produz.
34105
O mel das esperanças primavera
Há tanto se perdera dos meus dias,
Restando em companhia as poesias
Aonde a morte dita a longa espera,
A sorte muitas vezes degenera
E o quanto prometias e não vias
Cenários entre trevas e ardentias
Propício ao renascer desta quimera
Que atocaiada espreita o fim da tarde
Mortalha por enquanto inda se guarde,
Mas sei que em pouco tempo me trará
Na lápide epitáfios ou vazios
E assim imerso em rumos mais sombrios
A doce eternidade se fará.
34106
A vida insiste à toa enquanto toa
Ao longe melodias que me falem
Dos dias que deveras não se calem
Enquanto a voz de uma esperança não ecoa
E o tempo mansamente enfim se escoa
Nas alas e nos sonhos que resvalem
Nos passos onde os dias nada valem
Tocando a minha sorte numa boa
A morte que entranhara cada dia
Vestida de terror teima heresia
E beija a ingrata face da verdade
Brotando deste solo em aridez
A flor de uma esperança se desfez
E apenas solidão ainda invade.
34107
Vadias noites bares temporadas
E as ânsias entre risos e perdões
A vida entre diversas dimensões
E quando se perguntam mesmos nadas
As ânsias entre as ânsias demonstradas
Ganâncias quando em frondes tu me expões
Restando-me somente os violões
E neles outras tantas madrugadas
Riscando os meus caminhos as ousadas
Noturnas emoções entregue ao quanto
Pudesse novamente em vago encanto
Tramar outros desejos, rotas rumos,
E quando me entregara sem defesa
Ao menos não consigo ser a presa
Expondo as ilusões dispersos fumos...
34108
Minha vida acesa
Nas tramas e ventos
Sutis sofrimentos
A sorte em leveza
Negando e surpresa
Os cortes e alentos
Os dias proventos
De tanta beleza
Aonde enfadonho
Adentro e até sonho
Riscando do mapa
Aporto ao não ser
Enquanto em prazer
A vida me escapa.
34109
Quem tanto acendera
O mundo sem ritos
E os dias finitos
Ao menos vencera
A fonte perdera
Ou cantos e gritos
As sombras e ritos
O corte a quimera
O jeito se esgueira
Nascente e ribeira
No olhar onde o canto
Pudesse ser mais
Que alguns vãos cristais
Expondo o recanto.
34110
Beleza que entranha
A força do nada
E sinto a alvorada
No quanto esta sanha
Pudesse já ganha
Tramar outra estada
Riscando a alvejada
Partida onde estranha
O passo rumando
Ao dia mais brando
E abrando meu verso,
No parto ou no aborto
Encontro meu porto
Em rito diverso.
34111
O chão sendo meu
O resto eu me viro
E quando prefiro
O quanto perdeu
Assanha-se em breu
O beijo outro tiro
Momento desfiro
O tanto rendeu
Redimo o que fora
A porta se escora
Na fonte ou no caos
E teimo em promessa
Aonde tropeça
Nos tantos degraus.
34112
Meu mundo deserto
E quando em afeto
Riscara incompleto
Cenário que aberto
Pudesse decerto
Sentir mais completo
O quanto repleto
Em beijo e me alerto
Do peso da vida
Na força sentida
No conto sem tréguas
E sei dos enganos
Rompendo meus planos
E deles mil léguas.
34113
O gesto o sinal
O feno a fornalha
A morte amealha
Momento final
Risonho ou fatal
A porta se encalha
O peso atrapalha
Quem luta e afinal
Já sabe distante
O quanto adiante
Em passos resido
E tento o sorriso
No quanto preciso
O roto tecido.
34114
Salvando o que possa
No tanto que vejo
O mundo em desejo
Ainda não roça
A pele destroça
Num canto o lampejo
O verso sem pejo
A vida sem roça
O rosto se expondo
O corte tocando
O mundo que escondo
Na farsa onde crio
Cenário negando
Ou mesmo sombrio.
34115
O chão que refiz
Em tréguas e guerra
Aonde se encerra
O peso aprendiz
Do tanto sem bis
A vida descerra
Resumo outra terra
Por onde fui gris
E agora não vejo
Além do desejo
A sombra do fato
E tento seguir
Sem mesmo porvir
O quanto retrato.
34116
Resumo a minha vida
Nos tempos onde outrora
A boca não devora
Nem mesmo se progrida
Resisto a já perdida
O quanto sei de agora
O tempo me devora
E vejo outra saída
E enquanto fosse assim
O mundo tendo um fim
Encontro soluções
Aonde não pudera
Vencer a sorte e a fera
Enfrento furacões.
34117
Circulo quanto ondeio
O tempo que virá
Porquanto desde já
Procuro qualquer veio
Do qual serei alheio
E sei que tocará
Meu canto e formará
O farto em seu esteio.
O peso da esperança
A vida na lembrança
E o gozo redentor,
Traslada do passado
O dia onde moldado
O bem do imenso amor.
34118
A morte desde cedo
Rondando a minha vida
No quanto em despedida
Promete algum degredo
E quando me concedo
Na ausente voz urdida
No tempo ou na saída
Esquece o quanto ledo
Caminho vago em paz
E tanto se refaz
O que pensei perdido
Assim ao me entranhar
Nas ânsias do lutar
Sou desde já rendido.
34119
A vida sendo breve
O passo rumo ao nada
Esquiva punhalada
No quanto ainda atreve
Revela a fúria e a greve
Ou penso nesta estada
Porquanto desmembrada
E dela resta a neve
Alpendres, riscos, ritos
Momentos inauditos
Entranham mais promessas
E delas vejo apenas
Revigoradas cenas
No quanto recomeças.
34120
Dos tantos arremedos
Que a vida poderia
Traçar em poesia
Marcando dias ledos
E sei dos meus segredos
Outrora em heresia
Agora quando guia
Por mundos seus enredos
A sorte não de tramara
Além da fonte amara
E nela o meu caminho,
Refeito do meu erro
Bebendo o vão desterro
Prefiro andar sozinho.
34121
Caminho perdido
Em tantas promessas
E quando começas
Diverso sentido
O quanto em olvido
E neles avessas
Palavras confessas
No sonho investido
O rito frugal
Por vezes fatal
Ou mesmo fugaz
Anseio destino
E quando domino
Encharco o bornal.
34122
Procuro o que tanto
Ainda em reais
Palavras sinais
Pudessem espanto
Estampo no encanto
E sei muito mais
Dos versos iguais
Ou peso do quanto
Traçasse outro nexo
Aonde perplexo
Viria o meu ledo
Resisto ao que possa
Resido em palhoça
Diversa do enredo.
34123
Cambio o meu passo
Na busca do quase
E quanto defase
Enquanto me traço
No beijo o cansaço
O vento se atrase
A vida sem base
Ainda tão lasso
Arcando com erros
Além dos aterros
Comuns de quem sonha
Eu tento a saída
Há tanto fugida
Ou tanto me exponha.
34124
O quanto alcançara
Do todo final
Degrau por degrau
Ao corte levara
A mão desampara
Ou mesmo no igual
Caminho fatal
Aonde esta apara
Pudesse trazer
O tanto do ser
Que ainda resiste
Poeta se mente
Ou vira semente
De um tempo ora em riste.
34125
Riscando outra linha
Depois do que há tanto
Venera e agiganto
Ou mesmo continha
Palavra só minha
Que invento onde canto
E busco no pranto
Conter o que vinha,
Resido no fato
Do quanto resgato
O todo passado
O jeito se trama
Na luz, rua e lama
No tanto traçado.
34126
Cadernos e medos
Anseios e ritos
Momentos aflitos
Dispersos segredos
Os quadros já ledos
Falando dos gritos
Ou mesmo finitos
Perpétuos enredos,
As somas que escoram
Os dias afloram
Sem ter alforria,
Eu tento e desvendo
A vida outro adendo
Que em vida recria.
34127
Aberto caminho
Que possa trazer
Aonde há querer
Ao menos carinho
E tanto sozinho
Imenso poder
No tanto saber
Do verso em que alinho
O mundo sem fala
Ausente senzala
Na porta se abrindo
Depois do meu vão
Desejo de então
À sorte hoje eu brindo.
34128
Das léguas que andara
Em sombras e medo
Palavra eu concedo
No quanto se ampara
A morte outro ledo
Caminho do enredo
Que tudo escancara,
Resisto porquanto
O mundo que canto
Talvez se completa,
Mas nada se leia
Se a lua anda cheia
Repleta o poeta.
34129
O meu pensamento
Engomando a vida
Roubando a ferida
Tentando o que invento
Diverso provento
Há tanto esquecida
A ronda, esta lida
Esparsa no vento,
Eclode outro verso
E quando converso
Procuro esta sorte
Deitando no vago
E nele me alago
Porquanto conforte.
34130
A vida floresce
Nas luzes e fatos
E quando em maus tratos
O todo se tece
A farsa tropece
Nos dias retratos
De mansos regatos
Em fardos, fenece.
O peso que ainda
Servindo de amparo,
Diverso do faro
Aonde se brinda
Verdade sutil,
Por vezes gentil.
34131
Em meio aos meus desejos eu concebo
Um vale feito em trevas, medos luzes
E ao quanto do vazio tu conduzes
O dia quando em muito ou pouco bebo,
O resto da esperança onde recebo
Ao menos os sinais de velhas cruzes
Expondo a realidade não produzes
Senão cada momento, um vão placebo
Resisto o quanto possa e mesmo assim
Percebo a derrocada e quando o fim
Anunciado há tempos se aproxima
O vento do passado volve em fúria
Não resta mais senão medo e lamúria
Mudando a cada verso o velho clima.
34132
Ao ver o padecer em erros feito
Não pude conceber as soluções
E sei que novos dias e versões
Diversas dos que tanto ainda aceito
Sabendo quanto amar se fez direito
E tendo sob os olhos tais vulcões
E neles as prováveis dimensões
Mudando este cenário já desfeito,
Relembro os meus anseios de menino
E quantas vezes tolo me alucino
Bebendo desta mina em tais quintais
A fonte há tanto seca diz da morte
Que aos poucos aumentando o seu aporte
Não deixa qualquer sombras nem sinais.
34133
Amante do que fora uma esperança
Jogada sobre as pedras deste cais
Pisadas pelos velhos temporais
Aonde a morte em vida já descansa
Quem tanto se fizera em temperança
E agora não concebe nunca mais
Momentos que pensara magistrais
E o peso pende ao nada na balança
Defenestrando a sorte noutra senda,
O quanto do que possa ainda atenda
Levando cada verso ao que pudesse
Trazer das perspectivas outra cena
Porquanto a vida molda em ares vários
Além dos mais prováveis temporários
Desejos onde o sonho se apequena.
34134
Navego o pensamento em busca deste
Momento aonde pude ser feliz,
E quando a realidade me desdiz
O tempo se mostrara mais agreste
E o quanto do passado me reveste
E nele eternamente um aprendiz
Vivendo e cultivando a cicatriz
Tragando cada dia em que vieste
Erguendo um raro brinde à quem um dia
Servira como fosse companhia
E agora te abandona plenamente,
O tempo não refaz a velha história
E a lua ao longe morre merencória
E dela nem o dia se pressente.
34135
Já não suporto mais qualquer suspiro
Em tons de falsidade e hipocrisia
O tempo noutro tempo não havia
Sequer qualquer alento em que conspiro
E quando no vazio ainda atiro
O mundo se refaz e poderia
Mostrar ao menos riso e hipocrisia
E em volta da esperança ainda giro,
Escapo dos meus ermos quando posso
Vencer o que talvez ainda endosso
Usando dos meus versos mais gentis.
Mas deixo ao deus dará tal caminhada
A morte há tanto tempo preparada
Demonstra seus sinais, mesmo sutis.
34136
O quanto deste vento se formara
Nas ânsias mais audazes de quem tenta
Vencer em calmaria uma tormenta
Que tantas vezes dita a sorte amara,
Tomando com terror cada seara
E nela a solidão não apascenta
Morrera no vazio quando atenta
A vida noutra face preparara
Diverso sortilégio ou mesmo cenas
Por onde na verdade não serenas
E todas as manhãs são sonegadas.
O desespero dita cada ausência
Pudesse pelo menos a clemência
Vagando por caminhos, vãs estradas...
34137
Aonde na verdade me apeteço
Recebo com desdém as falsas luzes
E sei que quanto além tu me conduzes
O sonho não passara de adereço
E quando novo rumo até me esqueço
Deixando para trás antigas cruzes
Por vezes noutros tantos reproduzes
Além do que talvez quero e obedeço.
O farto caminhar em noite fria
Permite outra verdade em que se via
Retrato mais fiel de minha vida,
Sorrisos costumeiros esquecidos
E assim os dias morrem percebidos
Numa ânsia que denota esta partida.
34138
Minha alma assim calada vez em quando
Ouvindo a voz do vento na janela
Ao mesmo tempo dita rumo e vela
O pensamento em mares se entregando
Por vezes noutra face se formando
O quanto a própria vida não revela
Tecendo com ternura a antiga tela
O peso do viver me transtornando,
Resido no futuro mesmo ou quase
O tempo com certeza não atrase,
Mas deixa em entrelinha que se veja
A sorte delicada, mas atroz
E quando a realidade dita a voz
Qualquer palavra mansa é mais sobeja.
34139
Parti meu coração rumo ao começo
Dos sonhos onde tanto pude ver
Retrato de outro enorme e belo ser
Diverso do que tanto me apeteço
Revolvo o meu passado e sempre esqueço
Das velhas discordâncias do prazer
E tento novamente poder crer
O quanto o tempo vira-nos do avesso,
Amortalhado agora não me resta
Senão a fonte amarga e até funesta
Apodrecido corpo em rugas, marcas
E quando do passado ainda tento
Vagando sem destino o pensamento
Ausentes dos meus olhos, cais e barcas.
34140
Aonde poderia haver amor
Em idos tempos mortos, nada vem
E quantas vezes busco por alguém
Sem nada nem caminho a se propor,
Faltando no meu céu a imensa cor,
Vivendo da esperança muito aquém
A morte se tornando um grande bem
Cenário tumular, o redentor,
E adentro em tubos vários e mesquinhos
Resisto o que pudesse em tais caminhos
E sinto a provisão já se esgotando,
Não deixo qualquer traço de um adeus,
Os ritos se funéreos são só meus,
A paz beija o cadáver em tom brando.
34141
Apesar da distância em que se vê
O tempo em desairosa confusão
Encontro quem pudera outra versão
Daquela que procuro e quem há de
Dizer das manhãs fartas de verão
Aonde poderia algum por que
Tramar outros momentos que virão
Bebendo da total sofreguidão
Na qual emaranhara o meu prazer.
Esgarço-me deveras no vazio
E quando novo tempo até desfio
Usando da palavra até malsã
O fardo se acumula em minhas costas
E sei destas verdades recompostas
Geradas pela ausência de amanhã.
34142
Não vejo mais perdido qualquer rumo
Aonde poderia crer num fato
E se deveras tento e me retrato
Nos erros costumeiros eu assumo
O gosto mais atroz de quem aprumo
E bebo com ternura este regato
Regresso aos descaminhos e num ato
Diverso do que outrora até consumo
Esgueiro-me entre pedras e tormentas
E sei que no final tu me apascentas
Usando da palavra mais suave,
E sendo costumeira a derrocada
Aonde poderia uma alvorada
Apenas o vazio que me entrave.
34143
Pudesse concernir em resistência
O passo rumo ao fato de poder
Acreditar nas tramas do querer
Embora no final haja inclemência
O vento se mostrando em penitência
Gerando novo tempo a se perder
Na ausência do que possa amanhecer
O amor gerando apenas a excrescência
Arrasto-me deveras entre as feras
E beijo cada dia em que temperas
Com fúria ou mais completa insanidade
Porquanto possa ver outro retrato
No espelho aonde enfim eu me resgato
Vencido pelo tempo que degrade.
34144
Pudesse sem rigor seguir a vida
E crer noutro momento mais tranqüilo
E quando brindo à sorte e assim desfilo
A morte novamente sendo urdida,
Palavra que sagrando a despedida
Esconde novamente o que ora grilo
Vagando pelos mares noutro estilo
Sem ilha que permita uma saída,
Percebo quanto é fútil o meu dia
E nele nova senda se faria
Amordaçando a voz de quem pudera
Sentir outro caminho mais diverso
E quando nos meus ermos me disperso
Alimentando a angústia, esta quimera.
34145
A dor quando supero em ritos falsos
E sei dos meus momentos mais felizes
Apesar de viver intensas crises
O crescimento é feito nos percalços
Os pés abençoados são descalços
E assim ao renegar o que me dizes
Por vezes entre quedas e deslizes
Aumentam os possíveis cadafalsos,
Escassas alegrias inda sinto
Embora este tormento outrora extinto
Renasce com furor e não sossega,
Minha alma se perfaz em doce tédio,
E o quanto do querer domando o assédio
Tornando a minha vida dura e cega.
34146
Jamais pude exceder aos descaminhos
E neles encontrara a solução
Do tempo que se vai em tal verão
Deixando ao desalento velhos ninhos.
Resisto aos meus anseios e carinhos
Meus olhos na verdade não verão
Voltando novamente ao velho grão
E neles entre pedras sei espinhos
Percebo cada ausência como fosse
Momento mesmo audaz ou agridoce
Resíduo de outro canto ainda vivo,
Porém em liberdade nada escuto,
O mundo contra o qual por vezes luto
Não verá nunca o sonho enfim cativo.
34147
Não quero e nem pretendo nova sina
Desfalecido olhar sem horizonte,
Ao menos noutro tanto ainda aponte
A fúria que deveras me domina,
O corte quando muito me fascina
E toma com certeza toda a fonte,
Pudesse acreditar sem que confronte
Nas ânsias de minha alma tão menina,
Esquinas entre ruas e calçadas
As horas entre angústias desenhadas
Resistem ao que possa haver em mim,
Eu sirvo de alimária e até consigo
Saber da causa imensa em desabrigo
Tragando gole a gole rum e gim.
34148
Os dias que seriam mais adversos
Eu tento desvendar em novo rito
E quando inutilmente ainda grito
Usando a profusão de tantos versos
Nos passos entre passos tão dispersos
Os quadros desenvolvem cada mito
E tanto poderia mais bonito
Meu sonho entre sonhos quando imersos,
Mas ando em noite escusa sem paragem,
Apenas o vazio outra paisagem
Restando sob os olhos mais felizes,
E quando busco apenas solução
Meu tempo se mostrando em divisão
Refém das velhas ânsias que me dizes.
34149
Saudades não consigo conceber
Depois de tantos anos entre trevas
E quando as fantasias, ledas levas
Galgando novos rumos posso ver,
Olhando sem sentir ou nem sofrer
Porquanto novos dias também levas
E deixas para trás vazias cevas
Mortalha da esperança a se tecer,
No ocaso de uma vida nada mude
E sei do quanto pode em juventude
Sonhar quem já não sonha e nem anseia
A morte ronda a cena e me sossega,
Porquanto neste etéreo alma navega
À própria dita a vida segue alheia.
34150
Não posso nem pretendo algum socorro
De quem se fez mordaz ou mesmo sonsa
No olhar da inútil fera, fosse uma onça
Apenas o vazio em alto morro,
Não sou apenas restos, mergulhando
No quanto pude crer em redenção
Momentos mais sobejos poderão
Deixar o canto amargo, ameno e brando,
Mas tudo não passando de cenário
E nele redimindo outro momento
Porquanto bebo a sorte noutro vento
O amor jamais seria este corsário
Nem mesmo a imensidão pudesse ver
Quem tanto se desfez em desprazer.
terça-feira, 25 de maio de 2010
34051 até 34100
34051
Descendo pelos rios da esperança
Vagando por espaços e calvários
Os dias entre tantos temerários
A sorte mais distante não alcança
A margem deste quando já se lança
Além de outros caminhos, sei que vários
Os passos entre cais imaginários
E o medo com a vida em aliança
Adentra cada bar, cidade e vila
A morte noutra face não vacila
E galga em luz sombria o que eu desejo,
Caminho sobre as luzes do passado
Tentando desvendar o velho fado
E apenas o vazio ainda vejo...
34052
As noites são iguais para quem sonha
Vagar em tempestades com a paz
Nos olhos quando a vida já desfaz
Deixando no lugar a voz medonha
Do tempo quando ao nada nos proponha
E molde cada rito em luz mordaz
Deixando para trás e assim desfaz
O quanto poderia e não componha.
Resisto aos meus anseios, mas não possa
Uma alma superar o trauma e a fossa
Aonde sem caminhos segue em vão,
Meu mundo desabando aonde apenas
Queria noites claras e serenas
O tempo noutro fio e direção.
34053
Cantarei a esperança se puder
A velha companhia dos meus dias
Em meio às tempestades mais sombrias
E tudo o que talvez inda vier,
Rondando a minha sorte sem qualquer
Alento aonde ainda poderias
Traçar com mais ternuras melodias
E nelas o que o sonho bem mais quer,
Cumprindo o meu destino em treva e sombra
A morte quando muito não assombra
Seduz e me tratando em dor sem tréguas
Distante de algum porto, milhas, léguas
Resisto o quanto posso, mas apenas
Com dores e mortalhas tu me acenas.
34054
Eu busco a claridade aonde há tanto
Jamais se poderia imaginar
Além deste vazio sem chegar
Ao quanto poderia e ledo espanto,
Mergulho no vazio e desencanto
E tanto poderia navegar
Vencendo as intempéries deste mar
E nele com certeza me agiganto,
Mas sei do inesquecível medo quando
O mundo noutra face se moldando
Apenas traz o medo e me amortalha,
Resisto o quanto posso, mas bem sei
O quanto a tempestade dita a lei
Adentra o corte fundo da navalha.
34055
De sangue e de ilusões meu passo é feito
E tenta noutra face ver ainda
Manhã que inda pudesse ser mais linda
Ausência de ternura quando deito
E bebo sem saber de algum proveito
O quanto a morte trama e sei que brinda
Nas ânsias do vazio se deslinda
O olhar jamais em paz ou satisfeito,
As tramas desta vida dizem disto,
E quando não me canso e não desisto
Bebendo cada sorte noutro impasse
O risco de sonhar não mais agrada
E a morte se apresenta em alvorada
E impede que este sol o sonho grasse...
34056
Meu pranto se mostrando a cada instante
E nele não permito outro caminho
Aonde se mostrara mais sozinho
O fardo que deveras se adiante
E mude a cada fato ou mais constante
Delírio em que esta vida trame o vinho
Inebriadamente outro carinho
Dispersa em desalento o que me agigante.
A vida reclamando este abandono
E o quanto do meu mundo não me adono
Deixando para trás tesouro e sonho,
Demoro-me nas sendas da esperança
E sei que tanto medo à dor se lança
E assim apenas nada recomponho.
34057
Quem dera ouvisse a voz de quem se fez
Além de tempestade ou ventania,
O medo noutro tanto desafia
O quanto poderia sensatez,
Meu passo transcorrendo em palidez
O corte na garganta não adia
A morte noutra face moldaria
Palavra que não pensas ou não crês.
Restando dentro em mim ledo vazio
Que a cada novo tempo desafio
Lutando inutilmente contra a sorte,
A boca se afastando, o beijo ausente
E nada deste mundo se apresente
Enquanto um novo sonho não conforte.
34058
Ainda se pudesse em harmonia
Galgar um doce tempo em paz, mas quando
Eu vejo o mundo inteiro desabando
A faca noutro gume mostraria
A sorte destroçando cada dia,
O vento em tempestade demonstrando
O canto que sonhara se acabando
Ausente dos meus passos melodia.
A porta não se abrindo e atrás de mim
A dor adentra firme e sei que assim
A morte se consome num momento,
Pudesse acreditar e ainda tento,
Mas quando vejo a fome de esperança
A voz noutro vazio já se lança.
34059
Ao menos poderia uma canção
Trazer o mar imenso para mim,
E quando mergulhando em luz sem fim
O passo se perdendo em multidão,
E agora dentro da alma a solidão
Mudando cada passo, traz enfim
A angústia recostando e sei que vim
Buscar além da intensa dimensão
Resgates destes sonhos de um passado
Há tanto adormecido e abandonado
Jogado sobre as ondas mar afora,
As conchas e as estrelas e os poemas
Além do que deveras queiras, temas,
A morte ao mesmo instante me devora.
34060
Uma alma se perdendo em noite e treva
Galgando a movediça areia aonde
A lua se afastando já se esconde
E apenas a saudade ainda neva,
Adormecido sonho nega a ceva
A vida que procuro não responde
E a morte quanto tanto ainda sonde
Além de qualquer brilho já me leva.
Perdida caminhada em noite vã
O medo se mostrara noutro afã
E tudo se perdera em vaga sombra,
O espectro do que fomos se aproxima
E assim se molda em frio o vário clima
Fantasmas do que somos inda assombra...
34061
Ao tanto que pudesse em voz macia
Falar à minha gente em verso e sol,
Apenas a esperança este farol
Ainda em noite imensa assim me guia,
As mãos entrelaçadas, novo dia
O tempo se mostrara agora em prol
Um sonho de inconstante girassol
E nele toda a voz não mais diria
Da dor que em agonia nos consome,
A face decomposta em bala e fome
O corpo se estendendo em cada rua
Cidades e favelas, vilas, medos,
Assim ao se mostrarem tais enredos
Apenas a mortalha se cultua...
34062
Resgato tempos idos nos meus versos
E tento desvendar velhos segredos
E quando noutros tantos vis degredos
Os olhos sem caminho vão imersos,
Os passos do futuro estão dispersos
E sei quantos desejos mortos ledos,
E neles não concedo meus enredos
Arcando com terríveis universos.
Renasço a cada farpa faca e adaga
O quanto do passado ainda vaga
Tomando um gole em cada botequim
Desta alma aberta em fúria que se atesta
Gerada pelas ânsias da tempesta
Mostrando o que inda existe vivo em mim.
34063
Aonde poderia em verso e paz
Falar do que pudesse uma esperança
A voz desta emoção quando me alcança
Momento soberano já me traz,
O passo mais difícil e sei audaz
Gestado pela ausente temperança
Matando esta ilusão velha criança
E tanto quanto posso se desfaz
Nas noites mais sombrias verso e luz
O vento que deveras me conduz
Rescende aos temporais onde vivi
A fonte inesgotável diz do sonho
E quando outro soneto assim componho
Um pouco do que é morto renasci.
34064
Acreditar ainda nesta vida
E ter nos olhos brilhos e esperança
Enquanto a faca a fome a fúria nos alcança
E a sorte se prepara em despedida,
O vento na manhã, pois ressurgida
Expressa a variedade e assim se lança
Na conta mais expressa da lembrança
Vivendo a calmaria sem que agrida,
Renasço nos meus versos mais felizes
E miro cada passo em cicatrizes
Deixados como um rastro em sangue e pus,
Mergulho nos meus ermos e me vejo
Aquém do que talvez dite o desejo
E neste caminhar ao fim me opus.
34065
À vida que me faz o ser poeta
E tento distinguir caminhos onde
O medo na verdade não se esconde
E a voz noutro cenário se completa.
A morte produzida em fina seta
E nela cada estrela dita o fronde
Do tempo que deveras se arredonde
Gananciosamente a dor depleta.
Mas tento contornar com algum riso
E vejo quando mesmo em prejuízo
Montanhas e planícies da ilusão
E nesta tempestade em voz e sonho
O canto a cada ausência me proponho
Tentando reviver embora em vão.
34066
Graças a quem tanto poderia
Traçar em tempestade e temporal
O fardo do viver em desigual
Caminho que fomenta a ventania,
Ou mesmo quando a fonte já se adia
E renovando um passo no degrau
Por onde produzisse atemporal
Delírio feito em paz ou agonia.
Agraciando o passo com teu brilho
O sonho noutros ritos eu polvilho
E tento controlar o meu destino,
Mas sei quanto é difícil ver a senda
Que tanto mais conceba e já me atenda
Se nem o meu sonhar inda domino...
34067
Caminhos deslumbrantes mar afora
E o vento de quem tanto desejara
A noite mais suave mansa e clara
Na morte em suicídio se decora,
A fonte iridescente desde agora
Encontra esta ternura bela e rara
No verso que deveras desampara
Ao mesmo tempo a luz assim aflora,
A solidão decerto é companheira
De quem em poesia já se inteira
Bebendo deste sonho inebriante
Vagando sem destino pela vida
Procurando encontrar uma saída
Aonde cada passo se adiante.
34068
O medo não pudera ser assim
O mote mais comum aonde eu tento
Vencer este caminho violento
Da dura persistência que há em mim,
Eu tento disfarçar este jardim
E nele com ternura ainda alento
O fardo tão temível, sofrimento
Bebendo da esperança até o fim.
Irmãos que a vida traz em face mansa
Aonde cada luz esta amizade lança
Aproximando o passo rumo ao quando.
E sei que compartilho do caminho
Sentindo cada braço como um ninho
E neste aconchego me moldando...
34069
Ao passo em que pudesse a liberdade
Alçar além dos anos fatos sonhos
Eu vejo os dias claros ou bisonhos
Na luz que me transporte e já me invade,
O cardo se moldando em realidade
Voltando aos meus momentos mais risonhos
E neles entre fardos mais tristonhos
Romper desta ilusão a imensa grade.
Enreda-me este brilho aonde a teia
Dos sonhos com certeza me incendeia
Deixando para trás dor e tormenta,
A vida se mostrando em cor diversa
Porquanto sobre o encanto já se versa
E assim a cada passo me alimenta.
34070
O amor quando apascenta a dura fera
Que habita dentro em mim e me aprisiona
O sonho retornando então à tona
Ao mesmo tempo invade e me tempera,
Resgato cada passo aonde a espera
De um tempo mais feliz não abandona
Quem tanto poderia e já se adona
Do tempo em que viver traz primavera.
O quanto do passado ainda vivo
E sei dos dias mansos, e cativo
Do amor que me tomando dita o rumo,
Transcendo ao quanto pude num momento
E sei que neste encanto ali fomento
E após a tempestade enfim me aprumo.
34071
Olhos procurando algum alento
Após a tempestade em solidão,
Alçando novo rumo e embarcação
Em paz completamente me apresento
E sei quanto dorido o pensamento
Traçado numa ausência e desde então
Voltando ao que pudesse tentação
Tentando algum caminho noutro vento.
Mas quando me encontrei em luz diversa
A sorte se mostrando agora versa
E traz um lenitivo em novo amor,
Assim neste horizonte mais feliz
O tempo do futuro já me diz
E nele vejo o passo recompor.
34072
Pudesse novamente esta menina
Que o tempo emoldurara em pensamento
Traçar com alegria o suprimento
Aonde toda a sorte se fascina,
Quem sabe noutra história a cristalina
Manhã já se permita e em novo alento
Matando a sombra amarga em sofrimento
E assim o novo passo determina
O dia que virá em luz mais clara
No quanto cada amor já se prepara
E ancora após a farta tempestade
Bebendo deste encanto sem igual,
Vagando pelos sonhos, bela nau;
Meu porto neste instante o sonho invade...
34073
O encanto desta faca e do punhal
Olhando em prata brilhos de outros dias
A musa se mostrando qual querias
Num dia sempre intenso e desigual,
Vagando por imenso matagal
Imerso nas diversas fantasias
Tecendo novos sonhos, heresias
E o tempo se tramando em ritual
Vencendo a tempestade costumeira
Galgando a noite clara aonde esgueira
A lua por detrás do monte e nua
Espalha pela terra esta argentina
Beleza que deveras nos domina
E como deusa e diva além flutua...
34074
Não poderia além de um manso dia
Aonde toda a sorte já pudesse
Traçar além do medo uma benesse
E nela nova luz nos tomaria,
O quanto desta vida é vã, sombria
E o quanto deste encanto se oferece
A quem deseja e mesmo se obedece
À fonte que deveres me inebria
Nos sonhos e delírios mais constantes
E nele com teus raios agigantes
O tempo de viver e de cantar
Marcando com unções caminhos belos
Gerando a imensidão destes castelos
E neles cada dia a divagar...
34075
O temporal afunda barco e sonho
E assim ao me mostrar cada naufrágio
O mundo noutra face cobrando o ágio
Maior que se pudera, vão medonho
Além do quanto posso e até desejo
O tempo não permite outro cenário
E o quanto poderia imaginário
Resulta nesta ausência de azulejo
No céu em que mergulho o meu olhar
Sem ter sequer um brilho no horizonte
E toda a sensação que desaponte
Tornando inacessível qualquer mar
A quem se poderia ou mesmo quis
Um dia pelo menos ser feliz...
34076
Na face caricata a ditadura
Dos sonhos dominando cada passo,
E tanto quanto eu posso ainda traço
Caminho aonde eu beba uma ternura,
Mas quando a solidão já se perdura
Ocupa a cada dia mais espaço
Assim ao encontrar diverso traço
A sombra do passado não me cura.
Esqueço qualquer canto em desalento
E quando na verdade ainda tento
Sincero caminhar em noite escusa,
A sorte se desnuda inteira e bela
Aonde cada verso se revela
Deixando a minha estada mais confusa.
34077
Renovo a cada dia esta esperança
Renasço em todo verso aonde eu traço
O mundo que imagino passo a passo
E quanto mais procuro a morte avança
Gananciosa face em fúria e lança
Gerando a cada dia o descompasso
E tento até vencer, mas me desfaço
Deixando para trás a temperança…
E quanto mais audaz maior a queda
O passo a cada ausência o tempo veda
Deixando em desalento verso e sonho,
Distante do que busco e mesmo quero
O gesto se mostrando amargo e fero
Reduz a mero pó se inda proponho.
34078
A noite transcorrendo em voz macia
A moça em gafieira samba e bole
Olhar tão desejoso logo engole
E bebe o que pudesse fantasia,
Gentis outros caminhos da alegria
Sem ter qualquer carinho que console
Apenas solidão ainda assole
Deixando para trás a luz do dia,
E a moça tem veneno nos quadris
O corpo na verdade tudo diz
E nada que se deixe por falar,
A dança requebrando a noite inteira
Assim uma alma invade a gafieira
Sem ter piston que a bote num lugar.
34079
Seguindo cada passo em noite escura
De quem me possuíra por inteiro
E quando vejo ali neste cinzeiro
A sorte que deveras me tortura
Eu bebo da alegria em fonte pura
E tento reverter o costumeiro
Caminho que se julga o derradeiro
E tantas vezes nega uma ternura.
Seguindo noite adentro em sonhos vários
Os olhos noutros olhos temerários
Bebendo cada gota do veneno
Do qual destilas sonhos e me entranhas
Sorvendo cada gole destas sanhas
Ao menos neste instante me sereno...
34080
O quanto o meu amor me seduzira
Nos olhos e na fúria de um momento
Bebendo deste encanto me alimento
Mantendo sempre acesa a velha pira,
O olhar quando no olhar com calma mira
E beija sem temor o imenso vento
A mansidão domina o pensamento
E tento sem sentido o que delira.
E resolutamente sigo em frente
Sem ter sequer o medo que atormente
Nem mesmo a tempestade e o vendaval,
Ao meu amor entrego verso e sonho,
Assim em cada alento me reponho
Num belo e mais sobejo ritual...
34081
Alcanço minha luz
No vento em temporal
E quando divinal
Caminho reproduz
Meu canto em contraluz
Inverte o ritual
E bebe deste sal
Ao qual se tanto opus
Agora me entranhando
E tanto me mudando
Deixando para trás
O verso mais altivo
Aonde não cultivo
Sequer rastro de paz.
34082
É fato consumado
O jeito de sonhar
Com quem possa tocar
Além do meu passado
O dia renovado
Ou mesmo procurar
Aonde desvendar
Mistérios deste enfado.
Pecado original
Delírio em gozo e sal
Caminho ao Paraíso,
Nas ânsias mais gostosas
Enquanto amada gozas
Meu passo é mais preciso.
34083
Meu canto num verso
Se possa fazer
Além do querer
Se nele eu disperso
O mundo em que verso
Além do prazer
O quanto saber
Fatal universo,
Gerado por quem
Enquanto retém
Não deixa sinal,
Assim ao tramar
O rumo em luar
O sei triunfal.
34084
Não deixo que tanto
Espalhe-se ao vento
E se sigo atento
No quanto me encanto
Falando, portanto
Ao discernimento
Aonde me alento
Ou mesmo me espanto,
Recém conseguido
O sonho em libido
Permite a promessa
De um novo delírio
Matando o martírio
E a vida começa.
34085
Opaco caminho
Em noite sombria
Marcando o meu dia
No qual não me aninho
Se tanto sozinho
Pudesse alegria
Ou mesmo traria
Um farto carinho,
Mas sem esta messe
O quanto se tece
Não deixa mais nada,
Assim minha sorte
Ainda comporte
Vital madrugada...
34086
Legado que trago
Do quanto sofri
E sem frenesi
Ainda em afago
O mundo que alago
Levando até ti
Se ainda perdi
O quanto foi mago
Delírio em falseta
Ao nada prometa,
Mas sempre magoa,
Assim a minha alma
Bebendo da calma
Vai vagando à toa...
34087
Meu verso em memória
Do quanto quisera
Livrada a quimera
Mudar esta história
E nada da glória
A sorte tempera
O quanto se espera
Não gere vanglória
Resulto do quando
E tanto mudando
Não pude me achar,
Sem lua o horizonte
Ainda me aponte
Ao rastro lunar.
34088
O peso da vida
Porquanto recebe
Amar dita a sebe
Há tanto perdida,
Não tendo saída
O quanto percebe
Do sonho que bebe
Traduz despedida,
A voz de quem canta
O sonho se espanta
E a morte atrapalha,
Mas quando fiel
Rondando o meu céu
Punhal e navalha.
34089
A vida é cigana
Não tendo paragem
O sonho miragem
Que tanto me engana
Na voz mais profana
Do tempo em viagem
A velha estalagem
Natureza humana
Entoa o passado
E tenta o negado
Qual fosse vitória
Depois nada tendo
Assim me desvendo
No meio da escória.
34090
Aceso o cigarro
O medo me entranha
E quando esta sanha
Nas ânsias agarro,
Aprendo e me esbarro
No todo que estranha
Além da montanha
O pote é de barro,
Assim vandalismo
No quanto não cismo
Produz o veneno,
E quando te vejo
Bebendo o desejo
Também me sereno...
34091
Servindo de amém
A paz que redime
Deixando este crime
A quem em desdém,
Procure ou já tem
O tempo quer estime
E neste se anime
Em busca de alguém,
Vazia esta noite
E quanto me acoite
Nas colchas lençóis
O amor se prepara
Tramando esta cara
Expondo-me aos sóis.
34092
Vencida esta parte
Do tempo em tal rogo
O quanto me afogo
A vida reparte
E morro em descarte
Ou movo outro jogo
E quando sei logo
Do templo sem arte
Vasculho no bolso
Procuro este embolso
Das almas em brasa,
Assim assemelho
Ao quanto no espelho
A morte se embasa
34093
Chafurdo o meu mundo
E tento respostas
E quando depostas
As dores inundo
Revivo um segundo
Retalho estas postas
E tramo em expostas
Feridas, profundo
Caminho que possa
Trazer sempre à nossa
Aquilo que um dia
Somente pensara
Ser corte ou escara
E assim não seria.
34094
Aponta-se a lança
E corta e profana
A morte me engana
Tramando esperança
Mas quando se alcança
A luz soberana
De novo se dana
E rompe a aliança,
Na paz, no fuzil,
O quanto se viu
Jamais traduzira
A falta de apoio
Nascente ou arroio,
Perfeita esta mira.
34095
Um gesto em pecado
O beijo guloso
Assim cada gozo
Trazendo o recado
A quem noutro fado
Sabia gostoso
Caminho andrajoso
Por onde negado
O tempo ruído
O corte o sentido
A morte outra sanha,
Mas quando me dás
O templo da paz,
A vida me entranha.
34096
Sem nada a perder
Sem rumo ou caminho
Se ainda sozinho
Conheço o poder
Do amor posso ver
Na falta de ninho
O vento daninho
Deste bem querer.
Resumo da história
Longínqua memória
Volvendo no instante
Em que poderia
Trazer novo dia
Ou mesmo o adiante.
34097
Sem nada nas mãos
Além do meu sonho,
O verso componho
Cevando tais grãos
Que sei serem vãos
Aspecto medonho
Ou quando risonho
Esboçam tais nãos,
Escarpas eu subo,
Amores ao cubo
O vândalo riso,
De quem se fizera
Além desta fera
Vital paraíso.
34098
Partindo do nada
Ao quanto alcançasse
O mundo sem face
Ou vaga roubada
Da noite danada
Do dia em impasse,
A morte se engrace
Ou trace alvorada,
Não posso é ficar
Aqui no lugar
Parado no tempo,
Vencido por quem
Apenas contém
Venal contratempo.
34099
Cercado de sonho
O peso da vida
No tanto em partida
O quanto proponho
Vagando em medonho
Caminho que acida
Ainda em saída
Além não me oponho
E beijo a mortalha
Que o tempo amealha
E espalha nos céus,
Vagando sem nexo
Ausente reflexo,
Cadê fogaréus?
34100
Se tanto ou tão pouco
O grito pudesse
Trazer nova prece
Mas sei quanto rouco
O passo de um louco
Buscando a benesse,
Porém só padece
E assim me treslouco
Rondando o final
A festa sombria
Aonde podia
E nada do igual
Caminho servido
Em torpe sentido.
Descendo pelos rios da esperança
Vagando por espaços e calvários
Os dias entre tantos temerários
A sorte mais distante não alcança
A margem deste quando já se lança
Além de outros caminhos, sei que vários
Os passos entre cais imaginários
E o medo com a vida em aliança
Adentra cada bar, cidade e vila
A morte noutra face não vacila
E galga em luz sombria o que eu desejo,
Caminho sobre as luzes do passado
Tentando desvendar o velho fado
E apenas o vazio ainda vejo...
34052
As noites são iguais para quem sonha
Vagar em tempestades com a paz
Nos olhos quando a vida já desfaz
Deixando no lugar a voz medonha
Do tempo quando ao nada nos proponha
E molde cada rito em luz mordaz
Deixando para trás e assim desfaz
O quanto poderia e não componha.
Resisto aos meus anseios, mas não possa
Uma alma superar o trauma e a fossa
Aonde sem caminhos segue em vão,
Meu mundo desabando aonde apenas
Queria noites claras e serenas
O tempo noutro fio e direção.
34053
Cantarei a esperança se puder
A velha companhia dos meus dias
Em meio às tempestades mais sombrias
E tudo o que talvez inda vier,
Rondando a minha sorte sem qualquer
Alento aonde ainda poderias
Traçar com mais ternuras melodias
E nelas o que o sonho bem mais quer,
Cumprindo o meu destino em treva e sombra
A morte quando muito não assombra
Seduz e me tratando em dor sem tréguas
Distante de algum porto, milhas, léguas
Resisto o quanto posso, mas apenas
Com dores e mortalhas tu me acenas.
34054
Eu busco a claridade aonde há tanto
Jamais se poderia imaginar
Além deste vazio sem chegar
Ao quanto poderia e ledo espanto,
Mergulho no vazio e desencanto
E tanto poderia navegar
Vencendo as intempéries deste mar
E nele com certeza me agiganto,
Mas sei do inesquecível medo quando
O mundo noutra face se moldando
Apenas traz o medo e me amortalha,
Resisto o quanto posso, mas bem sei
O quanto a tempestade dita a lei
Adentra o corte fundo da navalha.
34055
De sangue e de ilusões meu passo é feito
E tenta noutra face ver ainda
Manhã que inda pudesse ser mais linda
Ausência de ternura quando deito
E bebo sem saber de algum proveito
O quanto a morte trama e sei que brinda
Nas ânsias do vazio se deslinda
O olhar jamais em paz ou satisfeito,
As tramas desta vida dizem disto,
E quando não me canso e não desisto
Bebendo cada sorte noutro impasse
O risco de sonhar não mais agrada
E a morte se apresenta em alvorada
E impede que este sol o sonho grasse...
34056
Meu pranto se mostrando a cada instante
E nele não permito outro caminho
Aonde se mostrara mais sozinho
O fardo que deveras se adiante
E mude a cada fato ou mais constante
Delírio em que esta vida trame o vinho
Inebriadamente outro carinho
Dispersa em desalento o que me agigante.
A vida reclamando este abandono
E o quanto do meu mundo não me adono
Deixando para trás tesouro e sonho,
Demoro-me nas sendas da esperança
E sei que tanto medo à dor se lança
E assim apenas nada recomponho.
34057
Quem dera ouvisse a voz de quem se fez
Além de tempestade ou ventania,
O medo noutro tanto desafia
O quanto poderia sensatez,
Meu passo transcorrendo em palidez
O corte na garganta não adia
A morte noutra face moldaria
Palavra que não pensas ou não crês.
Restando dentro em mim ledo vazio
Que a cada novo tempo desafio
Lutando inutilmente contra a sorte,
A boca se afastando, o beijo ausente
E nada deste mundo se apresente
Enquanto um novo sonho não conforte.
34058
Ainda se pudesse em harmonia
Galgar um doce tempo em paz, mas quando
Eu vejo o mundo inteiro desabando
A faca noutro gume mostraria
A sorte destroçando cada dia,
O vento em tempestade demonstrando
O canto que sonhara se acabando
Ausente dos meus passos melodia.
A porta não se abrindo e atrás de mim
A dor adentra firme e sei que assim
A morte se consome num momento,
Pudesse acreditar e ainda tento,
Mas quando vejo a fome de esperança
A voz noutro vazio já se lança.
34059
Ao menos poderia uma canção
Trazer o mar imenso para mim,
E quando mergulhando em luz sem fim
O passo se perdendo em multidão,
E agora dentro da alma a solidão
Mudando cada passo, traz enfim
A angústia recostando e sei que vim
Buscar além da intensa dimensão
Resgates destes sonhos de um passado
Há tanto adormecido e abandonado
Jogado sobre as ondas mar afora,
As conchas e as estrelas e os poemas
Além do que deveras queiras, temas,
A morte ao mesmo instante me devora.
34060
Uma alma se perdendo em noite e treva
Galgando a movediça areia aonde
A lua se afastando já se esconde
E apenas a saudade ainda neva,
Adormecido sonho nega a ceva
A vida que procuro não responde
E a morte quanto tanto ainda sonde
Além de qualquer brilho já me leva.
Perdida caminhada em noite vã
O medo se mostrara noutro afã
E tudo se perdera em vaga sombra,
O espectro do que fomos se aproxima
E assim se molda em frio o vário clima
Fantasmas do que somos inda assombra...
34061
Ao tanto que pudesse em voz macia
Falar à minha gente em verso e sol,
Apenas a esperança este farol
Ainda em noite imensa assim me guia,
As mãos entrelaçadas, novo dia
O tempo se mostrara agora em prol
Um sonho de inconstante girassol
E nele toda a voz não mais diria
Da dor que em agonia nos consome,
A face decomposta em bala e fome
O corpo se estendendo em cada rua
Cidades e favelas, vilas, medos,
Assim ao se mostrarem tais enredos
Apenas a mortalha se cultua...
34062
Resgato tempos idos nos meus versos
E tento desvendar velhos segredos
E quando noutros tantos vis degredos
Os olhos sem caminho vão imersos,
Os passos do futuro estão dispersos
E sei quantos desejos mortos ledos,
E neles não concedo meus enredos
Arcando com terríveis universos.
Renasço a cada farpa faca e adaga
O quanto do passado ainda vaga
Tomando um gole em cada botequim
Desta alma aberta em fúria que se atesta
Gerada pelas ânsias da tempesta
Mostrando o que inda existe vivo em mim.
34063
Aonde poderia em verso e paz
Falar do que pudesse uma esperança
A voz desta emoção quando me alcança
Momento soberano já me traz,
O passo mais difícil e sei audaz
Gestado pela ausente temperança
Matando esta ilusão velha criança
E tanto quanto posso se desfaz
Nas noites mais sombrias verso e luz
O vento que deveras me conduz
Rescende aos temporais onde vivi
A fonte inesgotável diz do sonho
E quando outro soneto assim componho
Um pouco do que é morto renasci.
34064
Acreditar ainda nesta vida
E ter nos olhos brilhos e esperança
Enquanto a faca a fome a fúria nos alcança
E a sorte se prepara em despedida,
O vento na manhã, pois ressurgida
Expressa a variedade e assim se lança
Na conta mais expressa da lembrança
Vivendo a calmaria sem que agrida,
Renasço nos meus versos mais felizes
E miro cada passo em cicatrizes
Deixados como um rastro em sangue e pus,
Mergulho nos meus ermos e me vejo
Aquém do que talvez dite o desejo
E neste caminhar ao fim me opus.
34065
À vida que me faz o ser poeta
E tento distinguir caminhos onde
O medo na verdade não se esconde
E a voz noutro cenário se completa.
A morte produzida em fina seta
E nela cada estrela dita o fronde
Do tempo que deveras se arredonde
Gananciosamente a dor depleta.
Mas tento contornar com algum riso
E vejo quando mesmo em prejuízo
Montanhas e planícies da ilusão
E nesta tempestade em voz e sonho
O canto a cada ausência me proponho
Tentando reviver embora em vão.
34066
Graças a quem tanto poderia
Traçar em tempestade e temporal
O fardo do viver em desigual
Caminho que fomenta a ventania,
Ou mesmo quando a fonte já se adia
E renovando um passo no degrau
Por onde produzisse atemporal
Delírio feito em paz ou agonia.
Agraciando o passo com teu brilho
O sonho noutros ritos eu polvilho
E tento controlar o meu destino,
Mas sei quanto é difícil ver a senda
Que tanto mais conceba e já me atenda
Se nem o meu sonhar inda domino...
34067
Caminhos deslumbrantes mar afora
E o vento de quem tanto desejara
A noite mais suave mansa e clara
Na morte em suicídio se decora,
A fonte iridescente desde agora
Encontra esta ternura bela e rara
No verso que deveras desampara
Ao mesmo tempo a luz assim aflora,
A solidão decerto é companheira
De quem em poesia já se inteira
Bebendo deste sonho inebriante
Vagando sem destino pela vida
Procurando encontrar uma saída
Aonde cada passo se adiante.
34068
O medo não pudera ser assim
O mote mais comum aonde eu tento
Vencer este caminho violento
Da dura persistência que há em mim,
Eu tento disfarçar este jardim
E nele com ternura ainda alento
O fardo tão temível, sofrimento
Bebendo da esperança até o fim.
Irmãos que a vida traz em face mansa
Aonde cada luz esta amizade lança
Aproximando o passo rumo ao quando.
E sei que compartilho do caminho
Sentindo cada braço como um ninho
E neste aconchego me moldando...
34069
Ao passo em que pudesse a liberdade
Alçar além dos anos fatos sonhos
Eu vejo os dias claros ou bisonhos
Na luz que me transporte e já me invade,
O cardo se moldando em realidade
Voltando aos meus momentos mais risonhos
E neles entre fardos mais tristonhos
Romper desta ilusão a imensa grade.
Enreda-me este brilho aonde a teia
Dos sonhos com certeza me incendeia
Deixando para trás dor e tormenta,
A vida se mostrando em cor diversa
Porquanto sobre o encanto já se versa
E assim a cada passo me alimenta.
34070
O amor quando apascenta a dura fera
Que habita dentro em mim e me aprisiona
O sonho retornando então à tona
Ao mesmo tempo invade e me tempera,
Resgato cada passo aonde a espera
De um tempo mais feliz não abandona
Quem tanto poderia e já se adona
Do tempo em que viver traz primavera.
O quanto do passado ainda vivo
E sei dos dias mansos, e cativo
Do amor que me tomando dita o rumo,
Transcendo ao quanto pude num momento
E sei que neste encanto ali fomento
E após a tempestade enfim me aprumo.
34071
Olhos procurando algum alento
Após a tempestade em solidão,
Alçando novo rumo e embarcação
Em paz completamente me apresento
E sei quanto dorido o pensamento
Traçado numa ausência e desde então
Voltando ao que pudesse tentação
Tentando algum caminho noutro vento.
Mas quando me encontrei em luz diversa
A sorte se mostrando agora versa
E traz um lenitivo em novo amor,
Assim neste horizonte mais feliz
O tempo do futuro já me diz
E nele vejo o passo recompor.
34072
Pudesse novamente esta menina
Que o tempo emoldurara em pensamento
Traçar com alegria o suprimento
Aonde toda a sorte se fascina,
Quem sabe noutra história a cristalina
Manhã já se permita e em novo alento
Matando a sombra amarga em sofrimento
E assim o novo passo determina
O dia que virá em luz mais clara
No quanto cada amor já se prepara
E ancora após a farta tempestade
Bebendo deste encanto sem igual,
Vagando pelos sonhos, bela nau;
Meu porto neste instante o sonho invade...
34073
O encanto desta faca e do punhal
Olhando em prata brilhos de outros dias
A musa se mostrando qual querias
Num dia sempre intenso e desigual,
Vagando por imenso matagal
Imerso nas diversas fantasias
Tecendo novos sonhos, heresias
E o tempo se tramando em ritual
Vencendo a tempestade costumeira
Galgando a noite clara aonde esgueira
A lua por detrás do monte e nua
Espalha pela terra esta argentina
Beleza que deveras nos domina
E como deusa e diva além flutua...
34074
Não poderia além de um manso dia
Aonde toda a sorte já pudesse
Traçar além do medo uma benesse
E nela nova luz nos tomaria,
O quanto desta vida é vã, sombria
E o quanto deste encanto se oferece
A quem deseja e mesmo se obedece
À fonte que deveres me inebria
Nos sonhos e delírios mais constantes
E nele com teus raios agigantes
O tempo de viver e de cantar
Marcando com unções caminhos belos
Gerando a imensidão destes castelos
E neles cada dia a divagar...
34075
O temporal afunda barco e sonho
E assim ao me mostrar cada naufrágio
O mundo noutra face cobrando o ágio
Maior que se pudera, vão medonho
Além do quanto posso e até desejo
O tempo não permite outro cenário
E o quanto poderia imaginário
Resulta nesta ausência de azulejo
No céu em que mergulho o meu olhar
Sem ter sequer um brilho no horizonte
E toda a sensação que desaponte
Tornando inacessível qualquer mar
A quem se poderia ou mesmo quis
Um dia pelo menos ser feliz...
34076
Na face caricata a ditadura
Dos sonhos dominando cada passo,
E tanto quanto eu posso ainda traço
Caminho aonde eu beba uma ternura,
Mas quando a solidão já se perdura
Ocupa a cada dia mais espaço
Assim ao encontrar diverso traço
A sombra do passado não me cura.
Esqueço qualquer canto em desalento
E quando na verdade ainda tento
Sincero caminhar em noite escusa,
A sorte se desnuda inteira e bela
Aonde cada verso se revela
Deixando a minha estada mais confusa.
34077
Renovo a cada dia esta esperança
Renasço em todo verso aonde eu traço
O mundo que imagino passo a passo
E quanto mais procuro a morte avança
Gananciosa face em fúria e lança
Gerando a cada dia o descompasso
E tento até vencer, mas me desfaço
Deixando para trás a temperança…
E quanto mais audaz maior a queda
O passo a cada ausência o tempo veda
Deixando em desalento verso e sonho,
Distante do que busco e mesmo quero
O gesto se mostrando amargo e fero
Reduz a mero pó se inda proponho.
34078
A noite transcorrendo em voz macia
A moça em gafieira samba e bole
Olhar tão desejoso logo engole
E bebe o que pudesse fantasia,
Gentis outros caminhos da alegria
Sem ter qualquer carinho que console
Apenas solidão ainda assole
Deixando para trás a luz do dia,
E a moça tem veneno nos quadris
O corpo na verdade tudo diz
E nada que se deixe por falar,
A dança requebrando a noite inteira
Assim uma alma invade a gafieira
Sem ter piston que a bote num lugar.
34079
Seguindo cada passo em noite escura
De quem me possuíra por inteiro
E quando vejo ali neste cinzeiro
A sorte que deveras me tortura
Eu bebo da alegria em fonte pura
E tento reverter o costumeiro
Caminho que se julga o derradeiro
E tantas vezes nega uma ternura.
Seguindo noite adentro em sonhos vários
Os olhos noutros olhos temerários
Bebendo cada gota do veneno
Do qual destilas sonhos e me entranhas
Sorvendo cada gole destas sanhas
Ao menos neste instante me sereno...
34080
O quanto o meu amor me seduzira
Nos olhos e na fúria de um momento
Bebendo deste encanto me alimento
Mantendo sempre acesa a velha pira,
O olhar quando no olhar com calma mira
E beija sem temor o imenso vento
A mansidão domina o pensamento
E tento sem sentido o que delira.
E resolutamente sigo em frente
Sem ter sequer o medo que atormente
Nem mesmo a tempestade e o vendaval,
Ao meu amor entrego verso e sonho,
Assim em cada alento me reponho
Num belo e mais sobejo ritual...
34081
Alcanço minha luz
No vento em temporal
E quando divinal
Caminho reproduz
Meu canto em contraluz
Inverte o ritual
E bebe deste sal
Ao qual se tanto opus
Agora me entranhando
E tanto me mudando
Deixando para trás
O verso mais altivo
Aonde não cultivo
Sequer rastro de paz.
34082
É fato consumado
O jeito de sonhar
Com quem possa tocar
Além do meu passado
O dia renovado
Ou mesmo procurar
Aonde desvendar
Mistérios deste enfado.
Pecado original
Delírio em gozo e sal
Caminho ao Paraíso,
Nas ânsias mais gostosas
Enquanto amada gozas
Meu passo é mais preciso.
34083
Meu canto num verso
Se possa fazer
Além do querer
Se nele eu disperso
O mundo em que verso
Além do prazer
O quanto saber
Fatal universo,
Gerado por quem
Enquanto retém
Não deixa sinal,
Assim ao tramar
O rumo em luar
O sei triunfal.
34084
Não deixo que tanto
Espalhe-se ao vento
E se sigo atento
No quanto me encanto
Falando, portanto
Ao discernimento
Aonde me alento
Ou mesmo me espanto,
Recém conseguido
O sonho em libido
Permite a promessa
De um novo delírio
Matando o martírio
E a vida começa.
34085
Opaco caminho
Em noite sombria
Marcando o meu dia
No qual não me aninho
Se tanto sozinho
Pudesse alegria
Ou mesmo traria
Um farto carinho,
Mas sem esta messe
O quanto se tece
Não deixa mais nada,
Assim minha sorte
Ainda comporte
Vital madrugada...
34086
Legado que trago
Do quanto sofri
E sem frenesi
Ainda em afago
O mundo que alago
Levando até ti
Se ainda perdi
O quanto foi mago
Delírio em falseta
Ao nada prometa,
Mas sempre magoa,
Assim a minha alma
Bebendo da calma
Vai vagando à toa...
34087
Meu verso em memória
Do quanto quisera
Livrada a quimera
Mudar esta história
E nada da glória
A sorte tempera
O quanto se espera
Não gere vanglória
Resulto do quando
E tanto mudando
Não pude me achar,
Sem lua o horizonte
Ainda me aponte
Ao rastro lunar.
34088
O peso da vida
Porquanto recebe
Amar dita a sebe
Há tanto perdida,
Não tendo saída
O quanto percebe
Do sonho que bebe
Traduz despedida,
A voz de quem canta
O sonho se espanta
E a morte atrapalha,
Mas quando fiel
Rondando o meu céu
Punhal e navalha.
34089
A vida é cigana
Não tendo paragem
O sonho miragem
Que tanto me engana
Na voz mais profana
Do tempo em viagem
A velha estalagem
Natureza humana
Entoa o passado
E tenta o negado
Qual fosse vitória
Depois nada tendo
Assim me desvendo
No meio da escória.
34090
Aceso o cigarro
O medo me entranha
E quando esta sanha
Nas ânsias agarro,
Aprendo e me esbarro
No todo que estranha
Além da montanha
O pote é de barro,
Assim vandalismo
No quanto não cismo
Produz o veneno,
E quando te vejo
Bebendo o desejo
Também me sereno...
34091
Servindo de amém
A paz que redime
Deixando este crime
A quem em desdém,
Procure ou já tem
O tempo quer estime
E neste se anime
Em busca de alguém,
Vazia esta noite
E quanto me acoite
Nas colchas lençóis
O amor se prepara
Tramando esta cara
Expondo-me aos sóis.
34092
Vencida esta parte
Do tempo em tal rogo
O quanto me afogo
A vida reparte
E morro em descarte
Ou movo outro jogo
E quando sei logo
Do templo sem arte
Vasculho no bolso
Procuro este embolso
Das almas em brasa,
Assim assemelho
Ao quanto no espelho
A morte se embasa
34093
Chafurdo o meu mundo
E tento respostas
E quando depostas
As dores inundo
Revivo um segundo
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Feridas, profundo
Caminho que possa
Trazer sempre à nossa
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Somente pensara
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E assim não seria.
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Mas quando se alcança
A luz soberana
De novo se dana
E rompe a aliança,
Na paz, no fuzil,
O quanto se viu
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Perfeita esta mira.
34095
Um gesto em pecado
O beijo guloso
Assim cada gozo
Trazendo o recado
A quem noutro fado
Sabia gostoso
Caminho andrajoso
Por onde negado
O tempo ruído
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A morte outra sanha,
Mas quando me dás
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A vida me entranha.
34096
Sem nada a perder
Sem rumo ou caminho
Se ainda sozinho
Conheço o poder
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34097
Sem nada nas mãos
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Aspecto medonho
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Escarpas eu subo,
Amores ao cubo
O vândalo riso,
De quem se fizera
Além desta fera
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34098
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O mundo sem face
Ou vaga roubada
Da noite danada
Do dia em impasse,
A morte se engrace
Ou trace alvorada,
Não posso é ficar
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Parado no tempo,
Vencido por quem
Apenas contém
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34099
Cercado de sonho
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No tanto em partida
O quanto proponho
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E espalha nos céus,
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Cadê fogaréus?
34100
Se tanto ou tão pouco
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Mas sei quanto rouco
O passo de um louco
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