sábado, 19 de dezembro de 2015

Se eu morresse amanhã

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

Álvares de Azevedo.

Morrer enquanto a vida propusesse
um tempo mais feliz, ah quem me dera,
a carne apodrecida agora espera
a libertária e derradeira prece,

enquanto quem me vela se enobrece,
minha alma putrefeita apenas gera
a escória amarga, a rude e pária prece
e a rede terminal, o suicida tece...

natureza desnuda a plenitude
e traça ao mundo a flórea juventude,
em sonho mavioso, encanto etéreo,

e quanto a mim, afasto-me do mundo
e entrego-me ao inverno, e um moribundo
aguarda o seu orgasmo vão, funéreo...

Marcos Loures.

ESPERO QUE ÁLVARES DE AZEVEDO NÃO SE OFENDA COM A MINHA CARA DE PAU.

Nenhum comentário: