domingo, 19 de fevereiro de 2012

HOMENAGEM A ÂNGELO DE LIMA

HOMENAGEM A ÂNGELO DE LIMA

SONETO

Para-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento...

Para surpreso, escrutador, atento,
Como para m cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado...
Para e fica e demora-se um momento.

Para e fica na doida correria...
Para à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria

Um olhar de aço que essa noite explora...
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.


ÂNGELO DE LIMA





1

“E ele galga e prossegue sob a espora”
Dos medos e terrores que amealho
Enquanto se procura por atalho
O medo de viver a sorte escora
E muda a cada passo enquanto tem
A vida em desmedida dor intensa
Sem ter sequer quem tanto me convença
Do gozo prosseguindo muito aquém
Amortecida dor em passo errático
Corcel das esperanças segue ao léu
Aonde poderia ter um céu
O canto não mostrara em senso prático
Senão este vazio que inda trago,
Matando a placidez de um torpe lago.


2

“Mas a espora da dor seu flanco estria”
E gera este temor enquanto sigo
Deveras procurando por abrigo
A noite não seria tanto fria
Não fosse a realidade tão atroz
E quando se percebe mais distante
A sorte noutra face deslumbrante
Calando do meu peito a intensa voz
Não pude ser assim sequer poeta
E tanto quis decerto novo prumo,
Engodos reconheço e logo assumo
A fúria noutra tanta se completa
A melodia morre e não traduz
Sequer um simples facho, opaca luz.


3


“Um olhar de aço que essa noite explora”
Galgando o quanto pude e não existe
Sentindo o meu destino alheio e triste
O quanto percebera e vai embora
Amarro os meus tormentos com o resto
Em gotas mais sutis e nada vejo
Sequer o que pudesse algum lampejo
Aonde se mostrara ora indigesto,
Assisto aos meus momentos mais doídos
E nunca poderia imaginar
Encanto no horizonte sem luar
Os versos noutras sanhas são sentidos
E quando me conduzo ao mesmo não
Da trama nem sentido ou direção.


4


“E mergulha na noite escura e fria”
Esta alma sem destino alheia ao quanto
Ainda em solilóquio, tolo eu canto
Enquanto não percebo a fantasia
Da qual a vida agora não percebe
Sequer qualquer momento mais tranquilo
E quando a dor sem tréguas eu desfilo
Tornando mais cruel a velha sebe
Recebo o mesmo não tão costumeiro
E morro sem saber doutro momento
Senão imenso medo e me atormento
E quando atocaiado não esgueiro
Enfrento esta tocaia em que me deste
O solo que ora cevo, embora agreste.


5


“Para à beira do abismo e se demora”
Enquanto não percebe solução
Assim outros caminhos não trarão
Nem mesmo a poesia e sem demora
A vida se esvaindo neste tanto
Aonde se pudesse acreditar
Nas tramas tão diversas e entranhar
Ao menos qualquer, mas falso o encanto
E dele nada tenho mesmo quando
Pensara noutro rumo sem penhascos,
Quebrando da esperança finos frascos
Fiascos com terror se preparando
E nada do que possa ainda arrisco,
O amor que outrora quis, agora arisco.


6


“Para e fica na doida correria”
Sem rumo ou norte enquanto não se vê
Ainda procurando algum por que
A sorte desta forma desafia
O encanto que talvez inda pudesse
Traçar novo sentido, mas se vejo
O mundo sendo apenas um lampejo
O prêmio se desvia e não o merecesse
Quem busca novamente outro caminho
Embora muitas vezes perfilasse
Além do que se molda neste impasse,
Do fim a todo engano me avizinho
E sinto ser deveras o que resta
A quem se deu em face nunca honesta.

7


“Para e fica e demora-se um momento.”
Ainda pasmo enquanto não mergulho
Sabendo a cada passo um pedregulho
No vago desta dor tanto lamento
E quando sou assim apenas morto
Deveras não consigo outra saída
E sei somente o pranto em despedida
Aonde poderia haver um porto,
Mesquinha luz cevada a cada dia
E nela me remeto sem respostas
Expondo o que decerto não mais gostas
Ainda novo rumo poderia
Quem segue errôneo passo rumo ao nada,
Já tendo a sua sorte desvairada...



8



“Ante um abismo súbito rasgado”
Encontro o meu futuro em ar sombrio
Odiosa realidade desafio
Errôneo caminhar desde um passado
Aonde se fizera em ar medonho
O mundo que se mostra neste instante
Apenas num cenário tão frustrante
Matando o que sobrara de algum sonho
E deste nada ser eu mesmo sinto
O quanto poderia ser diverso
E tento com audácia um universo
Sabendo deste mundo agora extinto
E tanto quis oásis, mas miragem
Percebo na desértica paisagem.

9


“Como para um cavalo alucinado”
Assim eu me encontrava quando vi
A sorte tão diversa viva em ti,
Mudando o que pensara ser legado,
Vivesse qualquer forma de prazer
Apenas bastaria para quem
Entranha no vazio enquanto tem
Somente esta mortalha e sem se ter
Ao menos um momento de alegria
Esgota-se no não, terrivelmente
E quando outro caminho não pressente
Concebe a realidade vã sombria
E nela não colhendo mais as flores
Os grãos que ora cultiva: dissabores...

10



“Para surpreso, escrutador, atento,”
Ao ter esta diversa natureza
Da vida que se trama em incerteza
Deixando tudo ao velho e vário vento,
Aonde poderia haver a brisa
Tempesta se formando em ar sutil,
Decerto outro caminho se previu,
Mas quando a morte vem e não avisa
Medonha face exposta neste espelho
E dela se resulta outra tramoia
Uma alma sem guarida, alheia, boia
E tenta procurar novo conselho,
Mas quando se percebe solitária
A sorte tão somente é temerária...


11

“Ia em busca da paz, do esquecimento”
Que ao menos me alentasse após procelas
E quando outros desníveis, celas, selas
A vida revivendo o sofrimento
Alhures poderia ter a sorte
Que tanto desejara e nunca vira,
O amor quando demais acende a pira
Incendiando tudo e sem suporte
A noite se tornando em duras mágoas
Geridas pelo sonho em que frustrava
Resisto à tal maré, imensa e brava,
Reviso com terror as velhas fráguas
E tento desvendar este segredo,
Jazigo de mim mesmo, enfim eu cedo.

12

“Na doida correria em que levado”
Correra após as tantas tempestades
Sabendo a cada passo velhas grades
Revivo as duras mágoas do passado,
Servindo de alimária a quem se fez
Somente em turva face, este bufão,
O tempo não promete viração
E nesta turva cena a insensatez
Tomando o que pudera ser ameno
Não tendo mais saída, rumo ao fim,
Destroço, tão somente, sigo assim,
E a cada novo não eu me enveneno,
Riscando assim do mapa a fantasia
A morte sem defesa se porfia.

13

“Como que de repente refreado”
Depois de inúteis buscas onde tanto
Pudera ter visão do desencanto
Aonde o meu caminho eu vi guiado
Resisto, mas somente resistir
Não deixa qualquer chance que se veja
A sorte que pensara mais sobeja
Renega alguma luz em meu porvir,
Assim ao percorrer a mesma senda
Aonde tanto quis e não sabia
O mundo desabando em heresia
Sem ter sequer vontade que se atenda
Desvenda este cenário que de horror
Não deixa nem nuance de um amor.



14


“Para-me de repente o pensamento”
E apenas percorrendo a solidão
O tempo gera a mesma negação
E dela se percebe este momento
Assaz cruel aonde se mostrasse
Qualquer cenário torpe, tosco e frio
O tanto que pudesse, já desfio,
Somente encontro ao fim o mesmo impasse
Na face caricata que se vê
Na especular razão, tento uma luz
E quando a mesma imagem reproduz
Sem ter algum motivo, sem por que
Mergulho neste abismo e sigo ao léu,
Vagando por estrelas, meu corcel...


SONETOS DE LOURES

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