terça-feira, 13 de abril de 2010

HOMENAGEM A CRISTÓBAN DE CASTILLEJO

SONETO DE BOSCÁN

Tradução de José Jeronymo Rivera

Se as penas que me dais são verdadeiras,
como mui bem minha alma o compreendia,
por que nunca se acabam, se teria
sem elas pena e morte mais ligeiras?

Mas se por sorte são tão lisonjeiras,
que podem completar minha alegria,
dizei, por que me matam cada dia
com morte dolorosa, em mil maneiras?

Mostrai-me este segredo já, senhora,
e que saiba eu de vós, por quem pereço,
se isto que ora padeço é morte ou vida:

porque sendo-me vós a matadora,
maior glória de pena já não peço
que poder ter em vós minha homicida.


CRISTÓBAN DE CASTILLEJO






1

“que poder ter em vós minha homicida”
Não quero e nem tampouco se permite
Vivendo muito aquém de algum limite
Seguindo sempre rumo à despedida
Do inglório caminhar de quem pensara
A sorte ser diversa do que agora
Aflora-se no medo aonde ancora
O barco se perdendo em vã seara,
Assemelhando sempre ao quanto pude
Vencido por grilhões em outros mares,
E tanto não pudessem meus altares
Deixando para trás a juventude
E vendo-vos decerto pude ver
Retrato do que dita o desprazer.

2

“maior glória de pena já não peço”
Tampouco se faria para quem
Da vida em voz ativa seguem aquém
Sabendo cada vez mais do tropeço
E tanto não se mostra noutra face
O verso se inundando do vazio
Mesquinha a fantasia em que me guio
Gerando a cada tempo novo impasse
Peçonhas tão comuns, e delas fujo
Não pude e nem decerto ainda creio
No quanto se mostrasse em tom alheio
Se o passo já moldasse um ar mais sujo
Medonhas faces ditam o meu medo
Enquanto ao mesmo não, tanto concedo.


3

“porque sendo-me vós a matadora,”
Não pude acreditar em melhor sorte
Sem ter quem na verdade me suporte
A sorte noutro tanto já se fora
Metáforas geradas pela atroz
Necessidade espúria de seguir
E tento sem fortuna algum porvir
Gerando com ternura a minha voz,
Escrevo com carinho, mas sei bem
Do quanto nada serve algum alento
E tanto quanto posso me atormento
Sabendo do vazio que inda vem,
O mundo sem saber de algum por que
Enquanto o corte adentra e ninguém vê.

4


“se isto que ora padeço é morte ou vida:”
Não posso discernir e nem pretendo
O passo se negando ao dividendo
Enquanto mesmo vejo o tanto acida,
Esgarço-me no vago do não ser
E meço com palavras meu caminho
Por vezes no passado ainda aninho
Sabendo do presente em desprazer
Nefanda realidade, mundo atroz
Audazes; outras fases. Nada vejo
O tanto se mostrasse do lampejo
Aonde o meu caminho perde a foz,
A voz já não permite outra saída
A morte se traçando dita a vida.


5


“e que saiba eu de vós, por quem pereço,”
Se nada ainda pude ou poderia
O quanto se demora a fantasia
Não sabe a ventura um endereço
E verso sobre a vossa luz embora
Eu tente mesmo em vão nova certeza
Seguindo contra a imensa correnteza
A morte a cada verso mais aflora
E teimo por saber outro momento
Onde pudesse ver nova esperança,
Porém a vida em fúria não avança
E sempre que me vejo, eu me atormento
Mortalha do que fomos se apresenta
A morte não seria uma tormenta?

6


“Mostrai-me este segredo já, senhora,”
Se eu vejo muito aquém do que procuro
Do tanto que pudesse e sei escuro
O quadro aonde a morte revigora
No vento do passado sigo imerso
E nada pode mesmo trazer luz
Se o verso noutro verso reproduz
Sentido sem o qual nada é diverso
Do pouco que me resta ou restaria
Não vago sobre os mares do presente
E quanto mais o nada se pressente
Ao menos não se vê a alegoria
E tendo o nada além sou muito menos
Do que pensara em dias mais serenos.


7


“com morte dolorosa, em mil maneiras”
Atrozes violentas noites vãs
E delas não se vêm outras manhãs
Persisto muito aquém das lisonjeiras
Facetas onde tanto não espelho
E gero-me do todo que gestasse
Na vida demonstrando nova face
Sentindo o quanto pude me aconselho
E vivo cada passo por viver
Sentindo o desmantelo deste todo
E sobra-me deveras mero lodo
E nele me aprofundo sem saber
Dos charcos onde a vida segue em vão
E deles novos charcos moldarão.


8


“dizei, por que me matam cada dia”
Vontades tão dispersas morte e vida
Enquanto a realidade se duvida
A sorte noutras sendas já se adia
Vencido pelo quanto poderia
E nada se mostrando em despedida
O peso do viver traça a saída
E dela nova sorte se recria
O manto do passado é triste carma
E quando esta verdade não desarma
O medo que tampouco dita norma
Em ter-vos mais distante e mais mordaz
O quanto se mostrasse e já desfaz
Angústia do viver tanto deforma.

9

“que podem completar minha alegria,”
As tramas do que tanto desejara
E nelas a verdade disfarçara
O quanto se mostrasse em rebeldia
O vento do passado não me guia
Tampouco a sorte molda outra seara
O gesto que deveras se mostrara
Traçando a cada traço a poesia
Não vejo mais a luz que nos guiava
E sem saber do quanto pode escrava
Esta alma onde não pude reviver
O quadro ora tecido pela vida
Ao mesmo tampo trama a já perdida
Vontade de talvez viver prazer

10

“Mas se por sorte são tão lisonjeiras,”
Palavras mais sutis que derramais
E nelas se percebem temporais
Aonde não se vêm mais bandeiras
Sentindo o quanto pude e não mais posso
Vencido pela sorte mais cruel
Se ainda se pudesse ter o céu
Diverso do que sei agora vosso,
Não vejo mais por que no verso quando
Se teima por caminhos mais inglórios
Os dias se mostraram merencórios
Num quadro onde percebo mais nefando
O risco de viver dita a ventura
E a sorte mais diversa se procura.


11


” sem elas pena e morte mais ligeiras”
Sabendo do passado em que tivemos
Ainda a navegar dispersos remos
Enquanto se tentassem verdadeiras
As ânsias pelas quais se poderia
Vivenciar o todo que não tenho,
Porquanto ainda creia neste empenho
A sorte se amortalha em agonia.
Espúrio caminheiro em noite vã
Em vossos dias vejo apenas sombra
Aonde a realidade tanto assombra
Não tendo mais sequer uma manhã
À beira deste imenso precipício
Amor já não seria além de um vício.

12

“por que nunca se acabam, se teria”
A sorte traiçoeira de quem tenta
E quanto mais atroz ou violenta
Maior ainda em mim a fantasia
E sendo-vos senhora mais fiel
Não pude acreditar no quanto em vosso
Caminho sem saber se ainda endosso
O rito aonde a vida nega o véu,
E vendo tão distante cada passo,
Esgarço-me decerto em vagos vãos
Lavrando inutilmente torpes grãos
O quanto não se pode mais desfaço
E ponho em minha estrada novo sol,
Sabendo da esperança um girassol.

13


“como mui bem minha alma o compreendia,”
Já não pudesse a senda mais bonita
Aonde uma esperança ainda grita
O quanto se fez frágil galhardia
O peso do viver vergando quem
Pudesse caminhar com liberdade
Portanto quanto a vida me degrade
Eu sinto que decerto não convém
Ao velho timoneiro um novo porto
A morte se apresenta como um cais,
E quando novamente destroçais
Meu mundo tanto quanto fora morto
Pereço a cada dia e tento ainda
O quanto na verdade não deslinda...

14


“Se as penas que me dais são verdadeiras,”
Masmorras, cadafalsos, tais prisões
Aonde a cada tempo diz versões
Diversas das dos sonhos mensageiras
Amortalhando enfim a cada verso
O tanto mergulhado em vário abismo
E mesmo quando ainda em vão eu cismo
O mundo se transcorre em tom perverso,
Exímia navegante a morte doma
O porto aonde eu vi ancoradouro
Percebo quanto mais tento e me douro
Dispersa do que eu quis; a velha soma,
Ditames de uma vida sem juízo
A cada engodo um novo prejuízo.

Nenhum comentário: